esquina

Honra ao mérito

Dony De Nuccio e a mentalização

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

De uns tempos pra cá, tem dado mosquito na sede da Globo em São Paulo. Numa quinta-feira úmida e abafada de novembro, alguns desses bichinhos incômodos haviam deixado as imediações fedorentas do rio Pinheiros e, depois de atravessar parte do complexo de prédios da emissora, na Zona Sul da cidade, foram parar não muito longe da sala onde trabalha o jovem apresentador Dony De Nuccio.

Munido de um mata-mosquito que eletrocuta os insetos, De Nuccio parecia preparado para enfrentá-los. “Todo mundo está andando por aí com essas raquetes”, contou. O objeto de plástico colorido destoava do figurino elegante do apresentador. O terno escuro bem cortado, a camisa social com as iniciais DD gravadas no peito, o relógio vistoso e a barba que, de tão bem aparada, parece inexistente, lhe davam um ar de eficiência e sucesso profissional.

Aos 30 anos, De Nuccio é de fato um fenômeno do mundo da comunicação. Em 2011, abandonou uma promissora carreira no mercado financeiro para perseguir o sonho de infância. Queria – sempre quis – se tornar apresentador de telejornal na Globo. Militou brevemente nas trincheiras da reportagem de rua, antes de ganhar espaço no Jornal das Dez, da GloboNews, como editor de economia. Há cerca de um ano e meio, passou a comandar o principal programa de economia do canal, o Conta Corrente. Ali, ele gosta de apresentar “histórias de sucesso”, vividas por empreendedores que admira. “Sou um entusiasta da meritocracia”, explicou.

A cara de menino, o cabelo penteado de lado e o rosto bochechudo reforçam a impressão de que a ascensão do jovem jornalista foi meteórica. Se vestisse um uniforme escolar, passaria facilmente por estudante do ensino médio. Um pequeno cofre em forma de porco, dourado e reluzente, enfeita sua mesa.

Ao alcance da mão estão os livros de que gosta, ao lado do computador. O Lobo de Wall Street divide espaço com outras duas dezenas de obras, a maioria dedicada à história econômica e ao mercado financeiro. Um volume, no entanto, destoava do conjunto: O Alquimista, de Paulo Coelho. “E esse romance, o que está fazendo aqui?”, perguntei. De Nuccio não respondeu. Preferiu mudar de assunto.

 

Aos 8 anos, quando as meninas de sua geração improvisavam microfones e jogavam o cabelo de um lado para o outro, imitando a Xuxa, o pequeno Dony montava uma mesinha na frente da tevê, na hora do Jornal Nacional. Gostava de fingir que era o âncora do programa.

De Nuccio decidiu cursar jornalismo na USP para seguir os passos de William Bonner, ex-aluno da Escola de Comunicações e Artes. Seu sonho era chegar à bancada do JN. Também estudou economia na Universidade Mackenzie. Fazer as duas graduações ao mesmo tempo não era fácil, mas De Nuccio achava que a formação dupla lhe daria “um diferencial enorme”.

“Se você quer trabalhar em apenas uma emissora, e não nas outras; se você quer, dentro dessa organização, assumir um dia a bancada de um jornal desse porte, você precisa ter uma qualificação incrível”, explicou.

O pai de De Nuccio, contudo, não era exatamente um entusiasta de seu sonho televisivo, nem, tampouco, de suas ambições financeiras e materiais. Andrês De Nuccio é professor de ioga em Campinas e organiza viagens para a Índia. Chegou ao Brasil no final da adolescência, fugindo da ditadura argentina. Ele e a mãe do apresentador, Nora Rosa, viviam apertados de dinheiro. Venderam bichinhos de pelúcia na praça da República, em São Paulo, e artesanato em São Bento do Sapucaí, no interior paulista.

Separaram-se quando o filho tinha 2 anos. Nora Rosa, segundo De Nuccio, aos poucos foi ficando “menos bicho-grilo”. Defendia o uso da medicina tradicional para o filho, enquanto o pai insistia na homeopatia. Na casa de Andrês, o espaço para a meditação tinha mais importância do que o quarto de tevê, um único aparelhinho que passava a maior parte do tempo desligado. Hoje, De Nuccio dispõe de seis aparelhos em seu apartamento de três quartos. “Tem tevê até na cozinha e na sacada”, contou.

 

O percurso até a Globo sofreu um pequeno desvio no final do curso universitário, quando De Nuccio ganhou uma bolsa do Citibank para estudar economia por seis meses nos Estados Unidos. Na volta, foi convidado a trabalhar no banco. Ficou lá por cinco anos, mas ainda sonhava com a carreira na tevê. Frequentou um curso técnico de apresentação de telejornal e esperou por uma oportunidade. Ela veio quando um conhecido, produtor do escritório da Globo em Nova York, ajudou De Nuccio a entrar em contato com a direção de jornalismo da emissora. Mudou de emprego para ganhar um salário quatro vezes menor.

Mas escolher o jornalismo, ele ressaltou, nunca significou fazer um voto de pobreza. De Nuccio espera ficar rico seguindo o seu sonho. Ele acredita no poder da mentalização. “Tudo que tive na vida, eu conquistei primeiro aqui”, disse, apontando a própria cabeça. “Eu me imaginava passando o crachá da Globo, como funcionário. Até que um dia eu passei o crachá.”

Enquanto a chuva lá fora espantava os mosquitos remanescentes, ele tirou o celular do bolso e mostrou a foto de um quadro que mantém em casa. Em seu vision board, De Nuccio enfileira imagens de pessoas que admira e coisas que ainda pretende conquistar. Estão lá Roberto Marinho, Paulo Coelho, Steve Jobs, um carro, um avião a jato, helicóptero, William Bonner, a bancada do Jornal Nacional, um torso masculino exageradamente musculoso, pilhas de dinheiro.

Perguntei como ele se via ao final de sua trajetória. O que terá conquistado? De Nuccio pensou um pouco e respondeu: “Quando eu tiver 80, 90 anos, e olhar para trás, espero poder ter passado pela bancada do Jornal Nacional, ter tido a experiência de apresentar algum reality, e ter sido também um grande empreendedor. Um ícone não só da comunicação, mas do empreendedorismo brasileiro.” Algo mais? “Quem sabe montar um instituto. Deixar um legado, do ponto de vista da inspiração, para que outras pessoas de 8 a 10 anos se inspirem também. E criar uma fundação. Para dar um retorno para a sociedade, né?”

Rafael Cariello

Repórter da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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