Ver dados da foto IMAGEM: CORTESIA DE PHANTOM CITY CREATIVE © DISNEY

Let it go

O pai, o filho e o desenho animado
Leandro Sarmatz
Tamanho da letra
A- A+ A
IMAGEM: CORTESIA DE PHANTOM CITY CREATIVE © DISNEY

Palavra que eu gostaria de ser uma pessoa melhor. Essa é uma das obsessões que me acompanham sempre que tenho de levar minha filha de 5 anos a uma atividade infantil. Como não existe equilíbrio no universo, e provavelmente eu nunca serei verdadeiramente punido por odiar certas coisas, tenho sido poupado do pior: as festinhas de aniversário. Fui apenas a uma delas ao longo desses anos. Uma experiência memorável, e não apenas pelo ineditismo. Quando, na hora do Parabéns, o pai (sessentão, segundo casamento) do garotinho que comemorava 3 anos num evento temático inspirado em Peter Pan levantou o menino como o troféu de algum prêmio genético – na verdade, percebi em seguida, ele simulava um voo heroico de Peter com aterrissagem ao lado do bolo enquanto o coelho da senhora encarregada das mágicas que se apresentara havia pouco saía em disparada pelo salão, apavorando os priminhos de 2 anos, as babás e as tias-avós –, eu entendi que havia chegado a um beco sem saída conceitual estilo antissionismo-não-é-antissemitismo, ou então, sou-a-favor-de-se-protestar-numa-sociedade-democrática-mas-sem-vandalismo. Eu continuaria podendo me considerar um bom pai uma vez que odiava estar na presença de outras crianças e, pior ainda, abominava o convívio social com outros progenitores? Desde então, enquanto me perco nesses paradoxos e oximoros, minha mulher tem se encarregado de levar a pequena nas festinhas. Uma dívida para a vida inteira.

O fato é que jamais sonhei em ser pai, mas quando a coisa aconteceu eu comecei a projetar uma persona para mim. Eu deveria ser necessariamente uma espécie de vingador do passado. Um tremendo clichê, claro, o tipo de atitude que é quase garantia de uma infância arruinada pela pretensão dos pais em consertar supostos erros alheios (i.e., dos avós da criança que ainda não nasceu) no próprio desenvolvimento. No pacote imaginado por mim haveria espaço para uma paideia ampla e ecumênica (o melhor da cultura europeia, latino-americana, brasileira), leveza emocional para combater qualquer inclinação ao drama, à melancolia e à alienação, além de disciplina, alegria e algum talento performático (dança, em especial). Esse seria, digamos, o pacote básico. Na versão mais turbinada que me aparece ao longo de noites insones, eu estaria promovendo um ciclo Ingmar Bergman na sala de casa como alternativa à festa de formatura do ensino fundamental, ou então organizando uma versão doméstica do Fronteiras do Pensamento – os convidados seriam alguns escritores com quem tenho certa camaradagem. Ela iria debater de igual para igual os temas mais controversos da nossa paisagem mental, num esquema “Jesus entre os doutores”.

Obviamente nada disso aconteceu – ainda –, mas há todo o futuro pela frente: ela só tem 5 anos de idade, como eu disse. Durante os primeiros tempos eu embalei seu sono tendo como trilha a versão de João Gilberto, Caetano, Gil e Bethânia para Cordeiro de Nanã; leio incansavelmente, noite após noite, A Arca de Noé, Ou Isto ou Aquilo, contos de Andersen, histórias iídiches, chinesas, gregas, afro-brasileiras e palestinas; fazemos um dueto que soa quase adorável quando cantamos Águas de Março ao estilo Elis (ela) e Tom (eu); dei força para que a mãe a levasse ao baile de Carnaval infantil do Juventus, na Mooca, onde ainda tocam as clássicas marchinhas de sentido sexualmente ambíguo. Um banho de Brasil junto com a primeira dentição.

E, claro, tem todo o capítulo das idas ao cinema. Eu chamaria isso de a lei básica das compensações. Ou mesmo de o fiel da balança no equilíbrio do ecossistema doméstico. Como em nosso arranjo é a mãe que tem de se aboletar em direção ao bufê infantil toda vez que o David, a Karina, o Adam, a Keren, o Beni, o Michel, a Juju e os gêmeos Bento e Manoel fazem aniversário – para eu ficar dando graças aos céus pela oportunidade de tomar minha cerveja na varanda enquanto fuço o Facebook alheio ou me dedico a qualquer outra atividade adulta desse naipe –, sou uma espécie de encarregado cultural da família, um diligente apparatchik sempre em busca do aprimoramento intelectual da pequena.

Isso inclui o acesso a livros, música e velhos filmes e desenhos (estamos na fase Flintstones), tudo até aqui resolvido sem que eu tenha que arredar um centímetro da sala de estar ou tolerar o alarido de outras crianças. Mas e quando ela vê o anúncio de um desenho que vai passar “somente nos cinemas”? Eu até poderia tentar engambelá-la com algum ardil (“Ano que vem a gente vê na Netflix”), mas não seria um comportamento muito paternal, admito.

Então lá vamos nós para o cinema de shopping mais próximo ver um desenho animado. Se posso dar um conselho: jamais vá nas tardes de sábado ou domingo. Claro que esse é o dia escolhido pela maioria dos pais, porque, afinal, grande parte das pessoas está de folga durante o fim de semana. É aterrador. Não quero forçar muito a barra, mas, se você tivesse opção de fazer uma viagem no tempo, você preferiria a Ipanema bossa-novística ou a Batalha do Marne em 1914? Para evitar a sangreira desatada, o ideal é ir na primeira sessão de uma segunda ou terça-feira. Embora o horário seja pouco recomendável para pessoas produtivas, é a melhor alternativa para evitar gritos, outros pais e mães rompendo a escuridão com a luz bruxuleante do telefone celular e – horror dos horrores – bebês de pouco mais de 6 meses acompanhando o irmãozinho de 4 anos. Uma sessão infantil é a pior ocasião cinematográfica para se levar um lactente por um motivo bastante simples: o barulho da tela não dá descanso um segundo, e os muito pequenos costumam ficar bastante transtornados. Antonioni seria o ideal para eles, talvez.

E então começa o desfile multicolorido diante dos nossos óculos 3D. Como foi mesmo que chegamos a esse ponto?

 

Os primeiros desenhos animados de Walt Disney, um pandemônio em preto e branco roteirizado por algum escritor com especial pendor para o absurdo, são acessados com facilidade no YouTube. Perto dos longas-metragens de hoje, produzidos com as mais modernas ferramentas de criação por numerosas equipes, mais parecem os bisontes de Altamira diante da Capela Sistina. Arte rupestre versus esplendor do Ocidente. Inegável que mantêm algo do encanto original: têm qualquer coisa de impuro e áspero, são o produto de uma mente um tanto agressiva que percebeu que só iria se impor no novo cenário se um cabrito engolisse o violão do Mickey e a partir daí se comportasse como um gramofone (O Vapor Willie, 1928), ou se esqueletos do cemitério arremessassem o próprio crânio contra uma coruja e depois saíssem dançando em grupo (A Dança dos Esqueletos, 1929). Coisas assim.

Sem querer contrabandear a frankfurter para o cachorro-quente alheio, diria que é curioso observar como as situações nesses primeiros desenhos são exploradas ao máximo numa economia criativa que só poderia ser chamada de fordista. No filminho dos esqueletos, por exemplo, o corpo de um deles vira um xilofone – as baquetas, seu par de fêmures – nas mãos de um companheiro de cemitério. Uma década antes de Disney, os criadores do Gato Félix – a primeira animação distribuída em larga escala – pareciam aprontar semelhantes peraltices. Em Feline Follies (1919), quatro minutos e quarenta segundos de ação vertiginosa, a certa altura notas musicais se transformam em carrinhos de rolimã. Enfim, as situações mais surreais parecem se encavalar uma depois da outra, numa montagem que, em termos bastante banais, poderia ser resumida ao adágio “Do boi se aproveita até o berro”.

Pode parecer besteira, mas não se deve esquecer que esses primeiros desenhos são contemporâneos da Lei Seca (1920–33). Nessa mesma época, Walter Benjamin iria observar que as animações da Disney “produzem uma explosão terapêutica do inconsciente”. Bota explosão nisso. As animações são crivadas de referências – jocosas e crudelíssimas – ao alcoolismo, com personagens com o glândico nariz vermelho de borracho contumaz; paira um clima destrambelhado, anárquico e canhestro de bêbado de rua. Estilizam ora um porre coletivo, ora as convulsões da abstinência em sua mistura de situações amalucadas, ritmo histérico, andamento acelerado e enredo surrealista.

Mas explico mal. É preciso afinar melhor os termos. De fato, “surrealismo” não define de maneira apropriada a loucura nesses filmetes. Absurdas e malignamente infantis, essas primeiras animações parecem devedoras do britânico Edward Lear, autor do Book of Nonsense (1846). E isso tanto de seus limericks (“Havia um Velho Cidadão de Quito/Cujos sonhos o deixavam aflito;/Para mantê-lo acordado, davam-lhe pão com melado,/E deleitavam esse Cidadão de Quito”, na esperta versão da tradutora Dirce Waltrick do Amarante) quanto de suas próprias ilustrações. A propósito delas, o escritor argentino César Aira, que escreveu um livro inteiro sobre Lear, nos informa que o britânico, sofrível desenhista de figura humana, optou por deformar, caricaturizar as figuras, num procedimento que lembra os desenhos feitos pelas crianças.

A guinada rumo ao sentimentalismo (vá lá: aos sentimentos puros) pode ter se dado a partir de Branca de Neve, cujo lançamento está comemorando 80 anos nos Estados Unidos – estrearia no Brasil somente no ano seguinte –, o primeiro longa-metragem de animação em cores a fazer sucesso nas bilheterias. Terá tido a longa duração da película alguma influência no clima emocional da história? É uma tese atraente. Talvez faça algum sentido. Assim como no cinema com atores de carne e osso, cujos primeiros curtas continham gags (uma mangueira ligada na torneira se contorcendo feito uma serpente e molhando os atores, há-há-há, essa foi boa), os primeiros dramas também se beneficiariam do salto técnico que foi a longa-metragem das histórias. Comédia tem tudo a ver com timing, é o tiro de 100 metros rasos; já o drama tem parentesco com a maratona, beneficia-se da alternância de ritmos. E isso vale para produções destinadas a todas as idades.

 

Tecnicamente, desenhos como Frozen (cuja canção mais famosa inspirou o título deste texto), Zootopia, Trolls e Moana – para ficarmos com exemplos de acachapantes sucessos recentes – são destinados às crianças. São multicoloridos, agitados, estridentes, musicais. Banhados na tina da glicose maniqueísta, trabalham temas clássicos desde que Esopo (um escravo que sabia como contar uma boa história) colocou uma lebre e uma tartaruga para correr mais de dois milênios atrás: a superação das adversidades, o orgulho sendo abatido pela humildade, o otimismo substituindo as trevas da acídia.

Porém, as crianças não costumam ir sozinhas ao cinema. Então a casta inferior – nós, pais e mães – responsável pelo translado e aquisição de ingressos e combos de pipoca e refrigerante precisa ser contemplada em algum nível de fruição. Claro que os gênios mercadológicos dos grandes estúdios sacaram isso já há algum tempo. Na minha época era diferente. Eram os últimos momentos da década de 70, e só consigo me lembrar da expressão absolutamente desfigurada, como se estivesse antevendo uma tragédia, que transformava a fisionomia da minha mãe quando ela levava a mim e a minha irmã para assistirmos ao desenho da temporada. Era uma máscara quase trágica que transmitia algo cinzento e abissal entre o enfado, a mágoa, a sensação de tempo perdido e a exasperação. Um negócio de dar dó. É porque ela sabia que teria de enfrentar duas penosas horas de absoluto infantilismo, personagens planos, enredos primários, pouca ou nenhuma referência ao mundo dela.

Com algumas exceções, o cenário nas atuais salas de cinema é bastante diverso. Os pais também entram no filme. Claro que há um tantinho de traço geracional nisso: a atual fornada de pais e mães, nascida nos anos 70 e 80, foi inteiramente adestrada na gramática de Disney e congêneres. Bichinhos falantes os acompanham desde os primeiros dias. A cornucópia de mascotes made in China, ilustrações nas capas de cadernos, mochilas licenciadas e toda sorte de tralha com os personagens de seus desenhos prediletos ocuparam parte do seu horizonte material desde sempre. A infância também durava mais que a de seus progenitores das décadas de 40 ou 50. Contudo, o que há hoje é um pacto entre os realizadores dos desenhos e os homens e mulheres que acompanham as crianças: vejam, suas duas horas também serão aproveitadas, vamos oferecer pelo caminho algumas migalhas de legítima autossatisfação adulta, não se preocupe, é por nossa conta.

No recente Trolls (DreamWorks), espécie de versão dos Smurfs com mais glitter e por isso mesmo com um enredo meio chatinho para quem tem mais de 7 anos, o grande trunfo parece ser a trilha, que resplandece com saudável ironia pop. As crianças podem nem desconfiar do que estão ouvindo, mas os adultos na audiência reconhecem de imediato versões de joias como The Sound of Silence (Simon & Garfunkel), Hello (Lionel Richie), True Colors (Cyndi Lauper), entre outras. A tendência de incluir um som “adulto”, ou que pelo menos emita umas piscadelas auditivas para a parte madura da plateia, vem desde Shrek (DreamWorks), quando a canção Hallelujah, de Leonard Cohen, epítome da maturidade pop, foi entoada por Rufus Wainwright.

Zootopia (Disney), a história de uma coelhinha que, contrariando seus instintos, se torna uma policial e fica amiga de uma raposa meio matreira, abunda em situações com algum duplo sentido e referências ao repertório dos mais velhos. Há um adorável guepardo na recepção da delegacia, o pintoso Benjamin Garramansa, que é sorridente demais e venera a gazela Gazelle, a versão quadrúpede de Shakira, com o mesmo tipo de intensidade e ardor que meus amigos solteiros, festeiros e sem barriga dispensam a Madonna. Também há uma paródia irresistível de Brando em O Poderoso Chefão na figura de Sr. Big, um ratinho (na verdade um musaranho do Ártico) com o mesmo virtuosismo nos trejeitos de quem passou uma temporada no Actors Studio. Há ainda referências a Breaking Bad, DVDs piratas e outros detalhes apenas captados por nós, mas que não atrapalham a fruição dos infantes.

E os bichinhos, antropomorfizados desde a aurora do cinema, têm desempenhado muito bem esse papel de agente duplo entre o mundo infantil e o adulto. John Berger, o grande escritor britânico recentemente falecido, tem um ensaio intitulado “Why look at animals”, em que analisa a mudança de papel de rebanhos bovinos, cavalos, aves, animais de exibição circense ao longo do tempo: “Na sociedade industrial, crianças estão cercadas pelo imaginário animal: brinquedos, gibis, desenhos animados, todo tipo de decoração. Nenhuma outra fonte de imagens pode competir com os animais.”

Mas nem sempre foi assim. Coincide com o declínio da força animal na atividade produtiva a partir da Revolução Industrial a proeminência dos bichos em nosso imaginário. Extraída de seu ambiente original e destituída de sua potência selvagem, essa nova encarnação da bicharada foi domesticada para a família inteira. Todo o reino animal se converteu em pet. E, mais ainda, eles refletem valores e ideologias da massa. Berger inclusive se debruça sobre Disney, que teve um papel fundamental na construção desse novo imaginário, uma fauna sob medida para a classe média.

 

Quase consigo identificar o momento preciso em que a angústia do spoiler – essa cultura contra a antecipação de aspectos que explicam ou entregam de bandeja o final de uma história – começou a falar alto em nosso ambiente. É uma cena provinciana com cerca de vinte anos. Passagem para os anos 2000: no telejornal local do Rio Grande do Sul, a apresentadora entrevista o diretor de uma montagem de Romeu e Julieta. Falam da cenografia, do vestuário e entabulam uma conversa acerca do enredo. Lá pelas tantas, enquanto destrinchava a história dos dois namorados de Verona, o diretor é interrompido abruptamente pela apresentadora. Ele não podia contar o final da tragédia shakespeariana para os telespectadores. Isso mesmo: não devia estragar a “surpresa” pelo desfecho da peça. Pelo menos na minha vida este foi o ponto zero, o momento iniciático: SPOILER ALERT para Romeu e Julieta.

A partir desse instante parecia que só se falava disso: não conte o final de um filme, não ofereça elementos para que se possa chegar perto do desfecho de uma história, pare antes de revelar o plot twist. Logo a palavra inglesa spoiler tomava conta de resenhas de filmes, berrava na caixa de comentários de sites e penetrava fundo na cultura: “alerta de spoiler”, “alerta de spoiler”. Saia do Twitter durante a temporada final de sua série predileta. Evite a pizza com aquele amigo loquaz e com vocação para estraga-prazeres. Faça do velho e bom intercâmbio fílmico uma experiência quase ilícita, conversa entre tarados.

Isso coincide com a explosão de sites e blogs sobre cultura pop, claro, que apresentavam os últimos lançamentos da indústria cultural a uma plateia novinha em folha e com pouca intimidade com os textos usuais da crítica cinematográfica. A coisa se tornou tão exasperante para críticos da velha guarda, acusados de revelar detalhes fundamentais das narrativas em seus textos, que, em 2005, Roger Ebert, um dos decanos do metiê, chegou a publicar um texto sobre a questão no Chicago Sun Times. Ebert, porém, se rendia à nova cultura: “Não é nosso direito, entretanto, destruir para os outros a experiência de ficar tão surpreso com essas escolhas quanto nós. Alguns anos atrás, comecei a notar alertas de spoiler em resenhas de filmes baseadas na web – uma forma abreviada de informar ao leitor que um ponto-chave da trama estava prestes a ser revelado. Como mais do que um punhado de leitores me acusou de contar muito da história, comecei a adotar tais advertências em minhas resenhas.”

Sinceramente, não consigo imaginar Paulo Emilio Salles Gomes ou Pauline Kael numa presepada dessas.

O bom de ir ao cinema com as crianças é que elas estão pouco se lixando para o spoiler. Parece que estamos em outra era, mais amena e menos bombardeada por tanta informação em geral inútil. Sempre é possível ouvir, ainda na fila da bilheteria, algum moleque dizendo que já sabe como o desenho vai terminar. Ou mesmo durante a projeção é possível entreouvir aqui e ali crianças em diversas fileiras tentando antecipar o final. O grau de acerto costuma ser notável entre esses pequenos Rolands Barthes da narratologia à Disney. Enquanto isso, seus acompanhantes adultos parecem estar abanando uma fogueira em meio a pedidos de súplicas para que a conversa pare por ali.

A razão disso é que os pequenos odeiam suspense. Ansiedade infantil tem uma energia como poucas. Experimente sonegar alguma informação a uma criança: a vida se converte num inferno de súplicas, chantagens emocionais e atordoamento dos sentidos. Suspense é para adultos: desde Hitchcock/Truffaut sabemos que há um componente erótico no suspense. Aquela clássica definição que o francês fez do diretor de Psicose: ele filmava cenas de assassinato como cenas de amor, e cenas de amor como cenas de assassinato.

Numa economia de imaginário infantilizado, em que adultos e crianças partilham dos mesmos objetos, a única diferença entre as gerações que consomem os mesmos filmes parece residir nisso, no desejo de saber o final da história ou na interdição categórica de qualquer elemento que permita antever a solução. Os pequenos são espertos. Eles sabem que praticamente todos os seus filmes acabam bem, com vilões punidos e mocinhos recompensados. Nós, adultos, é que nos torturamos com zonas cinzentas e meias verdades. Enquanto isso, nos empanturramos e compramos canecas, camisetas e toda a parafernália com os personagens favoritos deles. Para eles e para nós mesmos.

O problema não é ser arrastado pelas crianças para ver seus bichinhos falantes, mas fazer da infância o reino de um consumo irrefreável. O final de um desenho sempre motiva compras e mais compras. Esse é um desfecho previsível. Na última ida ao cinema para ver Moana (Disney), uma narrativa de superação entre gerações no universo Tiki (aquele das pinturas de Gauguin), saímos da sessão e fomos direto comprar um caderno com a heroína estampando a capa. No dia seguinte, um vestido com uma cena do filme. Como disse uma vez o crítico australiano Robert Hughes a propósito dos Estados Unidos (“Não é a Disneylândia que é uma metáfora da América; a América é uma metáfora da Disneylândia”), podemos afirmar que os modernos desenhos não são a metáfora da infância, a infância é que se tornou metáfora desses desenhos.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?