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Golden boy

Um novato na Câmara do Rio
Malu Gaspar
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Moço, vamos fechar. Você pode ir embora. A sessão acabou”, disse o segurança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro em meados de outubro, cutucando as costas de Leandro Lyra. O rapaz de 24 anos, óculos e cabelos curtos se encontrava no fundo do plenário. Absorto, destrinchava a lei orgânica do município e as 700 páginas que compõem o regimento interno da Casa. Chegara logo depois do almoço para visitar o local onde vai trabalhar a partir de janeiro. Dias antes, ao receber 29 217 votos, tornara-se o décimo vereador mais votado da cidade, embora sem nenhuma experiência política, e o mais jovem da próxima legislatura. Também virou estrela do Partido Novo, que disputou sua primeira eleição. Registrada em setembro de 2015, a legenda propaga ideias tipicamente liberais, como redução do Estado e maior eficiência na gestão pública.

Lyra se mostrava ansioso para conhecer os atuais parlamentares e entender o funcionamento da Câmara. Mas a sessão foi morna. Aprovaram-se apenas umas homenagens e proferiram-se uns poucos discursos. Os mais ruidosos partiram de vereadores ligados à comunidade judaica, que protestavam contra uma nota do PSOL. A sigla de esquerda tachava de genocida o ex-primeiro-ministro de Israel Shimon Peres.

Apesar da pasmaceira, o calouro gostou do que viu. “A democracia é um troço que não falha tanto assim”, comentou no dia seguinte à visita, enquanto almoçava num shopping. “A Câmara tem de tudo. Tem o judeu de quipá, tem o neto de Leonel Brizola que chama o avô de comandante, tem o médico, a professora…”

 

Filho de engenheiros que trabalhavam para uma subsidiária da Vale no Pará, Leandro Lyra nasceu em Barcarena, ao sul de Belém, e cresceu num distrito construído pela mineradora. Desde cedo, à semelhança dos pais, manifestou interesse pelas disciplinas de exatas – tanto que, no ensino médio, participou de dez olimpíadas científicas internacionais, ora de matemática, ora de química ou física. Em todas, ganhou medalhas.

À beira dos 18 anos, trocou o Norte pelo Rio para frequentar o Instituto Militar de Engenharia. Iniciou, assim, uma bem-sucedida carreira universitária. “No IME, sempre fui ‘zero de turma’”, contou, orgulhoso. A expressão se refere àqueles alunos que figuram entre o primeiro (01) e o nono (09) lugares no ranking da classe.

Quando ainda estava na faculdade, Lyra logrou ser aceito no mestrado do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, onde hoje cursa o doutorado. Ele também fez intercâmbios na École Polytechnique, de Paris, e na Universidade Harvard, dos Estados Unidos. Trabalhou por alguns meses numa consultoria estrangeira, mas largou tudo em prol da política. Até então, a única eleição que enfrentara – e vencera – fora para orador de turma.

Candidatar-se pelo Novo significou encarar uma série de etapas nada usuais em outros partidos. Os interessados deveriam mandar para a legenda não só o currículo como um vídeo de dois minutos explicando por que desejavam ingressar na Câmara. Deveriam, ainda, preencher um questionário sobre os princípios da sigla. Depois, precisavam se submeter a uma espécie de prova oral, com uma banca de três pessoas.

Receberam sinal verde 140 dos 600 postulantes ao Legislativo de cinco municípios: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Uma vez aprovados, os trainees tiveram de assumir alguns compromissos. Por exemplo: diminuir para seis o número de funcionários em seus eventuais gabinetes e não pleitear mais do que uma reeleição. “Nunca imaginei me tornar vereador logo na primeira disputa”, confidenciou Lyra. “Pensei somente em descolar uns votos e auxiliar o Novo a atingir o quociente eleitoral necessário para botar um ou dois nomes na Câmara.” A legenda acabou se saindo melhor do que a encomenda. Elegeu três candidatos no país, além do jovem engenheiro.

 

Para começar a campanha, Lyra lançou mão dos 10 mil reais que economizara em sua curta trajetória profissional. O baixo orçamento inicial lhe permitiu explorar apenas a panfletagem e as redes sociais. Ajudado por cinco colegas do IME, gravou diversos vídeos com o smartphone e os publicou no Facebook. Usava como cenário uma sala de aula, uma praça ou a Baía de Guanabara e quase sempre abria sua explanação de maneira informal: “Tudo tranquilo? Eu sou Leandro Lyra.” Gesticulando pausadamente, expunha seu inconformismo diante dos problemas municipais, apresentava possíveis saídas e prometia o que todo candidato promete – honestidade e competência. Em paralelo, teceu uma rede de 170 apoiadores no WhatsApp, que se encarregaram de disseminar a propaganda. Funcionou. De compartilhamento em compartilhamento, os vídeos atingiram entre 4 mil e 112 mil visualizações.

Na última semana da campanha, empolgado, o rapaz pediu à turma do WhatsApp que se mobilizasse para juntar 15 mil reais. Com o dinheiro, pagou um anúncio no jornal O Globo. Depois, procurou gente que já conhecia o partido e passou novamente o chapéu. Queria bancar panfletos e outros anúncios. Um dos que toparam contribuir foi o técnico Bernardinho, do vôlei. Entusiasta do empreendedorismo, ele doou 10 mil reais. No fim das contas, a candidatura de Lyra arrecadou 140 mil reais. Cada um de seus votos custou 4,8 reais, menos que a média da Câmara carioca. Os eleitores se concentraram na Zona Sul da cidade, especialmente nos bairros que circundam a Lagoa Rodrigo de Freitas: Ipanema, Jardim Botânico, Gávea e Leblon.

Logo após o pleito, o engenheiro conheceu Paulo Messina, do PROS, matemático de formação que possui uma empresa de provedores de internet. Ele se elegeu vereador pela terceira vez. Debutou no Legislativo em 2008, aos 33 anos, completamente verde. “Me identifiquei com o Lyra e resolvi dar uma força. Se tivessem me ajudado no começo, teria sido muito mais fácil.” Na tarde em que o levou para visitar o plenário, o veterano lhe ofereceu dois conselhos: concentrar-se em poucos assuntos durante o mandato e batalhar por vaga numa comissão relevante, o que só será possível se o neófito obtiver o apoio de pelo menos treze parlamentares.

A distribuição dos cargos acontece já na posse, em 1º de janeiro. No fim de outubro, com as articulações a toda, o paraense ainda tentava se desvencilhar dos compromissos acadêmicos. Mas não tirava a Câmara da cabeça. “Preciso conseguir aqueles treze votos… Preciso e vou!”

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