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A ladeira da exclusão

Um paladino da acessibilidade
Roberto Kaz
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IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

A última cartada foi tentada numa segunda-feira chuvosa de novembro, em pleno feriado de Zumbi dos Palmares. Marcelo Wirz Moreira saiu de casa, no bairro do Cosme Velho, na Zona Sul do Rio de Janeiro, segurando uma lata de tinta branca. Caminhou até o ponto de mototáxi na base da ladeira onde mora – que leva à favela do Cerro-Corá – e perguntou se alguém poderia ajudá-lo. Um rapaz sugeriu o nome de Lalo Reis, um artista plástico morador da comunidade. Minutos depois, com Reis já ao seu lado, Moreira passou a pintar uma frase nos tapumes de uma obra. “ESTA OBRA NÃO TERÁ CALÇADA PARA CADEIRANTE, CARRINHO DE BEBÊ E IDOSOS”, dizia o texto, em letras garrafais que se estendiam por 30 metros de uma avenida movimentada. A tarefa foi executada em cerca de três horas.

Moreira é um escultor de 54 anos, que usa os cabelos longos presos num rabo de cavalo. Trabalha com a mulher numa esquina da avenida Rio Branco, no Centro do Rio, vendendo quentinhas a 20 reais. “Sou artista plástico de profissão, mas hoje em dia sou camelô, com muito orgulho”, explicou. “Vendo filé-mignon, camarão, bacalhau, tudo feito aqui em casa.”

A cruzada de Moreira para melhorar a ladeira onde mora teve início dois anos atrás, quando ele viu um homem penando para descer a via numa cadeira de rodas. “Como não tinha espaço na calçada, ele teve que seguir pela rua”, rememorou. Só que a rua, estreita, era feita de pé de moleque – o calçamento antigo, de pedras redondas, famoso por gerar tombos e tombamentos patrimoniais. “Achei injusto que eu pudesse chegar em casa tranquilamente, e que aquele homem tivesse tanta dificuldade por causa de uma rua tombada.”

Indignado, Moreira resolveu fotografar a calçada – cuja largura é de cerca de 60 centímetros – para levar a reclamação à prefeitura. Foi quando encontrou uma pequena rachadura entre o calçamento de concreto e a mureta que o separava da encosta. Com as imagens em mãos, procurou a Secretaria Municipal de Conservação. Ouviu que não havia dinheiro para a obra de ampliação da calçada. Tentou então a Geo-Rio, órgão da Secretaria Municipal de Obras responsável pela contenção de encostas. “Pensei que, se eles refizessem o muro, acabariam aumentando a calçada, por uma questão de bom senso.”

Em março de 2016, um arquiteto da Geo-Rio avaliou o local. Descreveu uma “ruptura parcial decorrente do crescimento de árvores”, e pediu a interdição da calçada. “Colocaram uma faixa de contenção em volta do muro e foram embora”, contou Moreira. Meses depois, um pedaço de 2 metros da mureta despencou encosta abaixo. “Eles voltaram, colocaram uma nova faixa, e nada mais foi feito”, continuou. “Com a Olimpíada, o prefeito Eduardo Paes só liberava verba para obras que promoviam o Rio, e isso era a ladeira de uma comunidade.” Moreira disse que a fita de isolamento permaneceu por lá até o fim do mandato de Paes.

 

Brigar por muros é uma espécie de tradição na família de Marcelo Moreira. Quando criança, ele morou em outra ladeira não muito distante dali, a da rua Alice, no bairro de Laranjeiras. “Atrás da minha casa havia um pequeno vilarejo, onde hoje fica uma comunidade”, lembrou. “Em época de chuva despencavam umas pedras sobre aquela área. Algumas tinham quase o tamanho de um Fusca.”

Preocupado com a segurança da vizinhança, o pai de Moreira recorreu à prefeitura, pedindo a construção de um muro que contivesse a encosta. “Os deslizamentos não afetavam a nossa casa”, explicou o escultor. “Meu pai comprou a briga por um ideal coletivo mesmo.” O muro acabou sendo erguido, mas só após alguns anos de batalha. Já adulto, Moreira diz ter lutado, ao lado do pai, pela construção de uma minipraça, chamada largo Maria Portugal, também em Laranjeiras. Depois passou a exercer a cidadania de forma mais moderada, cobrando por telefone que a prefeitura consertasse postes ou tapasse bueiros.

O ativismo de Moreira não impediu que um acidente urbano ocorresse na frente de sua própria casa. Neste ano, o que restara da calçada já interditada acabou deslizando durante uma tempestade. “O dia era 20 de junho, me lembro como se fosse hoje”, contou. “Eu estava na cozinha, ouvi um barulho muito alto. Quando olhei pela janela, não tinha mais nada na frente. Só a pista de carros, e os escombros da calçada lá embaixo.” O buraco na mureta, que desde 2016 tinha 2 metros de extensão, agora tinha pelo menos 25.

Moreira foi tomado por uma frustração profunda. Sentiu-se como quem tenta avisar um pedestre prestes a ser abalroado por um veículo. “Você grita ‘Cuidado, olha o carro!’, mas a pessoa continua na mesma direção até ser atropelada”, comparou. “O que me confortou é que ninguém morreu.”

Na manhã seguinte, o prefeito Marcelo Crivella visitou o local. “Chamei-o num canto e falei: ‘Esse é o legado que temos da Olimpíada, da Copa, do Eduardo Paes.’” Moreira disse que já vinha alertando a prefeitura havia dois anos, e voltou a insistir na necessidade de uma calçada nova e mais larga.

Um mês depois a reforma foi iniciada, mas a alegria de Moreira foi fugaz. No decorrer da obra, ele soube que a calçada continuaria a ter os 60 centímetros de sempre. “Era só eles alongarem a grelha de contenção da encosta”, queixou-se. “A prefeitura cobra acessibilidade do comércio e dos condomínios, mas, nesse caso, deixaram pra lá.” Disse ter ido três vezes à sede do município para tentar falar com o secretário de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação. Em uma delas, abordou o subsecretário de Infraestrutura, Sebastião Bruno, no meio do corredor.

Sem saber o que mais fazer, Moreira resolveu tornar a querela pública – foi quando resolveu pintar a frase no tapume. “Sei que tem pelo menos quatro cadeirantes que moram no morro”, disse. “Estou acenando para as pessoas, mas é como se estivesse morrendo afogado.” Em nota à piauí, a Secretaria afirmou estar aguardando o resultado de uma análise técnica para avaliar a viabilidade da ampliação da calçada. “Se for viável, a obra será feita.”

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