No âmbito do futebol, uma rivalidade tempestuosa marcava as relações entre dirigentes paulistas e cariocas, desde pelo menos a criação, em 1916, da Confederação Brasileira de Desportos
Ver dados da foto No âmbito do futebol, uma rivalidade tempestuosa marcava as relações entre dirigentes paulistas e cariocas, desde pelo menos a criação, em 1916, da Confederação Brasileira de Desportos IMAGEM: REVISTA DA SEMANA_NOVEMBRO DE 1927_ACERVO DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL_BRASIL

Feitiço e o paulista de Macaé

O dia em que um jogador enfrentou Washington Luís em São Januário
Boris Fausto
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No âmbito do futebol, uma rivalidade tempestuosa marcava as relações entre dirigentes paulistas e cariocas, desde pelo menos a criação, em 1916, da Confederação Brasileira de Desportos IMAGEM: REVISTA DA SEMANA_NOVEMBRO DE 1927_ACERVO DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL_BRASIL

Não era uma pelada qualquer, mas uma partida decisiva entre as seleções paulista e carioca de futebol, na final do 6º Campeonato Brasileiro. A data, 13 de novembro de 1927. O local, o fabuloso estádio de São Januário – o maior da América do Sul –, orgulho do Vasco da Gama e da colônia portuguesa do Rio de Janeiro, inaugurado naquele ano.

Uma multidão calculada em 40 mil pessoas – o Rio tinha por volta de 1,5 milhão de habitantes – lotava São Januário, desde gente simples acomodada nas arquibancadas até a elite, com homens de palheta, terno e gravata, e senhoras elegantes enfarpeladas de acordo com a moda. A diversidade era retrato de um instante de passagem em que o futebol estava se popularizando rapidamente, mas ainda conservava algo dos tempos em que fora um jogo exclusivo, uma paixão de gente bem-posta na vida.

Em São Paulo, inúmeros torcedores puseram-se diante dos alto-falantes do jornal A Gazeta, no Centro, para ouvir a transmissão da peleja. Não era bem uma transmissão como hoje a entendemos. Naquela época em que o rádio dava os primeiros passos, noticiavam-se apenas os lances principais, mas isso bastava para mobilizar a alegria, a revolta ou a decepção da torcida.

O jogo era um momento relevante na vida da capital da República, tanto assim que entre os presentes encontrava-se o presidente Washington Luís, acompanhado de todos os ministros. Sua Excelência fora convidado a dar o kick-off (o pontapé inicial), mas como pessoa austera, avessa a atitudes demagógicas, declinou da honra, alegando estar com o pé machucado.

Precisamente às 16 horas, sob um sol forte que já prenunciava o verão, o sr. Ary Amarante, do quadro de juízes da Federação Fluminense, trilou seu apito e deu início à partida. Empurrado pela torcida, o time carioca prevaleceu no primeiro tempo e marcou o gol inaugural por intermédio do atacante Oswaldo. Os paulistas voltaram para o segundo tempo dispostos a reverter a desvantagem. A virada parecia, de fato, estar a caminho quando Aparício empatou o jogo. A certa altura, o goleiro carioca Amado pediu que o árbitro tomasse providências contra um torcedor das arquibancadas, presumivelmente paulista, que manipulava um espelhinho na direção de seus olhos, numa tentativa de ofuscar-lhe a visão.

Aos 33 minutos do segundo tempo, o atacante carioca Pascoal – um dos ídolos do Vasco – entrou na grande área paulista e chutou forte em direção ao gol. Em último recurso, o zagueiro Bianco interrompeu a passagem da bola com uma das mãos. Mão na bola, na área, é pênalti, e em observância à regra Amarante marcou.

Era essa a versão carioca do lance. Havia outra, a do time paulista: o pênalti não passava de uma invenção do árbitro, que já demonstrara parcialidade ao validar o gol carioca em visível impedimento. Na verdade, Bianco teria matado o chute de Pascoal, fraco, com o peito – os braços estendidos ao longo do corpo, sem tocar na bola. Os jogadores de São Paulo cercaram o juiz, reclamaram com veemência, mas ele não voltou atrás. O que se seguiu foi mais ou menos o seguinte, segundo o jornal A Noite do Rio de Janeiro, na edição de 14 de novembro de 1927: “Houve um momento ontem, em que nem se conseguia convencer aos paulistas nem bater o penalty. Quando a bola era posta no lugar, vinha Tuffy, depois Amílcar e assim quase todos para schootal-a desrespeitosamente em sentido contrário. Depois de muita luta, Pepe, acintosamente, sentou-se no lugar de ser posta a bola e não se quis levantar.”

Foi então que os jogadores paulistas receberam um recado de Washington Luís. Por intermédio de um assessor, o chefe de Estado – que pouco se interessava pelo esporte bretão – ordenava que os visitantes não persistissem naquela desfeita, comprometendo um belo espetáculo, uma festa de congraçamento entre brasileiros. O craque Feitiço, mesmo não sendo capitão, decidiu dar a Washington Luís uma lição de competência. Voltou-se para o mensageiro e disparou: “Diga ao presidente que ele manda no país, mas aqui em campo mandamos nós.” Diante da afronta, o presidente deixou o estádio profundamente irritado.

Como os jogadores de São Paulo continuassem impedindo a cobrança do pênalti e nem se dispunham a sair do gramado, os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) recorreram à polícia para forçar a descida dos jogadores ao vestiário. O juiz esperou o tempo regulamentar, na expectativa de que o time paulista voltasse a campo, mas como a espera foi inútil mandou que a pena máxima fosse cobrada com a meta vazia. O médio-esquerdo Fortes deu alguns passos em direção à pelota e mirou no centro do gol, como opção mais segura. Que teria acontecido se Fortes, ansioso, tivesse chutado a bola para fora? Repetição da cobrança? Anulação do jogo? Mas não: Fortes marcou, sob os aplausos meio desenxabidos da torcida. Por 2 a 1, os cariocas se sagraram campeões brasileiros de 1927. Menos de dois anos depois, em entrevista a O Estado de S. Paulo, o jogador declarou que batera o pênalti meio constrangido, mas que não poderia ter fugido a essa obrigação.

 

Dois jogadores prestigiosos lideraram a rebeldia: Feitiço e o capitão Amílcar. Feitiço era o apelido de Luís Matoso, nascido em 1901 em São Paulo e criado no bairro italiano do Bixiga. Começou a jogar futebol aos 16 anos; estreou no Ítalo Paulistano, teve uma breve passagem pelo Corinthians e destacou-se como artilheiro da Associação Atlética São Bento – um time de elite, extinto oito anos após aquela partida. Depois, passou pelo Palestra Itália (atual Palmeiras), até que em 1927 se transferiu para o Santos, clube ao qual seu nome ficaria ligado.

Naquele ano de 1927, Amílcar já tinha uma longa carreira no futebol de São Paulo. Nascido no interior do estado em 1893, descendente de italianos, o meio-campo Amílcar Barbuy jogou pelo Corinthians entre 1913 e 1923, quando se transferiu para o Palestra Itália, do qual já era sócio, não obstante a rivalidade entre os dois clubes. Nunca se soube ao certo qual teria sido a motivação dessa atitude, pois ele se limitou a dizer que, por razões pessoais, deixara o alvinegro paulista, no qual fizera muitos amigos.

O abandono de campo não era incomum naqueles tempos em que os impulsos muitas vezes passavam por cima do regulamento. Mas o episódio tinha características excepcionais porque a rebeldia dos jogadores partira exclusivamente deles, contrariando os dirigentes da Associação Paulista de Esportes Athleticos (Apea), que tudo fizeram para que o jogo fosse retomado.

O Campeonato Brasileiro de Seleções replicava, no plano do futebol, a estrutura política da Primeira República – o federalismo que outorgava ampla autonomia aos estados. A consagrada expressão “política do café com leite” não define bem essa época, já que, nos anos seguintes à Proclamação da República, São Paulo foi gradativamente perdendo o comando do país, em favor de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. O Rio de Janeiro, que correspondia em grandes linhas ao Distrito Federal, entrava na configuração da República numa situação particular: não era um estado, mas uma cidade – e uma cidade que era a capital do país, ostentando as avenidas, os monumentos, as belezas naturais, o Carnaval de que todos falavam.

No âmbito do futebol, raramente os cartolas se entendiam. Uma rivalidade tempestuosa marcava as relações entre dirigentes paulistas e cariocas, desde pelo menos a criação, em 1916, da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) – que os paulistas, reclamando do poder centralizado dos cariocas, os quais mandavam e desmandavam, apelidaram “A Madrasta”. Por sua vez, os cariocas retrucavam que a “tão poderosa entidade” não tinha competência sequer para obrigar os jogadores paulistas a participar de convocações da Seleção Brasileira. De fato, várias vezes a Apea se recusara a cedê-los, numa atitude tida como impatriótica, que resultara na derrota do Brasil em vários campeonatos sul-americanos.

Na década iniciada em 1920, as reportagens esportivas ganhavam cada vez mais espaço. As palavras em português iam pouco a pouco se infiltrando nas narrativas, em detrimento do inglês (mas ainda se grafava football). A imprensa era um fator considerável no incentivo ao bairrismo imperante nos dois centros. Ao descrever um confronto entre paulistas e cariocas, os jornais não adotavam uma postura de neutralidade. A primeira pessoa do plural era empregada sem dar lugar a dúvidas: nós, os nossos, o nosso glorioso team, e assim por diante. Seria natural que a partida de 13 de novembro de 1927 merecesse destaque nos jornais do Rio e de São Paulo.

 

Os jornais cariocas metralharam os jogadores paulistas sem dó nem piedade. Em 15 de novembro, lia-se em O Correio da Manhã: “O campeonato brasileiro de football teve um final deplorável. No momento em que estava para terminar a reunião sportiva mais notável da história do nosso sport, os footballers paulistas, enodoando todo o seu passado e revelando uma incultura por todos os títulos lamentável, deram a nota triste da tarde, insurgindo-se contra uma decisão do juiz, perante um público vultosíssimo e na presença do presidente da República e todos os ministros de Estado.”

A derrota e mais ainda a atitude do presidente Washington Luís provocaram indignação em São Paulo, mas em sentido oposto. Os paulistas tinham sido esbulhados e o presidente se portara muito mal, ao ir embora em repúdio a “nossos” jogadores, em vez de apoiá-los. Washington Luís assim agira porque afinal de contas não passava de um “paulista de Macaé”.

De fato, o presidente da República havia nascido naquela cidade fluminense, mas fora cedo para São Paulo, onde cursara a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Casou-se com moça pertencente a um dos troncos tradicionais da família paulista, foi prefeito da capital e presidente (governador) do estado. “Paulista de Macaé” era uma expressão muito usada para realçar as qualidades de Washington como um ilustre conterrâneo, embora “naturalizado”. Naquele momento de indignação, porém, os paulistas transformaram o local de nascimento do presidente num vício de origem. Houve até quem dissesse que um italianinho do Brás ou da Mooca não se comportaria daquele jeito.

Mais tarde, um samba lançado em 1929 pelo maestro Eduardo Souto iria retratar a figura do presidente em meio à campanha eleitoral de 1929/1930 – samba ambíguo, permeado de elogio e de ironia: “Ele é paulista?/É, sim, senhor/Falsificado?/É, sim, senhor/Cabra farrista?/É, sim, senhor/Matriculado?/É sim senhor.”

Os jornais paulistanos divergiram nas considerações sobre a partida. O Estado de S. Paulo e o Diário Nacional, vinculados em maior ou menor grau ao Partido Democrático, que mais tarde daria origem à União Democrática Nacional (UDN), apelaram para a razão: os erros do juiz a dano dos paulistas haviam sido muitos, entre os quais a marcação do pênalti inexistente, mas as decisões do árbitro não poderiam ser contestadas, ainda mais da forma como foram.

Não era essa a opinião de A Gazeta, vespertino muito lido pelos paulistanos de classe média. Os paulistas haviam sido prejudicados por um árbitro de má-fé e, mais do que isso, os fatos ocorridos em São Januário eram um grave sinal do descaminho da juventude. Cada vez mais, o futebol vinha se transformando num jogo de azar, tantas eram as intrigas e os conluios por baixo do pano, além da crescente profissionalização dos atletas. Os esportes, com as regatas à frente, tinham atraído a mocidade para o ar livre, alterando para melhor nossos costumes. Aos “jovens mesureiros, adamados, anêmicos, sucedia-se uma geração desenvolta, de atitudes ousadas, encarando a vida sem falsos romanticismos” (18 de novembro de 1927). E isso não se restringia aos círculos mundanos, pois a liberdade chegara aos “antigos escravos”, ou seja, os empregados do comércio, “outrora acurvados sobre a carteira ou movimentando-se ao longo de armazéns penumbrosos, sem nunca ver a luz do sol”. Agora, alertava A Gazeta, a grande transformação corria o risco de se perder.

Pela ofensa ao presidente da República, aos dirigentes do futebol, aos milhares de espectadores que compareceram ao jogo, sete jogadores paulistas foram suspensos pela CBD e o Santos – mais realista do que o rei – apressou-se em expulsar de seu quadro social Feitiço e o goleiro Tuffy.

Mas tudo se ajeitou no ano seguinte, quando as autoridades decidiram perdoar os punidos, cuja ausência vinha causando muitos prejuízos a seus respectivos times. A rivalidade entre paulistas e cariocas retomou seu curso, como se viu quando da realização da 1ª Copa do Mundo de Futebol no Uruguai, em 1930: a CBD não incluiu nenhum representante de São Paulo entre os membros da delegação brasileira. Em resposta, os cartolas paulistas se negaram a ceder os jogadores convocados, uma decisão contrariada apenas pelo avante santista Araken Patusca.

 

Nunca mais os caminhos de Washington Luís e dos protagonistas da desfeita viriam a se encontrar. O prestígio de que gozava o presidente em 1927 iria desmoronar em pouco tempo, a partir das tratativas entre os estados para a escolha do candidato oficial às eleições para a Presidência da República, a serem realizadas em 1º de março de 1930. Teimosamente, o chefe de Estado impôs a candidatura de Júlio Prestes – um verdadeiro paulista, nascido em Itapetininga, no interior. Não arredou pé nem mesmo quando Minas Gerais e Rio Grande do Sul propuseram que, por consenso, fosse escolhido outro nome. Daí nasceu a candidatura de Getúlio Vargas, a vitória eleitoral de Júlio Prestes e afinal a revolução de outubro daquele ano que levou Getúlio ao poder.

Washington Luís foi deposto e forçado a exilar-se. Viveu na Europa e nos Estados Unidos, enfrentando dificuldades financeiras. Voltou ao Brasil em 1947, após a queda do Estado Novo. Afastou-se da política, escreveu livros sobre a história de São Paulo e morreu em 1957. Entrou para a posteridade como um personagem reacionário, quando na verdade era um conservador com traços modernizantes para os padrões de seu tempo.

Perdoado pelo Santos, Feitiço se transformou numa das maiores glórias do clube, tendo integrado o famoso ataque dos 100 gols, obtidos em dezesseis partidas, com uma média extraordinária de mais de 6,5 gols por peleja. Ele saiu do Santos em 1932 para vestir a camisa do Peñarol de Montevidéu. Regressou ao Brasil após três anos, jogou em vários clubes e encerrou sua carreira em 1940. Tendo vivido até 1985, por muitos anos permaneceu entre as quatro linhas do gramado, atuando como juiz.

Amílcar se transferiu para a Itália em 1930, na primeira leva de jogadores argentinos, brasileiros e uruguaios contratados a peso de ouro pelos clubes de lá. Seu caso foi excepcional: partiu para ser técnico da Lazio de Roma, mas acabou jogando algumas partidas, até que regressou ao Brasil para treinar clubes como o Palestra Itália, o Corinthians e o São Paulo. Morreu cercado de homenagens em 1965.

Duas questões ficaram no ar. A primeira é interpretativa – duas versões de uma mesma história, ou melhor, de um mesmo lance. Bianco interceptou a bola chutada por Pascoal com a mão ou com o peito? Dito de outro modo, foi pênalti ou não? Impossível saber, e depois tudo aconteceu há tanto tempo… A segunda diz respeito à verdade histórica: nos relatos minuciosos de jornais e revistas da época, não há menção ao áspero diálogo travado entre Washington Luís e Feitiço. Teria a imprensa evitado reproduzi-lo imediatamente? É improvável. O diálogo parece ter surgido mais tarde e acabou sendo consagrado como autêntico. Seria uma construção mitológica destinada a enfatizar a altivez dos paulistas, nos anos atribulados que se seguiram à Revolução de 1930? Ou, pelo contrário, uma forma de demonstrar a fragilidade do presidente, acovardado diante do desacato praticado por um ídolo do esporte?

Mito ou não, a ordem presidencial e a resposta de Feitiço tornaram-se uma verdade carregada de simbolismo na história do futebol brasileiro – um brado de revolta, como nunca mais se ouviu, contra os mandões do futebol e da política.

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