esquina

Homem-galinha, este cineasta

A ascensão de um supercapixaba

Mariana Filgueiras
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Quando a escola terminava, o pequeno Juliano Enrico Teixeira tinha de esperar um bocado antes de voltar para casa. A mãe, professora de acrobacia numa academia de Vitória, buscava o filho e corria de volta, a tempo de dar a aula seguinte. Sem ter o que fazer, Juliano ia experimentando o que o lugar oferecia: um pouco de balé e sapateado, um pouco de chachachá e acrobacia. Acabou descobrindo que levava jeito para a ginástica olímpica, e aos 13 anos, com uma cabeleira domada por tranças, ganhou a primeira medalha de ouro. Ao executar no cavalo um elegante salto chamado reversão com pirueta, deixou em segundo lugar um ainda desconhecido Diego Hypólito e seu tsukahara carpado.

Com o tempo, ficar voando pelos ares perdeu um pouco da graça, e Juliano trocou os carpados pelos quadrinhos. Sua avó Beth, que morava no andar de cima, corou ao tropeçar com os rabiscos que o neto andava fazendo. Super-heróis lúbricos e algo escatológicos enfiavam-se por dentro de orifícios do próprio corpo – aquilo não ornava. Preocupado, seu Tadeu, pai de Juliano, matriculou o filho numa oficina de animação, na esperança de que criasse juízo. Não lhe ocorreu que às vezes o feitiço volta a cavalo.

No curso, Juliano fez quatro amigos e, em 2002, fundou com eles a revista de humor Quase. Tinha 17 anos. A publicação abraçou apaixonadamente algumas causas – poucas e boas –, entre as quais o fim da banda Engenheiros do Hawaii e do provincianismo capixaba, bandeira sintetizada em uma palavra: anticapixabismo. “Eu não acho que o Espírito Santo seja culturalmente atrasado. Aqui existem bons pratos típicos, um folclore bonito, e nós não temos tantas bandas ruins quanto Minas Gerais”, explica Juliano, hoje com 25 anos, “mas isso não é motivo para sacudirmos desesperadamente um mastro de são Benedito até alguém perceber que existimos” (ele se refere ao padroeiro de uma das festas religiosas mais famosas do estado).

Entre outras doces idiossincrasias, a Quase implica diligentemente com o ator Marcos Frota – imbatível em ocupação de centímetros/coluna – e dá uma contribuição vigorosa à implosão de Bento XVI. Crescendo à base de processos e prêmios, por dois anos consecutivos foi considerada a “Melhor Revista Independente” no Festival DB de Artes Visuais, em Pernambuco, e abocanhou o galardão de “Melhor Revista de Humor” no HQ Mix, de São Paulo.

Para as festas de lançamento da Quase, Juliano inventou de encarnar um dos personagens da revista, o Homem-Galinha, um lutador de telecatch. Ideia ótima. Aproveitando as habilidades acrobáticas do passado, além de colchões e cordas do varal de casa, o Galinha pintava o sete num ringue improvisado. De collant lilás, sunga azul e máscara de galináceo, quebrava o pau com os parceiros da revista, estes na pele do Bebê de Rosemary e de Guillermo Nuñez, o Traveco Mascarado, entre outros vis inimigos que atormentavam a existência do super-herói.

Vovó Beth, quando viu aquilo, convocou no ato a outra avó, Guigui, para reforçar a roda de orações pelo juízo do moço. Vovó Guigui, fã de Charles Bronson, se dispôs prontamente. E enquanto pai, mãe e avós prendiam a respiração, os dois irmãos de Juliano, Federico Nicolai – homenagem ao cineasta Federico Fellini e ao escritor Nikolai Gogol – e Jor-El – homenagem ao pai do Super-Homem – davam cambalhotas de alegria. (Do cachorro da família, Tosh – homenagem a Peter, o músico jamaicano de mesmo sobrenome –, não se conhece a opinião.)

 

O fato é que a luta livre transformou Juliano numa celebridade do underground capixaba. A cada festa da revista, a arena ficava apinhada de devotos do Homem-Galinha.

Em busca de mais e melhores espaços, Juliano foi bater em Guarapari, município a 40 minutos da capital. Ali havia um ringue cujo proprietário fora um lutador de verdade: Touro Moreno, uma lenda na periferia. Moreno se tornara famoso nos anos 70 por não ter medo de nada, nem de borboleta. Agora, septuagenário boêmio, andava meio esquecido. A identificação entre os dois foi imediata. Se, no passado, Juliano havia derrotado Diego Hypólito, Touro Moreno levara à lona ninguém menos do que Hélio Gracie, o patriarca do jiu-jítsu brasílico.

O ex-campeão tinha muitas histórias boas sobre lutas ruins, e eram tantas que Juliano resolveu fazer um documentário sobre o novo amigo. Com uma câmera amadora e a ajuda de Nicolai e Jor-EL, fez Touro Moreno (ainda sem previsão de lançamento em Guarapari). O filme foi premiado na terceira edição do DOCTV, um programa de estímulo ao documentário do Ministério da Cultura.

O prêmio garantia a exibição na TV aberta, e esse pode ter sido o verdadeiro ponto de virada: quando assistiram àquilo, vovó Beth e vovó Guigui diminuíram o ritmo das novenas. A família podia descansar. O garoto estava no prumo. Jor-El e Nicolai, irmãos para toda obra, ajudaram-no a levar uma piscina Toni de presente para Touro Moreno e seus nove filhos.

O sucesso não demorou a tocar o telefone. Uma ótica popular de Vitória quis contratar Juliano para dirigir um comercial, oferta que artistas de menor ambição teriam aceitado sem pestanejar. Mas não o Homem-Galinha. Era chegada a hora de um trabalho mais autoral. Juliano, olhando em volta, viu que tinha um filme pronto dentro de casa. Melhor: um desenho animado infantil. Inspirado nas tirinhas autobiográficas que publicara na Quase, teve a ideia de uma animação que se chamaria O Irmão de Jor-El. (Ninguém é um potencial tio do Super-Homem à toa.)

O desenho é protagonizado por uma família com pai, mãe, três filhos, duas avós e um cachorro. O Cartoon Network Brasil gostou tanto do projeto que pagou 20 mil dólares para Juliano fazer um vídeo promocional de dois minutos com os personagens. Com essa amostra, o canal pretende convencer a matriz americana a transformar o Jorel’s Brother no Simpsons das próximas gerações.

Registre-se que Juliano é o primeiro capixaba a realizar tal façanha.

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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