Lamento por uma capa precoce

A história de uma ilustração tristemente visionária
Maria Cecilia Marra, Bruce McCall
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Bruce McCall, famoso por conferir verossimilhança realista a cenas delirantemente improváveis, conta com um entusiasmado fã-clube na piauí. Segundo uma tipologia que o próprio artista criou, seu trabalho se divide em três temas principais: Futurismo Retrô, uma visão bem-humorada de como o passado representou o futuro; Nostalgia Espúria, a saudade de um tempo utópico que jamais existiu; e Surrealismo Urbano, categoria preferida pela revista The New Yorker – para a qual fez mais de setenta capas nos últimos 37 anos –, que consiste em exacerbar até as raias do absurdo as características concretas da cidade.

Quando, em meados do ano passado, Trump deixou de ser apenas um topete bizarro para se tornar um candidato viável à Presidência dos Estados Unidos, achamos que a hora de um McCall na nossa capa tinha finalmente chegado. “Jurei não tocar nessa história horrível de Trump”, veio a resposta curta. Insistimos, mas McCall não arredou pé: “Ele é tão perigoso que é impossível satirizá-lo.” Lamentamos, solidários, e avisamos que não desistiríamos de publicar uma capa dele num futuro qualquer. Poucos dias depois ele ressurgiu: “Acho que tenho uma solução. Anos atrás eu fiz uma ilustração da Casa Branca do Trump com um monte de ouro e de vulgaridades. Interessa?” Mande, por favor!

A ilustração chegou tarde para aquele fechamento. Foi emoldurada e ganhou uma parede de honra, da qual agora foi sacada para retratar a chegada desta improvável figura à Casa Branca. Foi quando nos demos conta: no verso, rabiscada a lápis, aparecia a data – 1990. Meio despudoradamente, pedimos então que McCall explicasse a origem dessa ilustração visionária, a única em que o futuro do pretérito do qual ele é o mestre indiscutível tornou-se tristemente atual.

MARIA CECILIA MARRA

 

A CASA BRANCA DE TRUMP

Em retrospecto, foi tudo muito inocente: eu queria zombar de um pateta inofensivo e pretensioso. Como eu – ou qualquer outra pessoa no universo progressista da mídia nova-iorquina – poderia imaginar que Donald J. Trump um dia irromperia no poder, pondo em risco nossas crenças e nossos direitos? Em círculos letrados, ele sempre havia sido uma criatura ridícula, desde que surgira como figura pública, nos anos 70. Não passava de objeto de risadas e desdém. Seu gosto de novo-rico e a absoluta falta de percepção de si mesmo – tão grande que não dava margem a uma nesga de humildade – eram típicos do homem de negócios materialista, ganancioso e implacável que os nova-iorquinos adoram odiar.

Ele teve, sim, um momento de triunfo na década de 80, quando, com dinheiro próprio e seu costumeiro estilo ditatorial, reformou a pista de patinação no gelo do Central Park, uma obra que a cidade passara anos sem conseguir fazer. Gabava-se disso sempre e sem parar, mesmo que seus piores críticos, ainda que a contragosto, já o tivessem elogiado. Mas essa foi a única exceção em sua trajetória de valentão, recheada de mentiras, acordos escusos e incompetência financeira. Quando anunciou sua candidatura à Presidência – para uma claque de atores, minutos depois de descer a escada rolante de seu próprio edifício –, seus críticos exultaram com a perspectiva de ver aquele babaca horroroso fazer papel de idiota. E foi o que ele fez durante um ano e meio, mas ainda assim, pavoneando-se o tempo todo, conseguiu pavimentar seu caminho até a Casa Branca.

Meu retrato de uma Casa Branca de Donald Trump nasceu de uma fanfarronice qualquer, já esquecida, alguma bobagem que ele cometeu em algum momento dos anos 90. Era tão ridículo imaginar que ele pudesse chegar perto de liderar a nação que, na época, aquela minha ideia nem pareceu tão engraçada – afinal, Trump vivia dizendo aquelas idiotices. Afirmar-se qualificado para ser presidente era só mais uma entre milhares.

Queria nunca ter feito esta ilustração. Fico parecendo um visionário que acreditou na chegada de Trump, o que constitui uma cruel inversão da verdade.

BRUCE MCCALL

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