"Badminton é como uma dança. Cada atleta tem sua coreografia", diz Ygor Coelho. Ele costumava praticar o esporte dentro de uma piscina vazia
Ver dados da foto "Badminton é como uma dança. Cada atleta tem sua coreografia", diz Ygor Coelho. Ele costumava praticar o esporte dentro de uma piscina vazia FOTO: VCG/GETTY IMAGES

Força na peteca

Pela primeira vez, o Brasil levará jogadores de badminton a uma Olimpíada
Tiago Coelho
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"Badminton é como uma dança. Cada atleta tem sua coreografia", diz Ygor Coelho. Ele costumava praticar o esporte dentro de uma piscina vazia FOTO: VCG/GETTY IMAGES

Ygor Coelho está sozinho na quadra. Com a mão direita, segura uma raquete de grafite. Com a esquerda, uma peteca de base circular e penas brancas. Depois de arremessá-la para o alto, dá-lhe uma raquetada forte. O impacto a faz voar uns 5 metros em linha reta, antes de descrever um arco e começar a cair, graciosa. O jovem se desloca rapidamente e a impede de tocar o solo, desferindo um novo golpe. Repete a sequência inúmeras vezes, como se jogasse frescobol consigo mesmo. A peteca, ou volante, parece inofensiva. Pesa somente 5 gramas e mede 7 centímetros, mas pode atingir a velocidade de 400 quilômetros por hora se levar uma boa raquetada.

O aquecimento de Coelho ocorre quase em silêncio. Enquanto ele se movimenta pelo piso alaranjado de polipropileno, ouvem-se apenas seus tênis arranhando o chão e o ruído discreto da raquete cortando o ar. Negro, o rapaz de 19 anos nasceu e se criou na favela da Chacrinha, em Jacarepaguá, Zona Oeste carioca. Foi lá que, contrariando as expectativas, não só conheceu o badminton como se destacou no esporte, originário da nobreza inglesa. É igualmente na favela que o garoto treina para os Jogos do Rio. Pela primeira vez, o badminton brasileiro participará de uma Olimpíada. Minúscula, nossa delegação contará com dois únicos representantes: Coelho e Lohaynny Vicente, de 20 anos, que também mora na Chacrinha.

À medida que se aquece, o atleta olímpico vai sendo rodeado por outros jogadores, que o observam atentos. Estão todos à espera do treino noturno, marcado para as 19 horas. Antes de cumprimentar os companheiros recém-chegados, Coelho dá mais uma raquetada. A peteca sobe velozmente e cai devagar. Quem a pega, ainda no ar, é Jonathan Mathias. O novato de 16 anos a devolve para o veterano, não sem antes desafiá-lo, zombeteiro: “Hoje você vai tomar uma coça.” Coelho sorri e aceita o duelo.

 

Naquele mesmo espaço da Chacrinha – que atualmente abriga o Miratus, um sofisticado centro de treinamento, com quatro quadras profissionais –, já existiu uma piscina vazia. Ygor Coelho costumava passar bom tempo dentro dela, praticando badminton sob as orientações do pai, o capixaba Sebastião Dias de Oliveira, que trocou o Espírito Santo pelo Rio ainda pequeno, na década de 60. Filho de uma empregada doméstica, Oliveira acabou despachado para uma unidade da extinta Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), em Caxambu (MG). Sua mãe, solteira, precisava dormir na casa do patrão, que não lhe permitiu ficar com o menino. Quando deixou a instituição, logo depois de completar 18 anos, Oliveira voltou à capital fluminense e virou recreador do Pedro II, um dos mais antigos colégios públicos do país. Ali, um professor lhe apresentou o badminton. Encantado, Oliveira resolveu ensiná-lo às crianças da Chacrinha, onde mora, com o intuito de mantê-las longe da criminalidade. O projeto floresceu e, em 1998, resultou no Miratus.

Sem fins lucrativos e apoiado tanto pela comunidade quanto pelas iniciativas privada e pública, o centro de treinamento reúne aproximadamente 200 jovens, a maioria negra, e vem contribuindo para tornar o esporte menos elitista. “Nos times profissionais adultos, ainda predominam os jogadores de classe média-alta. Mas as equipes de base têm acolhido um número cada vez maior de atletas pobres, graças à criação de boas escolas nas periferias, como o Miratus”, explica José Roberto Santini Campos, superintendente de gestão esportiva da Confederação Brasileira de Badminton. Estima-se que haja, no país, entre 60 e 70 mil praticantes da modalidade. Cerca de 1 400 estão filiados à CBBd.

Parecida com o tênis e derivada possivelmente de uma competição trazida da Índia por militares britânicos, a versão moderna do esporte despontou no condado de Gloucestershire, sudoeste da Inglaterra, em meados do século XIX. O duque de Beaufort a batizou com o mesmo nome de seu palácio rural, a Badminton House, onde se disputavam as partidas. Mas apenas em 1992, nos Jogos de Barcelona, é que a modalidade ganhou status olímpico.

O filho de Sebastião de Oliveira conquistou o direito de ir à Olimpíada após vencer o 30º Brazil Open 2015, torneio em que desbancou na final o guatemalteco Kevin Cordón, tido como favorito. No começo do ano passado, quando iniciou a série de competições que poderiam classificá-lo para os Jogos, o atleta carioca ocupava a 200ª posição no ranking internacional e a terceira no nacional. Hoje é o 60º melhor jogador do mundo e o primeiro do país.

 

Na quadra da Chacrinha, o segundo game do confronto entre veterano e novato acaba de terminar. Jonathan Mathias venceu. Como Ygor Coelho ganhou o anterior, os garotos partem para o terceiro e último game. Mathias saca. A peteca cruza a rede e Coelho a rebate na diagonal. Mathias se apressa, consegue impedi-la de cair no chão e a devolve para o adversário, que a golpeia sem dó. A peteca aterrissa aos pés de Mathias. Ponto. Coelho festeja, agitando a raquete.

A partida segue intensa, e os oponentes parecem bailar. “O badminton é mesmo uma dança. Cada jogador tem a sua”, diz Coelho. A coreografia dele – ágil, compenetrada, repleta de saltinhos – lembra os movimentos do frevo. Para Santini Campos, da CBBd, a principal virtude do atleta é a paciência. “Coelho sabe como manter a calma, prolongar o jogo e marcar o ponto na hora certa.” Mas calma, no caso, nem de longe significa apatia. Acostumado a enfrentar asiáticos e europeus, o jogador define a postura de seus rivais como “cerebral, calculada”. Já a dele próprio, compara, é “emocional, vibrante”. “Se não vibro na quadra, me sinto mole. Sempre que pontuo e saio vibrando, noto que os adversários se desconcentram. Isso interfere no placar.”

O último game está empatado em 20 a 20, o que leva os competidores a uma prorrogação de dois pontos. No lance decisivo, Mathias joga a peteca para Coelho, que a rebate com dificuldade. O antagonista a devolve confiante. Dessa vez, porém, Coelho acerta a peteca como se não houvesse amanhã e a manda direto para os pés de Mathias. 22 a 20. “Ah!”, vibra o ás da Chacrinha.

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