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Guarda-fantasma

A ronda de cemitérios em São Paulo
Juliana Deodoro
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Era um começo de noite, numa segunda-feira de maio, e São Paulo estava mais caótica do que de costume. Uma tempestade de granizo havia caído pela tarde, derrubando mais de 170 árvores, matando duas pessoas e deixando parte da cidade sem energia elétrica. Como o trânsito simplesmente não andava, os motoristas de ônibus abandonaram suas últimas esperanças e desligaram os motores. Ambulâncias insistiam, contudo, e gritavam pedindo passagem. Alheio à confusão, Fernando Domingues abriu os portões do Cemitério da Consolação com um sorriso no rosto. Para ele, o dia de trabalho – ou melhor, a noite – mal havia começado. Quatro vezes por semana, Domingues, um homem esguio de 42 anos, cumpre a mesma rotina. Primeiro se certifica de que está tudo em ordem no mausoléu da família Matarazzo. Depois segue até a capela em estilo gótico construída em 1913 pela família Siniscalchi – sua obra preferida no cemitério. Termina a vistoria na estátua Grande Anjo, de Victor Brecheret.

Animado, ele aproveitou a ronda daquela segunda-feira para contar as histórias dos mortos ali enterrados – e também as dos vivos, em particular dos que violaram, furtaram ou depredaram túmulos. Apesar de ter conhecimento e carisma suficientes para ser guia turístico, Domingues é guarda municipal de cemitério, um cargo que, no papel, apenas ele e outras vinte pessoas possuem na cidade de São Paulo. Destes, não mais do que quatro continuam a exercer a nobre função de garantir segurança às 22 necrópoles municipais da cidade.

Criada pelo prefeito Jânio Quadros em 1986, a Guarda Municipal de Cemitérios só veio a realizar o seu primeiro, e único, concurso de admissão em 1997. Das 100 vagas oferecidas, apenas 26 foram preenchidas, por falta de candidatos. Os aprovados tiveram treinamento semelhante ao da Guarda Civil Metropolitana, a GCM, mas também aulas de história da arte e acompanhamento psicológico. Quando eles começaram a trabalhar, no início do funcionamento da guarda, os turnos eram feitos por grandes grupos, em cada cemitério. As equipes, porém, foram diminuindo aos poucos, até que sobraram apenas duplas. Faz cinco anos que nem duplas há mais. Desde o início da década, Fernando Domingues trabalha sozinho no Consolação.

“A guarda é como o Exército de Brancaleone. Ou melhor: como a viúva Porcina – aquela que foi sem nunca ter sido”, definiu Lúcia Salles, rica em referências e superintendente do Serviço Funerário, autarquia responsável pela manutenção da escolta. “Ela nasceu morta do ponto de vista da viabilidade. Como vou treinar esses profissionais? A nossa expertise não é ser guarda, é ser funerária”, justificou. A armada chegou a ter uniforme e carros próprios. Hoje, Domingues trabalha de calça jeans e jaqueta, e passeia entre túmulos e jazigos munido apenas de um celular. “Primeiro tiraram nossos uniformes, depois as viaturas, algemas e, por fim, as armas. Quem quer ficar no cemitério sozinho e desarmado?”, questionou. Com a falta de segurança para trabalhar, os guardas foram sendo realocados em outras funções dentro do Serviço Funerário. O vigia do cemitério da Consolação, porém, quis continuar. “O pessoal fala: ‘Você não tem família, por isso ainda quer trabalhar no cemitério.’ Mas eu tenho mãe, tenho irmãos. Quero ficar. Com condições.”

 

Antes de se tornar guarda, Fernando Domingues trabalhava como protético. Um dia, passando pelo Cemitério da Freguesia do Ó, viu uma faixa que anunciava o concurso. Foi o primeiro a pegar o edital no Banco do Brasil. Católico praticante, ele frequenta um centro espírita uma vez por mês. Dentro da necrópole, as religiões também se misturam. Aos pés do cruzeiro do cemitério, os despachos para santos se acumulam. Domingues disse não ter medo dos trabalhos espirituais. Também garantiu não ser supersticioso. Apenas evita tropeçar – quem tropeça no cemitério fica por ali, dizem. Pelo sim, pelo não, segue ainda o conselho de uma antiga psicóloga do Serviço Funerário, que, por acaso, era espírita: não come nem fuma no terreno sagrado. “É para não atiçar a vontade dos espíritos. Se você fuma aqui, o espírito de alguém que fumava pode ficar com você. Eu evito até chupar bala. Vai que era a preferida de algum morto.”

Certa vez, numa das vielas da necrópole, deu informações a dois senhores que, mesmo debaixo de chuva forte, permaneciam, curiosamente, com as roupas secas. Mais tarde, parou para pensar sobre a cena. Achou melhor deixar para lá. No início, Domingues lidava sobretudo com violadores de túmulos em busca de dentes e joias de ouro. De uns tempos para cá, as violações diminuíram. A preocupação maior, agora, são os ladrões de adornos feitos em bronze. Consta que, entre 2013 e 2014,  foram registradas 600 ocorrências em cinco necrópoles da capital. Com a reclamação constante das famílias donas de jazigos, o Serviço Funerário vive um dilema: para fazer a segurança de todos os cemitérios da cidade, seriam necessários no mínimo os 100 vigilantes do concurso inicial, número nunca atingido.

Como a guarda existe, o Tribunal de Contas do Município proíbe a contratação de segurança terceirizada. Hoje, a vigilância é feita basicamente por GCMs de plantão. De sua parte, os poucos guardas especializados, insuficientes para vigiar as necrópoles, terminam numa espécie de limbo administrativo. “Na minha opinião, deveria haver uma forma jurídica de incorporar os guardas de cemitério à Guarda Civil, mas isso não pode ser feito, porque eles prestaram um concurso específico e seria desvio de função”, disse Lúcia Salles, a superintendente funerária.

A ideia de Salles não cai bem com Domingues: ele não quer nem ouvir falar de trocar a sua rotina de vigilante de túmulos por qualquer outro serviço na Guarda Civil. “Sair daqui não é interessante. O melhor seria que investissem na gente”, disse, quase ao fim da ronda. “Mas a verdade é que a guarda já acabou”, sentenciou o vigia, perto do portão, como se contasse uma história de assombração em que ele mesmo era o protagonista. Depois, se despediu e voltou, sozinho, pelos caminhos escuros da necrópole.

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