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Jornalismo do além

Um espírito quer reconciliar dois caciques da política goiana

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Uma notícia de outro mundo fisgou a atenção de quem comprou o Diário da Manhã em 12 de julho. No alto da primeira página, entre uma chamada para a coluna da presidenta Dilma Rousseff e o anúncio do apoio do governo à criação de um parque tecnológico em Goiás, o jornal informava a chegada de mais uma carta do jornalista Fábio Nasser, morto há doze anos. Psicografada pela médium Mary Alves, a mensagem trazia orientações para o pai, Batista Custódio, dono do Diário. “Não há mais tempo para ponderações”, aconselhou o espírito. “Caminhe em busca de sua liberdade.” Despediu-se recomendando que ele procurasse um médico para tratar o braço.

Não era uma novidade nas páginas do Diário da Manhã. O jornal goianiense já publicou mais de quarenta cartas de Fábio Nasser desde maio de 2001, quando o jovem mandou seus primeiros recados d’além-túmulo. São reproduzidas na íntegra, em página inteira, precedidas por uma exegese da mensagem e ilustradas por uma foto de Fábio à frente de uma velha Olivetti.

Fábio Nasser era o filho que Batista escolhera para sucedê-lo à frente do Diário da Manhã. Era chefe de reportagem e editor de política do jornal. Um colega lembra-se dele como um rapaz inteligente e interessado. Mas tinha crises de depressão e envolveu-se com drogas. Foi internado em mais de uma ocasião. Suicidou-se, com um tiro na cabeça, aos 32 anos, em janeiro de 1999.

Sua primeira mensagem veio dois anos depois. A rapidez com que o rapaz se manifestou é vista com reticência pelos kardecistas ortodoxos – após desencarnar, prega a doutrina, os suicidas passam por um longo período de purificação espiritual antes de se comunicar com amigos e familiares que deixaram no mundo. Ligeiro, Fábio não se fez de rogado.

Nas cartas ao pai, ele traz palavras de conforto e envia saudações à parentada. Numa delas, relatou o encontro que teve com Friedrich Nietzsche. Também aconselha as decisões de Batista e faz considerações sobre a política goiana. Numa mensagem enviada em março, Fábio manifestou seu apoio a uma missão que seu pai alega ter recebido do além. Batista Custódio quer promover a reconciliação de dois antigos aliados, ambos compadres seus: o governador tucano Marconi Perillo, padrinho de seu filho João do Sonho, e o ex-governador Iris Rezende, do PMDB, de quem Fábio era afilhado. A Marconi, recomendou que evitasse “as tentações e armadilhas” e que “seguisse firme nos trilhos da verdade e da ética”.

“A Espiritualidade Superior confia a ele grandes esperanças, pois Goiás está predestinado a ser o sustentáculo moral da nação”, dizia a missiva. Não é menos auspicioso o futuro reservado a Iris Rezende, desde que ele se recupere da derrota eleitoral do ano passado. “Ajude-o a se recompor, meu pai”, aconselhou o filho, que trouxe também a receita para a ressurreição política do padrinho: é preciso “resgatar o grande valor moral que ele necessita para nortear sua vida de agora em diante”.

O repórter Ton Alves, o veterano a quem Batista Custódio confia a apresentação das cartas do filho no Diário, conta que muitos colegas não as levam a sério. Católico praticante, ele recebe com serenidade a missão de relatar as mensagens do além. “As cartas são uma tábua de salvação a que Batista se agarrou”, disse. “A ligação dele com o filho morto torna isso tudo real porque é sincera, forte, mística.”

As mensagens de Fábio são recebidas no centro espírita Mãos Unidas, situado num bairro afastado da capital goiana. São ditadas à médium Mary Alves, que as transcreve a lápis, sentada numa mesa retangular, disposta num tablado, ao fundo de um amplo salão iluminado por lâmpadas azuis. Ela costuma promover sessões de psicografia nas noites de terça, nas quais recebe de seis a oito mensagens durante uma hora, diante de uma plateia de algumas dezenas de pessoas. Naquela terça, 12 de julho, um imprevisto familiar frustrou fiéis e curiosos que foram ao centro espírita para vê-la em ação: a médium teve que ficar em casa cuidando do neto.

 

Batista Custódio é uma figura folclórica do jornalismo goiano. Nos anos da ditadura, capitaneou o combativo Cinco de Março e foi preso pelos militares. Desde 1980 toca o Diário da Manhã, que, num sonho grandioso, ele queria transformar num veículo de projeção nacional. Hoje o jornal vive na corda bamba, com a fama de atrasar salários e não honrar dívidas trabalhistas. Disputa um lugar ao sol no mercado liderado pelo jornal O Popular. Não é filiado ao Instituto Verificador de Circulação. Batista diz que “tira uns 15 mil exemplares”.

A sede do Diário parece um mausoléu erguido em memória de Fábio Nasser. Na entrada, funcionários e visitantes passam sob um portal de mármore, no qual estão a escultura de uma lira, uma estátua do finado jornalista e uma tabuleta com um poema em que ele louva a liberdade de imprensa. Um grande retrato de Fábio escrevendo à máquina, apoiando o queixo com a mão, adorna a entrada da redação.

Batista Custódio despacha atrás de uma mesa de madeira, numa sala isolada do resto da redação por divisórias. Aos 76 anos, usa óculos e bigode, grisalho como os cabelos. Fala alto, bate na mesa e pede o tempo todo a atenção e anuência do interlocutor. Garante que não é adepto do kardecismo: “Os espíritos é que ficam me enchendo a paciência desde que sou menino.” Naquele exato momento, asseverou, estávamos na companhia do espírito de Alfredo Nasser, velha raposa da política goiana dos anos de Getúlio e Juscelino, e tio de Fábio. “Ele já editou vários capítulos de um livro que estou escrevendo”, revelou o jornalista. “Mas meu estilo é um pouco diferente do dele”, emendou, com uma ponta de contrariedade resignada.

Em 2006, Batista Custódio mandou editar Misericórdia Divina, coletânea de textos do filho psicografados por Mary Alves. Na ficha catalográfica, o autor é identificado como “Nasser, Fábio (Espírito)”. Batista conta que o filho está preparando o livro Caminhando no Quintal de Deus. Essa não é a única novidade no prelo etéreo. “O Diário publicará em breve entrevistas que Fábio fez com Humberto de Campos e Martin Luther King”, promete o editor. Será um furo mundial.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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