despedida

La vita è cosi, maestro

Rudá de Andrade recrutou um figurante espancado por Vittorio de Sica, criou a Cinemateca Brasileira, deixou a filha de Ungaretti na mão, escondeu perseguidos políticos em bordéis, foi preso na França por tráfico de cocaína, escreveu um romance premiado, montou uma fábrica de varas de pescar etc. etc. etc. Foi bem mais que o filho de Pagu e Oswald de Andrade

Norma Couri
Rudá, com o irmão mais velho, Nonê: “De mulher em mulher, meu pai me largou com o motorista, que me batia com vara de marmelo”
Rudá, com o irmão mais velho, Nonê: “De mulher em mulher, meu pai me largou com o motorista, que me batia com vara de marmelo” FOTO: ÁLBUM DE FAMÍLIA

Entre um gole de uísque e outro de cerveja, Rudá de Andrade simulava uma chicotada no cachorro que perturbava a cadela Ninotchka, batizada em homenagem a um dos últimos filmes de Greta Garbo. Outra dezena de cães e gatos trançava entre as pernas do dono, e tentava escalar seu moletom azul, antes de desaparecer pelos 18 mil metros quadrados do sítio em Bragança Paulista, a 90 quilômetros de São Paulo. Foi ali que Rudá de Andrade viveu quase uma década com a mulher, a polonesa Halina Kocubej. “São todos meio vira-latas que nem eu”, disse.

Rudá explicava seu universo animal enquanto acariciava Pompeca, diminutivo de Ponte Pequena, brincadeira com o sobrenome do personagem principal do romance Serafim Ponte Grande, publicado em 1933. Pompeca foi o nome de vários de seus animais de estimação nos últimos 72 anos. E me pareceu também ser o único sinal evidente da genealogia ilustre de Rudá, o único filho de Oswald de Andrade, o arauto do modernismo, com a feminista, militante comunista e musa do movimento antropofágico Patrícia Galvão, mais conhecida pelo non de plume, Pagu.

A casa de madeira, chamada de Pedra Bela, era cercada por uma mata de matizes de verdes que, segundo Rudá, nem Georges Braque alcançaria. Na parede, um quadro avisava “Aqui se reúnem caçadores, pescadores e outros mentirosos” e, acima do bar, lia-se que Mal por mal más vale la taberna que el hospital. Em outro canto, um desenho em grafite com a imagem de Castro Alves retratado como um matuto – a única lembrança de um roteiro, criado com Nelson Pereira dos Santos, que não foi adiante.

Percorri o ambiente com os olhos em busca de algum sinal dos pais. Não havia nada. Rudá falava nuns livros deles lá em cima, em outros lá atrás. “Oswald e Pagu são cada vez mais conhecidos, mas quem os lê?”, perguntou. “O diário deles estava deteriorado e o vendi para o José Mindlin”, contou. Só lastimou não ter guardado a radiografia com a bala que entrou pelo ouvido e saiu sem maiores danos, poupando a mãe na primeira tentativa de suicídio. Foi em 1940, quando Pagu foi solta depois de quatro anos de prisão, acusada de subversão, e ser perseguida pelo partido que ajudara a construir, o PCB.

Há cinco anos, Rudá também vendera o célebre retrato a óleo de Pagu, pintado em 1933 por Candido Portinari, para comprar o sítio  um refúgio onde as visitas eram raras e os bichos, incontáveis. A casa nunca teve placa ou a rua, identificação. A quem se mostrava confuso sobre o endereço, ele costumava dizer que se houvesse uma igreja ou uma placa escrita “Jesus” em letras garrafais, havia errado o caminho. Rudá era ateu como os pais. Talvez tenha sido essa sua maior herança. De bens materiais, não herdou nada. “Meu pai me deu um relógio Omega, que nem sei onde está”, falou. “As minisséries da Globo sobre eles não rendem um tostão para mim.”

A extensa obra de Oswald de Andrade inclui romances, poesias, manifestos e peças de teatro. As publicações póstumas, feitas pela editora Globo, garantiam 1 mil reais mensais a cada um de seus três herdeiros: Rudá; sua meia-irmã Marília, professora de dança da Universidade Federal de Campinas, filha de Oswald com Maria Antonieta d’Alkmin; e Adelaide, viúva de José Oswald Antonio de Andrade, o Nonê, primogênito do escritor, fruto do seu casamento com a estudante francesa Henriette Boufflers. “Vou deixar o inventário para a Marília, que faz tanta questão”, desdenhou Rudá. “Ela ficou com tudo, mesmo… Eu não tenho mágoas”, disse-me ele, rindo. Os livros de Pagu também não lhe renderam nada.

Assim como Nonê, corruptela de “nosso nenê”, brincadeira inventada pelo pai, Rudá passou a vida dando explicações sobre a origem de seu nome. “Diziam que Rudá era diminutivo de Rodo Metálico, uma alusão ao lança-perfume, que eles cheiravam sem parar”, contou Rudazinho, um documentarista de 33 anos, filho caçula de Rudá. “Ou então que significava Rolando Escada Abaixo. Mas, de fato, Rudá era o deus do amor de uma lenda indígena.”

 

Rudá jamais fez praça da sua ascendência. Ao contrário. Antes de encontrá-lo, vários de seus amigos me alertaram sobre o risco de tocar no nome dos pais. Foi apenas no último de nossos três encontros, no ano passado, que mencionei o tema. A impressão é que cada lembrança deles era arrancada a marretadas do cimento da memória. “Eu tinha três meses quando a Pat resolveu viajar para Argentina, Uruguai, Japão, Manchúria”, lembrou, referindo-se à mãe como um personagem. “Foi à Rússia, conheceu o Prestes, virou comunista, anticomunista, foi presa 23 vezes, maltratada na prisão.”

Nunca viveu com a mãe. Desde bebê, Rudá morou com Oswald de Andrade, “que, de mulher em mulher, me largou com o motorista”, disse. “Aliás, motorista que me batia com vara de marmelo.” Na adolescência, era Nonê quem cuidava do caçula, quando moravam numa casa de três andares na rua Martiniano de Carvalho, no bairro da Bela Vista. “Meu pai só me deixou visitar a Pat uma única vez na prisão, em São Paulo. Eu já tinha 6 anos; essa imagem nunca saiu da minha cabeça. Aquela Pagu dura e revolucionária era meiga e carinhosa, não tinha nada de porra-louca.”

Seu relato sobre a mãe foi permeado de sentimentos ambíguos: mágoa, admiração, ressentimento, ternura. Pagu tentara se matar várias vezes, uma delas quando descobriu o câncer no pulmão que acabou por lhe tirar a vida. Em outra ocasião, depois de uma cirurgia, feita em Paris para deter a doença e que não deu certo. Rudá tinha 17 anos e foi visitá-la. Conversaram durante horas e foi ela quem o convenceu a fazer cinema. “É tudo muito sofrido”, ela disse ao filho.

Quinze anos depois, quando Pagu morreu, em 1962, estavam brigados. Ele só soube da morte um mês depois. A razão do desentendimento foram os impropérios proferidos por uma irmã de Pagu, que o acusou de querer vender o óleo de Portinari só para comprar um carro. Rudá se irritou e cortou as relações com a mãe. “Ele passou mais de 21 anos sem falar em Pagu”, lembrou Rudazinho. “Quando Ivo Branco fez o audiovisual Eh, Pagu, Eh!, caiu no erro de perguntar ao papai sobre a vovó. Ele nunca mais falou com o Ivo.”

Foi só quando um meio-irmão, Kiko Ferraz (filho de Pagu com o jornalista Geraldo Ferraz), lhe enviou uma carta escrita por ela durante a gravidez, que Rudá parece ter apaziguado sua relação com a memória materna. “Meu pai passou por vários tormentos até resolver publicar a carta em livro”, contou Rudazinho. “Para ele, essa história era pesada demais.”

O livro é Paixão Pagu, lançado pela Agir em 2005, no qual ela relata sua dependência de drogas, traições conjugais, o desejo que despertava nos homens, a virgindade perdida aos 12 anos, o fingimento do primeiro casamento até acabar na cama de Oswald, marido da amiga Tarsila do Amaral e, por fim, do amor pelo filho que trazia no ventre, Rudá. “Meu filho nasceu”, escreveu, “e Oswald não me amava.”

Rudá me disse que ninguém foi mais audaciosa do que a mãe: lanterninha de cinema do Rio; autora de histórias policiais na revista Detective, dirigida por Nelson Rodrigues, sob o pseudônimo de “King Shelter”; a mulher que trouxe os primeiros grãos de soja para o Brasil quando assistiu à coroação do último imperador da China, Pu Yi, na Manchúria; a militante que rompeu com o PCB para aderir ao trotskismo; a amiga de André Breton em Paris; criadora da Associação de Jornalistas Profissionais em Santos; candidata frustrada a deputada pelo Partido Socialista Brasileiro.

 

Com o pai, a relação parecia menos visceral, mas não menos traumática. Rudá contou que Oswald dilapidou a herança do avô, um dos homens mais ricos de São Paulo. Penhorou telas de Picasso, De Chirico e Tarsila para gastar com esbórnias e namoradas. O rol de suas amantes era extenso: a bailarina Landa, Daisy, com quem se casou em uma delegacia depois de um aborto malfeito, a dançarina Isadora Duncan, Tarsila do Amaral, a musa Pagu, com quem trocou votos de matrimônio no Cemitério da Consolação. “E ainda teve a Hilda Hilst”, ele disse, referindo-se à autora de poemas e romances eróticos que morreu em 2004.

Em uma carta enviada ao crítico Antonio Candido, em 1970, Rudá se lembrou de um passeio que fez com o pai à Bienal de Artes Plásticas: “Em 1954, levei Oswald de Andrade à Segunda Bienal. Era o Ibirapuera de Niemeyer, da oficialização definitiva da arquitetura e da arte moderna que daria Brasília. Estávamos naquela tarde praticamente sós, sob as arrojadas estruturas de concreto e cercados de arte abstrata. Oswald sentia-se como um dos principais autores daquela conquista. Ele chorou.”

Esse artista sensível tinha pouco senso prático. Na sala de sua casa, enquanto bebericava o uísque, Rudá disse: “Já conheci meu pai vivendo de péssimos negócios, vendia um terreno aqui, dava uma festa ali, ganhava aqui para perder ali. Quando morreu, só sobraram dívidas.” Ele se levantou, foi até o bar para completar o copo. “Carrego o peso da família”, disse.

Aos 20 anos, Rudá se mudou para a Europa. Não usou nenhuma das cartas de recomendação escritas pelo pai a intelectuais franceses e italianos. Estudou no Centro Experimental de Cinematografia, em Roma, onde foi assistente de direção de Vittorio de Sica em três filmes. Conviveu com a atriz Jennifer Jones, mulher do tubarão hollywoodiano David O. Selznick, e com o ator Montgomery Clift, “com quem eu driblava o contrato de abstenção pegando, no bar, copinhos de café diluído em conhaque”.

Rudá testemunhou o mal-afamado método de direção de De Sica. Ele viu o diretor desferir um tapa na cara de um velhinho porque não havia gostado do jeito que ele andara em cena. “Como mandava o neo-realismo, eu tinha apanhado o figurante na rua, e senti aquele tapa como se fosse em mim”, contou.

Em 1954, veio ao Brasil visitar o pai. Mas Oswald morreu nesse ano (aos 64 anos) e Rudá nunca mais retornou à Itália. Deixou para trás uma noiva, filha do poeta Giuseppe Ungaretti. “Ele veio passar uma temporada no Brasil e me interpelou: Perché?“, lembrou Rudá. “Como eu não tinha mesmo o que dizer, apelei: La vita è cosi, maestro.” A vida é assim, mestre.

Acontecia então em São Paulo, que comemorava o seu quarto centenário, o maior festival de cinema do qual já se tivera notícia no país, com a presença do ator Errol Flynn e do diretor Eric von Stroheim. “O Brasil era foco dos fotógrafos do mundo, vivíamos um ufanismo paulistano bancado por Ciccillo Matarazzo e eu tinha 24 anos”, disse Rudá. O ponto alto foi a estréia mundial de A Marcha Nupcial, de Stroheim. “O atraso para começar a sessão já chegava a sete horas”, lembrou. “O Stroheim berrava para cancelar, mas eu resolvi bancar e mandei rodar a fita às quatro e meia da manhã. Tinha mais de 4 mil pessoas na platéia do Cine Marrocos”, lembrou.

Sob a orientação do crítico e ensaísta Paulo Emilio Salles Gomes, organizou o que viria a ser a Cinemateca Brasileira. Ela ficava no topo de um prédio de treze andares, que pertencia aos Diários Associados de Assis Chateaubriand, mas foi financiada pela família Matarazzo. Logo a Cinemateca se tornou uma referência. “Não é possível esquecer”, disse-me o cineasta Nelson Pereira dos Santos. “Cinéfilos chegavam de todos os lugares: Glauber, Jean-Claude Bernardet, Vladimir Herzog.”

“O Rudá era o maestro”, lembrou o produtor e cineasta Maurice Capovilla. “Ele organizava festivais de expressionismo alemão, nouvelle vague, o novo cinema polonês, foi o grande transformador da nossa geração de cineastas. Mais tarde tentamos atrair operários no Núcleo de Cinema do Centro Popular de Cultura, o CPC, frequentado por Jabor, Cacá Diegues, Ferreira Gullar, Vianinha.”

Simultaneamente, Rudá montou uma fábrica de varas de pescar. Todos os dias, às sete da manhã, já embalado por caipirinha de limão, ele dava expediente no negócio, criado em sociedade com o pianista Rafael Piragine. À tarde, voltava para a Cinemateca. “O nome da fábrica era Peski Bem. E eu nunca pesquei na vida.” Quando, compreensivelmente, o negócio faliu, passaram o ponto para uma empresa de ônibus.

A Cinemateca começou a ter problemas. Sucessivos incêndios destruíram preciosidades do acervo. Tiveram que mudar de sede por sete vezes. Em 1957, conseguiram um espaço, um antigo matadouro de carnes, doado pelo então governador Jânio Quadros. Rudá assumiu a responsabilidade pela reforma do lugar, a conservação dos filmes, a organização do conselho, o engajamento dos cineastas. “Não foi nenhum mistério ficar meses sozinho no matadouro, quando não havia nada nem ninguém, só eu e um vira-lata preto”, lembrou Rudá. “O que a gente queria era criar uma atmosfera para pensar cinema.”

O acervo da Cinemateca Brasileira é hoje de 200 mil rolos de filmes. Documentos, fotos, cartazes raros. Na ditadura, por medo de que os militares queimassem tudo, a Cinemateca fazia intercâmbio com a cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio – um tinha a cópia de todos os filmes da outra, por garantia. “Foi uma trabalheira solitária, mas a Cinemateca era um centro de resistência, valia a pena trabalhar sem ganhar”, disse. “O Dops [Departamento de Ordem Política e Social] vivia atrás do nosso fichário. Um dia queimamos mais de 2 mil nomes; eles nunca pegaram.”

 

Mais um gole de uísque, outro de cerveja. As horas se passavam e Rudá não comera nada. “Quando tudo ficou pronto, chutaram o cachorro preto para fora”, ele disse em relação a si mesmo e à Cinemateca. Seu tom de voz não era amargo ou irônico. Mas ele não escondeu sua decepção quanto aos rumos da instituição que ajudou a fundar. “É a isso que chamam de ‘profissionalização do cinema’? Eu nem frequento mais as reuniões, só se fala em dinheiro, é um conselho financista, só dá capitalista, industrial, uma área que sempre quis entrar na intelectualidade. Cadê os cineastas? Só sobrou o Hermano Penna e uns críticos, como o Inácio Araújo.”

O crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet viu no afastamento de Rudá do comando da Cinemateca uma morte simbólica. “Ele começou a morrer ali, e tinha razão em pedir demissão. As gerações mudaram, são os yuppies que controlam a Cinemateca; o meu tempo também acabou”, disse. A impressão é corroborada por outros amigos dele, como o ensaísta Ismail Xavier: “Sou da geração que deve muito ao Rudá. Aliás, todo brasileiro acima de 30 anos deve, mas a Cinemateca hoje está mais ligada ao que se chama de profissionalização, aberta ao marketing. Agora, como sobreviver num país onde as verbas são tão caras e o jogo político tão difícil?”

Quando falei de Rudá de Andrade, o coordenador do Sistema de Audiovisual da Cinemateca, Carlos Roberto de Souza disse: “A política cultural mudou, não há lugar para os pioneiros que deram o sangue e o suor. Rudá foi fundamental, mas mesmo o Paulo Emilio Salles Gomes já dizia que a classe que menos entende de cinematografia é a dos cineastas. Nas mãos dos cineastas a Cinemateca já teria afundado.” Para Rudá, a explicação era outra: “Não há cineastas no conselho porque, se houvesse, o diretor não estaria lá.”

Em meados dos anos 60, Rudá também foi responsável pela criação do Departamento de Cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, onde lecionou por dez anos. Foi graças a ele que a faculdade ganhou equipamentos de última linha, como filmadoras de 16 e 35 milímetros, e um Higashino, uma máquina de efeitos especiais moderníssima para os padrões da época e que só o físico Marcello Tassara, ex-conselheiro da Cinemateca, sabia manejar. “A reitoria só se convenceu a comprá-la quando fizemos um documentário sobre Guimarães Rosa com fotos de Maureen Bisilliat”, disse Tassara, contando que o fotodocumentário levou primeiro prêmio no Festival de Brasília, e completou: “Ninguém tira de Rudá o papel de pioneiro, mas as pessoas esquecem.”

 

Mesmo com o atormentado passado familiar, Rudá nunca se deitou em um divã. Em compensação, casou cinco vezes, sendo duas na Itália. Há mais de três décadas vivia com Halina, que tem formação como dentista e é irmã de sua quarta mulher, Vanda. Além de Rudazinho, ele teve outros dois filhos, Cláudio, de 51 anos, e Gilda, de 47.

Foi comunista, atuou em sindicatos e, durante a ditadura, viveu um período na clandestinidade. Chegou a organizar a fuga de perseguidos políticos para fora do país e escondeu amigos procurados pelos militares. Bem ao seu feitio, escondeu-os em bordéis paulistanos. “A nossa base funcionava na Holliday, na rua Amaral Gurgel. Passei um ou dois anos morando lá, escondendo operários, mais de trinta clandestinos”, contou. “O Flávio de Carvalho fez o retrato de uma das putinhas, que ficou tão bonito que o Carlos Augusto Calil [atual secretário municipal de Cultura de São Paulo] resolveu ficar com ele.”

No auge da ditadura, em 1970, Rudá de Andrade e amigos como Paulo Emilio e Francisco Luís Almeida Sales encamparam outro projeto ambicioso, o Museu da Imagem e do Som, o MIS. De sua inauguração até 1981, Rudá dirigiu a instituição com a idéia de transformá-la num pólo de exibição de filmes fora do circuito comercial e exposições de cunho histórico.

Rudá dirigiu três filmes. Um sobre a festa de são Januário, outro sobre uma nadadora de Santos que morreu quando atravessava o Canal da Mancha e o terceiro sobre Oswald, que poucos amigos tiveram oportunidade de assistir. Um deles foi Maria Rita Galvão, conselheira da Cinemateca, que o definiu como “dolorido”. Segundo ela, o filme termina com a simbologia do cachorro vira-lata levado para a morte pela carrocinha da prefeitura. “O final da vida de Oswald foi triste”, disse. “Existiria uma cópia de 16 milímetros do documentário. Não achei ninguém que saiba onde está.”

O episódio mais dramático da vida de Rudá foi relatado no único livro que escreveu, Cela 3, publicado em 1983. É um relato dos dez meses que passou encarcerado na maison d’arrêt de Bourg-en-Bresse, na França, convivendo com estrangeiros presos por estupro, anões tatuados e criminosos de todos os quilates. Rudá foi acusado de tráfico de cocaína, quando, no aeroporto de Zurique, a polícia achou 250 gramas da droga na sua bagagem, embalados em quatro pacotes de café. Ele sempre negou a acusação.

Jean-Claude Bernadet foi duas vezes à França visitá-lo e assistiu a seu julgamento. “Rudá era a nossa base, devo a ele ter deslanchado minha carreira, por isso fui à prisão e expliquei ao juiz quem era aquele homem, que a geração dele era a da bebida, não da droga”, disse. “Não sei se funcionou, mas ele foi liberado por falta de provas.”

No livro, Rudá faz um relato entrecortado, bizarro e pungente de sua prisão. Já na abertura, ele publica um poema que mandou do cárcere ao cineasta Júlio Bressane e ao poeta Augusto de Campos, autor do primeiro ensaio de peso sobre Pagu:

A grade
agride
agrade

Cela 3 ganhou o Prêmio Jabuti de literatura. Durante anos, editoras o procuraram para que escrevesse sua autobiografia, o que ele sempre se negou.

De volta ao Brasil, Rudá foi trabalhar na Secretaria de Cultura de São Paulo. Em seguida, montou a produtora Nau (“Atenção: não é Now“, ele alertou). Com o cineasta Nelson Pereira dos Santos, apostou na idéia de fazer um filme sobre uma dupla sertaneja em alta na época: Milionário e Zé Rico. O filme fez sucesso. O outro projeto incluía um documentário sobre Oswald de Andrade, com roteiro escrito por Rudá. “Nunca conseguimos financiamento, quem sabe agora”, disse o cineasta.

Do alto da varanda de Pedra Bela, Rudá apontou o lago coberto de patos e explicou: “A Halina fazia anos, eu não tinha dinheiro e resolvi construir esse lago de presente para ela.” Os cachorros começaram a devorar as aves. Mandou cavar outro, emoldurado por uma cerca marrom. “Macunaíma morreu envenenado; Ci, afogada; ficou a filha Mi”, disse ele, apontando a gata siamesa e entronizando-a na galeria da rapsódia de Mario de Andrade. Rudá parecia orgulhoso do seu relacionamento com os bichos.

 

Continuou a beber e a falar do passado. “Eu fazia cursos para dirigentes de cineclubes”, disse. “O Bernardet e o Gustavo Dahl foram alunos brilhantes. Aos 18 anos, o Glauber era crítico num jornal da Bahia e fui eu quem divulguei o primeiro longa dele, o Barravento. A partir dali, ele nunca falou comigo menos de uma hora e meia. Telefonava dos hotéis, no meio o uísque acabava, interrompia para pegar outro e continuava sem se preocupar com a conta que seria pendurada mesmo; ele nunca pagava.”

Nos últimos anos, as aventuras de Rudá reduziram-se a observar a mata e a assistir a filmes restaurados de Murnau, Méliès e da Atlântida. Ficou mais tolerante com a ruindade, a ponto de achar que “a pornochanchada não era aquele horror”. Ao cinema, ia pouco. “A onda é a do cinema iraniano e nessa eu não entro”, disse. “Aos americanos, assisto como a um joguinho de computador. Aos brasileiros, vou quando é um filme bom, como os do Walter Rogério. O cinema hoje me decepciona.”

No final de janeiro, Rudá caiu em casa e quebrou o fêmur. Clarice Herzog, vizinha e única amiga a manter contato frequente com ele, visitou-o no hospital. “Ele estava magro, não queria comer, mas achei que ele ia sair dessa”, disse. No dia seguinte, durante uma cirurgia, Rudá sofreu uma parada cardíaca e morreu. Tinha 78 anos.

Seis dias depois, o filósofo José Arthur Giannotti, seu amigo de adolescência, publicou um artigo na Folha de S. Paulo cujo título era: “Rudá teve alma surrealista e vida descentrada.” Ele começava assim: “Diziam que seu nome verdadeiro era Rodo-metálico.” A observação provocou a ira de Rudazinho, que sabia bem do mal-estar do pai com a brincadeira. Ele rebateu com o artigo “Réplica para um Filósofo Descentrado”. Rudazinho escreveu: “Acredito que no fundo ainda lhe resta algum sentimento feliz de seu antigo companheiro… Somente um intelectual acostumado a duros e racionais textos filosóficos poderia se expressar sentimentalmente e ser um desastre.”

Giannotti lamentou o ocorrido. “O meu título foi substituído; escrevi apenas o nome de batismo dele, Rudá Poronominare de Andrade, num artigo que pretendia pagar uma dívida intelectual que eu tinha com ele. Rudá não foi apenas o filho de Oswald e Pagu.”

O velório foi nos salões da Cinemateca. O presidente do Conselho, Gustavo Dahl, não compareceu. “Ele não aguentaria”, disse Bernardet, que se aproximou do caixão, colocou a mão de Lygia Fagundes Telles, viúva de Paulo Emilio, sobre a mão fria de Rudá, e a sua própria por cima. “Ali havia mais que um pedaço da nossa história, era um pedaço da nossa morte”, concluiu Bernardet. O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa declamou o poema “Escapulário”, de Oswald:

No Pão de Açúcar
de cada dia
dai-nos Senhor
a poesia de cada dia

A viúva, Halina, não sabe se terá condições financeiras de manter o sítio. “Os bichos estranham a ausência de Rudá”, ela me contou. “Uma gatinha siamesa que tinha um mês e pouco quando ele morreu está muito carente.”

Rudá me disse que não queria ser enterrado ao lado do pai. Mas foi posto no jazigo de Oswald de Andrade, na quadra 17, túmulo 17, no Cemitério da Consolação, em São Paulo.

Norma Couri

Norma Couri, jornalista, é correspondente no Brasil da revista portuguesa Visão.

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