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A índia que virou herança

Um inventário na São Paulo colonial

José Roberto de Toledo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Quando o alfaiate espanhol Diogo Sanches morreu de repente, nos arredores da vila de São Paulo, em 1598, não se sabe se Monica, seus pais e irmãos choraram. Dos poucos registros que sobraram a respeito dos anos de convivência entre a família de cativos e seu dono, nenhum revela traços de afetividade. Não que fossem inexistentes. Ocorre que os escrivães responsáveis pelos Inventários e Testamentos não se preocuparam em documentá-los para a posteridade. O primeiro volume, publicado há um século pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, não é exceção. Nem por isso deixa de ser revelador. Os eventos deflagrados pela morte do alfaiate seriam motivo de tristeza para os índios de Sanches – especialmente para Monica, que o inventário descreve assim, sem acento nem sobrenome.

Na capitania de São Vicente dos séculos XVI e XVII praticamente não havia escravos africanos. A mão de obra era quase toda de tupis, guaranis e jês. Mesmo que seu status jurídico fosse objeto de debate, na prática, grande parte dos chamados “negros da terra” era tratada como cativa. Por isso, quando um branco morria, os escravos nativos tinham por que se preocupar. Ao enterro seguia-se o inventário e a partilha dos bens do defunto. Ainda que muitos donos recomendassem em testamento manter unidas as famílias dos índios, não era raro que – na divisão da herança entre parentes e credores do morto – filhas fossem apartadas de pais, e irmãs, de irmãos.

Foi o que aconteceu com Monica. Naquele 1598, sua família morava e trabalhava na propriedade do alfaiate Sanches fora da vila de São Paulo, nos campos do Teyuguossuu (“lagarto grande”, em tupi). Ficava junto ao Caminho Novo do Mar, que ligava o planalto paulista ao litoral. Eram oito índios: pai, mãe e seis filhos. Plantavam milho, extraíam raízes de mandioca, cuidavam de três vacas e seus bezerros, além de umas poucas galinhas. Era vida sem fartura e arriscada. Meses antes, a pequena criação tornara-se ainda menor, após uma vaca ter virado comida de onça. Só sobrou o couro, que Sanches deu em pagamento a uma dívida. Nada se perdia, tudo se reciclava.

Enquanto os índios cuidavam da propriedade rural, Sanches dividia seu tempo entre o sítio e uma modesta casinha de pau a pique na vila de São Paulo, onde exercia seu ofício de cortar meias-calças, roupetas, gibões e outras peças do vestuário da época. No fim daquele ano, o alfaiate morreu. Foi inesperado, sem testamento. Deixou o filho de 5 anos órfão de pai e mãe: Miguel Sanches era fruto do primeiro casamento do espanhol, com a também castelhana Izabel Felix, que falecera três anos após dar à luz. Sua guarda coube ao tio materno Jacques Felix.

 

Desfeito o lar onde habitavam, começou o drama para os índios. Curador do inventário e tutor do herdeiro, o tio requereu que lhe entregassem a filha mais velha do casal de cativos. Era Monica. Felix pretendia que a jovem tomasse conta da criança. O pequeno Miguel ganhava sua primeira escrava, que os peritos do inventário avaliaram em 32 cruzados. Não que circulassem muitas dessas moedas de ouro pela capitania. Os 12 800 réis a que equivaliam eram um valor de referência, para facilitar o cálculo dos juros que o juiz de órfãos cobraria de quem arrematasse os bens da herança.

Quando os cativos foram apregoados em praça pública, a 27 de setembro de 1598, já eram apenas sete. “E logo andaram em venda as peças […] por não haver maior lançador do que Miguel Vaz Lobo, ourives de prata, que lançou em todas as ditas peças nomeadas, afora a dita rapariga Monica, 352 cruzados.” Por causa dos lances de Lobo, o valor total alcançado no leilão – 140 800 réis – foi o dobro do que estava no inventário. Apenas 30 cruzados, 8,5% do total, seriam pagos à vista e em dinheiro. O resto foi avalizado por Domingos Luiz, o Carvoeiro, para ser pago em dois anos, fosse em moeda sonante, fosse em açúcar branco.

Mas os índios logo trocariam de dono, de novo. Lobo se arrependeu do negócio. Para desfazê-lo, apresentou ao juiz de órfãos um novo comprador. Era André de Escudeiro, que já arrematara no leilão as ferramentas e parte das roupas feitas por Diogo Sanches. Ele pagou os 30 cruzados em espécie e afiançou o restante da dívida. O sítio onde a família de índios morava com o alfaiate, porém, foi parar em outras mãos.

 

Para a Igreja e seus representantes, a morte era um negócio. Invariavelmente, os fiéis, na esperança de comprar sua passagem para o reino dos céus, encomendavam dezenas, centenas de missas – dependendo do tamanho da culpa e da profundidade de algibeira. Os ritos eram previstos cuidadosamente em testamento, e seus custos, extraídos da herança. Quando alguém morria desprevenido de encomendar-se a Deus, a Igreja intervinha para garantir-lhe a salvação, nem que para isso lançasse mão de ameaças.

Foi o que fez o vigário-geral da Capitania, Jorge Rodrigues, ao descobrir que Diogo Sanches morrera sem testamento. Baseado em Santos, mas com poderes eclesiásticos sobre toda a capitania, o desinteressado sacerdote ordenou aos juízes de São Paulo, sob pena de excomunhão, que dessem 10 mil réis aos vigários “para fazer bem” pela alma de Sanches. Naqueles dias, a vila estava sem vigário. Logo, o pago pelas missas deveria ser encaminhado ao próprio Rodrigues, por meio de seu procurador, o onipresente André de Escudeiro. O vigário aceitou a roça do defunto em pagamento. Os campos do lagarto grande serviram de atalho para a alma do alfaiate chegar ao paraíso.

Anos se passaram, mas pouco mudou na vila de São Paulo. Menos ainda na sorte do órfão Miguel Sanches. Em março de 1601, o desembargador Francisco Sotil de Siqueira anotou que, a despeito de já ter 8 anos de idade, o menino não frequentava a escola nem aprendia um ofício, como era costume. O curador Jacques Felix argumentou que a criança vivia doente. E assim continuaria. Miguel morreu sem ter aprendido a escrever. Sobre Monica, não se sabe se recebeu algo do menino que a separou de sua família. Em seu testamento, lê-se que Miguel deixou metade do que tinha para a prima solteira Catarina Felix, “para ajuda de seu casamento”. E a outra metade, “por me criar, para minha…” Referência à jovem índia? O prenome foi apagado pelo tempo, mas o sobrenome é da avó de Miguel. Monica desapareceu até do testamento.

José Roberto de Toledo

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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