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Gato expiatório

A Prefeitura do Rio contra o maracatu
Paula Scarpin
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IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

Apesar de frequentar assiduamente o Aterro do Flamengo, Regina Helena de Oliveira nunca ouvira falar em Tambores de Olokun até o fim do mês passado. Seus horários não coincidiam com os do bloco de maracatu, que ensaia no parque carioca a cada dois domingos, sempre ao entardecer. Foi com surpresa, portanto, que a advogada de 56 anos recebeu o convite do superintendente da Zona Sul, Marcelo Maywald, de se reunir com membros do Tambores e de outros dois blocos para tratar de um assunto que sempre lhe foi caro: a saúde dos gatos. “Eu reclamo há mais de vinte anos das algazarras no Aterro, sem sucesso”, contou.

Ativista dos direitos dos animais, Oliveira faz parte de um grupo – majoritariamente feminino – que cuida pessoalmente dos gatos que vivem nos 1,3 milhão de metros quadrados do parque projetado por Lota de Macedo Soares. “Tem muita gente que fala: ‘Lá vão as loucas dos gatos’”, disse, ressentida. “Ninguém reconhece o trabalho que a gente faz. Quando eu comecei, havia mais de mil gatos no Aterro. Hoje são cerca de 400.” Isso porque, além de dar comida e vacina aos animais, os ativistas castram e promovem feiras de adoção dos filhotes.

Seus relatos do impacto das festividades na população felina do Aterro são dignos de filme de terror. Assustados com o barulho, muitos bichanos fogem, invadindo o território de outros gatos, desencadeando brigas por vezes fatais. Ou pior, correm para a via expressa e acabam atropelados. Há ainda os que morrem de ataque cardíaco nas festas de Réveillon, quando o bairro tenta não ficar tão atrás de Copacabana em termos de fogos de artifício. O caso mais cruel, entretanto, aconteceu durante um show da cantora Claudia Leitte na praia: na manhã seguinte, Oliveira encontrou um gatinho enforcado com um cadarço de tênis. “Não gosto nem de lembrar”, disse. E emendou: “Mas realmente, esses tais Tambores eu desconheço.”

O Tambores de Olokun é um bloco pequeno, relativamente novo com seus 5 anos de idade, que não costuma reunir mais do que 300 pessoas num dia normal. Muita gente, inclusive, só tomou conhecimento da sua existência no domingo 22 de outubro, quando um agente da prefeitura tentou impedir o ensaio. Filmado, o bate-boca entre o agente – que não quis se identificar – e os músicos, dançarinos e entusiastas acabou sendo compartilhado à exaustão nas redes sociais. Num momento mais acalorado, o funcionário ameaçou prender o mestre de bateria, Alexandre Garnizé, e pediu reforços da Guarda Municipal.

O músico reconstituiu a cena à piauí: “Uma guarda apareceu perguntando ‘É aqui o Olodum?’, e eu respondi pra ela: ‘Não, meu amor, o Olodum tá na Bahia. E, enquanto eles louvam o céu, a gente louva as profundezas” – na mitologia iorubá, Olokun é uma divindade poderosa e irritadiça, que domina o fundo do mar. “Eles não apresentaram nenhum argumento para a gente não tocar. Eu não tenho dúvidas de que se trata de perseguição religiosa do bispo”, disse Garnizé, referindo-se ao prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. No fim, o festejo acabou sendo liberado, transcorrendo com gritos ocasionais de “Fora, Crivella” e outros menos eclesiásticos.

Ainda naquela noite, a Superintendência da Zona Sul soltou uma nota em sua página no Facebook. Dizia que o bloco não havia sido impedido de tocar, e que a solicitação do órgão era que o ensaio ocorresse em outro local “para atender ao pedido do Grupo de Protetoras dos Gatos do Parque do Flamengo”. A nota, terna e preocupada, afirmava que “o som dos tambores pode causar estresse e depressão, o que afeta a saúde dos animais”. No dia seguinte, Marcelo Maywald convidou integrantes do Tambores de Olokun e militantes da causa felina para uma conversa na sede da superintendência. No embalo, chamou também participantes de outros dois blocos que se apresentam no Aterro do Flamengo, a Orquestra Voadora e o Sargento Pimenta – que não têm conexão direta com religiões de matriz africana.

 

Na terça-feira, às cinco da tarde, Oliveira, Garnizé e mais uma meia dúzia de gatos pingados se encontraram na sala de espera da superintendência, no Leblon. Olhando o grupo de carnavalescos de soslaio, Regina Helena de Oliveira disse ao assessor de Maywald que, por ela, o Aterro seria gradeado, como o Jardim Botânico, onde só se entra mediante pagamento. A declaração de guerra foi interrompida pelo superintendente, que chamou todos para o seu escritório. Nervoso, Alexandre Garnizé preferiu ficar do lado de fora.

Marcelo Maywald abriu a reunião dizendo que tudo não passara de um mal-entendido do agente, que não tinha sido devidamente orientado sobre a solicitação dos protetores dos gatos, e que demorou para conseguir contatá-lo. Muito cortês, disse que gostaria apenas, se fosse possível, de receber uma comunicação prévia da realização dos blocos, para que a superintendência pudesse se organizar e oferecer suporte para o evento. Os carnavalescos se entreolharam com surpresa e desconfiança.

Maywald passou a palavra para Regina Helena de Oliveira, que, seguindo a toada do tom baixo, argumentou que não tinha nada contra nenhum bloco específico, que tampouco os conhecia, e repetiu os exemplos escabrosos de maus-tratos com que vinha se deparando – para horror e imediata empatia de todos os presentes. Uma dançarina do Tambores de Olokun se prontificou a conscientizar os frequentadores do bloco – e foi além: “A senhora não foi na nossa roda, mas eu já fui na sua feira. Adotei o meu gatinho lá.” Oliveira amoleceu ainda mais: “Sabe que você não me é estranha mesmo?” Decretou-se o armistício.

A reunião durou cerca de uma hora – período em que Alexandre Garnizé continuou sozinho, do lado de fora, descrente do empenho da prefeitura em prol da causa animal. Já Regina Helena de Oliveira pareceu sair do encontro mais animada (afinal, eram vinte anos de batalha). Ainda assim, disse não duvidar de que sua bandeira tenha sido usada como bode expiatório: “Todo mundo sabe que o Crivella detesta Carnaval.”

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