esquina

Falso testemunho

Lula e o fiofó do Ministério Público

Armando Antenore
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

A deputada governista Jandira Feghali ligou a câmera do celular e, em voz baixa, quase sussurrando, endereçou uma mensagem para os 409 mil internautas que a seguem no Facebook: apesar dos pesares, Luiz Inácio Lula da Silva continuava imbuído de “muita coragem” e mantinha intacta “a capacidade de guerrear”. Eram aproximadamente 13 horas do último dia 4 de março, uma sexta-feira. Figura-chave do PCdoB, a parlamentar se encontrava no Diretório Nacional do PT, em São Paulo, e gravou o vídeo de 27 segundos sem quaisquer preocupações formais. A política sobrepujava a estética. Em vez de ocupar o centro da tela, como recomendam as cartilhas do marketing eleitoral, Feghali estava mais à direita, a imagem sacolejava e um inoportuno foco de luz explodia acima da cabeça dela, lembrando uma auréola.

Pouco antes, Lula prestara o já célebre depoimento coercitivo à Operação Lava Jato enquanto a deputada iniciava uma reunião partidária na cidade. Tão logo lhe avisaram que a Polícia Federal fisgara o ex-presidente, Feghali rumou para o Aeroporto de Congonhas, onde o testemunho compulsório se desenrolava. Queria acompanhar o episódio de perto e denunciar os excessos contra “o maior líder popular do Brasil”. Desde as 8 horas, postava nas redes sociais vídeos curtos e indignados sobre o assunto.

O das 13 horas trazia o próprio Lula em segundo plano, bem recuado. O petista conversava com a presidente Dilma Rousseff pelo telefone. Embora se tratasse de um momento grave, uma nesga de humor involuntário inundou a cena. Justo quando, diante da câmera, a parlamentar afirmava que Lula enfrentara bravamente o depoimento e se mostrava tranquilo, o político soltava o verbo lá atrás. O áudio ruim possibilitava que os espectadores compreendessem com nitidez somente trechos do desabafo: “Eles que enfiem no cu… Dilma… tranqueira que ganhei…” Certamente, Lula mandara enfiar algo no fiofó alheio. Mas o quê? E de quem?

 

Na manhã seguinte, Iuri Dantas – editor-chefe do portal Jota – recebeu o vídeo pelo WhatsApp. Um advogado, informante costumeiro do site especializado em temas jurídicos, lhe encaminhara. “Assisti à declaração de Jandira Feghali e notei apenas que, no fundo do quadro, Lula falava um palavrão”, recorda Dantas. O petista usar termos chulos não é propriamente uma novidade. Por isso, o editor resolveu telefonar para o advogado: “O que há de importante no vídeo?” Soube então que, desde cedo, delegados e procuradores disseminavam a cena via aplicativo com um alerta: durante a conversa telefônica, Lula estaria tripudiando sobre a Lava Jato. “Eles que enfiem no cu todo o processo”, teria vociferado o ex-presidente. Em Brasília, onde mora, Dantas reviu a imagem mais de dez vezes e solicitou que a equipe do portal também a conferisse. “Ficamos realmente com a impressão de que Lula dizia ‘todo o processo’, apesar do som precário”, conta o editor. Ele mesmo se encarregou de redigir e publicar a notícia do impropério, tomando o cuidado de empregar um tom sóbrio.

Jota, que entrou no ar em setembro de 2014, dispõe de doze jornalistas e atrai mensalmente 1,2 milhão de visitantes únicos. Não apenas cobre o Judiciário como produz relatórios para clientes que se interessam por questões tributárias. Foi provavelmente o primeiro site noticioso a dar notoriedade à história, que até aquele instante tinha alcance restrito. Outros surfaram na onda: o Coluna Esplanada, o blog de oposição O Antagonista, os portais da Folha, do Estadão, do Globo, do Zero Hora, da Época… Em pouquíssimo tempo, o caso virou febre na internet e, claro, gerou piadas, debates e protestos.

Quando fez a gravação, a deputada não prestou atenção nas palavras de Lula, como atesta o comentário despropositado sobre a tranquilidade dele. Pega de surpresa pela avalanche que causara, divulgou nota rejeitando a exploração abusiva de um desabafo privado. Também retirou o vídeo de sua página no Facebook.

Passaram-se quatro dias e três promotores de São Paulo – Cassio Conserino, Fernando Henrique Araújo e José Carlos Blat – denunciaram o ex-presidente por ocultação de patrimônio e falsidade ideológica. Alegavam que o petista é o verdadeiro dono de um tríplex no Guarujá registrado como propriedade da construtora OAS. Aproveitaram a denúncia para solicitar a prisão preventiva do político, que estaria desrespeitando “as instituições do Sistema de Justiça” e, portanto, investindo contra a ordem pública. Entre as evidências do desrespeito, os promotores mencionaram a frase grosseira de Lula no vídeo. Ou melhor: a frase que a mídia e o zum-zum-zum digital garantiam ser de Lula.

Com a pulga atrás da orelha, a jornalista Cynara Menezes – responsável pelo blog de esquerda Socialista Morena – procurou dois especialistas em áudio e lhes pediu que analisassem a gravação. Nenhum cravou que o ex-presidente dissera “todo o processo” nem que não dissera. “Foi quando uma fonte me enviou um vídeo que aventava a possibilidade de Lula ter falado ‘todo o acervo’”, relembra Menezes, sem revelar o nome do santo.

Logo depois da conversa telefônica com Dilma, o petista concedeu uma entrevista coletiva em que, exaltado, reclamou “das tranqueiras” recebidas de presente enquanto imperava no Planalto. Durante o mesmo pronunciamento, referiu-se às tranqueiras como “acervo”. Por lei, os ex-presidentes devem cuidar de tal legado. O vídeo que chegou às mãos de Menezes chamava a atenção para uma coincidência significativa: tanto na conversa com Dilma quanto na entrevista posterior, Lula utilizara a palavra “tranqueira”. Havia, assim, um forte indício de que, ao telefone, o petista estivesse tratando do acervo, e não do processo.

No dia 11 de março, um post do Socialista Morena apresentou a hipótese e deu link para o novo vídeo. O site Brasil 247, pró-governo, rapidamente abraçou a tese, que acabou se confirmando em 16 de março, mal o juiz Sergio Moro liberou os grampos das conversas entre Lula e Dilma. Um deles trazia a íntegra do desabafo que Jandira Feghali captara parcialmente: “Eu tô pensando em pegar todo o acervo, eu vou tomar a decisão, e levar, jogar na frente do Ministério Público. Eles que enfiem no cu, que tomem conta disso. Ô, Dilma, é onze contêiner de tranqueira que eu ganhei quando eu tava na Presidência.”

Alguns dos que propagaram a frase errada se retrataram. Outros permaneceram em ruidoso silêncio.

Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #47: Bolsonaro joga diesel na crise, deputada é ameaçada, e STF embarca na censura

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Delação financiada

Pressionada pela Lava Jato, CCR decide pagar 71 milhões de reais para demitir executivos e transformá-los em delatores; acionistas minoritários protestam

A guerra perdida de Toffoli

Embate no Supremo mostra sucessão de equívocos, avalia professor da FGV

Verbas pelo ralo

Empresa contratada com dinheiro de emenda apresentada pelo secretário de Previdência fez depósitos na conta de parente de Marinho; caso explicita descontrole na fiscalização

Foro de Teresina #46: Os 100 dias de governo, o marasmo na economia e a chuva (de tiros) no Rio

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O Caso Hammarskjöld – persistência recompensada

Documentário tem chance de ajudar a esclarecer morte de secretário-geral da ONU

Foi atender o telefone e voltou demitido

Embaixador diz que Apex era “jardim de infância” com diretora despreparada e protegida pelo chanceler

Mourão, o avalista  

Atacado pelos radicais bolsonaristas, o vice-presidente se coloca como garantia contra solavancos do governo

Balança mas não vende

Bolsonaro prioriza relações com Israel, mas Brasil tem déficit com israelenses e superávit com Liga Árabe

Mais textos
1

Delação financiada

Pressionada pela Lava Jato, CCR decide pagar 71 milhões de reais para demitir executivos e transformá-los em delatores; acionistas minoritários protestam

3

Verbas pelo ralo

Empresa contratada com dinheiro de emenda apresentada pelo secretário de Previdência fez depósitos na conta de parente de Marinho; caso explicita descontrole na fiscalização

4

Foi atender o telefone e voltou demitido

Embaixador diz que Apex era “jardim de infância” com diretora despreparada e protegida pelo chanceler

7

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

8

“A vida, a humilhação, a gozação nas ruas”

Uma história da República chega ao fim

9

The BolsozApp Herald

A rede social mais patriótica do Brasil

10

Os manifestantes estão em pânico

O que querem os coletes amarelos?