esquina

Genética não é destino

A sobrinha-neta faixa-preta do general

Gabriela Caesar
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

“Médici, o interfone está tocando”, um amigo avisou. Quem responde ao chamado é Natalia, de 18 anos. É conhecida assim desde quando estudava no tradicional Colégio Santo Inácio, em Botafogo, no Rio de Janeiro. As Natalias pululavam. Só numa das oito turmas se aninhavam três – a Moura, a Araújo e a Médici. A solução foi identificá-las pelo sobrenome, hábito comum também em ambiente militar.

Descalça, de short jeans e camiseta da Seleção, Médici autorizava o porteiro a permitir a entrada dos amigos que iam chegando ao apartamento da família, em Copacabana. Outros já se reuniam em frente à tevê, à espera do primeiro jogo da Copa do Mundo 2014. Porções de amendoim e salgadinhos estavam à disposição, um recipiente de pipoca passava de mão em mão, alguns tomavam refrigerante; outros, cerveja.

Quando o jogo começou, ainda faltavam três colegas da Unirio, onde Médici cursa ciência política. Na universidade, já ouviu de estudantes mais velhos que o pai de uma professora foi torturado. “Os veteranos falaram que ela vai me reprovar três vezes”, a anfitriã contou, logo acrescentando que não acredita nisso. As duas devem se conhecer pessoalmente no próximo semestre, mas Médici supõe que a outra já tenha ouvido falar dela.

A garota também não conheceu o tio-avô general, Emílio Garrastazu Médici. Presidente do Brasil de 1969 a 1974, no comando do país durante os piores dias do período linha-dura do regime militar, ele morreu em 1985; a sobrinha-neta nasceria dez anos depois. Muito distante do general, para quem a eleição direta era “uma piada”, Médici simpatiza com legendas de esquerda, o que certamente provoca arrepios de horror no além-túmulo avoengo. “Não há partido com o qual eu me identifique 100%”, ela ressalvou. Embora defensora da alternância de poder, num eventual segundo turno entre Aécio Neves e Dilma Rousseff, Médici fica com a petista.

Em palestras sobre a ditadura militar, é comum os amigos olharem para ela quando o general é citado. “Eu ligava mais quando era pequena.” Hoje está acostumada e não se incomoda em carregar o sobrenome do tio-avô. A situação mais desconfortável ocorreu quando ela ainda estudava no colégio jesuíta. Médici tinha 15 anos e conversava com um amigo, na sala de aula. Foi infeliz ao comentar com ironia a dificuldade que o professor de matemática tinha em pronunciar a “incógnita y”. O docente estava logo atrás dela e ouviu. “Você sabe por que eu tenho problemas de dicção?”, ele perguntou. “Porque fui torturado na ditadura.”

Muita bola rolou entre o “Brasil, ame-o ou deixe-o” da Copa de 1970, no México, e o #NãoVaiTerCopa deste ano. “Tenho medo do nacionalismo daquela época, qualquer radicalismo me assusta. O futebol é febre nacional, o país ainda para. Mas naquela época o acesso à informação era muito menor”, ela opinou.

Depois da vitória do Brasil em cima da Croácia por 3 a 1, no Itaquerão, em São Paulo, Médici e os amigos se aprontaram para ir a um bar, em Copacabana. Ela havia combinado de encontrar a namorada, Amanda. “A mãe dela acha que eu sou o capeta”, contou. As duas começaram a namorar num dia em que Médici chamou a então amiga para jogar videogame em sua casa, há um ano e meio.

A mãe de Amanda resiste a aceitar o romance. Já a família de Médici foi mais tolerante. A mãe, Patricia, demorou uns seis meses para processar a informação, enquanto o pai, Márcio, aceitou mais facilmente. “Pode trocar de partido político, sexo, só não pode trocar de time”, ele reagiu, referindo-se ao Fluminense.

Apesar de acompanhar a abertura da Copa, o esporte na vida de Médici é outro: o judô. Começou a praticar aos 6 anos, por sugestão do pai, que a via penar com os pas de deux e os grands jetés das aulas de balé clássico. Virou faixa-preta no começo do ano. Só interrompeu a atividade durante o ano de vestibular. “Foi pesado, horrível, nunca mais quero aquela época. Perdi 10 quilos”, Médici contou. “Fui cortando o cabelo aos poucos, porque era prático. Eu não tinha tempo nem de respirar”, ela relembrou.

Mas nem só das agruras do ensino médio são feitas as lembranças da escola. As amizades, por exemplo, sobreviveram valentemente aos martírios. Muitas das fotos fixadas no mural do quarto da garota mostram Médici, na época de cabelo comprido, com colegas do colégio. O que mais impressiona, no entanto, é a quantidade de livros no quarto, dispostos em cima da mesa de cabeceira, da escrivaninha, no closet. Médici os guarda até na despensa da cozinha. Encontra-se de tudo, de Harry Potter a um dos volumes da trilogia erótica Cinquenta Tons de Cinza, presente de uma tia. “Quando pequena, eu era tão viciada em ler que o castigo da minha mãe era me tirar os livros. Então eu tentava pegar escondido de volta, ou ia para a biblioteca da escola”, recordou.

Na mesa de estudos, vê-se A Escrita da Repressão e da Subversão: 1964–1985, de Vivien Ishaq, Pablo Endrigo Franco e Tereza de Sousa. A obra contou com a ajuda do pai da garota, quando ele trabalhava no Arquivo Nacional, no Centro do Rio. O sobrinho do general Médici filiou-se ao Partido Comunista quando era adolescente, nos últimos anos da ditadura militar. “Meu avô quase matou meu pai”, disse Médici, para depois reformular a frase: “Meu avô deu uma bronca nele.” Apesar de a família cultivar o tema da política, o avô de Médici, um dos irmãos do general, não conversa sobre o assunto durante os almoços de sexta-feira.

Aos sábados, Médici ensina inglês para crianças de 7 a 9 anos. Os cursos de curta duração no Canadá e nos Estados Unidos lhe deram bagagem para ser selecionada para o cargo. A garota também domina o italiano e o espanhol. “Quero estudar francês, vou começar do zero. Mais uma língua. Por que não? Vai me dar mais opção, mais possibilidades de intercâmbio também.” Ainda não está matriculada nas aulas do novo idioma, mas precisa arrumar espaço entre a faculdade e o treino quatro vezes por semana, à noite. “Chego ao judô bastante estressada das aulas e derrubo muita gente no chão”, disse, e sorriu.

Gabriela Caesar

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