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Faltou o biguá?

O grande censo das aves
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O fotógrafo João Quental chegou à ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, com o raiar do sol. Usava camiseta, bermuda e um tênis de corrida – uniforme apropriado para a caminhada de 4 quilômetros que faria até o Clube Caiçaras, às margens da lagoa. “Hoje promete”, comentou, apontando para o céu. “Olha a quantidade de fragatas lá em cima. Deve ter umas 100.” Pôs-se a andar.

Era 15 de fevereiro, uma segunda-feira, último dia do Great Backyard Bird Count (algo como “a grande contagem de aves no jardim”). O projeto, criado em 1998 pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, serve como um censo anual do universo aviário. Ao longo de quatro dias, voluntários passam ao menos quinze minutos contabilizando toda ave que lhes cruza o olhar. Os dados, enviados da Índia, da Finlândia, da África do Sul ou de qualquer outro país habitado pela espécie dos ornitólogos, servem para determinar rotas de migração e mapear mudanças climáticas. Dos mais de 160 mil participantes da edição de 2016, apenas 57 eram do Brasil (para efeito de comparação, os Estados Unidos, que têm bem menos espécies de aves, contribuíram com 123 mil observadores).

“O que mais devemos ver é lavadeira-mascarada, um migrante nordestino”, comentou Quental, acelerando o passo entre as poucas pessoas que se aventuravam a caminhar às seis e meia da manhã. “Esse é o melhor horário, porque as aves estão acordando”, explicou, já contando um joão-de-barro, um suiriri, um urubu, uma andorinha e um sabiá-laranjeira. “Tudo em 100 metros. Por isso é que gringo fica doido aqui.”

Embora formado em letras, Quental é um dos maiores especialistas no país em fotografia de aves. Retratou 1 300 das 1 900 espécies já catalogadas no Brasil. “Tenho a vantagem de morar no Rio de Janeiro”, justifica. “Aqui tem mais espécies que na Europa inteira.” Para achar aves raras, já esteve em todos os estados, salvo Rondônia e Amapá. Ao Espírito Santo, foi mais de dez vezes, na esperança de ver uma saíra-apunhalada: “Só deve ter uns vinte indivíduos. Se visse algum, um cardiologista seria solicitado.”

O interesse por aves surgiu há vinte anos, logo depois de se casar. “Passei a viajar muito. Fui com minha mulher ao Chile, à Austrália, às ilhas Fiji, ao Zimbábue”, contou. “Eu já fotografava paisagens, mas comecei a me interessar por fotos de animais.” Num primeiro momento, o novo prazer foi mantido nos limites da normalidade. “Mas aí vem a segunda parte, que é quando você passa a se perguntar que bicho é aquele”, continuou. “Então descobre que existe um catálogo com as espécies locais. E descobre que existe um clube de observadores de aves. Quando vê, não tem mais volta. É mortal.”

Hoje, além de dar aula de literatura numa escola da elite carioca, Quental ministra cursos in loco de fotografia de aves. No começo do ano esteve no monte Roraima, na divisa do Brasil com a Venezuela. Em maio, vai levar cinco alunos ao Equador. Ele diz que fotografia de aves “é sofrida”, pela alta taxa de descarte. “Mais difícil que isso, só foto de criança. Aí é vida selvagem mesmo.”

 

Sempre que possível, Quental caminha de seu apartamento, na altura da Curva do Calombo, em direção ao Clube Caiçaras – dois endereços, na Zona Sul carioca. O passeio é feito em silêncio absoluto, sem música, para que possa ouvir as aves. Em duas décadas de andanças, soube identificar mudanças na fauna local. “O pardal sumiu, por competição ou predação”, exemplificou. “Já a asa-branca, que é uma pomba do Nordeste, se aproveitou do rastro de desmatamento para chegar ao Rio. Como é um bicho resistente, acabou se adaptando.”

“Olha um casal de quero-quero!”, comentou Quental, por volta de 6h45, apontando para duas aves ciscando num gramado. “São velhos conhecidos, estão sempre aqui.” Mais adiante, viu dois sabiás-do-campo. “Isso é uma raridade. Podem ter sido soltos por alguém. De vez em quando aparecem uns bichos muito doidos.”

Na altura de Ipanema, parou diante de uma saída de esgoto, onde havia um joão-nordestino, uma casaca-de-couro e um casal de lavadeiras. “Em geral esgoto é bom para observar”, comentou. “Tem muito inseto, os passarinhos vêm comer.” Acompanhou um macho de lavadeira na tentativa frustrada de cortejar a fêmea: “Olha ele abrindo as penas, fazendo o display.” A fêmea voou, em sinal de desprezo. “Passou a época reprodutiva, né?”, justificou Quental, prosseguindo com o passeio.

Ao chegar ao destino – o Clube Caiçaras –, resolveu se estender por mais alguns metros, para observar uma área de coqueiros. Parou debaixo das árvores e tirou um pequeno binóculo do bolso. “Quer ver?”, perguntou. “Tem duas maracanãs-nobres, se fartando com uns coquinhos. Sabia que valeria a pena vir até aqui.” Feita a contagem, deu meia-volta, tomando o rumo de casa. No caminho, viu um socó-dorminhoco – “É um bicho noturno; está voltando para a cama” – e um suiriri-valente. “É uma ave do hemisfério norte. No verão a galera vem para o Carnaval”, comentou.

Eram 7h40 quando retornou ao ponto de partida. Sentou-se num banco de concreto, abriu um aplicativo no telefone celular e passou a marcar cada espécie vista durante a caminhada. “Teve bico-de-lacre, martim-pescador, rolou até um pica-pauzinho no apagar das luzes”, comentou. Avistara um total de 28 espécies. “Número bom”, refletiu, enquanto digitava as informações técnicas. “Duas milhas, 85 minutos, enviar. Pronto.” Fez uma pausa, tomou um gole d’água e perguntou para si mesmo: “Será que eu botei o biguá?”

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