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Inimigos íntimos

Governo e oposição se misturam no Piantas durante a votação do impeachment
Carol Pires, Julia Duailibi
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

A votação no Senado não seria concluída naquela noite. Se cada um dos 71 parlamentares inscritos resolvesse discursar durante os quinze minutos a que tinha direito, a decisão sobre a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff ficaria para a manhã seguinte. Na área externa do restaurante Piantas, em Brasília, na virada de 11 para 12 de maio, políticos avessos à presidente e os que se despediam das benesses de apoiar o Executivo aguardavam, entre cigarros e bebidas, que a oposição virasse governo, e o governo, oposição.

Em uma das mesas, o deputado piauiense Heráclito Fortes, do PSB, contrário a Dilma, e o colega pernambucano Silvio Costa, filiado ao PTdoB, mas mais governista do que qualquer petista, conversavam sobre a última cartada do Planalto para evitar a abertura do processo pelo Senado: a malfadada operação da segunda-feira, dia 9, quando o presidente interino da Câmara, o bigodudo Waldir Maranhão (PP-MA), revogou a votação do impeachment na Casa e, horas depois, voltou atrás. “Vocês colocaram três pessoas de Michel Temer para espionar Waldir, que eu sei”, acusou Costa, com seu jeito brincalhão. “Que colocamos gente, o quê!”, desdenhou Fortes. Ele jurava que descobrira o envolvimento do governo na cartada de Maranhão por meio de uma empregada doméstica. A moça, que trabalha para um parlamentar vizinho de Costa, teria visto “um movimento danado” na casa do pernambucano no domingo, véspera da revogação. “Ela contou que estavam você, o ministro José Eduardo Cardozo, um que ela não conhecia, que devia ser o governador Flávio Dino, e outro, que parecia o Tiririca. Esse só podia ser Waldir”, disse o piauiense. Naquele mesmo domingo, a oposição também caçava o presidente interino da Câmara para levá-lo ao encontro de Temer. Os governistas foram mais rápidos.

“Eu sei que vocês não deixaram o homem ir para casa. Onde ele dormiu no domingo?”, continuou Fortes. Costa riu: “Botamos Waldir para dormir no Royal Tulip. Você não sabe o susto que levei quando cheguei lá na segunda de manhã e dei de cara com Moreira Franco. Pensei que vocês tinham achado o cabra.” O oposicionista Moreira Franco mora no hotel, onde o ex-presidente Lula também costuma se hospedar. “Outra coisa”, insistiu Fortes, “quantas pessoas você levou para se encontrar com o Walfrido Mares Guia?” O ex-ministro de Lula ajudou na articulação contra o impeachment. Costa colocou a mão no queixo e disparou: “Tu é da Polícia Federal, é, porra?”

 

O Piantas se localiza na quadra 403 da Asa Sul, a menos de dez minutos de carro do Congresso Nacional. Chamava-se Bistrô Expand e já era ponto de encontro entre jornalistas e suas fontes até ser comprado por Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado de figurões como José Dirceu e Romero Jucá. Rebatizado de Piantas, acabou desbancando o Piantella, por anos o restaurante favorito dos políticos, também de propriedade de Kakay. Alguém que estava à mesa dos dois rivais perguntou a Silvio Costa como ele se sentia na iminência de virar oposição. “Rapaz, não faço a vida olhando para o retrovisor. Mas não estamos mortos ainda. Tenho esperança de virar o jogo”, respondeu. “Vinte e seis senadores deverão ficar do nosso lado. Precisamos de mais dois”, calculou, referindo-se à votação final do impeachment, que ocorrerá em menos de 180 dias, quando o governo necessitará de 28 votos.

Logo se aproximou da mesa o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), cotado para assumir o Ministério da Defesa. “É o ex-futuro ministro”, gozaram os parlamentares. “Quem, afinal, vai para a Defesa?”, indagou Heráclito Fortes. “Eu é que sei? Se você é governo e não sabe, imagina eu”, rebateu Costa. Jungmann estava apreensivo com o futuro, mas acabou nomeado para a pasta durante a posse de Temer, no dia seguinte. Ministro do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas veio cumprimentar o grupo. O TCU foi o responsável por sugerir a reprovação das contas de Dilma de 2014. “Isso que é uma mesa plural”, comentou o ministro. Costa lhe fez um afago: “Você é a parte boa do tribunal. Agora, tem umas partezinhas lamentáveis por lá…” Escaldado, o ministro ironizou: “Ele bate em público e elogia em privado. Essa técnica eu conheço. Sou baiano.”

Pouco depois da meia-noite, entraram no restaurante dois ex-ministros de Dilma, que iriam integrar a equipe de Temer: Moreira Franco viraria secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos e Henrique Eduardo Alves encabeçaria a pasta do Turismo. Moreira foi rapidamente abordado por três homens, que lhe entregaram cartões de visitas. Um deles anunciou que trabalhava na área de parcerias público-privadas, as PPPs. Os dois recém-chegados se sentaram com a turma de Fortes. “Estou como um patinho fora d’água. Só tem golpista”, atiçou Costa, com os braços cruzados. “Você precisa fazer um estágio na oposição. Nunca foi de oposição”, recomendou Fortes. Costa pediu mais uma garrafa do vinho Primitivo di Manduria. Parecia um pouco constrangido. Tentou quebrar o clima com uma piada: “Moreira, seja franco.” Ninguém riu, e um dos presentes zombou: “Essa foi infame!”

Depois que Heráclito Fortes decidiu ir para casa, Silvio Costa se juntou a uma roda no canto oposto, onde estava o novo ministro da Indústria, o bispo licenciado Marcos Pereira. Ele relatava as conversas que tivera com Dilma durante o processo de impeachment e desembarque do governo. Lembrava também um encontro com o então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, sobre as indicações do PRB em Roraima, estado pelo qual foi eleito Romero Jucá, ex-líder do governo Dilma e ministro do Planejamento de Temer, exonerado no último dia 24. “Não vamos dar os cargos porque o Jucá não deixou. E ele vale mais do que os 22 deputados do PRB”, teria dito Mercadante.

Como se quisesse alongar sua última noite no governo, Costa pulava de uma mesa para outra conforme os comensais pediam a conta e iam embora. Terminou a jornada sentado outra vez com Moreira Franco e Henrique Alves. Aludindo a uma personagem da novela Gabriela, dona de bordel, provocou: “Rapaz, o problema é que vocês botaram um bocado de puta velha para arregimentar os votos da oposição. Maria Machadão, ali, perdia feio…” O garçom deixou na mesa uma garrafa de uísque, que Moreira Franco despejava em seu copo com a displicência de quem espalha azeite na salada. Por volta da 1h15, fogos de artifício espocaram pela Asa Sul. Moreira comemorou: “Acabou!” Mas era alarme falso. Mesmo assim, ele e Alves não perderam o rebolado. Continuaram festejando madrugada adentro. Às 6h43, com o afastamento de Dilma consagrado pelo Senado, o governo viraria abóbora, e a oposição, Cinderela.

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