correspondência

“Foi uma revolução rápida e bonita”

"A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito, por mais sinistro que pareça", escreveu Elizabeth Bishop a Robert Lowell a propósito do golpe militar de 1964. "De outro modo teria sido uma mera 'deposição', e não uma 'revolução' - muitos homens de Goulart continuariam lá no Congresso, todos os comunistas ricos fugiriam (como alguns fugiram, é claro) e os pobres e ignorantes seriam entregues à sua sorte"

Otavio Frias Filho
“Se você nunca vê um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom – ou se nunca ouviu música boa, finge que Villa-Lobos é o maior”
“Se você nunca vê um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom – ou se nunca ouviu música boa, finge que Villa-Lobos é o maior” FOTO: © COLEÇÃO NEW YORKER_2008_EDWARD SOREL_CARTOONBANK.COM_TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Nesta segunda e última parte dos trechos selecionados da correspondência entre os poetas americanos Elizabeth Bishop e Robert Lowell, a crise política que agitou o Brasil no começo dos anos 60 vem para o primeiro plano. Bishop passara a viver no Rio (e em Petrópolis) em 1951; estava de passagem quando se apaixonou por Lota de Macedo Soares. Incentivadora do gosto pela arte moderna e amiga íntima de Carlos Lacerda, Lota seria incumbida por ele, governador da Guanabara a partir de 1960, de criar o parque do Aterro do Flamengo. Convocou o paisagista Roberto Burle Marx como seu braço direito, com quem depois se desentenderia.

Surpreende a veemência que uma poeta nada interessada em política, como Bishop, emprega contra os herdeiros populistas de Vargas e seus aliados comunistas. Ela reflete a intensa polarização ideológica que devastou a vida pública brasileira na época. Reflete também a posição de Lota, então lacerdista incondicional (Lacerda e sua amiga viriam a romper relações depois de 1965). Mas não apenas isso: Bishop tinha aversão à vulgaridade justiceira dos grandes projetos coletivistas, ao contraste entre seus belos propósitos e à mediocridade militante. Sintomático, conforme consta de uma das cartas, que ela lesse Alexander Soljenítsin já em 1963, mal o “dissidente” soviético fora traduzido para o inglês.

No âmbito privado, o contexto das passagens a seguir é a dissolução do amor entre as duas mulheres. Lota se deixa enredar no labirinto burocrático do governo, vê o sonho do Parque do Flamengo ser amputado, sofre de depressão e doença cardíaca. Bishop se afasta do Rio, compra uma casa em Ouro Preto. E se apaixona pela “companheira vivaz, gentil e divertida” mencionada em uma passagem abaixo. Em setembro de 1967, Lota viajou em desespero a Nova York, à procura de alguma reconciliação com Bishop. Depois de um encontro tumultuoso, Lota tentou se matar por ingestão de barbitúricos. Hospitalizada, morreu uma semana depois. O centenário de Lota acontece no ano que vem; o de Bishop, no seguinte.

 

Rio de Janeiro, 15 de junho de 1961

Querido Cal

Um bom exemplo do humor político brasileiro derivado do cinema. Não sei se um filme italiano medianamente bom chamado O Belo Antonio chegou a Nova York ou não. Trata do tema ousado da impotência. Bem, o novo e único porta-aviões brasileiro, de segunda mão, que custa milhões e milhões de dólares inexistentes e desliza lentamente para cima e para baixo pela baía com um ou dois helicópteros na vasta pista do convés, agora é chamado de Belo Antonio.

Lota está trabalhando duro e está se saindo tremendamente bem. Tem sido até atacada nos jornais, a intriga corre solta e duas pessoas pediram demissão. Devo ter contado a você que ela trabalha como “coordenadora- chefe do Aterro” – tendo o aterro, ao que parece, 6 quilômetros de comprimento. Não tinha me dado conta do tamanho até irmos ver ontem. Ela está recusando o pagamento – isso é muito ruim, mas uma boa precaução. Está sendo maravilhoso para ela e, se a coisa sair da maneira como ela quer, será um grande e esplêndido parque sombreado, dois ou três restaurantes, parques de recreação, cafés ao ar livre etc. – oferece a todas as classes do Rio um lugar para ir caminhar, desfrutar a paisagem e a brisa marinha, do que eles carecem tremendamente. Se você tiver alguma idéia sobre parques de recreação (como deve ter provavelmente) nos diga… Perguntei a Howard Moss [1] sobre isso e ele escreveu que tinha uma boa idéia: enormes estátuas de cimento dos patriarcas. (Ele também ficou extasiado com as suas traduções de Baudelaire na Partisan Review.)

O paisagista… (sei que você provavelmente não compartilha o meu interesse por decoração de interiores, arquitetura moderna, jardins etc., mas afinal de contas moro de fato num dos pretensamente melhores exemplos – de arquitetura, quero dizer – na América do Sul). Bem, você deve ter ouvido falar dele – dão aulas sobre ele em Harvard, é chamado o moderno Le Nôtre [2] e eu acho que é um dos verdadeiros gênios brasileiros – Roberto Burle Marx. Ele deu uma grande festa na sua fazenda (na verdade, seu viveiro de plantas – acres e acres de lindos, e de certo modo tristes, flamboyants, e de ameaçadoras plantas e árvores subtropicais) para o nosso amigo governador [3] e todo mundo que tem algo a ver com o “aterro”. Burle Marx é também um bom cozinheiro. Havia porcos assados, peixes de 1 metro de comprimento e fantásticas decorações de frutas e flores com metros de altura, que todo mundo rasgou em tiras no fim do dia para levar para casa. Infelizmente alguém teve a idéia de trazer uma comissão comercial chinesa que tinha acabado de chegar de Cuba – oito ou dez chineses pequenos, de aspecto relaxado, joviais, de cabelos compridos, que não tocavam em álcool e faziam muitas perguntas sobre as pessoas, em francês ou em mau inglês. (Mao-Mao – que se pronuncia como Mow – quer dizer “mau-mau” em português e é uma expressão comum. Depois que todos eles recusaram o uísque e o vinho outra vez, com ar cada vez mais severo, Roberto disse “Mao-Mao Tse-tung”.) Tentei conversar com um deles cujo inglês era muito limitado e quando me disse que “Castro-forte-forte”, brandindo o punho, e “Batista-mau-mau” (como se eu não tivesse ouvido falar dele, provavelmente), pela primeira vez, eu creio, um verdadeiro calafrio de medo e horror do comunismo desceu pela minha espinha. Eram uns homenzinhos lúgubres, de ar ignorante, os olhos ardiam com uma paixão justiceira – e lá estávamos nós muito alegres, admirando as plantas e a coleção de antiguidades de Roberto etc., nos entupindo de comida e à beira de colher o que semeamos.

Elizabeth

 

Castine, Maine, 31 de agosto de 1961

Querida Elizabeth

Passei a semana inteira preocupado com você, no seu tumulto. Na tevê, vimos [Jânio] Quadros deixando o país sem uma gravata sequer, soldados brasileiros protegendo a embaixada americana no Rio etc. Espero que tudo esteja bem com você. Avise se eu puder fazer alguma coisa, como lhe mandar dinheiro.

Rio, 14 de setembro de 1961

Querido Cal

Ficamos todos muito comovidos com sua oferta de dinheiro… Recebi sua carta quando subimos para Samambaia no último fim de semana. Por acaso tínhamos ido ao banco e às casas de câmbio um dia antes de serem fechadas, portanto estamos bem – na verdade, podemos até mandar dinheiro para os nossos amigos que ficaram desguarnecidos. Agora os bancos estão abertos de novo. De todo modo, não imaginava que você estivesse vendo tevê em Castine.

Foi um período triste e terrível para todos aqui e agora não estamos gostando nem um pouco da forma como as coisas estão andando. [4] Lota, é claro, se envolveu muito em tudo isso e passou noites inteiras no palácio do governador, chegando em casa só para o café da manhã. Você sabe que o governador do estado da Guanabara é um velho amigo nosso, Carlos Lacerda, e foi ele quem deflagrou todo o movimento, mais ou menos. É extremamente complicado, claro. Até escrevi uma nota para o New York Times a respeito, uns dez dias atrás – talvez você tenha visto, talvez não publiquem. [5] Mas na verdade, os jornais americanos que vi – ou o que foi citado deles nos jornais daqui – entenderam tudo completamente errado. Meu único postulado era que os EUA não acreditam em nenhuma palavra do que a Rússia diz; no entanto, quando se trata da América do Sul, a tudo o que qualquer um diga – ditadores ou aspirantes a ditadores, da direita ou da esquerda (como agora) –, os EUA dão fé. A situação parece muito ruim. Porém – não vou entrar em detalhes! –, acho que quando for para N.Y. darei palestras, depois de jantares, a respeito da situação no Brasil. Parece que sei muito a respeito do assunto. A esquadra passou para um lado e para o outro, soltando fumaça no mar, na frente do nosso apartamento aqui, e eu olhei pelo binóculo. Mas o Rio mesmo ficou muito tranquilo graças ao Carlos, que o New York Times chama de “feudal e reacionário” etc., etc. O Exército de fato é tão pouco belicoso que eles recuaram – e na verdade se portaram muito bem!

Elizabeth

Sábado, 16

Não acredite no que você vê sobre “legalidade” e salvar a preciosa “Constituição”! Todos os velhos vigaristas estão voando de volta para os seus cargos o mais depressa que podem & o PC age abertamente agora.

A grande Bienal vai começar daqui a pouco em São Paulo – temos de ir, eu acho.

Será que terei de fazer outra viagem ao pesadelo de Brasília? Deus me livre.

No momento, ando meio apaixonada pelo último imperador – dom Pedro II – seguramente o mais nobre imperador do mundo, no que diz respeito ao caráter. Tentou abraçar Whittier, [6] à maneira brasileira, quando se conheceram. Whittier recuou, é claro. Quando se separaram, dom Pedro desceu atrás dele pela escada (isso aconteceu na casa de Longfellow, [7] num jantar) e finalmente conseguiu abraçá-lo (dom Pedro tinha 1,95 metro de altura). Traduziu um poema muito ruim de Whittier, “O lamento de uma alma perdida” – não sobre a escravidão, como eu tinha pensado, mas sobre um pássaro do Amazonas – e mandou para ele uma caixa de vidro com esses pássaros, empalhados. Mas não vou continuar a revelar minhas surpresas eletrizantes…

Até logo, nos veremos em breve – Lota manda abraços.

Elizabeth

 

25 de setembro [1961]

Querido Cal

Aqui, tudo está uma confusão, e uma tragédia, na verdade. Deus sabe o que vai acontecer depois. Parece excessivamente pró-comunista para mim e, por favor, diga a Kennedy ou a Arthur S. Jr. [8] para se mexerem. A América do Sul inteira poderia muito bem azedar – para o lado do comunismo –, como uma leiteira, eu acho, e a culpa é metade do Brasil e metade nossa. (Um pensamento alegre para deixar com você.) Lota está de novo no “palácio” – ela adora uma briga felizmente, mas isso tudo já é demais. Todo mundo acusa todo mundo, e Lota está sendo atacada nos jornais também – em geral por ciúmes e despeito. Acho que é como nos EUA, na verdade, mas numa escala tão pequena e tão pessoal – e eu nunca me envolvi nos EUA!

Como seria bom encontrar você.

Elizabeth

 

Rio, 22 de janeiro de 1962

Querido Cal

Vi um anúncio de Os SertõesRebellion in the Backlands –, o melhor livro brasileiro depois de Machado de Assis & escrevi pedindo que lhe mandassem um exemplar. Você nunca vai ler o livro inteiro, mas pule a primeira metade e passe direto para a parte narrativa – é maravilhoso, de fato. Desconfio que influenciou Hemingway – numa tradução para o espanhol – e ele quase mostrou isso (sua descrição da retirada em Caporetto). [9]

14 de abril de 1962

Querida Elizabeth

Estou pessimamente preparado para falar a platéias brasileiras. Botsford parece supor que posso adquirir em poucos dias fluência na leitura em português, mas é claro que nunca vou conseguir. Gosto de verdade de alguns poemas de Bandeira, e também de Jorge de Lima, e já cheguei à metade de Epitaph of a Small Winner [10] de Machado de Assis – tremendamente bom. Posso adivinhar que os brasileiros vão me deixar com a sensação de ser um bárbaro, com a cultura francesa e latina deles, que nós jamais tivemos. É muito mais contundente descobrir que os brasileiros têm isso do que ver a mesma coisa na França, onde já é de se esperar que seja assim. Estou começando a acreditar nas tiradas arrogantes de Eliot sobre nós, a respeito da maturidade da mente latina. Vou levar uma porção de antologias etc., e acho que posso declamar e ler em voz alta, interminavelmente, a poesia em inglês deste século. Acho que eles já conhecem os grandes nomes – ou serão tão ignorantes como nós? Ninguém aqui, exceto o jovem entusiasta, [11] sequer conhece Neruda.

Querida, mal podemos esperar, lembranças a Lota.

Cal

 

Rio, 19 de dezembro de 1962

Querido Cal

Também ando fazendo algumas traduções. Acabei de ler um livrinho muito bom sobre Santos Dumont – você até podia gostar, eu acho – muito justo e cordial. Ele era um personagem delicado, feito um colibri, e é uma pena que os aviões não tenham sido desenvolvidos da maneira como ele (& Leonardo) sonhava – todos seus aviões e seus planos fazem os nossos jatos parecerem grosseiros e mortíferos. E esses pilotos musculosos e aeromoças sensuais teriam lhe inspirado pavor. (Um dia quero escrever um poema sobre tudo isso.)

 

10 de fevereiro de 1963

Querida Elizabeth

Espero ver a sua Lispector na The New Yorker. Quer que eu entre em contato com Jack Thompson e fale sobre sua outra amiga? [12] Sei perfeitamente bem quem ela é – o jovem brasileiro que esteve aqui disse que ela e Clarice são as melhores prosadoras no Brasil –, mas não tenho a sua carta à mão e não tenho certeza da grafia.

 

Rio, 5 de março de 1963

Querido Cal

Brasil e França estão prestes a entrar em guerra, parece, por causa das lagostas brasileiras – navios de guerra a postos, notícias de hora em hora, igual a uma comédia musical.

Aquela senhorita Kray me escreve dizendo que minhas traduções de Cabral de Melo são “excelentes” – que bom, mas eu queria saber como ela sabe disso. Posso escrever aquele poema longo inteiro só por diversão – se encaixa em inglês com muita facilidade. [13] Também traduzi alguns poemas de Drummond. Você se importa por eu ter traduzido “A mesa”, aquele de que você gostou? É o melhor dos poemas de memórias da infância – e essa parte da poesia dele é a que mais me agrada. Claro que traduzi do meu jeito rigorosamente literal, de modo que se você, a qualquer momento, quiser produzir uma versão Lowell, cheia de vivacidade, eu não acho que a minha vá interferir com a sua nem um pouco – elas seriam muito diferentes. Além do mais, no poema, tem muita gíria do Rio que não está no dicionário – assim você podia “pesquisar” o sentido das palavras na minha versão (se eu fizer isso – só farei se me pagarem por mais outros trabalhos).

Obrigado por oferecer ajuda para Rachel de Queiroz. No momento, estou de folga quanto a tentar ajudar quem quer que seja! – talvez só para brasileiros! Eles são tão inconfiáveis… É adorável poder ser assim, e nós talvez sacrifiquemos muita coisa, com as nossas consciências e tudo o mais.

Mas tenho a sensação de que, se eu conseguir organizar tudo, ela pode muito bem dizer que não, que está sem vontade, ou que sem o marido não pode ir – e depois irá embora para as suas fazendas do Norte, assoladas pela seca, e ficará deitada numa rede enquanto vê o gado morrer de sede… Ah, querido, eu gosto dela, mas já tive problemas de personalidade de sobra por um tempo. Ela acabou de voltar para o Norte outra vez, para ficar seis meses, bem na hora em que eu achava que estávamos chegando a algum lugar; e agora tudo voltou à estaca zero outra vez. Também não ouvi mais falar dos contos de Clarice. Ela se ofereceu para mandar os contos pelo correio algumas semanas atrás – aposto que nunca fez isso! Infelizmente só fui descobrir o melhor conto quando já era tarde demais. Ela me entregava um conto de vez em quando – talvez eu termine isso também, só para fazer o trabalho direito – e depois acabou. [14] Ah, sem dúvida vou acabar cedendo, mas por um tempo quero pensar nos meus assuntos.

Elizabeth

Piada infantil brasileira: por que um Volkswagen parece uma bunda? Resposta: porque todo mundo tem um…

 

14 de março

Cal,

Isto está na minha escrivaninha há uma semana porque achei que era maçante e mal-humorado demais para mandar – acabei de reler e, embora não ache muito interessante, acho que dá para enviar… O Brasil venceu a guerra da lagosta. Meu canarinho teve um ataque do coração (acho). Faz uma semana que mal vejo Lota, mas sábado é o aniversário dela e teremos uma espécie de noite de gala em Samambaia nesse dia… Fui maldosa a respeito de Rachel de Q. Ela quer muito ir para os EUA, eu sei, e se ela escrevesse artigos para cá, provavelmente, talvez tivesse dinheiro para pagar a viagem do marido também – os dois são muito dedicados. Ela devia ir, o lugar está ficando inundado de literatura antiamericana violenta, poemas (acabei de receber dois livros desse tipo) etc. – todos tão rasteiros. Os escritores e poetas soam como no início da década de 30 nos EUA e é uma pena que pareçam querer passar por tudo aquilo outra vez – também passaram por isso aqui (a geração de Rachel). Acabei de ler Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch [15] – o livro que Philip Rahv resenhou. É comovente e estimulante, acho.

Elizabeth

 

Rio, manhã de terça-feira,

26 de maio de 1963

Querido Cal

Supõem-se que Carlos [Lacerda] concorrerá para presidente em 1965. Salve-nos. Muita coisa pode acontecer antes, mas se ele for eleito tenho certeza de que Lota seria ministra da Educação ou embaixadora, ou outra coisa. Acredito que ela é de fato a única amiga que ele tem, às vezes – a única que ousa dizer a ele a amarga verdade de vez em quando, e ele aceita. Levamos a ele uma carta às onze da noite de domingo, na qual ela o advertia quanto ao “macarthismo” – e ela já produziu efeitos.

Todos os comunistas, estudantes, janguistas, nacionalistas etc. se esgoelam sobre “reforma agrária” – como se qualquer um com juízo fosse contra a reforma agrária no Brasil. Mas o que eles realmente querem são mudanças aterrorizantes na Constituição que dariam a Goulart poderes ditatoriais. Aparentemente há muitas leis boas – sempre existem aqui – e tudo que eles têm que fazer é colocá-las em prática. Mas rotulando tudo de “reforma agrária”, quando o que querem é escrever uma nova Constituição, eles mantêm o povo atordoado, como de hábito, e os estudantes esgoelando que Carlos é contra o camponês… Ó, Senhor, estou cheia disso.

Os rapazes brasileiros são muito diferentes dos americanos, sem dúvida – amantes dos 14 anos em diante, mais ou menos. Eles sabem tudo de l’amour, mas não têm a menor idéia de como fazer a cama. Ou limpar os sapatos, ou de como ganhar dinheiro – ou quanto custa viver – ou como é a vida real da sua empregada. De fato, eles nem vêem a classe pobre como gente, e ainda acham que são comunistas.

Com amor sempre.

Elizabeth

 

Rio, 28 de junho [1963] – alvorada

Querido Cal

Acho que o desejo vem primeiro e é isso o que conta, mas se você nunca um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom – ou se nunca na sua vida ouviu música boa, finge que “bossa nova” é bom, ou Villa-Lobos é o maior etc.

Muito amor.

Elizabeth

 

Rio, 2 de julho de 1963

Querido Cal

Darcy Ribeiro – que era o reitor da Universidade de Brasília quando você esteve aqui (& lhe deu seu livro sobre arte plumária) – subiu muito e bem rápido desde então. Chegou a ministro da Educação, a chefe de alguma coisa – gabinete – e no momento está travando uma queda de braço com Carlos. Os jornais vespertinos dizem que o governo vai destituir Carlos; os jornais da manhã dizem que Carlos entrou com uma ação na Justiça contra o governo! Que a maldição caia sobre as suas duas casas… [16]

Clarice foi convidada para outro congresso literário na Universidade do Texas e está se mostrando muito reticente e complicada, mas acho que em segredo está muito orgulhosa e vai acabar indo, é claro. Vou ajudá-la com o seu discurso. Penso que vamos ser “amigas”, mas ela é a escritora mais não literária que já vi e “nunca abre um livro”, como a gente costumava dizer. Nunca leu nada que eu pudesse descobrir – acho que é escritora autodidata, como uma pintora primitiva.

 

Rio, 11 de outubro de 1963

Vinicius [de Moraes] – lembra dele? – casou pela quinta vez. Fugiu com uma garota de 20 anos, filha do embaixador ou cônsul italiano – e ela estava noiva de outro. O jovem descartado desafiou V. para uma briga. Aí quando os dois “foram lá fora”, ele olhou para o coitado e bêbado V., desistiu e foi embora. V. deixou uma carta para os pais, dizendo saber que era um comportamento ruim para um “diplomata”, mas que como “poeta” ele não se conteve… Todos têm pena da garota…

 

Rio, 26 de novembro de 1963

Querido Cal

Não tenho muito o que dizer a você, na verdade – os últimos dias foram como um pesadelo, é claro –, mas senti vontade de lhe escrever um bilhete. Lota chegou cedo em casa na sexta-feira, de volta do trabalho, para me contar sobre Kennedy antes de eu ouvir a notícia no rádio. Se bem que há uma greve no rádio e na tevê já faz uma semana mais ou menos, e só a rádio do Ministério da Educação está no ar. Todos os jornais publicaram edições especiais naquela noite. Fomos à rua e a visão das multidões foi terrivelmente comovente – as ruas lotadas de gente, as bancas de jornal cheias e muitas pessoas chorando abertamente. A dor aqui foi autêntica, sem dúvida – certos ou errados, eles tinham a sensação de que Kennedy era um amigo do Brasil. Você sabe que os brasileiros são muito mais formais a respeito da morte do que nós. Devo ter recebido quinze ou vinte telefonemas e algumas visitas – de “condolências”. Eles também se sentem tão mais próximos de seus políticos do que nós – na sua maneira de pensar, todos os americanos devem se sentir como se tivessem perdido um parente. E têm reações emocionais muito mais rápidas do que os anglo-saxões – ou do que eu tenho, pelo menos. Lota almoçou com Carlos hoje e ele disse que estava começando a se sentir normal outra vez; ao passo que hoje é o dia em que estou começando de fato a me sentir mal.

Uma estação de tevê finalmente voltou ao ar e assim nós vimos, provavelmente, alguns dos horríveis cinejornais que você viu – aqueles carros desmesurados adernando feito gelatina nas curvas, aqueles rostos gordos do Texas, solenes e burros, aquelas intermináveis imagens das costas de guardas cobertas de coldres e cartuchos de munição… Ah, Deus, que barafunda. Talvez uma parte esteja esclarecida quando você receber esta carta, mas receio que o assunto vai se arrastar.

Amigos nossos acabaram de voltar depois de passar três meses em Washington e na Filadélfia – americanos – e dizem que estão contentes por estar de volta, por mais horrível que seja a situação por aqui. Acham que a atmosfera por lá está muito Sodoma e Gomorra, creio – dinheiro, dinheiro, dinheiro e aterradores problemas com os negros. Bem, aqui estamos esperando um golpe (do presidente) a qualquer momento. Hoje e ontem o clima ficou mais quente, MUITO quente – e a gota de água, no que diz respeito a greves, é uma greve de coveiros… aqui não se costuma embalsamar e não há refrigeração que chegue!

Com muito amor, como sempre.

Elizabeth

 

10 de março de 196[4]

Querida Elizabeth

Saiu uma matéria no Times nesta manhã sobre o fato de Goulart ter encampado refinarias de petróleo e muitas terras – lúgubres ponderações dos EUA sobre a agitação incessante. Espero que não haja nenhum problema novo.

Penso em vocês duas todo dia. Mande mais notícias, e um outro poema ou poemas. A família manda seu amor e eu, todo o meu.

Cal

 

3 de abril de 1964

Querida Elizabeth

Tudo parece calmo e em paz no Brasil no último dia e meio, mas ainda tremo ao tentar imaginar a agitação dos últimos dias e, sem dúvida, das últimas semanas ou meses.

As últimas notícias que li informam que os fuzileiros navais estavam atacando o palácio do governador cercado por barricadas e, enquanto isso, a polícia do governador tentava tomar o pequeno Forte de Copacabana. Enquanto eu voltava de avião para casa, havia um céu claro sobre o Atlântico quando chegamos lá e imaginei a mesma lua, milhares de milhas ao sul, brilhando sobre o mesmo oceano, tudo estranhamente mais próximo, porque a praia de areia, como uma estrada, levava até você, e em pensamento a gente podia andar sobre ela e se perder, quando então pensei em aglomerações em conflito, formadas por soldados magros e de capacete. Graças a Deus tudo acabou. Percebo que depois que deixei o Brasil tudo fermentou e que aquela única semana tinha pouco a revelar do que viria a ser a realidade na semana seguinte. Espero que a mudança tenha atenuado as sombras para você e Lota, e também para o país. Escreva e conte o que aconteceu com vocês e tudo aquilo que seus olhos iluminaram.

 

Rio de Janeiro, 4 de abril de 1964

Queridos Lowellzinhos,

Bem, foi uma revolução rápida e bonita, debaixo de chuva – tudo terminado em menos de 48 horas. De fato, sentimos um estranho esvaziamento, nos preparamos para viver coladas no rádio e na tevê, deitadas sobre muitos sacos de café; eu assei pão – não havia pão para vender etc. – e também assei um pernil de porco! Porque achamos que ia faltar gás. Agora estamos comendo o pernil todo… Revoluções modernas, aprendi, são engraçadas, tudo pára de funcionar – menos o telefone, porque é automático –, portanto todo mundo fica sentado no escuro, sem tomar banho etc., telefonando para os amigos o dia inteiro e a noite inteira.

Lota e outra mulher eram as únicas no Palácio Guanabara (de Carlos). Lota tinha um salvo-conduto de um dos generais, e entrava e saía passando pelas tropas do presidente, que cercaram o palácio. Todos os homens lá dentro mostravam as armas uns para os outros etc. Mas o palácio não resistiria a um ataque, havia apenas 100 soldados, com armas leves. No dia 1º de abril, Carlos lançou um pedido de socorro pelo rádio e pareceu de fato desesperado. Peguei a transmissão em ondas curtas, por intermédio do estado de Minas, pois o governo ocupou as estações de rádio aqui e, por dois dias, só captamos um monte de mentiras e o hino nacional. Esse foi o pior momento – eu sabia que Lota estava lá dentro, ela insistiu em voltar para lá, ou eu esperava que estivesse e que não fosse apanhada pelas tropas federais. Contudo uma hora mais tarde tudo havia terminado. Todo o exército veio e voltou-se contra Goulart – e ele já havia fugido, mas nós não sabíamos. Então uma enxurrada de pessoas saiu para as ruas – chuvas de papel picado, bandeiras, música etc. Saí de carro com um amigo para ver a cidade. Na calçada, um autêntico toque do Rio – homens grandes e peludos, de calção de banho, dançando feito loucos, sacudindo suas toalhas molhadas. A coisa toda transcorreu debaixo de violentas tempestades, portanto o papel ficou grudando – carros, tanques, tudo lambuzado de papel molhado.

As duas últimas semanas correram cada vez mais alucinantes. Goulart exagerando o seu papel obviamente, e pelo visto superestimando sua força como um tolo – ou sendo forçado a isso. O outro lado (nós somos os “rebeldes”!), subestimando a força deles. Segunda à noite vimos Goulart na tevê fazendo um discurso bombástico num comício-monstro de sargentos. Foi terrível, quase patético – os agitadores tentando ler discursos escritos para eles, sem conseguir ler direito etc. L & eu chegamos a dizer uma para a outra: “Bem, isso é o fim, não tem jeito.”  E sem dúvida foi mesmo. O Exército não ia aceitar aquilo. Só um exército continuava supostamente leal ao presidente – e então em 1º de abril ele também mudou de lado & foi o fim. Mas o clima estava bastante tenso quando soubemos que o Rio se encontrava completamente sob controle federal, exceto por Carlos, que se mantinha resistindo naquele tolo palaciozinho, enquanto o único exército “inimigo” estava marchando para supostamente nos subjugar… Muito pouca gente morreu, pelo menos até onde a gente sabe. (Desconfio que isso ocorreu porque não havia veículos de transporte e poucos carros estavam na rua; provavelmente algumas dúzias das mortes de costume devidas a atropelamentos e acidentes de carro foram evitadas…) O Forte de Copacabana desempenhou um papel importante, mas só um soldado foi morto. Agora faz dois dias que estão prendendo pessoas – oh, Deus –  e a maioria dos figurões fugiu.

 

Rio de Janeiro, 7 de abril de 1964

Mais de 3 mil pessoas presas só no Rio. Carlos deu várias e várias ordens, nenhuma brutalidade policial será permitida etc., mas incidentes acontecem com qualquer polícia.

A coisa mais estimulante, na verdade, foi a passeata do dia 2. Foi planejada por duas semanas como uma manifestação anticomunista. Nessa ocasião, no dia 2, a revolução já estava terminada e os comunistas em fuga; portanto, não era mais necessária. Porém mais de 1 milhão de pessoas saíram às ruas e marcharam – de novo debaixo de uma chuvarada. Foi de fato impressionante. Estou mandando para você algumas revistas com fotos – vamos ver se você recebe. De fato a manifestação foi espontânea e não é possível que sejam todos da direita rica e reacionária… O dia 1° de abril é aqui o dia da mentira, portanto agora andam dizendo: “A verdade apareceu no dia da mentira.” Não acredito em tudo o que os jornais dizem, é claro, mas Lota está em condições de saber bastante coisa. Descobriram até agora mais de 15 toneladas de material de propaganda chinesa e russa – além de armas, explosivos etc. A quantidade é que é impressionante.

Ando horrivelmente deprimida com o que está acontecendo por aqui e meu único pensamento é ir embora por um tempo. A Inglaterra é o melhor lugar, creio – posso falar a língua, mais ou menos, e acho que eles não dão a mínima para o Brasil, assim ninguém vai me fazer perguntas.

Elizabeth

 

Rio, domingo, 13 de abril de 1964

Querido Cal

A junta militar provavelmente parece muito pior vista de fora do que vista daqui. Como você sabe, os militares no Brasil jamais na sua história tentaram tomar o poder ou mantê-lo – e Castelo Branco relutou em ser presidente. Agora temos um vice-presidente terrível [17] – sagaz, mas desonesto –, porém não acredito que ele vai ter muito poder. A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça. De outro modo teria sido uma mera “deposição”, e não uma “revolução” – muitos homens de Goulart continuariam lá no Congresso, todos os comunistas ricos iriam fugir (como alguns fugiram, é claro) e os pobres e ignorantes seriam entregues à sua sorte.

Muito amor.

Elizabeth

 

14 de abril

Estou FURIOSA com o que os jornais dos EUA andam dizendo, pelo que vejo citado, e com os comentários do adido cultural que veio jantar conosco na noite passada…

Ele estava admitindo que os EUA eram pró-Carlos embora, claro, não possa dizer isso abertamente, e que as coisas saíram da maneira como eles queriam. Enquanto isso, argumenta que é errado retirar os direitos civis etc. Bem – idealmente falando, é claro –, o que é que se pode conseguir num país pobre, fraco, praticamente sem polícia nenhuma? Os EUA podem enfrentar espiões, sindicalistas, corridas armamentistas; o Brasil obviamente não pode. Se tivessem dado esse passo trinta anos atrás, na primeira vez que Vargas ficou fora do poder – cassando seus direitos civis –, ele nunca teria sido capaz de voltar como ditador, e todos os anos de degradação e abatimento poderiam ter sido evitados… R. Aron [18] foi a única pessoa que conseguiu entender as coisas por aqui – e sou grata a Carlos por ter citado Aron. Pergunte para Hannah Arendt! Aposto – se ela souber alguma coisa sobre o Brasil – que ela estaria de acordo com Carlos agora. Claro que é o que ele faz – o que ele é capaz de fazer – e eu gostaria de poder ficar longe por dois anos e não ter de passar pela próxima fase.

É gozado, os americanos esbravejam sobre “democracia” há anos – um grande princípio geral –, depois esbravejam de novo quando espiões chineses são presos ou uma dúzia de conhecidos desonestos e cretinos são mandados para o exílio… É um estranho senso de proporção acerca dos países, para dizer o mínimo.

Claro que um problema é que os EUA nunca mandaram pessoal de primeira linha para cá. Gordon [19] comportou-se bem, acho. Ele fez uma piada: “Agora os EUA têm a sua Casa Branca e o Brasil tem o seu Castelo Branco…” Não é a perfeita piada de sala de aula de que os estudantes riem educadamente? Coitado do professorzinho.

 

1º de maio de 1964

Querida Elizabeth

Não acho que a revolução aí não deu certo. A última Time traz um levantamento da apropriação indevida de terras feita por Goulart – um por cento das terras do Brasil! Ele parece mais desonesto do que Kubitschek. Parece loucamente ineficiente, desonesto e corrupto. Só o seu ministério, acho, era de figuras ilustres, mas é possível escrever uma tragédia ótima sobre como o presidente preparou a própria queda. O problema com as matérias da imprensa é que há excessivas palavras políticas fixas. Atualmente, elas não significam a mesma coisa em dois países, quaisquer que sejam, e até de um mês para o outro os fatos mudam. Acho que todo mundo tem a sensação de que o Brasil estava caindo rapidamente no caos, até mais rapidamente do que os brasileiros sabiam ou previam, até o último momento.

Você fala sobre o temperamento artístico, que não combina com esses assuntos. Mas você capta as coisas de forma bem perspicaz e retorna à superfície com as mãos cheias. Sou um pateta nessa matéria. Gostaria que você pudesse achar formas, narrativa, descrição, ficção, poemas para expor isso. Talvez seja preciso tempo e distância. Olho nenhum no mundo viu o que seus olhos viram. Tenho uma vaga imagem de uma sequência de poemas ao longo dos quais a Revolução se movimenta – nenhum enredo ou polêmica óbvios, mas a coisa corporificada, presente em todo o seu aspecto terrível, absurdo – bom, mau, real, confuso, esclarecido e, no fim, julgado. Não me refiro a nada neutro ou para além da política, é bem o contrário, tudo resgatado dos clichês levianos, duros, superficiais de que os que se afastam abrem mão da realidade, de que nós todos abrimos mão até daquilo que conhecemos bem. Estou pensando de fato que a Revolução podia fornecer a você um fio para costurar as impressões coletadas ao longo da sua estada de dez anos.

 

Samambaia, 22 de maio de 1964

Querido Cal

Carlos vai partir nesta noite para ficar uns meses fora – esse estranho sistema brasileiro é uma boa idéia no caso dele. Se ficasse, sem dúvida iria começar a lutar contra o Castelo Branco, mais dia, menos dia, pois é da natureza dele lutar, e agora que perdeu a sua GRANDE causa, pelo que mais pode lutar? Quero dizer, ele venceu este round contra os “comunistas”, então o que vai fazer agora? Há pessoas muito boas e honestas no novo gabinete – o New York Times etc. estão absolutamente ERRADOS –, mas estou tão farta de tudo isso que não suporto mais pensar no assunto.

Elizabeth

 

27 de agosto de 1964

Querido Cal

Todos estão morrendo. Um de nossos melhores amigos, o arquiteto Affonso Reidy (não sei se você o conheceu – magro, alto, impecável, mais escocês do que brasileiro, e um dos melhores arquitetos) acabou de morrer aos 54 anos, depois de seis meses terríveis. Lota ficou muito abalada (por essa razão parti de Londres duas semanas mais cedo – para chegar aqui antes da morte dele). Reidy e sua esposa tinham uma casa de fim de semana perto da nossa e agora acho que não sobrou ninguém para a gente conversar ou receber em casa para jantar no domingo – está um deserto. Reidy também era uma das poucas pessoas sãs com quem Lota tinha trabalhado. Ela jura que todos os homens brasileiros são ligeiramente doidos – as mulheres podem ser sãs, mas infelizmente são retardadas mentais…

O Brasil?, você me perguntou. Eu prefiro não pensar nisso. Quando voltei, tive a sensação de que não conseguiria suportar, e não conseguiria mesmo se não fosse por Lota, claro. Agora já estou me acostumando um pouco outra vez. Mas tenho de ficar me lembrando de que Lota, de algum modo, assume isso a sério, de que ela está fazendo um trabalho útil e muito bem-feito, e de que no ano que vem nós vamos para a Europa outra vez (agora isso parece estar mesmo certo). Há uma tênue depressão, a inflação anda horrível, embora não tenha mudado grande coisa enquanto estive fora, e se sente uma agitação em toda parte e o tempo todo.

Elizabeth

 

Rio, 6 de julho de 1965

Querido Cal

Não houve muito estardalhaço sobre a ida de soldados brasileiros para a República Dominicana – acharam que ia haver, mas não houve. Fico acordada e rezo de noite para que ninguém seja morto! (Três feridos voltaram até agora. O primeiro caiu de uma árvore. Como diz L., na certa estava roubando frutas, no tradicional estilo brasileiro. Um outro explodiu sua própria granada de mão, nada sério, e um de fato foi ferido pelo “inimigo”, de novo sem gravidade.) Os jornais dizem que o Exército americano os enviou para “comandar o trânsito – com calma e tranquilidade”! Isso parece o procedimento rotineiro do Exército – mandar um ferreiro costurar ou soldados que falam francês para o Japão…

Elizabeth

 

Rio, 2 de agosto de 1965

Querido Cal

Li de fio a pavio uma enorme antologia – Uma Controvérsia de Poetas – e os seus três poemas familiares na antologia são os ÚNICOS que me fariam, bem, atravessar a rua para cumprimentar o poeta. Talvez haja um ou dois bons além deles, mas nada de comparável, na verdade. Achei o livro inteiro tremendamente deprimente; fez me sentir muito démodé, como diz Lota. Eu tenho de escrever prosa usando palavrões, f…, m… e assim por diante, vejo isso… – e não é estranho que de todos os problemas e de todo o nervosismo possa sair algo razoavelmente “sereno”? Bem, agora eu nem me importo se for mal recebido – o que você disser já é o bastante!

Também acabei de ler o último livro de Sylvia Plath e o de Auden – e queria saber o que você acha deles. Sylvia P. me parece uma perda trágica – embora eu mal consiga suportar ler seus poemas até o fim, são muito sofridos. Um pouco informes demais para o meu gosto, também – mas um verdadeiro talento, não acha? E Auden parece estar desfrutando em excesso uma espécie de velhice prematura… Há alguns bons, porém.

Bahia – bem, acho que você deu uma passada por lá, ou ficou lá por uns dias bem insatisfatórios que eu me lembre, quando ninguém conseguia encontrar ninguém. Passei uma temporada ótima de fato, mas é tão pobre – mesmo comparado com o pior do Rio – que acaba sendo muito deprimente. Ruínas magníficas, na maior parte – e ouvi muita música meio africana, e comi um monte de comida meio africana. As prostitutas (sempre em volta das igrejas, na rua atrás da igreja) quase arrastaram Ashley, que estava do meu lado, e assoviavam e chamavam por ele das janelas das sacadas. Como ele é o homem de aspecto mais professoral do mundo – alto, magro, de óculos muito grossos e costas curvadas –, acho que ficou um pouco assustado. Todos os “intelectuais” são assim, muito de esquerda – quando não são comunistas, como Jorge Amado – e muito friamente polidos conosco, americanos. Ficamos oito dias.

Lota anda estafada de tanto trabalho. Levamos o maior susto por causa do coração dela. Sem contar nada para Lota, chamei o médico e o cardiologista para virem no domingo de manhã e tudo está bem, graças a Deus. Em consequência dormimos direto por umas quatro horas – de alívio, suponho. Lota anda tremendamente importante ultimamente e, é claro, correm rumores (sempre correram, na verdade) de que ela está ganhando uma “fortuna” com o seu parque e guardando o dinheiro no exterior – uns dizem que nos EUA, outros na Suíça… Carlos está cometendo um erro depois do outro, me parece – perdeu a mão, ou algo assim. Duvido muito que venha a ser eleito agora. (E tenho medo que seja eleito.)

Elizabeth

 

Ouro Preto, Minas Gerais,

19 de setembro de 1965

Querido Cal

O Rio começou a ser demais para mim outra vez e por isso subi para cá – com a intenção de ficar só duas semanas. Agora já faz um mês e é provável que fique mais duas semanas. Depois é possível que Lota tire uns dias de folga, suba para cá e então volto com ela. Tem sido uma fase absolutamente mortal para ela e me sinto culpada por abandoná-la, mas eu não estava ajudando grande coisa, de fato – vagando pelo apartamento no meio do maior calor, tentando trabalhar, sem nenhum sucesso, enquanto ela enfrenta políticos, salafrários, jornalistas, dezoito horas por dia… Agora escrevo para ela quase todo dia e tenho certeza de que ela aprecia minhas cartas mais do que minha companhia por ora, coitada! Aqui é muito parado, mas adoro. Fico com a nossa amiga Lili Correia de Araújo, a dona do hotel onde você ficou, mas moro na casa dela – um enorme prédio construído numa encosta na periferia da cidade, com uma mina de ouro no quintal, além de alojamentos de escravos em ruínas, jardins morro acima em degraus nivelados e água corrente que desce por um maravilhoso conjunto de aquedutos, túneis, fontes, tanques de pedra etc. agora cobertos por samambaias muito crescidas e musgos. Lili tem uma aterradora coleção de algemas e argolas de prender os pés encontradas em escavações no terreno. Ela é dinamarquesa, casada com um pintor brasileiro muito tempo atrás, quando estudava arte em Paris. Nossos idiomas ficam muito misturados. Eu a chamei de tow-headed [mulher de cabelo muito claro] e ela pensou que eu tinha dito two-headed [de duas cabeças]. Ela diz your ass [sua bunda] em vez de dizer your ace [seu ás] quando estamos jogando cartas.

 

Rio, 18 de novembro de 1965

Querido Cal

Houve uma pequena manifestação de intelectuais na frente do hotel Copacabana Palace, e dois ou três homens foram presos. [20] Porém, não tenho muita simpatia por eles tampouco. NÃO há uma “ditadura” aqui – acho que todos eles só querem virar mártires, na verdade. Por outro lado, parece que a nossa diplomacia latino-americana se perdeu de todo e transferiram tudo para as mãos do Pentágono – tenho a sensação que, de fato, é apenas uma manobra militar.

Gosto de Ouro Preto porque tudo aqui foi feito na hora, à mão, de pedra, ferro, cobre e madeira – e tiveram de inventar muita coisa –, e tudo resistiu muito bem durante quase 300 anos. Eu achava que era só sentimentalismo da minha parte – agora estou começando a levar isso mais a sério. Bem, estou curiosa para ver minha terra natal outra vez. Conte o que anda fazendo – em Harvard de novo? E eu estou morrendo de vontade de ver você & conversar com você.

Amor.

Elizabeth

 

15 West 67 Street, Nova York,

15 de setembro de 1966

Querida Elizabeth

Em meados do verão, seguindo meu desejo e ignorando meu bom senso, fui a uma festa de aniversário para Jackie Kennedy: um edifício branco em forma de torre, quartos alugados para os convidados pela nossa anfitriã, a senhora Paul Mellon, sob os olhares de relance vespertinos do que deviam ser outros convidados, mulheres com penteados de 30 centímetros de altura, sorrisos, mas nada de apresentações, informação de que o nosso barco ia chegar às oito, que podíamos tomar um drinque ou alguns drinques grátis, nadar sozinhos – na água quase congelada do Maine –, um passeio de carro solitário e maçante, e o regresso para os convidados reunidos e bebendo. Pessoas com nomes como os dos figurões do noticiário, das finanças, da política, mas muitas vezes sem nenhum parentesco, ou primos distantes. Barco com champanhe em copos de papel, uma lancha acompanhando nosso barco, lindo pôr do sol, creditado ao planejamento da senhora Mellon. Depois atracar no cais, enxames de novos conhecidos-desconhecidos com lampiões, grande barraca, ar de simplicidade rústica muito cara. Horas de espera, com a sensação de que ninguém do nosso mundo era conhecido de nenhum dos outros convidados, exceto Mike Nichols. Ar de drama e espera por Jackie, o avião fretado para Lillian Hellman e os Styron. Após um tempo, de súbito, Jackie se faz presente e conversa com Mike Nichols; o grupo de Hellman está lá, os dois senadores Kennedy, McNamara. Mais tarde, um jantar suntuosamente simples: só consigo me lembrar das costelas de carneiro cor de sangue. Mike Nichols ao lado de Jackie, depois pessoas de meia-idade dançando as danças novas, não muito frenéticas, mas jovens demais para mim. A sensação foi de uma festança para uma extemporânea Maria Antonieta ligeiramente cafona, quando a idade para ficar empolgado com esse tipo de coisa já passou, o esplendor da alta sociedade, um pouco sinistro e de mau gosto num mundo de pobreza e sangue. A pessoa mais interessante para conversar era Bobby Kennedy, mas, como Carlos, junto com a franqueza, ele dá uma sensação assustadora de ambição e poder.

Cal

 

3 de março de 1967

Querido Cal

Fiquei comovida com a “leitura” do meu poema… meu único poema em um ano ou mais. Bem, é simpático da sua parte gostar dele, certamente não poderia ser muito mais simples do que é. Fiquei debruçada naquela janela dia após dia (foi escrito um ano atrás, em outubro – dane-se a New Yorker! Mas é o único jeito de ganhar algum dinheiro) porque a casa VELHA aonde fui e que comprei fica em frente à casa de Lili, numa diagonal, no outro lado da rua – e também na frente de uma cascata, que passa embaixo das janelas. Tenho uma vista magnífica que inclui seis ou oito igrejas. Estou instalando uma varanda pequena, mas autêntica, nos fundos, para tomar o café da manhã ou tomar um café depois do jantar. A casa é de 1720-40, refeita muitas vezes, claro, mas L. e eu sempre quisemos ter uma casa velha para brincar, e ela está planejando um jardim celestial e murado, com uma fonte etc. É provável que só passemos lá um mês ou dois de cada vez – mas eu espero que você veja a casa num dia desses.

Mas tivemos de abreviar nossa estada em duas ou três semanas. Lota estava piorando e eu estava louca para levá-la para casa de novo – e ela também queria vir, diferente da sua personalidade viajante de costume. Ela detestou Londres – não sei se algum dia serei capaz de levá-la a Londres outra vez. É pena porque acho que foi a sua saúde que a deixou tão crítica – chegou a me convencer que Trafalgar Square é feia e completamente ERRADA… & assim com tudo o mais! Faz muito tempo que esse ataque vinha se preparando em Lota, os médicos me garantiram – ela estava com um aspecto horrível quando voltei em julho. Mas não consigo deixar de me culpar por ter me afastado, embora eu achasse que precisava deixar a atmosfera daqui por um tempo – & isso faz-me sentir culpada. Ela ficou numa clínica aqui por dois períodos – depois, por fim, eu também desabei e fui para a mesma clínica (dirigida por freiras de Barcelona), mas ela estava dez vezes mais doente do que eu e só está melhorando muito gradualmente. Agora no dia 8 vamos para Samambaia passar uma longa temporada, por isso se você escrever POR FAVOR use o endereço de Petrópolis. Ela ESTÁ muito melhor, mas passamos de fato um mau pedaço & torço muito para que ela abandone aquele emprego de todo – ah, bem, tudo isso é muito complicado para ir mais a fundo e tenho certeza de que seria a mesma coisa que trabalhar para um governo ou uma prefeitura em qualquer outro lugar do mundo…

Uma das questões mais sérias é que Carlos traiu todos de uma forma horrível – depois de todos os seus anos de luta contra a gangue de Vargas e a corrupção, de repente, por razões políticas, passou para o lado deles (e dos comunistas) de novo. Faz anos que não consigo suportá-lo; ao menos continua a escrever cartas de amor para L.; na verdade, tenta fazer as pazes com ela de novo – mas como Carlos deixou, de fato, o “parque” de Lota indefeso, e agora ele pode muito bem ser dividido em duas partes, ela ainda se sente muito amargurada e não creio que algum dia vá mudar. De todo modo, para o inferno com os políticos.

Lembranças para a família – muito amor – e obrigado pelo seu livro.

Elizabeth

 

Caixa Postal 279, Petrópolis, Est. do Rio de J. (melhor agora), 23 de abril de 1967

Querido Cal

Carlos começou (com seus ex-inimigos, a maioria dos quais está oficialmente no exílio ou pelo menos não pode ocupar cargos públicos por dez anos) uma coisa chamada “Frente Ampla”! Faz mais de dois anos que não o vejo. Parece que ficou ofendido com uma pequena matéria que escrevi para o New York Times, que foi abominavelmente cortada e desfigurada, mas me atrevi a dizer que o Rio estava em muito mau estado e não incluí um elogio a ele…

Esse novo presidente, [21] por mais sinistra que fosse a sua “imagem” quando estive nos EUA, na verdade é provavelmente um pouco mais liberal do que o último, mas não parece muito promissor. Lota teve diversas entrevistas com o novo governador  [22] (que derrotou Carlos duramente) e ele é desolador – disse para Lota que essa parte da cidade estava boa (está caindo aos pedaços) e não fazia nenhum sentido tentar fazer nada sobre a “Zona Norte” onde vivem milhões de pobres. Imagine dizer uma coisa dessas. Sem falar nos deslizamentos de terra, com centenas de mortos. [23] “Não é culpa minha se a terra resolve se mexer quando sou governador”, e assim por diante – inacreditável. Um velho homem de Vargas.

Lembranças à esposa e à filha, se estiverem com você outra vez.

Elizabeth

 

Nova York, N.Y., 10 de julho de 1967

Querido Cal

Lota tem um ótimo psiquiatra – shrink, como dizem meus alunos e você também! Não fui exatamente tratada, mas fui vê-lo uma vez por semana mais ou menos – e graças a Deus Lota tem esse psiquiatra e a nossa criada dedicada – eu não permitiria que fosse de outro modo. (Ele lê você – o shrink –, Deus também lê, sem dúvida.)

Elizabeth

 

1599 Pacific avenue, São Francisco, Califórnia, 9 de janeiro de 1968

Querido Cal

Vou passar a borracha em toda a minha estada no Brasil; foi de fato terrível demais para se comentar – não só a arrumação das malas, por mais horrível que tenha sido, mas o comportamento das pessoas que pensei que eram minhas amigas por quase dezesseis anos. Creio que tudo pode ser explicado, mas tive antes a sensação de que eu estava sendo usada como uma espécie de bode expiatório – sem exagero – e agora acho que a morte de Lota deixou todo mundo com uma sensação de culpa, e então eu apareci e fui inconscientemente usada desse modo. Seja como for, vou levar anos para esquecer e estou planejando como poderei voltar a Ouro Preto sem passar perto do Rio. Houve algumas exceções, claro, graças a Deus. Mas se alguém por lá quiser me ver outra vez vai ter de ir a Ouro Preto me visitar.

A casa lá é absolutamente adorável – espero que você possa vê-la um dia. Deve ficar totalmente pronta em julho e, se eu conseguir economizar o dinheiro necessário, vou tentar voltar lá no verão, eu acho. Passei dez dias lá – um alívio enorme na maior parte do tempo. Vinicius de Moraes também estava hospedado no hotelzinho, “repousando”, e foi uma ótima companhia – é de fato muito gentil e simpático. Levou-me até o avião quando fui embora do Rio (eu estava indo sozinha, num táxi, do meu hotel) – e chegou até a pagar uma parte do meu excesso de bagagem, de outro modo eu nunca teria embarcado. Nesta altura, ele deve estar visitando Nova York, acho. Seja como for, tem tanta admiração por você que assumi a responsabilidade de lhe dar o endereço do seu apartamento (não do outro) e o obriguei a jurar segredo quanto a isso. Talvez ele vá procurá-lo e vocês possam ir almoçar juntos ou algo assim… Ele foi um ótimo amigo para mim nesse período.

Graças a Deus, Cal, agora estou com uma companheira vivaz, gentil, divertida – não creio que eu fosse capaz de morar sozinha por enquanto, ou morar em Nova York, e seguramente não no Brasil. Suzanne é de fato uma boa garota e datilografa todas as minhas cartas de trabalho; vai datilografar para mim etc. “Secretária” soa decadente para mim, mas talvez eu estivesse mesmo precisando de uma secretária, e por muito tempo!

Com muito amor sempre.

Elizabeth

 

[Ouro Preto, Brasil],

9 ou 10 de dezembro de 1969

Querido Cal

Agora acho que Ouro Preto é um lugar maravilhoso para visitar, mas eu não queria morar aqui… pelo menos acho que não. Neste momento, faz uma noite maravilhosa depois de um mês de chuva; as pedras estão lindas, esta É a casa mais bonita do mundo e o guarda-louças foi pintado. No entanto eu gostaria de levar a casa, ou a casa de Lota, pelo ar – como aquela igreja na Itália –, milagrosamente para Connecticut ou algum estado assim.

Vinicius de Moraes esteve aqui rapidamente na semana passada – imediatamente seguido pela sua quinta esposa, [24] para ficar de olho nele, grávida de seis meses, e com mais três filhos de um casamento anterior… Perguntou tudo sobre você e de algum jeito viu alguns de seus sonetos, que admirou imensamente. Coitado, parece doente, terrível, e não consegue parar de casar & beber. Tem planos para ir a N.Y. em maio, mas duvido que faça isso.

 

Belo Horizonte, 3 de maio de 1971

Querido Cal

Me dou conta de que o meu mundo brasileiro chegou de fato a um fim e tenho de sair dele depressa. Levei muito tempo para reagir, como sempre. Céus, mas espero que você esteja bem e que tudo esteja bem com você.

Elizabeth

 

[1] Howard Moss (1922-87), poeta e editor americano.

 

[2] André Le Nôtre (1613-1700), paisagista francês, jardineiro de Luís XIV, criador do parque de Versalhes.

 

[3] Carlos Lacerda (1914-77).

 

[4] No início de setembro, os militares e os “legalistas” que queriam honrar a Constituição selaram um compromisso precário, mudando temporariamente o regime para o parlamentarismo, governado por um primeiro-ministro. Isso permitiu que Goulart assumisse a Presidência no dia 7 de setembro como uma autoridade simbólica, na dependência de um plebiscito nacional.

 

[5] Não foi publicada.

 

[6] John Greenleaf Whittier (1807-92), poeta abolicionista e americano.

 

[7] Henry Wadsworth Longfellow (1807-82), poeta americano.

 

[8] Arthur M. Schlesinger Jr. (1917-2007), historiador americano, na época conselheiro do presidente John F. Kennedy.

 

[9] Ver Adeus às Armas, Ernest Hemingway (1929).

 

[10] Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

[11] Refere-se aos versos 136-137 do poema “A vaidade dos desejos humanos” (1749), de Samuel Johnson, a respeito de um intelectual idealista.

 

[12] Rachel de Queiroz (1910-2003).

 

[13] Elizabeth Bishop traduziu uma parte de Morte e Vida Severina.

 

[14] As traduções de Elizabeth Bishop dos contos “The smallest woman in the world”, “A hen” e “Marmosets” (respectivamente “A menor mulher do mundo”, “Uma galinha” e “Macacos”), de Clarice Lispector, foram publicadas na The Kenyon Review, em 1964.

 

[15] Romance de Alexander Soljenítsin (1918-2008) publicado clandestinamente na União Soviética e traduzido para o inglês em 1963.

 

[16] Alusão a Romeu e Julieta, de Shakespeare. Imprecação feita por Mercúcio, ao morrer, contra os Montecchio e os Capuleto.

 

[17] José Maria Alkmin (1901-74).

 

[18] Raymond Aron (1905-83), intelectual francês.

 

[19] Lincoln Gordon, o embaixador americano no Brasil.

 

[20] A manifestação foi na frente do Hotel Glória e dela participaram oito intelectuais, entre eles Antônio Callado, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade.

 

[21] Arthur da Costa e Silva (1902-69).

 

[22] Francisco Negrão de Lima (1901-81).

 

[23] Trata-se das enchentes de fevereiro e março de 1967.

 

[24] Na verdade, sua sexta esposa, Cristina Gurjão.

Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho, jornalista, diretor de redação da Folha de S.Paulo, é autor dos livros de ensaios Queda Livre (Companhia das Letras) e Seleção Natural (Publifolha) e da coletânea teatral Cinco Peças e Uma Farsa (CosacNaify).

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