Na versão de Gotlib, é Chapeuzinho Vermelho quem come o Lobo Mau. Mas no sentido bíblico do termo, num entusiasmo de dar inveja ao mais devoto sacerdote do bestialismo
Ver dados da foto Na versão de Gotlib, é Chapeuzinho Vermelho quem come o Lobo Mau. Mas no sentido bíblico do termo, num entusiasmo de dar inveja ao mais devoto sacerdote do bestialismo FOTO_CHRISTINE POUTOUT / DESENHOS_RUBRIQUE-À-BRAC © DARGAUD, POR GOTLIB_WWW.DARGAUD.COM _TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Le roi est mort, vive Gotlib

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Na versão de Gotlib, é Chapeuzinho Vermelho quem come o Lobo Mau. Mas no sentido bíblico do termo, num entusiasmo de dar inveja ao mais devoto sacerdote do bestialismo FOTO_CHRISTINE POUTOUT / DESENHOS_RUBRIQUE-À-BRAC © DARGAUD, POR GOTLIB_WWW.DARGAUD.COM _TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

O grande Marcel Gotlib morreu no dia 4 de dezembro de 2016, aos 82 anos de idade. Os leitores mais antigos da piauí terão ligado o nome à pessoa, pois durante os cinco primeiros anos da revista o quadrinista francês foi presença religiosa nas nossas páginas. Uma rápida passada de olhos pela seção de cartas daqueles tempos heroicos comprova sua grande popularidade por estas plagas. Em 2008, por exemplo, escreveram-nos: “Gotlib emprestou dinheiro para criar esse mensário? É caso de alguém importante daí?”, “Tem que haver uma justificativa… nepotismo talvez”, “Manda ele de volta pra França!” Em 2009: “Quosque tandem abutere Gotlib patientia nostra?” Em 2010: “Deve estar rolando um jabá, deve ser a única explicação.” Em 2011: “Gostaria de saber quanto ele paga de jabá, já que pretendo iniciar uma campanha para arrecadar fundos e oferecer o dobro para retirá-lo definitivamente da revista.” O sarcasmo machucava, mas parecia inofensivo se comparado às propostas de expurgá-lo definitivamente não da revista, mas da vida. “Bastilha nele!”, vituperou um leitor de Atibaia em outubro de 2008, num tom que nos soou francamente rude.

Apesar de tudo, entrincheirados nas barricadas, não esmorecemos, e a cada mês aqui estava ele, civilizando as nossas cabeças. Como registrou o Libération: “Foi com Gotlib que toda uma geração aprendeu a inteligência nos anos 70.” O jornal chega a compará-lo a Roland Barthes, só que mais divertido. E pronto: esse fragor que você começou a ouvir é o batuque frenético das diatribes de matriz puc-uspiana que começam a ser disparadas para a redação. Data venia, Gotlib publicou exegeses definitivas de clássicos da literatura, contos de fada, romances de capa e espada e telenovelas. Dedicou páginas memoráveis ao desmanche das idiotices da vida contemporânea, de viagens de férias pascácias a restaurantes pomposos, do logro da publicidade (ver páginas seguintes) à pretensão dos cinéfilos, da indignação fácil com as grandes tragédias humanitárias aos lugares-comuns da própria história em quadrinhos. Basta ver o que fez com uma girafa na piauí de fevereiro de 2007 para comprovar a sem-cerimônia com que tratava a arte que o consagrou.

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