Diferentemente de um filho, um livro é a encarnação de uma posteridade controlada, sob medida. A pessoa escreve como se esculpisse sua lápide
Ver dados da foto Diferentemente de um filho, um livro é a encarnação de uma posteridade controlada, sob medida. A pessoa escreve como se esculpisse sua lápide IMAGEM: ERIK DESMAZIÈRES_GRAVURA A BIBLIOTECA DE BABEL, DE JORGE LUIS BORGES_ AUTVIS, BRASIL, 2017

Limpando Borges

Em torno de uma crise
Josefina Licitra
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Diferentemente de um filho, um livro é a encarnação de uma posteridade controlada, sob medida. A pessoa escreve como se esculpisse sua lápide IMAGEM: ERIK DESMAZIÈRES_GRAVURA A BIBLIOTECA DE BABEL, DE JORGE LUIS BORGES_ AUTVIS, BRASIL, 2017

Faz três anos que estou escrevendo um livro. Nesse caso, três anos é muito tempo. Victor Hugo demorou dezessete para concluir Os Miseráveis; Nabokov levou quatro para terminar Lolita. Mas eu não sou nenhum deles e, além disso, minha demora não tem nada a ver com o pulso criativo. Não é que eu nade de braçada num oceano de inspiração. Não estou cozinhando o livro como se fosse um leitão que se prepara durante dias antes da ceia de Natal. Faz três anos que estou escrevendo um livro porque, na verdade, não estou escrevendo o livro. Porque não comprei o leitão. Porque cada vez que penso em tomar fôlego tenho outra coisa para fazer antes, e essa coisa não surge espontaneamente: eu é que a procuro.

Quando sento para escrever, quando encaro o único texto que posso considerar completamente meu, acabo fugindo por um caminho impróprio. Escapo pela porta dos fundos. Faço qualquer coisa para não pensar se a história é interessante como eu supunha, se tenho condições de contá-la, se sou capaz, enfim, de produzir algo que valha a pena. Escrever é como fazer um check-up em que o talento – não o coração, nem o sangue – passa por uma análise microscópica. Se estivesse num hospital – e não em frente ao computador –, eu seria aquele tipo de paciente que foge de bata com o soro pendurado no braço. Não é uma saída digna, mas – esse é o ponto – é uma saída.

Há alguns dias interrompi a escrita – porque sim, porque não aguentava mais, porque já estava na hora de adiar – e comecei a perambular pela casa. Parei na frente da estante e fiquei olhando os quatro volumes das Obras Completas de Borges. Estavam pretos de umidade, porque séculos atrás caiu um dilúvio e eu não percebi que havia uma goteira bem em cima das prateleiras. Com isso, alguns livros estragaram, sobretudo os quatro Borges, que com o passar do tempo ficaram cobertos por uma espécie de fuligem seca: bolor.

Naquela tarde resolvi que chegara a hora de limpar aqueles volumes, página por página. Então, peguei o primeiro tomo e comecei: lia uma página e passava um pano. Em uma hora, liquidei Fervor de Buenos Aires e Lua Defronte. E com isso voltei a um autor que eu havia lido aos 20 e poucos anos, quando ganhei de presente as Obras Completas, logo depois de começar o curso de letras: uma das muitas coisas que não terminei. Agora, no entanto, relendo seus textos, pensei pela primeira vez que Borges falava comigo. Não digo que fosse um êxtase místico. Nem, Deus me livre, um êxtase intelectual. Eu sentia como se conversasse com um sujeito. Com alguém que, daquelas páginas apodrecidas, parecia me enxergar com uma nitidez vívida: como se, ao me ver, ele me construísse.

Borges me via aos 42, fugindo dos espelhos – da própria imagem devolvida pela escrita – e procurando atividades ridículas só para não sentar e fazer o que deveria ser feito. E, assim como em certas conversas de bar, ele passeava por um leque de assuntos que, na realidade, eram um só: o problema do tempo e do espaço. A ideia da existência como uma invenção neurótica, como uma fraqueza humana.

Quando escreveu “O jardim de veredas que se bifurcam” – a imagem mais adequada ao curso de meus dias –, Borges tinha 42 anos. Tomar consciência de que o autor que você sempre leu como um “velho brilhante” tem agora a sua idade é um golpe moral inesperado. Mas, superado o choque, você entende melhor por que a voz de Borges, assim como o tango, soa diferente depois dos 40. Limpo a página e releio a história de Ts’ui Pên, ex-governador de Yunnan, que dedica seus últimos treze anos a compor um livro que é também um labirinto cujo pátio central é uma palavra não dita: Tempo. Todo o resto – todo o percurso do espião alemão – tem pouca importância perto desse cenário enlouquecedor: o de um manuscrito que se ramifica em infinitas fendas que trincam o universo em cada uma de suas possibilidades. Essa figura é a versão excelsa e filosófica do meu pequeno problema. Olho a tela do computador. As janelas abertas se multiplicam. Há alguns meses, imóvel, parada diante de um parágrafo que não conseguia resolver, o protetor de tela foi ativado e a superfície ficou preta, fazendo-me confrontar com o reflexo da minha própria imagem. Foi uma fração de segundo – o suficiente para apertar uma tecla –, mas o bastante para ver meu rosto quando escrevo. Não é um rosto inspirado; não é um rosto tranquilo; não é um rosto feliz.

É o rosto de alguém que se perde num descampado, e procura uma arma.

 

“Você passou lá em casa?”, meu namorado pergunta.

“Como é que você sabe?”

“Tinha um monte de gaveta aberta. Você sempre deixa tudo aberto.”

Os psicanalistas diriam que “produzo sintoma” por tudo quanto é lado. Então procuro na internet – esse saco de gatos – informações sobre meu “sintoma” e vejo que há fóruns cheios de gente com problemas parecidos. “Meu marido deixa tudo destampado: tubos, garrafas, açucareiro; é uma luta diária, e ele nem é tão velho assim, e é muito inteligente”, diz uma das participantes, e recebe respostas como estas: “Inconscientemente, ele procura satisfazer seu desejo de ser livre, pois sente que ‘algo’ ou ‘alguém’ o sufoca”; “Sinceramente, o que eu vejo é que você tem um grave problema de comunicação com seu marido”; “Antes de mais nada, é preciso descartar um possível dano neurológico.”

A terceira hipótese me preocupa. Mas logo me esqueço dela e volto, como se fosse o I Ching, às Obras Completas. Procuro o primeiro volume e abro uma página ao acaso. Caio no conto “O imortal”, publicado quando Borges tinha 48 anos: quatro a menos que o meu companheiro. Pensar em Borges da perspectiva de uma crise da idade é, de todas as abordagens possíveis, a única que agora me parece inevitável. “O imortal” é a história de um homem que descobre um território sem morte. Uma espécie de palácio que, com sua mera existência, põe em xeque o sistema de leis do universo. As pessoas, sendo eternas, são moralmente inclassificáveis: em algum momento todas fazem o bem e o mal. E nenhuma se distingue dos animais. Na vida finita, a diferença entre o homem e as outras espécies é que estas não têm consciência do próprio fim, portanto, do ponto de vista subjetivo, são imortais. Mas na cidade do conto não existe essa diferença, e a ausência de um limite preciso é, em si mesma, pura autodestruição.

Para Borges, a imortalidade é um problema. Ao menos do ponto de vista filosófico, porque na vida cotidiana costumamos ser diferentes dos mundos que urdimos nos bares ou nas poltronas em que nos recolhemos para pensar. Fanny Uveda, empregada doméstica de Borges, me contou, em entrevista que fiz há mais de dez anos, que antes de dormir ele – ateu declarado – rezava o Pai-Nosso com a mãe. E que, depois que a mãe morreu, visitava seu túmulo no Cemitério da Recoleta e esperava até que não houvesse ninguém por perto para ajoelhar, fazer o sinal da cruz e rezar.

Eu faria o mesmo. A protelação da escrita, de fato, tem muito a ver com esse pensamento mágico que se trama em torno da morte. Terminar um livro não é como ter um filho: é como matá-lo; é, portanto, como me matar de um modo mais real que literário. E eu não quero morrer. Sou vital até a indignidade. Tocaria campainhas com o Novo Testamento embaixo do braço se isso me garantisse um bônus de dez anos de vida – ou de um.

Todos mendigamos tempo. O mundo está cheio de desesperados.

 

Minha amiga examina os volumes e folheia as páginas com os dedos em pinça.

“Isso é uma praga. Vai espalhar bolor por toda parte, joga esses livros fora”, ela diz, e ergue a vista: seus olhos são compreensivos, pedagógicos. “Se quiser, podemos ir juntas comprar novos.”

As páginas estão onduladas e escuras. Frágeis como os ossos de um velho.

“Mas eu quero limpar”, respondo.

Não sei o que estou defendendo.

Uma vez li que essa história de velho cair, fraturar a bacia e pouco tempo depois morrer apresenta um problema de sequência: não é que eles caiam e fraturem o osso. O osso fratura espontaneamente, e aí eles caem. A inversão da ordem dos fatores é escabrosa. Cheguei a ter pesadelos com isso. Eu estava numa mesa cheia de gente, com uma espiga de milho na mão, e quando ia comê-la sentia um estalido na mandíbula e pensava: “Pronto, quebrou.” O resto do sonho se resumia ao meu esforço de comer sem que os outros notassem que eu estava desintegrando. Acordei com taquicardia. Manter as aparências acaba com os nervos de qualquer um.

Há um poema de Borges, “Afterglow”, que fala disso: do entardecer. Procuro por ele e limpo a página, mas nem preciso ler. Sei os versos de cor. O ocaso é sempre comovente, diz, por mais pobre ou berrante que seja,/porém mais comovente ainda/é o fulgor desesperado e final/que enferruja a planície/quando o último sol mergulhou./-
É doloroso manter essa luz tensa e diversa,/essa alucinação que impõe ao espaço/o medo unânime da sombra/e cessa de repente/quando notamos sua falsidade,/como cessam os sonhos/quando sabemos que sonhamos. Eu li esse poema muitas vezes na infância, numas férias que passei no sítio dos meus avós. Na hora da sesta, minha avó – professora de filosofia – nos deixava duas opções, a mim e a minhas primas: ou fazer suas unhas e massagear seu rosto, ou ler Borges. Para mim, esse negócio de creme na pele de outra pessoa – a palavra “cútis”, a sensação dos poros abertos sob a polpa dos dedos – me dava nojo. Até que tentei, mas acabei preferindo os livros. E não entendi nada, a não ser “Afterglow”: lá estava o vislumbre de uma angústia que eu já podia reconhecer.

Todos os outros anos, os que se seguiram, consistiram em ignorar aquilo que eu sempre soube. Aquilo que todos sabemos. Até que cheguei aos 40 e, como diz Martin Amis em A Informação, com a idade chegou também aquela voz que sussurra ao ouvido: falta cada vez menos, todos os passos levam a uma única direção. Também por isso, então, limpo Borges: porque não fazê-lo implica render-se ao mofo. Porque embarquei numa cruzada longa e idiota contra a passagem do tempo. E porque esse ato de limpeza ajuda a olhar de outro modo aquilo que tenho nas mãos. Essa procrastinação, essa elaboração de burocracias internas é, no fim das contas, uma ficção ingênua: a que diz que tudo está igual. Que não se avança para lugar nenhum.

 

Demoro tanto para terminar o livro que as entrevistadas vão morrendo. São mulheres que têm, em média, 70 anos, e carregam nas costas uma vida sólida e épica que resultou, conforme o caso, em grande vitalidade ou em grande desgaste. Seria muito melodramático da minha parte se eu morresse também. Mas é sempre uma possibilidade. Aconteceu com Douglas Adams, autor do Guia do Mochileiro das Galáxias e da saga do detetive Dirk Gently. Quando ele morreu, de repente, em 2001, fazia dez anos que trabalhava num livro do qual não conseguira apresentar sequer um rascunho. “Adoro os prazos de entrega. Adoro o som sibilante que eles fazem quando passam ao largo”, disse em certa ocasião. Não vejo a menor graça nisso. Não consigo rir da piada.

Meu prazo estourou há dez meses. Minha editora espera porque sabe que estou trabalhando, mas o que ela não sabe é que, de quando em quando, mergulho em poços de silêncio onde não há palavra útil. Às vezes não sei por que escrevo, nem por que escrevi os livros anteriores. Quando, num debate, me perguntam sobre a função do jornalismo narrativo – que deveria ser o “meu tema” –, respondo, de modo automático, que “a reportagem serve para construir memória, para que as pessoas, daqui a 100 ou 200 anos, possam ler um texto e pensar: então era assim”.

Mas isso é o que eu digo quando estou num bom dia, ou quando me pagam.

Levanto e vou até a estante. Não sei onde estão os livros que escrevi, é cada vez mais difícil encontrar alguma coisa aqui. Faz tempo que não arrumo nada e resolvo começar agora mesmo. Classifico, respeitando os gêneros e a ordem alfabética, e olho com estranheza alguns títulos que ocupam muito espaço. Jogo os volumes no chão. Ensaios e elucubrações sobre Menem, Kirchner, Alfonsín, a ditadura militar, Perón: todos para o chão. Salvo apenas Evita – salvo o humano –, mas o resto passa desta para melhor. Vejo livros repetidos – me enviaram duas vezes –, nenhum dos exemplares sequer folheados: jogo fora um, espio a primeira página do outro: descarto o outro também. Passo os olhos por infindáveis explanações sobre o estado da “grande reportagem” latino-americana e sobre os “desafios” do jornalismo em geral e da reportagem em particular nesta época etc.: à merda, para o lixo. Jogo fora todas as palavras perpetradas em fóruns da Sociedade Interamericana de Imprensa; jogo fora três livros intermináveis de autores canônicos – vivos –, que escrevem para a eternidade não sei de quem, provavelmente de seu próprio falo. Jogo fora cada vez com mais fastio, até que vejo um livro meu e sinto uma pedra na garganta.

Paro.

Escrevi três livros até agora. Cada um deles, um fardo. Não sei o que vai restar disso tudo.

Outro dia, mexendo na mochila do meu filho, vi que na escola eles estavam discutindo a poluição do Riachuelo, um curso d’água que delimita a cidade ao sul, um dos rios mais contaminados do mundo. Achei estranho que Joaquín não tivesse comentado comigo. Meu segundo livro, Los Otros, conta uma história real que se passa exatamente lá. Naquele dia, na hora do jantar, conversamos sobre o Riachuelo, mas nem ele nem eu mencionamos meu livro. Foi um silêncio estranho, no qual uma semente de ressentimento se plantou.

Germinou quase no ato.

No dia seguinte, Joaquín me procurou com o celular na mão. Na tela a conta do Instagram de uma amiga famosa, uma figura de televisão. Ao passar pelas margens do rio da Prata, uma zona muito bonita ao norte de Buenos Aires, e ver a sujeira na praia, ela fez uma selfie recolhendo algumas imundícies, e convidou as pessoas a seguirem seu exemplo.

“Ela está limpando o Riachuelo”, Joaquín disse.

Olhei bem na cara dele.

Primeiro expliquei que aquilo não era o Riachuelo.

“E não posso acreditar que você não tenha a menor ideia de que escrevi um livro sobre isso, você parece fazer questão de ignorar”, gritei.

Depois desatei a chorar.

 

Vou ao aniversário de uma escritora. Quase todos têm projetos. Falta pouco para a Feira do Livro de Buenos Aires, e muitos falam do que fizeram e do que vão fazer, do que terminaram, do que estão para lançar. Adoto a estratégia de perguntar sobre a vida dos outros, até que se faz um silêncio e vem a pergunta fatal. “E você, anda fazendo o quê?”

Hoje quitei seis boletos online, paguei impostos atrasados, encomendei um manual escolar, respondi quinze e-mails urgentes, li as primeiras páginas do romance de uma amiga, fui à rádio – também trabalho numa rádio –, revisei um texto, escrevi seis parágrafos do livro e completei quatro exercícios do Lumosity – uma página de estimulação mental. “Como você se sente hoje?”, perguntou o programa, antes de passar às questões. Entre as alternativas oferecidas, escolhi a do meio: “Um pouco cansada.” “Quantas horas dormiu ontem?”, continuou a máquina, e ofereceu números de 3 a 10. “Cinco”, cravei. Depois resolvi quatro equações. Segundo o Lumosity, sei fazer operações aritméticas com 86% de eficácia e posso realizar várias coisas ao mesmo tempo. “Você tem a habilidade de alternar tarefas”, diz o programa. O computador sabe.

Nas festas, ao contrário, ninguém sabe tanto.

“E você, anda fazendo o quê?”, perguntam.

“Estou escrevendo um livro.”

“Sobre o quê?”

Conto a mesma coisa pela enésima vez. Acredito em cada linha do que escrevo e tenho uma fé secreta no que virá, mas o tempo que isso leva é desmoralizante. Na festa, cinco pessoas já concluíram seus projetos. Bebo uma taça em homenagem a cada uma delas, e o meu humor melhora.

Até que volto para casa, durmo, amanheço.

Em março de 2017, li uma matéria chamada “Mil e uma maneiras de não escrever”, que contava como muitos autores resolviam (ou não) o problema de não avançar a escrita. Colette procrastinava catando pulgas em seu buldogue. Victor escrevia apenas com uma manta nos ombros e trancava à chave as roupas mais apresentáveis, para dificultar suas saídas. Dorothy Parker teve que se mudar de Nova York para não cair na tentação de sair para beber por Manhattan. Pedro Mairal desativou o wi-fi para terminar La Uruguaya. Jonathan Franzen usa um notebook obsoleto de onde desistalou os jogos que acompanham o sistema operacional, como paciência e campo minado, e vedou com cola a porta de rede para impedir a conexão com a internet. E Zadie Smith escreveu seu romance nw usando dois aplicativos: Freedom (Liberdade) e Self Control (Autocontrole), que bloqueiam o acesso às redes sociais por um determinado tempo.

Os exemplos são simpáticos: servem para este texto. Copio o link para a matéria e procuro este arquivo – “Limpando Borges” – para colar o endereço. Ao fazer isso, vejo que tenho outros doze documentos abertos, entre eles um sem nome, onde se lê apenas “San Lorenzo”, nome de um time de futebol que nunca me interessou – aliás, o futebol não me interessa em absoluto. Passando o mouse por um determinado ponto, visualizo a miniatura de todos os arquivos do Word simultaneamente: uma espécie de congestionamento na estrada que indica que a protelação também tem a ver com o excesso. Quero fazer tudo, não quero perder nada.

Os 40, ainda por cima, são a década do agora ou nunca.

 

Leio um romance em que a autora, Delphine de Vigan, fala da sua crise criativa. Depois de um estouro editorial, Rien ne s’Oppose à la Nuit [Nada se Opõe à Noite], ela passou três anos sem conseguir escrever nem sequer um e-mail. Até que saiu do atoleiro e publicou Baseado em Fatos Reais: um livro que conta, à maneira de um thriller, as dimensões do seu cativeiro mental, desse cárcere íntimo que apagou qualquer sinal de criatividade.

Não me pareço em nada com Delphine. Não estou totalmente paralisada e meus livros nunca foram um sucesso comercial. Mas leio sua história como se nós duas frequentássemos o mesmo grupo de autoajuda, e com a intenção de atacar o problema e entender por que escrever é muito mais que um ofício. É a posteridade que está em jogo? Diferentemente de um filho – que tenta se separar dos pais, que é outra pessoa –, um livro é a encarnação de uma posteridade – esse mito – sob medida. Quer dizer: a pessoa escreve, também, como se esculpisse sua própria lápide.

E isso acaba com a saúde de qualquer um.

“Você está bem?”, uma amiga me pergunta.

“Não”, respondo.

Digo isso sem humor, sem ironia, sem aquele tilintar de colheres na taça de martíni que as séries de tevê atribuem às conversas entre mulheres. Não me sinto bem. Estamos jantando, e eu com dor nas costas. Estou exausta. Vim ao restaurante de bicicleta, é tarde e ainda tenho que pedalar até a estação pela qual passa o trem que vai até a casa do meu namorado. O último passa daqui a meia hora; tenho dez minutos para encerrar o encontro e quinze para chegar à plataforma. Peço um pudim, que engulo como se o injetasse boca adentro. Depois, me despeço atabalhoadamente e saio a uma velocidade que supera minhas forças. Pedalo como se escalasse uma montanha. Imagino que escrever se pareça com isso: tração a sangue; avanço penoso até chegar a uma estação que – agora vejo – está vazia. Perdi o trem? A noite vai me brindar com essa metáfora tosca? Espio o relógio: cheguei a tempo. Às vezes, porém, o trem não é pontual: ou passa muito tarde ou passa muito cedo. Não sei qual é o caso agora, mas não há ninguém nas plataformas. O silêncio é tão compacto quanto o meu cansaço. Amanhã, afinal, vou fazer a minha prova de direção. Venho adiando esse teste há oito anos. Já fiz dois cursos de autoescola, mas sempre abandono antes de prestar o exame. Essa demora é uma bandeira branca: é meu ícone dos vencidos. Penso nisso enquanto vou de bicicleta até a avenida Libertador – imaginando que perdi o trem – e tomo fôlego para pedalar na pista ao lado dos trilhos, rumo aos arredores do norte. Mas, a oito quadras da estação seguinte, Belgrano, escuto o tilintar metálico do sino e vejo as cancelas baixarem.

Vem vindo.

Se eu correr até Belgrano, se fizer as oito quadras em menos de dois minutos, evito pedalar mais quarenta quarteirões. Resolvo tentar. Acelero até sentir as pernas pegarem fogo, desvio de um homem, de dois homens, de alguns carros, escuto a buzina grave do trem em cada cruzamento, não olho para trás, mas sei que ele está atrás, ao lado; está chegando. Esqueço o corpo: apenas o uso, preciso alcançar o vagão. Pedalo como se estivesse esmurrando um fantasma. Não sei em quem estou batendo, mas bato; chego à estação, subo a rampa, vejo as portas se abrirem – não há tempo para descer e entrar a pé – e entro pedalando, um segundo antes que tornem a se fechar.

Mal consigo respirar, mas me sinto viva. Ganhei.

Ergo a vista como Roger Federer em sua última vitória de homem já maduro. Mas ninguém aplaude. Os que poderiam entender o subtexto épico deste momento já estão em casa, ou têm carro. Três lumpens me olham sem esboçar qualquer gesto.

No dia seguinte faço o exame e tiro minha carteira de motorista.

 

Em menos de dois meses estou dirigindo por ruas e avenidas, pego meu filho na saída do clube, planejo uma viagem. Uso o carro da minha mãe ou do meu companheiro; vou sempre com um dos dois. A experiência é diferente com cada um. Minha mãe é mais delicada e pedagógica, mas noto sua tensão: uma vez passei quase raspando por um carro, e ela esticou os braços como a Tippi Hedren atacada pelos pássaros de Hitchcock. Meu namorado, pelo contrário, tem maneiras mais rudes, mas tira um cochilo, olha o celular: demonstra uma curiosa fé em mim.

Essa confiança é inquietante porque me faz sentir o peso da responsabilidade. Ainda que eu conheça esse lugar.

Há alguns pontos de contato entre dirigir e escrever. Para dirigir, por exemplo, é preciso saber ficar sozinho; é até preciso gostar da emancipação conquistada pelas próprias mãos. E para escrever também. Marguerite Duras diz que escrevemos para construir a solidão. Que o ato compenetrado diante da página em branco nos situa numa dimensão sem tempo nem espaço.

“Como a morte”, anoto, e não apago.

“Nem sempre, pois, se está em condições de escrever”, acrescento, e não apago.

É de manhã, estou sozinha em casa. Acabo de recusar uma viagem à Venezuela porque o país está muito conturbado, porque só a ida levaria mais de 25 horas – não há voos diretos de Buenos Aires a Caracas – e porque, se insistir em postergar o livro, posso terminar numa zona perigosa. A decisão me relaxa o pescoço na mesma hora. Dizer não a uma oferta sedutora é uma injeção de potência e de otimismo impensados. Pouco depois, como numa compensação divina, uma amiga roteirista – grande escritora e especialista na arte de dizer não – me escreve para avisar que deixou a produtora onde trabalhava e pretende fazer um filme do meu livro.

“Em que parte você está?”, ela pergunta.

“Na metade”, respondo.

“Faz uma sinopse, me manda um capítulo e termina. Já.”

Escuto o que ela diz como se fosse um desígnio sobrenatural. Eu deveria continuar limpando Borges – deveria procurar alguma citação que me ajudasse a terminar este texto aqui –, mas estou tão excitada que não me importo com o mofo. Mesmo assim estendo um braço, pego um volume e, sem pano, abro uma página ao acaso. Lá está “Tlön Uqbar Orbis Tertius”: a história do planeta Tlön, onde os objetos, os hrönir, são encontrados quando alguém os procura intensamente. Em Tlön, a vontade constrói a realidade. Uma lei bem afinada a qualquer discurso de autoajuda, salvo pelo detalhe de que Borges construiu essa lógica sobre um mundo que não existe.

Neste aqui, ao contrário, a vontade faz o que pode. E às vezes só se completa cumprindo ordens: seguindo a vontade dos outros.

Levanto e devolvo os quatro volumes à estante. Numa das prateleiras sem arrumar, vejo um livro de fotos que comprei há poucos dias, atraída pelo título: Yosoy [Eusou]. São 128 autorretratos que falam das infinitas formas como a pessoa percebe a si mesma. Procuro por mim entre as imagens. Será que alguém aí se sente como eu? Ou melhor, será que alguém aí pode dizer como eu me sinto? Viro as páginas sem sorte, até chegar à última foto, de Marcia Filz, tirada em Berisso, em 2009. Nela se vê uma mulher nua metida numa mala como uma salsicha enfiada num pão pequeno. Esse corpo, ao mesmo tempo uma bagagem, resplandece exausto sob uma luz suave que vem da janela.

Eu me pergunto que horas seriam nessa vida, e examino melhor a foto: não parece ser de tarde. Não é de noite.

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