Na juventude, Cohen lembrava um Michael Corleone Antes da Queda, os olhos escuros levemente amendoados, a pele morena e os ombros um pouco caídos, mas seu encanto estava na gentileza refinada e na fluência com as palavras
Ver dados da foto Na juventude, Cohen lembrava um Michael Corleone Antes da Queda, os olhos escuros levemente amendoados, a pele morena e os ombros um pouco caídos, mas seu encanto estava na gentileza refinada e na fluência com as palavras FOTO: PLATON_TRUNK ARCHIVE

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Um mês antes de morrer, aos 82 anos, Leonard Cohen lançou um álbum obcecado pela mortalidade, impregnado da ideia de Deus – e engraçado
David Remnick
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Na juventude, Cohen lembrava um Michael Corleone Antes da Queda, os olhos escuros levemente amendoados, a pele morena e os ombros um pouco caídos, mas seu encanto estava na gentileza refinada e na fluência com as palavras FOTO: PLATON_TRUNK ARCHIVE

Aos 25 anos, Leonard Cohen morava em Londres, onde escrevia poemas tristes em quartos mal aquecidos. Vivia dos 3 mil dólares de uma bolsa do Conselho Canadense para as Artes. Era o ano de 1960, e ainda faltava uma década para o Festival da Ilha de Wight, em que se apresentaria diante de 600 mil pessoas. Àquela altura, Cohen era um judeu que tentava uma carreira na literatura, um provinciano em terra estrangeira, exilado do ambiente literário de Montreal. Nascido numa família culta e de certa proeminência, tinha uma visão irônica de si mesmo. Era um boêmio com a sobrevivência garantida, e suas primeiras compras em Londres foram uma Olivetti portátil e uma capa de chuva azul da Burberry. Muito antes de conquistar um fã que fosse, tinha uma ideia clara do público que desejava. Numa carta a seu editor, dizia querer atingir “os adolescentes fiéis a seus valores originais, os amantes que sofrem de angústia em qualquer grau, os platônicos decepcionados, os voyeurs de pornografia, os monges com pelos na palma das mãos e os papistas”.

Cohen estava cansado da umidade e do céu cinzento de Londres. Um dentista inglês tinha acabado de arrancar um de seus dentes de siso. Depois de semanas de frio e chuva, um dia ele entrou num banco e, vendo o caixa tão bronzeado, perguntou-lhe como conseguira aquela cor. O sujeito respondeu que acabara de voltar de uma viagem à Grécia. Cohen comprou uma passagem de avião.

Não passou muito tempo e ele pousava em Atenas. Passeou pela Acrópole, foi até o porto do Pireu, pegou uma barca e desceu na ilha de Hidra. Mal refeito do frio nos ossos, contemplou a enseada onde ficava o porto, as pessoas tomando vinho local, retsina, e comendo peixe grelhado nos restaurantezinhos à beira-mar; ergueu os olhos para os pinheiros e ciprestes, para as casas brancas encarapitadas nas encostas. Aquela ilha tinha uma atmosfera mítica e primitiva. Automóveis eram proibidos. Mulas transportavam água até as casas, subindo as escadas intermináveis. A eletricidade era intermitente. Cohen alugou uma casa por 14 dólares por mês. Mais tarde compraria uma casinha branca por 1 500 dólares, graças a uma herança que recebeu da avó.

Hidra prometia o tipo de vida que Cohen almejava: cômodos despojados, a página em branco, eros à noite. Adquiriu alguns lampiões a querosene e móveis usados: uma cama russa de ferro forjado, uma escrivaninha, cadeiras “iguais às pintadas por Van Gogh”. Durante o dia, trabalhava em A Brincadeira Favorita, um romance de formação erótico e fantasioso, e nos poemas da coletânea Flowers for Hitler [Flores para Hitler]. Alternava uma disciplina extrema e vários graus de dissipação. Havia dias em que jejuava para se concentrar. Tomava drogas para expandir a mente: maconha, anfetaminas, ácido. “Eu fazia uma viagem atrás da outra, sentado em meu terraço na Grécia, esperando ver Deus”, ele contaria anos depois. “Em geral, o resultado era uma ressaca pavorosa.”

Aqui e ali, Cohen via de relance uma norueguesa linda. Seu nome era Marianne Ihlen, e ela fora criada no campo, perto de Oslo. A avó de Marianne sempre lhe dizia: “Você vai encontrar um homem com uma voz de ouro.” E ela achava que já tinha encontrado: Axel Jensen, um romancista norueguês entusiasta de Jack Kerouac e William Burroughs. Os dois casaram e tiveram um filho, o pequeno Axel. Porém, Jensen não era um marido constante – quando o bebê completou 4 meses, ele, nas palavras dela, estava “de quatro” por outra mulher.

Um dia de primavera, Marianne entrou com o filhinho num café misto de mercearia. “Eu estava lá, de pé, com minha cesta, tinha ido comprar água mineral e leite”, ela lembrou décadas mais tarde, num programa de rádio norueguês. “E aí ele apareceu na porta, com o sol pelas costas.” Cohen a convidou para sentar do lado de fora, com ele e uns amigos. Usava calça cáqui, mocassim sem meia, camisa de manga arregaçada e um boné. Parecia irradiar “uma compaixão imensa por mim e por meu filho”. E ela se apaixonou. “Foi uma coisa que senti no corpo todo”, contou. “Uma leveza tomou conta de mim.”

 

Cohen já fazia algum sucesso com o sexo oposto. E viria a fazer ainda mais. Para um trovador da tristeza – “mestre supremo da melancolia”, como seria apelidado mais adiante –, ele encontrava bastante consolo nos braços das mulheres. Na juventude, lembrava um Michael Corleone Antes da Queda, os olhos escuros levemente amendoados, a pele morena e os ombros um pouco caídos, mas seu encanto estava na gentileza refinada e na fluência com as palavras. Aos 13 anos, leu um livro sobre hipnotismo. Experimentou a técnica com a governanta da casa da família, e ela tirou a roupa. Ao longo dos anos, nem todo mundo se deixaria enfeitiçar no mesmo grau. A cantora e compositora alemã Nico não cedeu, e Joni Mitchell, que a certa altura foi sua namorada e continuou sua amiga, costumava defini-lo como um “poeta de alcova”. Entretanto, elas foram exceções.

Leonard passava cada vez mais tempo com Marianne. Iam à praia, transavam, cuidavam da casa. Certa vez, quando Marianne e Axel estavam na Noruega, e Cohen em Montreal, cavando algum dinheiro, ele lhe mandou um telegrama: “Tenho casa vg só preciso minha mulher e o filho dela pt Amor vg Leonard.”

Houve separações, brigas, ciúmes. Quando Marianne bebia, podia ficar fora de si. E houve infidelidades de parte a parte. (“Deus do céu. Todas as garotas babavam por ele”, lembrou Marianne. “Quase me matei.”)

Em meados dos anos 60, quando Cohen começou a gravar e a fazer sucesso no mundo inteiro, Marianne ficou conhecida por seus fãs como uma musa à moda antiga: na contracapa do segundo lp de Cohen, Songs from a Room, ela aparece numa foto memorável, enrolada numa toalha e sentada à mesa da casa em Hidra. Ainda assim, ao cabo de oito anos a relação foi se desfazendo – “como cinzas que caem”, diria Cohen.

Ele passava cada vez mais tempo longe de casa, dedicado à carreira. Marianne e Axel continuaram na ilha mais algum tempo, depois foram para a Noruega. Marianne voltaria a se casar. Mas a vida teve suas dificuldades, especialmente para Axel, que viveu constantes problemas de saúde. O que os fãs de Cohen conheciam de Marianne era sua beleza e o que ela tinha inspirado: Bird on the Wire; Hey, That’s no Way to Say Goodbye e, acima de tudo, So Long, Marianne. Ela e Cohen nunca perderam contato. Sempre que ele fazia alguma turnê pela Escandinávia, ela ia vê-lo no camarim. Trocavam cartas e e-mails. Quando falavam com jornalistas e amigos sobre a história deles, era sempre em termos carinhosos.

No final de julho de 2016, Cohen recebeu um e-mail de Jan Christian Mollestad, amigo de Marianne, dizendo que ela estava com câncer. Da última vez que haviam conversado, Marianne lhe contara que vendera a casa de praia para assegurar a Axel um futuro decente, mas não disse que estava doente. Agora, ao que tudo indicava, só lhe restavam poucos dias de vida. Cohen respondeu na mesma hora:

Bem, Marianne, chegou o momento em que ficamos realmente velhos e nossos corpos começam a se desfazer, e acho que vou seguir o mesmo caminho daqui a pouco. Saiba que estou perto, logo atrás de você, se estender sua mão poderá pegar a minha. E você sabe que sempre a amei por sua beleza e sua sensatez, mas não preciso dizer mais nada porque você sabe disso tudo. Agora, só quero desejar muito boa viagem. Adeus, velha amiga. Amor sem fim, vejo você mais adiante.

Dois dias mais tarde, Cohen recebeu um e-mail da Noruega:

Caro Leonard,
Marianne adormeceu aos poucos e deixou a vida ontem à noite. Tranquila, cercada de amigos próximos.
Quando sua carta chegou, ela ainda conseguia falar e rir, estava totalmente consciente. Nós lemos em voz alta, e ela sorriu como só Marianne era capaz de sorrir. Levantou a mão no trecho em que você dizia que estava logo atrás dela, tão perto que podia tocá-la.
Foi muito reconfortante para ela que você soubesse como ela estava. E sua bênção para a viagem deu a ela uma força extra… Em sua última hora de vida, eu segurei a mão dela e cantarolei Bird on the Wire, enquanto ela respirava bem de leve. E ao deixarmos o quarto, depois da alma dela ter voado pela janela em busca de novas aventuras, beijamos-lhe a cabeça e murmuramos para ela suas palavras eternas.

So long, Marianne…

 

Leonard Cohen morava no 2º andar de um modesto apartamento em Mid-Wilshire, uma área de Los Angeles desprovida de qualquer encanto. Estava com 82 anos. Entre 2008 e 2013, havia passado quase o tempo todo em turnê. Era muito improvável que sua saúde continuasse a permitir essa empreitada. Dali a um mês, em outubro de 2016, ele lançaria um novo disco – obsessivamente impregnado com os temas da mortalidade e da presença de Deus, mas ainda assim divertido, chamado You Want It Darker –, mas seus amigos e colegas duvidavam tornar a vê-lo num palco, exceto em participações muito limitadas: uma apresentação única, talvez, ou uma curtíssima temporada num mesmo local. Quando lhe mandei um e-mail com um convite para jantar, Cohen respondeu que estava mais ou menos “confinado em seus aposentos”.

Eu havia ido à casa de Cohen não fazia muito tempo. Um de seus visitantes mais assíduos, um velho amigo meu – Robert Faggen, professor universitário de literatura –, havia me levado lá. Faggen conhecera Cohen vinte anos antes numa mercearia aos pés do monte Baldy, o mais alto das montanhas de San Gabriel, uma serra a hora e meia de distância de Los Angeles. Os dois viviam perto dali: Bob, numa cabana onde escrevia sobre Robert Frost e Herman Melville e de onde descia de carro para dar aulas na Faculdade Claremont McKenna; Cohen, num pequeno mosteiro zen-budista onde fora ordenado monge. Um dia, Faggen estava escolhendo frios no balcão quando ouviu os graves de uma voz familiar do outro lado da loja. Olhou e viu um homem miúdo e seco, de cabeça raspada, conversando animadamente com um vendedor sobre diferentes modos de preparar uma salada de batatas. A cultura musical de Faggen está mais para os lieder de Mahler do que para a canção popular. Porém, admirador da obra de Cohen, ele se apresentou. Tornaram-se bons amigos desde então.

Cohen nos recebeu sentado numa cadeira hospitalar azul, destinada a aliviar as dores nas costas decorrentes de fraturas por compressão. Estava muito magro, mas ainda bonito, com seus penetrantes olhos escuros e os fartos cabelos grisalhos quase brancos. Vestia um terno bem cortado azul-marinho – mesmo nos anos 60 sempre usava terno –, com o colarinho da camisa preso por um belo alfinete. Estendeu a mão com a cortesia de um chefão mafioso aposentado.

“Olá, amigos”, ele disse. “Por favor, por favor, sentem-se.” Sua voz era tão grave e rouca que, perto dele, Tom Waits soaria como um contratenor.

E então, como minha mãe, ele nos ofereceu o que só podia ser o cardápio completo de sua despensa: água, suco, vinho, um pedaço de frango, uma fatia de bolo, “talvez alguma outra coisa”. Nas horas que passamos juntos, ele foi nos oferecendo mais e mais coisas, e sempre com a maior gentileza. “Querem umas fatias de queijo com azeitonas?” – proposta que um entrevistador jamais escutaria de Axl Rose. “Uma vodca? Um copo de leite? Uma aguardente?” E, também como quando visito minha mãe, às vezes o melhor é aceitar de vez. Um dia, comemos cheeseburgers “com tudo” que pedimos de uma lanchonete da vizinhança e, no outro, fatias grossas de gefilte fish com raiz-forte.

A morte de Marianne ocorrera poucas semanas antes, e Cohen ainda se admirava de como sua carta – um e-mail para uma amiga prestes a morrer – tinha se tornado viral, pelo menos no universo apaixonado por Leonard Cohen. Sua intenção não havia sido divulgar seus sentimentos, mas quando um dos amigos mais próximos de Marianne, em Oslo, lhe pediu licença para publicar o texto, ele não objetou. “E como isso está ligado a uma canção, e ainda tem uma história…”, ele disse, “uma bela história, então, de certa maneira, não me aborreço.”

Como qualquer pessoa da sua idade, Cohen encarava as perdas como parte da rotina. Parecia menos devastado pela morte de Marianne do que arrebatado pelas lembranças do tempo que passaram juntos. “Havia sempre uma gardênia na minha mesa, perfumando a sala toda”, ele contou. “E um sanduíche ao meio-dia. Tão doce, tudo tão doce…”

As canções de Cohen eram assombradas pela morte, tema presente desde seus versos mais antigos. Meio século atrás, o executivo de uma gravadora havia lhe dito: “Largue disso, garoto. Você não é um pouco novo para essas coisas?” No entanto, apesar da saúde problemática, Cohen permanecia lúcido e aplicado como sempre, aferrado a uma disciplina quase militar. Acordava para escrever bem antes do amanhecer. Na sala pequena e despojada onde nos recebeu, viam-se alguns violões encostados na parede, um teclado de sintetizador, dois laptops e um sofisticado microfone para gravações de voz. Com o suporte de seu filho Adam (o produtor) e de um antigo colaborador, Pat Leonard, Cohen fez quase todo o trabalho de You Want It Darker naquela mesma sala, enviando por e-mail as gravações para um tratamento adicional. A idade avançada e o fim de uma era proporcionavam-lhe uma proveitosa, embora nem tão desejada, atmosfera de silêncio.

“Num certo sentido, o momento atual me propõe muito menos dispersão que outras épocas da minha vida, e me permite trabalhar com um pouco mais de concentração e continuidade do que quando eu me via às voltas com a obrigação de ganhar a vida, desempenhar o papel de marido, criar os filhos”, declarou. “A esta altura, essas distrações se reduziram radicalmente. A única coisa que me impede de produzir o tempo todo é a condição do meu corpo”, disse.

“Por acaso”, prosseguiu, “ainda estou com o juízo perfeito. E posso contar com muitos recursos, alguns cultivados num nível pessoal, mas também devido às circunstâncias: minha filha e os filhos dela moram no andar de baixo, meu filho vive a dois quarteirões daqui. Sou um homem de muita sorte. Tenho uma assistente dedicada e competente. Tenho Bob e mais um ou dois amigos que enriquecem a minha vida. Num certo sentido, nunca vivi melhor… Chega um ponto em que você ainda está com a cabeça no lugar, não enfrenta mais dificuldades financeiras sérias e tem a oportunidade de pôr a casa em ordem. É um clichê, mas as pessoas costumam subestimar o alívio que isso proporciona, em todos os níveis. Pôr a casa em ordem, quando você pode, é uma das atividades mais reconfortantes que existem, e traz benefícios incalculáveis.”

 

Cohen chegou à maioridade depois da guerra. A Montreal em que cresceu, porém, nada tinha a ver com a Newark de Philip Roth ou a Brownsville de Alfred Kazin. Ele foi criado em Westmount, um bairro majoritariamente anglofônico onde viviam os judeus mais prósperos da cidade. Os homens de sua família, sobretudo do lado paterno, estavam entre os “figurões” da Montreal judaica. Seu avô era “provavelmente o judeu mais importante do Canadá”, fundador de uma série de instituições voltadas para a colônia judaica; após uma onda de pogroms antissemitas no então Império Russo, ele promoveu a ida de inúmeros refugiados para o Canadá. Nathan Cohen, o pai de Leonard, dirigia a Freedman Company, a fábrica de roupas da família. A mãe do compositor, Masha, vinha de uma família de imigrantes mais recentes. Era adorável e depressiva. Tinha um espectro emocional “tchekhoviano”, nas palavras de Leonard: “Tanto ria quanto chorava intensamente.” O pai de Masha, Solomon Klonitzki-Kline, lituano, era um reconhecido estudioso do Talmude, autor de um Léxico de Homônimos Hebraicos. Leonard frequentou boas escolas, inclusive a Universidade McGill, e, por algum tempo, a Universidade Columbia. Nunca se queixou dos confortos que a família lhe proporcionou.

“Tenho um sentido tribal muito profundo”, ele contou. “Cresci frequentando uma sinagoga construída por meus antepassados. Eu sentava na terceira fila. Minha família era decente. Eram gente de bem, pessoas que jamais negavam um aperto de mão. Então, nunca fui rebelde.”

Quando Leonard tinha 9 anos, o pai morreu; foi nesse momento de dor primal que ele pela primeira vez usou a linguagem como sacramento. “Guardo algumas lembranças dele”, disse, e lembrou a cerimônia fúnebre realizada na casa da família. “Descemos as escadas, o caixão estava na sala.” Ao contrário do que prega o costume judaico, os agentes funerários haviam deixado o caixão aberto. Era inverno, e Cohen pensou nos coveiros: seria difícil cavar aquele solo gelado. E ele viu seu pai descer à sepultura. “Depois voltei para casa, fui até o armário dele e encontrei uma gravata-borboleta de laço pronto. Não sei por que fiz isso, não sei explicar até hoje, mas cortei uma das asas da gravata, escrevi alguma coisa numa folha de papel – acho que uma espécie de despedida – e depois enterrei tudo num buraco no quintal de casa. E deixei lá esse bilhete curioso… Uma espécie de atração por uma resposta ritualizada a um acontecimento impensável.”

Os tios de Cohen cuidaram para que Masha e seus dois filhos, Leonard e a irmã, Esther, não passassem qualquer dificuldade financeira depois da morte do patriarca. Leonard estudou; trabalhou na fundição de seu tio, W. R. Cuthbert & Company, moldando pias e tubos de metal, e na fábrica de roupas, onde adquiriu uma habilidade que lhe foi muito útil em sua carreira de músico sempre em turnê: aprendeu a dobrar ternos sem deixar vincos. Entretanto, como escreveu num diário, sempre se imaginou escritor, “usando uma capa de chuva, um chapéu amassado de aba caída por cima dos olhos intensos, uma história de injustiça no coração, um rosto nobre demais para a vingança, caminhando à noite por alguma avenida molhada, acompanhado pela simpatia de um público incontável… amado por duas ou três belas mulheres com quem jamais ficaria”.

A vida de astro de rock’n’roll nunca lhe havia passado pela cabeça. Queria ser escritor. Como diz claramente Sylvie Simmons em sua excelente biografia, I’m Your Man: A Vida de Leonard Cohen, a formação do artista foi toda na área de letras. Ainda adolescente, seus ídolos eram Yeats e García Lorca (deu o nome de Lorca a sua filha). Na Universidade McGill, leu Tolstói, Proust, Eliot, Joyce e Pound, e integrou um círculo de poetas no qual se destacava o canadense de origem romena Irving Layton. Cohen, que publicou seu primeiro poema, “Satan in Westmount”, aos 19 anos, disse certa vez a respeito de Layton: “Ensinei Layton a se vestir, e ele me ensinou a viver para sempre.”

Cohen também adorava música. Ainda menino, aprendeu todas as canções da antiga coletânea de canções folk de esquerda, The People’s Song Book. Escutava Hank Williams e outros cantores country no rádio, e, aos 16 anos, envergando uma velha jaqueta de camurça do pai, começou a tocar num conjunto de música country conhecido como os Buckskin Boys.

Teve aulas informais de violão aos 20 e poucos anos, com um espanhol que conheceu ao lado de uma quadra de tênis de um parque de Montreal. Ao final de algumas semanas, aprendeu uma progressão de acordes de flamenco. Quando, na quarta aula, o professor não apareceu, Cohen ligou para a pensão onde o músico morava e soube que ele havia se matado. Num discurso feito muitos anos depois, em Astúrias, na Espanha, ele disse: “Nunca soube nada a respeito dele, por que tinha vindo para Montreal… o que tinha ido fazer ao lado daquela quadra de tênis, por que se suicidou… Foram aqueles seis acordes que formaram a base de todas as minhas canções, de toda a música que fiz na vida.”

Cohen adorava os grandes mestres do blues – Robert Johnson, Sonny Boy Williamson, Bessie Smith – e os cantores-contadores de histórias, como os francófonos Edith Piaf e Jacques Brel. Gastava suas moedas nas vitrolas automáticas para ouvir The Great Pretender, dos Platters, Tennessee Waltz, com Patti Page, e qualquer coisa gravada por Ray Charles. Ainda assim, o surgimento dos Beatles o deixou indiferente. “Eu me interesso pelas coisas que contribuem para a minha sobrevivência”, ele disse. “Tive namoradas que me irritavam muito com a paixão que tinham pelos Beatles. Não as condeno, e de algumas canções, como Hey Jude, gostei muito. Mas eles não me pareciam essenciais ao tipo de alimento de que eu precisava.”

 

Os mesmos ouvidos que pela primeira vez atentaram a Bob Dylan, em 1961, também descobriram Leonard Cohen em 1966. Pertenciam a John Hammond, homem bem-nascido aparentado aos Vanderbilt e de longe o produtor e descobridor de talentos mais intuitivo de toda a indústria fonográfica americana. Hammond foi decisivo para as primeiras gravações de Count Basie, Big Joe Turner, Benny Goodman, Aretha Franklin e Billie Holiday. Amigos que acompanhavam apresentações de músicos folk na zona sul de Nova York lhe falaram de Cohen, e Hammond ligou para ele, pedindo para conhecê-lo.

Aos 32 anos, Cohen tinha publicado poesia e romance, mas, embora um ano mais velho que Elvis Presley, era novato em matéria de música. Vinha se dedicando a compor basicamente porque não conseguia ganhar a vida escrevendo. Morava no 4º andar do Chelsea Hotel, na rua 23W, em Manhattan, e passava os dias enchendo cadernos. À noite, apresentava suas canções em clubes noturnos e conhecia gente da área: Patti Smith, Lou Reed (admirador de seu romance Beautiful Losers, de 1966), Jimi Hendrix (que tocou com ele justo Suzanne) e, por uma única noite, Janis Joplin (giving me head on the unmade bed/while the limousines wait in the street – “me chupando na cama desfeita/enquanto as limusines esperam na rua”).

Um dia, depois de levar Cohen para almoçar, Hammond sugeriu que eles fossem ao hotel do compositor; sentado na cama, em seu quarto, Cohen tocou Suzanne; Hey, That’s No Way to Say Goodbye; The Stranger Song e mais algumas canções.

Quando terminou, Hammond deu um sorriso e disse: “Negócio fechado.”

Alguns meses depois, Cohen vestiu um terno e foi até os estúdios da Columbia Records, no centro de Nova York, para dar início a seu primeiro disco. Hammond o incentivava ao final de cada sessão. Depois de uma delas, chegou a dizer: “Bob Dylan que se cuide!”

As semelhanças entre Cohen e Dylan eram óbvias – ambos judeus, literatos, cultores de imagens bíblicas e tutelados pelo mesmo Hammond. Mas suas obras divergiam. Dylan, desde os primeiros discos, buscava uma linguagem mais surrealista baseada na livre associação, contaminada pela fúria criativa do rock’n’roll. As letras de Cohen não eram menos carregadas ou criativas, nem menos irônicas ou marcadas pelo autoquestionamento, mas ele era mais claro, mais econômico e formal – mais litúrgico.

Ao longo das décadas, Dylan e Cohen se encontraram em várias ocasiões. No começo dos anos 80, Cohen foi assistir a uma apresentação de Dylan em Paris e, na manhã seguinte, num café, conversaram sobre seus trabalhos mais recentes. Dylan tinha um interesse especial por Hallelujah. Mesmo antes de 300 cantores gravarem versões diferentes da canção, bem antes que ela fosse incluída na trilha sonora de Shrek e se tornasse, além disso, número quase obrigatório em todas as temporadas de American Idol, Dylan já reconhecia a beleza dessa união entre o sagrado e o profano. E perguntou a Cohen em quanto tempo ele havia composto a canção.

“Dois anos”, Cohen mentiu.

Na verdade, ele levara cinco anos para concluir Hallelujah. Depois de rascunhar dezenas de estrofes, passou anos definindo quais entrariam na versão final. Várias vezes, no processo de escrevê-la, acabou de cuecas, batendo com a cabeça no chão de quartos de hotel.

Cohen disse a Dylan: “Eu gosto muito de I and I” – uma canção de Dylan, do disco Infidels. “Quanto tempo você levou para compor I and I?”

“Uns quinze minutos”, Dylan respondeu.

Quando pedi que Cohen comentasse esse episódio, ele disse: “Foram essas as cartas que nos couberam.” Quanto à observação de Dylan, de que as canções de Cohen “pareciam preces”, Cohen disse que nunca havia se disposto a sondagens mais profundas sobre os mistérios da criação.

“Não tenho muita ideia do que eu faço”, ele disse. “É difícil descrever. Agora que estou me aproximando do fim da vida, tenho cada vez menos interesse em discutir avaliações ou opiniões que só podem ser muito superficiais sobre o significado da minha vida ou da minha obra. Se já não era dado a isso quando tinha saúde, agora sou menos ainda.”

Embora tendesse a se inspirar mais na tradição da música country, Cohen se entusiasmou ao ouvir Bob Dylan em Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited. Uma tarde, anos depois, quando os dois já eram amigos, Dylan foi procurá-lo em Los Angeles e disse que queria lhe mostrar uma propriedade que tinha comprado. E seguiram até ela no carro de Dylan.

“Uma das canções dele tocou no rádio”, lembrou Cohen. “Acho que era Just Like a Woman, ou coisa assim. Quando a canção chegou ao trecho antes do refrão, normalmente chamado de ponte, ele disse: ‘Essa ponte já foi cruzada por muitas jamantas.’ Para me mostrar como era poderosa.”

Dylan continuou dirigindo. Depois de algum tempo, contou que um compositor famoso daqueles tempos tinha dito a ele: “Tudo bem, Bob, você é o Número 1. Mas eu sou o Número 2.”

Cohen deu um sorriso. “Mas então Dylan me disse: ‘Na minha opinião, Leonard, o Número 1 é você. Eu sou o Número Zero.’ Querendo dizer, da maneira como entendi na ocasião – e longe de mim a ideia de discutir essa avaliação –, que a obra dele ultrapassa todas as medidas, enquanto a minha é muito boa.”

 

Dylan, que tem 75 anos, não costuma se prestar muito ao papel de crítico musical, mas não se furtou a discorrer sobre Leonard Cohen. Fiz uma série de perguntas sobre o Número 1, e ele respondeu detalhadamente, numa crítica esmerada – nada críptica nem ambígua.

“Quando falam de Leonard, as pessoas não costumam mencionar as melodias, que para mim, tanto quanto as letras, são da maior genialidade”, disse Dylan. “Inclusive as linhas de contraponto – que dão um caráter celestial e elevação melódica a todas as suas canções. Que eu saiba, não há mais ninguém que chegue perto disso na música moderna. Mesmo uma das canções mais simples dele, como The Law, construída a partir de dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais, e qualquer um que cogite apresentar a canção, ou adore sua letra, não tem como ignorar as linhas de contraponto originais.”

E continuou: “O talento, ou a genialidade, de Leonard tem uma ligação com a música das esferas. Na canção Sisters of Mercy, por exemplo, os versos se sucedem em quatro linhas melódicas diferentes que se repetem a intervalos regulares… mas a música não tem nada de previsível. A canção começa com um verso que é uma declaração de fato. Em seguida, tudo pode acontecer, e acontece – Leonard deixa acontecer. E num tom que não tem nada de condescendente ou irônico. Ele é um amante contumaz que se recusa a reconhecer a rejeição. Leonard está sempre acima de tudo. Sisters of Mercy tem versos e mais versos de métrica perfeita em quatro linhas bem distintas de melodia, sem refrão, e vibra de tanto drama. A primeira linha começa em tom menor. A segunda passa de menor para maior e sobe, alterando a melodia e a variação. A terceira linha sobe ainda mais, atingindo outro patamar, e em seguida a quarta retorna ao começo. É um tema musical incomum e de simplicidade só aparente, com a letra ou sem ela. Mas é tão sutil que o ouvinte nem percebe ter embarcado numa viagem ao fim da qual foi parar num outro lugar, com a letra ou sem ela.”

Numa turnê no final dos anos 80, Dylan tocou Hallelujah na forma de um blues áspero com um refrão inesperado em crescendo. Sua interpretação lembra menos a versão embelezada de Jeff Buckley que alguma criação de John Lee Hooker. “Esta canção, Hallelujah, tem muitas ressonâncias para mim”, disse Dylan. “Aqui também temos uma melodia lindamente construída que sobe, evolui e depois retorna. Mas tem um estribilho que lhe dá coesão, e que quando vem mostra uma força muito grande. O ‘acorde secreto’ de que a letra fala em sua primeira estrofe e esse outro aspecto da canção, que dá a impressão de entender cada um de nós melhor do que nós mesmos, têm muitas ressonâncias para mim.”

Perguntei a Dylan se ele preferia as composições mais recentes de Cohen, tão marcadas por insinuações sobre o fim da vida. “Eu gosto de todas as canções de Leonard, tanto as primeiras quanto as mais recentes”, ele respondeu. “Going Home, Show Me the Place, The Darkness. São todas grandes canções, profundas e verdadeiras como sempre, e multidimensionais, com melodias surpreendentes. Fazem pensar e nos provocam sentimentos. Gosto de algumas das mais recentes ainda mais do que das primeiras. Ainda assim, as primeiras têm uma simplicidade que também me agrada muito.”

Dylan defendeu Cohen da surrada acusação de criar músicas para ouvir cortando os pulsos. E o comparou a um outro imigrante judeu russo, o autor de Easter Parade. “Não vejo o menor desencanto nas letras de Leonard”, comentou Dylan. “Elas têm sempre um sentimento direto, como se ele estivesse dizendo alguma coisa numa conversa, falando o tempo todo – mas sem que o ouvinte se canse de escutar. Leonard é um descendente perfeito de Irving Berlin, talvez o único compositor popular da história moderna a quem ele possa ser associado. As canções de Berlin produziam o mesmo efeito. Berlin também estava conectado a algum tipo de esfera celestial. E, como Leonard, também não deve ter tido uma formação musical clássica. Tanto um como o outro simplesmente captam essas melodias que a maioria de nós só consegue conquistar à custa de muito esforço. As letras de Berlin também se encaixavam muito bem nas canções, e consistiam em metades de versos e versos inteiros distribuídos a intervalos surpreendentes, alongando certas palavras. Tanto Leonard quanto Berlin são incrivelmente talentosos. Leonard, em especial, usa progressões de acordes similares a uma forma clássica. Ele é um músico muito mais engenhoso do que a gente imagina.”

 

Apresentar-se em público sempre deixava Cohen nervoso. Sua primeira tentativa para valer ocorreu em 1967, quando Judy Collins o convidou para cantar com ela no Town Hall, em Nova York, num concerto contra a Guerra do Vietnã. A ideia era fazê-lo estrear interpretando Suzanne, uma de suas primeiras canções, que Collins transformara num grande sucesso depois de ouvi-la pelo telefone, cantada pelo próprio.

“Não vai dar, Judy”, ele disse. “Vou morrer de vergonha.”

Em suas memórias, Collins conta que finalmente conseguiu convencê-lo. Mas naquela noite, das coxias, ela viu que Cohen – “com as pernas tremendo nas calças” – passava por sérias dificuldades. Depois da metade da primeira estrofe, ele parou e murmurou um pedido de desculpas. “Não consigo continuar”, ele disse, e saiu do palco.

Nos bastidores, Cohen apoiou a cabeça no ombro de Collins enquanto ela tentava fazê-lo voltar, sob gritos encorajadores da plateia. “Não posso”, ele disse. “Não vou conseguir.”

“Vai, sim”, ela respondeu, e ele acabou voltando ao palco, sob a aclamação do público, e cantou Suzanne até o fim.

A partir de então, Cohen se apresentou em milhares de concertos por todo o mundo, mas cantar em público só ficou fácil depois dos 70 anos. Ele não era daqueles músicos que dizem se sentir mais vivos e à vontade no palco. Embora tenha desenvolvido algumas estratégias eficazes para conseguir cantar em público – uma abnegação contrariada, drogas, bebida –, o ato de se apresentar ao vivo muitas vezes o fazia sentir-se como “um papagaio acorrentado ao poleiro”. E Cohen também era perfeccionista: um clássico como Famous Blue Raincoat ainda lhe parecia “inacabado”.

“Isso porque você nunca alcança a qualidade que gostaria – é essa a causa do nervosismo”, Cohen me disse. “E a primeira vez que me apresentei com Judy Collins não foi a última em que tive essa sensação.”

Em 1972, Cohen, então acompanhado por uma formação mais completa de músicos e cantoras de apoio, chegou a Jerusalém ao final de uma longa turnê. Para ele, o simples fato de estar naquela cidade tinha um significado especial. (No ano seguinte, durante a guerra com o Egito, Cohen foi para Israel esperando substituir alguém que tivesse sido convocado. “Eu me sinto comprometido com a sobrevivência do povo judeu”, ele disse a um entrevistador, à época. Acabou se apresentando para os soldados no front, frequentemente várias vezes por dia.) No palco, Cohen começou cantando Bird on the Wire. E parou, assim que o público recebeu os primeiros acordes e a primeira frase com uma onda de aplausos.

“Fico muito satisfeito de vocês reconhecerem as minhas canções”, ele disse. “Mas só de estar aqui já me sinto apavorado, e fico com a sensação de que alguma coisa está errada sempre que vocês começam a aplaudir. Então, será que ao reconhecerem a música vocês poderiam só abanar as mãos?”

Tornou a tropeçar no começo, e o que num primeiro momento poderia parecer charme agora se revelava o mais genuíno sinal de ansiedade. “Peço que tenham um pouco de paciência”, ele disse. “Para mim, essas canções se transformam em meditações, e às vezes não consigo decolar do modo certo e acho que estou enganando a plateia. Vou tentar de novo. Se não funcionar, paro no meio. Não tem por que mutilar uma canção só para não passar vergonha.”

E Cohen começou a cantar One of Us Cannot Be Wrong: “I lit a thin green candle…

E tornou a parar, com um riso nervoso. Mais hesitação, novas tentativas de fazer graça.

“Eu também tenho os meus direitos aqui em cima do palco, sabiam?”, ele disse com um sorriso. “Se eu quiser, posso ficar só falando.”

Àquela altura, era evidente que havia um problema. “Olhem, se a coisa não melhorar, vamos encerrar o concerto e eu devolvo o dinheiro”, disse Cohen. “Sinceramente, estou com a sensação de que hoje estou enganando vocês. Há noites em que você sente que decola do chão, e noutras não há meios de levantar voo. E não adianta mentir. Hoje não estamos conseguindo decolar, e a Cabala ensina…” O público riu à menção dos textos místicos judaicos. “A Cabala ensina que, se você não consegue sair do chão, é melhor ficar por lá mesmo! Não, a Cabala ensina que, a menos que Adão e Eva fiquem de frente um para o outro, Deus não pode sentar em seu trono, e por algum motivo as minhas partes homem e mulher estão se recusando a ficar frente a frente na noite de hoje – e Deus não tem como se instalar em seu trono. E é terrível que isso aconteça em Jerusalém. Então vou fazer o seguinte: agora vamos deixar o palco e tentar alguns momentos de meditação profunda no camarim, para nos recuperarmos.”

Comentei com Cohen sobre esse incidente – está registrado num documentário que circula na internet –, e ele se lembrava bem do episódio.

“Estávamos no final da turnê”, ele contou. “Achei que nada estava indo bem, voltei para o camarim e encontrei um pouco de ácido na caixa do meu violão.” E tomou o ácido. Enquanto isso, o público começou a cantar para Cohen, como que para inspirá-lo e chamá-lo de volta. Era uma canção tradicional judaica, Hevenu Shalom Aleichem [A paz esteja convosco].

“Certas plateias são de uma gentileza…”, lembrou Cohen. “Então voltei para o palco com a banda… e decidi cantar So Long, Marianne. Vi Marianne bem à minha frente, e comecei a chorar. Virei para trás e todos os músicos da banda também estavam chorando. E então aconteceu uma coisa que hoje parece quase cômica: a plateia inteira se transformou num único judeu! E o judeu me dizia: ‘O que mais você tem para me mostrar, garoto? Já ouvi muita coisa, e isso aí não me impressiona tanto assim.’ Era o lado cético da nossa tradição, não só amplificado, mas se manifestando como se fosse uma única criatura gigantesca! Estar sob julgamento nem chega perto de descrever a coisa toda. Experimentei uma anulação e uma irrelevância que legitimaram a sentença, porque esses sentimentos sempre estiveram presentes na minha psique: com base no que você vem aqui e se manifesta? Para quê, e para quem? Quão profunda é a sua experiência? Alguma coisa do que você tem a dizer tem algum significado?… Acho que essa situação realmente me levou a aprofundar minha prática. Cavar mais fundo, até onde fosse, levar tudo mais a sério.”

De volta ao camarim, Cohen chorava copiosamente. “Não vou conseguir”, ele disse. “Não estou gostando disso, e ponto final. Então vou embora.”

E saiu mais uma vez para conversar com a plateia.

“Escutem, amigos, eu e a minha banda fomos chorar no camarim. Estamos muito mal para continuar. Mas eu queria agradecer a todos e desejar boa noite.”

No ano seguinte, declarou à imprensa, em tom meio sério, que a “vida de roqueiro” era demais para ele. “Não me vejo levando uma vida cheia de muitos bons momentos”, disse a um repórter da Melody Maker. “E por isso decidi largar tudo. E ir embora.”

 

Por muitos anos, os discos de Cohen eram mais reverenciados do que comprados. Embora vendessem razoavelmente bem, nem chegavam perto da escala dos principais nomes do rock. No início da década de 80, quando entregou à gravadora as canções de Various Positions – um disco magnífico, trazendo entre outras Hallelujah, Dance Me to the End of Love e If It Be Your Will –, Walter Yetnikoff, presidente da cbs Records, discutiu a seleção das faixas com ele.

“Escute, Leonard”, disse Yetnikoff, “a gente sabe que você é demais, a gente só não sabe se você é bom.” Pouco depois, Cohen tomou conhecimento de que a cbs tinha decidido não lançar o disco nos Estados Unidos. Anos mais tarde, ao receber um prêmio, ele agradeceu à gravadora: “Sempre me comoveu o comedimento do interesse deles por minha obra.”

Suzanne Vega, cantora e compositora de pouco menos de 60 anos, às vezes conta em seus shows uma história engraçada sobre como a admiração por Cohen servia de senha. Quando tinha 18 anos, Vega ensinava dança e canto popular numa colônia de férias nos montes Adirondacks. Certa noite, conheceu um rapaz bonito, conselheiro de outra colônia de férias não distante da sua. E a primeira coisa que ele lhe perguntou foi: “Você gosta de Leonard Cohen?”

Isso foi há quase quatro décadas e, pelo que Vega se lembra, àquela altura os admiradores de Cohen compunham uma espécie de “sociedade secreta”. E mais: havia uma forma correta de responder à pergunta semi-inocente do rapaz: “Sim, eu adoro Leonard Cohen – mas só em certos estados de espírito.” Senão o interlocutor poderia achar que você sofria de depressão.

No entanto, como o rapaz em questão era inglês, o que o liberava da “animação forçada” dos americanos, ele respondeu: “Adoro Leonard Cohen o tempo todo.” E o resultado foi um caso amoroso que duraria até o fim do verão.

Nos anos seguintes, as canções de Cohen foram fundamentais para a própria Suzanne Vega desenvolver o rigor e o lirismo de sua arte. “A maneira como ele escreve sobre coisas complicadas”, ela me declarou recentemente, “é extremamente íntima e pessoal. Dylan transportava os ouvintes para os pontos mais distantes do universo em expansão, nos oito minutos de Mr. Tambourine Man, e eu adoro o que ele criava, mas isso não tem nada a ver com o que eu fazia ou podia vir a fazer – não era muito desse mundo. Já as canções de Leonard combinam detalhes muito concretos com uma sensação de mistério, como uma prece ou um sortilégio.”

E ainda havia mais uma coisa. Certa vez, depois que Cohen e Vega ficaram amigos, ele ligou e convidou-a para visitá-lo em seu hotel. Os dois se encontraram à beira da piscina, e Cohen perguntou se ela queria ouvir sua última canção.

“E enquanto eu escutava Leonard recitar a canção – que era bem comprida –, várias e várias mulheres, todas de biquíni, foram se acomodando nas espreguiçadeiras atrás dele”, relembra Vega. “Quando ele terminou, perguntei se havia reparado em todas aquelas mulheres de biquíni instaladas perto dele. E sem mover um músculo do rosto, sem olhar em volta, Leonard respondeu: ‘Funciona sempre.’”

Um mundo cheio dessas tentações cobrava caro, não era só feito de recompensas. Nos anos 70, Cohen teve dois filhos, Lorca e Adam, com a mulher com quem viveu sem se casar, Suzanne Elrod. A relação se esgotou mais ou menos no fim da década. Viajar tinha seus encantos, mas também era desgastante. Em 1993, ao fim de uma turnê, Cohen sentiu-se absolutamente extenuado. “Eu vinha bebendo pelo menos três garrafas de Château Latour antes de cada apresentação”, ele contou. “A conta dos vinhos era enorme. Mesmo naquela época, acho que custava mais de 300 dólares a garrafa. Mas combinava tão bem com a música! Não sei por quê. Quando tentei tomar o Latour sem me apresentar em seguida, o efeito foi zero. Poderia ter tomado um vinho ordinário qualquer. Quer dizer, tanto fazia”.

Ao mesmo tempo, a longa relação que manteve com a atriz Rebecca De Mornay começava a se desfazer. “Ela percebeu quem eu era no fundo”, disse Cohen. “E viu que eu era um sujeito que, no final das contas, simplesmente não conseguiria corresponder. Não me casaria de novo, não teria mais filhos e assim por diante.” De Mornay, que continuou amiga de Cohen, declarou à biógrafa Sylvie Simmons que ele “tinha todas essas relações com as mulheres em que não se comprometia a sério… enquanto mantinha uma relação duradoura com a carreira, embora achasse que era a última coisa que queria fazer”.

 

Desde os dias em que recitava preces em hebraico ao lado dos tios, na sinagoga do seu avô, Cohen sempre esteve numa busca espiritual. “Qualquer coisa: catolicismo, budismo, lsd; para mim serve qualquer coisa que funcione”, ele disse certa vez. No final dos anos 60, quando vivia em Nova York, estudou por um tempo num centro de cientologia e saiu com um certificado em “Gradiente iv”. Em tempos menos remotos, passou várias manhãs de shabat e noites de segunda-feira na sinagoga Ohr HaTorah, no Venice Boulevard, conversando sobre textos cabalísticos com o rabino local, Mordecai Finley. Em comemorações de Rosh Hashaná e do Yom Kippur, Finley, para quem Cohen era “um grande escritor litúrgico”, já leu do púlpito trechos de seu Book of Mercy, uma coletânea de “salmos contemporâneos” lançada em 1984, profundamente influenciada pelos Salmos de Davi. “Participei de todas essas procuras que atraíram as mentes da minha geração naquele tempo”, disse Cohen. “Dancei e cantei com os hare krishnas – nunca me enrolei naquelas roupas nem entrei para a seita, mas experimentei de tudo.”

Ao longo de sua vida, Cohen costumava mergulhar na leitura de uma edição em vários volumes do Zohar, o texto fundamental do misticismo judaico, da Bíblia hebraica e de textos budistas. Em nossas conversas, ele falou dos evangelhos gnósticos, da cabala luriânica, de vários livros de filosofia hindu, da Resposta a Jó, de Carl Jung, e da biografia que Gershom Scholem dedicou a Sabbatai Sevi, místico judeu que se autoproclamou Messias no século xvii. Cohen também costumava percorrer os rincões espirituais da internet, onde ouvia as palestras de Yakov Leib HaKohain, cabalista que já se converteu, pela ordem, ao Islã, ao catolicismo e ao hinduísmo, e vive nas montanhas californianas de San Bernardino na companhia de dois pit bulls e quatro gatos.

 

Por quarenta anos, Cohen seguiu o mestre zen japonês Kyozan Joshu Sasaki Roshi. (Roshi é o tratamento honorífico usado para um mestre venerado, e era assim que Cohen sempre se referia a ele.) Roshi, que morreu em 2014 aos 107 anos, chegou a Los Angeles em 1962, mas nunca aprendeu muito bem a língua de seu país de adoção. Por meio de seus intérpretes, porém, adaptou vários koans tradicionais japoneses para a iluminação de seus discípulos americanos: “Como você pode se dar conta da natureza de Buda enquanto dirige um carro?” Roshi era baixinho, corpulento e gostava de tomar saquê e uísque escocês. “Eu vim aqui para me divertir”, disse certa vez sobre sua permanência nos Estados Unidos. “Quero que os americanos aprendam a rir de verdade.”

Até o início dos anos 90, Cohen costumava passar com Roshi, no Centro Zen do Monte Baldy, na Califórnia, vários períodos de estudo e meditação que se estendiam por dois a três meses a cada ano. Considerava Roshi um amigo próximo, um mestre espiritual e uma influência profunda em sua obra. E assim, pouco depois de voltar para casa ao final da turnê do Château Latour, em 1993, Cohen tornou a subir o monte Baldy. Dessa vez, ficou quase seis anos no alto da montanha.

“Ninguém desembarca num mosteiro zen como turista”, Cohen contou. “Tem gente que age assim, mas acaba indo embora ao final de dez minutos, porque lá a vida é muito rigorosa. Você acorda às duas e meia da manhã; os outros despertam às três, mas você precisa acender os fogos no zendô, a sala de meditação. As cabanas só são aquecidas algumas horas por dia. A neve entra por baixo das portas de madeira mal-acabadas. Você passa metade do dia removendo neve com uma pá. E a outra metade sentado no zendô. Num certo sentido, você fica mais rijo. Se isso tem um aspecto espiritual ou não, é discutível. Mas sempre ajuda você a se tornar mais resistente, e a queixa passa a ser a resposta menos adequada a qualquer provação. Só por isso, já é muito valioso.”

Cohen ocupava uma cabana bem pequena, que equipou com uma cafeteira, uma menorá, um teclado e um laptop. Como os demais, limpava as privadas. Tinha a honra de cozinhar para Roshi, e mais tarde acabou se mudando para outra cabana, que se comunicava com a do mestre por uma passarela coberta. Meditava várias horas por dia, sentado em posição de Meio Lótus. Se ele, ou qualquer outro, cochilasse durante a meditação ou deixasse a posição correta, um dos outros monges se aproximava e, com uma vara de madeira, desferia um golpe seco no ombro do sujeito.

“As pessoas têm essa ideia de que um mosteiro é um lugar de serenidade e contemplação”, disse Cohen. “Mas não é nada disso. Na verdade é um hospital, e muitos dos que vão parar lá mal conseguem caminhar ou falar. Assim, boa parte da atividade consiste em fazer as pessoas aprenderem a andar, falar, respirar e preparar as próprias refeições, ou limpar a neve durante o inverno.”

Allen Ginsberg certa vez perguntou a Cohen como ele conciliava o judaísmo e o zen. Cohen respondeu que não estava à procura de uma nova religião, estava satisfeito com a sua. O zen não fazia menção alguma a Deus, não exigia devoção a qualquer livro sagrado. Para ele, o zen era mais uma disciplina, uma prática de estudo, que propriamente uma religião. “Eu usava aquelas roupas porque ali era a escola de Roshi, e o uniforme era aquele”, ele disse. Se Roshi fosse professor de física na Universidade de Heidelberg, dizia Cohen, ele teria aprendido alemão e ido morar em Heidelberg.

Roshi, perto do final de sua vida, foi alvo de denúncias envolvendo abusos sexuais. Nunca foi formalmente acusado, mas algumas de suas ex-alunas escreveram em chats da internet ou enviaram cartas ao próprio Roshi relatando bolinações ou coerção de monjas e noviças. Uma comissão budista independente concluiu que esse comportamento teria ocorrido a partir dos anos 70, e que todos “que decidiam falar a respeito eram silenciados, exilados, ridicularizados ou punidos de outras formas”, contou o Times.

 Certa manhã, Bob Faggen me levou de carro morro acima até o Centro Zen. Antiga sede de um alojamento de escoteiros, o centro compreende uma série de cabanas rústicas cercadas de cedros e pinheiros. Àquela altura, tinha pouquíssimos ocupantes. Um monge me disse que Roshi não tinha deixado sucessor e que o centro ainda não havia se recuperado do escândalo. Cohen, por sua vez, se esforçou para explicar as transgressões de Roshi sem desculpá-las. “Roshi”, ele disse, “era um sujeito bem indecente.”

 

Em 1996, Cohen se tornou monge, mas isso não o salvaguardou da depressão que o atormentava havia muito – dois anos mais tarde, ele sucumbiu. “Vivi às voltas com a depressão desde a adolescência”, contou. “Períodos debilitantes, em que tinha dificuldade até para levantar do sofá, se alternavam a épocas em que eu funcionava plenamente, mas sempre sob o predomínio do ruído de fundo da angústia.” Tentou antidepressivos. Tentou se livrar deles. Nada funcionou. Finalmente, disse a Roshi que ia “descer da montanha”. Na coletânea de poemas Book of Longing, escreveu:

I left my robes hanging on a peg
in the old cabin
where I had sat so long
and slept so little.
I finally understood
I had no gift
for Spiritual Matters.[1]

Na verdade, porém, a busca de Cohen não terminara. Ele voltou para casa e na semana seguinte tomou um avião até Mumbai e foi estudar com outro guia espiritual. Alugou um quarto num hotel modesto e compareceu diariamente às satsangs, sessões de discussão espiritual, no apartamento de Ramesh Balsekar, ex-presidente do Banco da Índia e mestre de Advaita Vedanta, uma doutrina hindu. Cohen havia lido o livro de Balsekar, Consciousness Speaks [A Consciência Fala], que prega a consciência universal única, sem “você” ou “eu”, e contesta o livre-arbítrio individual, a mera ideia de que uma pessoa faz o que quer.

Cohen viveu quase um ano em Mumbai, visitando Balsekar pela manhã e passando o resto do dia nadando, escrevendo e caminhando pela cidade. Por motivos que classificou de “impenetráveis”, sua depressão cedeu. Ele estava pronto a voltar para casa. Essa história, e a maneira como Cohen a contou, temperada de incerteza e modéstia, lembrou-me o refrão de Anthem [Hino/Antífona], uma canção que ele demorou dez anos para compor e gravou pouco antes de subir a montanha:

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That’s how the light gets in.[2]

Ainda que à época se visse livre da depressão, a crise seguinte não tardou.

Salvo poucos luxos, Cohen não tinha a obsessão da opulência. “Meu projeto era completamente diverso dos meus contemporâneos”, ele disse. Seu círculo de Montreal valorizava a modéstia. “O ambiente que permite a você trabalhar com um mínimo de distração e o máximo de liberdade estética depende de uma atmosfera modesta. Um palácio, um iate representariam um desvio imenso do projeto. Minhas fantasias sempre foram na direção oposta. O modo como eu vivia em Monte Baldy era perfeito para mim. Eu gostava da vida comunitária, de viver numa cabana.”

Ainda assim, Cohen acumulou uma fortuna considerável com as vendas de seus discos, seus concertos e os direitos de publicação de suas canções. Hallelujah foi gravada tantas vezes e em tantos países que Cohen, brincando, chegou a dizer que não permitiria novas versões. O dinheiro que tinha lhe bastava com folga para dar toda segurança aos dois filhos e à mãe deles, além de alguns outros dependentes. Antes de se lançar a suas aventuras espirituais, Cohen entregara o controle quase absoluto de seus interesses financeiros a Kelley Lynch, administradora de seus negócios por dezessete anos e, durante algum tempo, também sua namorada. Em 2004, contudo, descobriu que suas contas estavam zeradas. Milhões de dólares haviam desaparecido. Ele rompeu seu contrato com Lynch e abriu um processo contra ela. A causa foi decidida em favor de Cohen, destinando-lhe uma indenização de mais de 5 milhões de dólares.

No Tribunal Superior do Condado de Los Angeles, Cohen afirmou em seu depoimento que Lynch ficara tão indignada com o processo que havia começado a ligar para ele de vinte a trinta vezes por dia, entupindo sua caixa de entrada com e-mails, alguns dos quais com ameaças, e finalmente ignorando uma ordem judicial de afastamento. Isso o deixou “muito sobressaltado”, segundo a matéria do jornal The Guardian sobre o julgamento. Sempre que via “um carro reduzir a velocidade”, ficava “preocupado”. Lynch foi condenada a dezoito meses de prisão e mais cinco anos de condicional.

Depois de agradecer ao juiz e a seu advogado com a elegância costumeira, Cohen se pronunciou sobre sua antagonista. “Eu rezo”, ele disse ao tribunal, “para que a sra. Lynch se refugie nos sábios ensinamentos de sua religião, que um espírito de compreensão converta em remorso o ódio do seu coração, sua raiva em gentileza, sua embriaguez letal de vingança em práticas humildes de autotransformação.”

Cohen nunca recebeu a indenização que lhe foi concedida e, como quando nos encontramos a situação ainda estava sub judice, ele preferiu não falar a respeito. Mas uma coisa ficou clara: ele teve de voltar aos palcos. Até os monges zen precisam merecer suas moedas.

 

O encanto pessoal de Cohen tinha algo de irresistível. Quem quiser uma prova que assista ao clipe disponível no YouTube, Why It’s Good to Be Leonard Cohen [Por que É Bom Ser Leonard Cohen]: Cohen é filmado nos bastidores enquanto uma linda atriz com sotaque alemão tenta convencê-lo, diante de um camarim repleto, a “ir para algum lugar” com ela, o que ele acaba recusando constrangido. E seu encanto não era menor com os homens.

Assim, fiquei perplexo quando Faggen e eu voltamos à casa de Cohen numa determinada tarde, certos de nossa pontualidade, e ele nos informou, com uma severidade implacável, que estávamos atrasados. Na verdade, Cohen, de terno escuro e chapéu de feltro, instalado em sua cadeira hospitalar, nos passou o sabão mais intragável que levei desde a escola primária. Sou um sujeito metódico, desses que nunca, ou quase nunca, se atrasam; sempre chego ao aeroporto, como os velhos, várias horas antes do embarque. Mas parece que ocorrera um mal-entendido quanto ao horário da visita, e nossa mensagem de texto para ele e sua assistente não tinha sido recebida. Cohen não aceitou nossos reiterados pedidos de desculpas nem a explicação do sucedido, e ainda nos lembrou de seus problemas de saúde. Aquilo era um abuso do seu tempo. Uma violação. E mais: uma forma de “maus-tratos a um idoso”. Mais desculpas nossas, mais recusas dele a aceitá-las. Não era uma questão de irritação, nem era o caso de pedir desculpas, continuou ele. Não estava com raiva, isso não, mas precisávamos entender que nenhum de nós é uma “pessoa que faz coisas”, nenhum de nós tem livre-arbítrio… E assim por diante. Reconheci a linguagem de seu mestre de Mumbai. Mas nem por isso fiquei menos magoado.

O sermão – gélido, enfático, terrível – estendeu-se por um bom tempo. Senti-me humilhado, mas também caí na defensiva. Na dinâmica que predomina em qualquer desabafo, quem fala fica mais leve, mas quem escuta sente-se acuado e infeliz.

Finalmente, Cohen pôs-se a falar de outras coisas. E o assunto que o deixou mais contente foi a turnê destinada a restaurar suas finanças, depois de ter sido roubado. Em 2007, começou a planejar essa turnê com uma banda completa de músicos: três cantoras nos vocais de apoio, dois guitarristas, um baterista, um tecladista, um baixista e um saxofonista (mais tarde substituído por um violinista). Ensaiaram por três meses.

“Fazia quinze anos que eu não tocava nenhuma daquelas músicas”, ele contou. “Minha voz tinha mudado. Meu alcance era outro. Eu não sabia o que fazer. Não havia modo de transpor as posições que eu já conhecia.” Em vez disso, afinou as cordas de seu violão dois tons abaixo do normal, de modo que, por exemplo, a corda mi mais grave passou a tocar o dó abaixo. A voz de Cohen sempre tinha sido íntima e profunda, mas, com a idade e após uma infinidade de cigarros, ela se transformara num extraordinário grunhido – rouco, confiante, poderoso. Ao vivo, ele sempre extraía risadas da plateia com seus versos de Tower of Song:

I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice[3]

Neil Larsen, tecladista da banda de Cohen, contou que a preparação foi meticulosa: “Ensaiamos quase tanto como se fôssemos gravar. Repetimos e repetimos cada canção, fazendo infinitos ajustes. E ele também aproveitava para decorar as letras. Geralmente, quando uma turnê começa, ela ainda não está bem pronta. Mas essa não. Já partimos totalmente preparados.”

Começaram pelo Canadá e dali seguiram para toda parte nos cinco anos seguintes – foram 380 récitas, de Nova York a Nice, de Moscou a Sydney. No início de cada apresentação, Cohen dizia que ele e a banda iam “dar tudo que tinham”, e nunca mentiu. “Acho que ele estava querendo competir com Bruce Springsteen”, brincou Sharon Robinson, uma de suas cantoras e muitas vezes coautora, referindo-se à duração dos espetáculos. “Em certas noites, os shows duravam quase quatro horas.”

 

Cohen tinha mais de 70 anos, e seu empresário fez o possível para que o artista aproveitasse ao máximo as suas energias. A produção era de primeira classe: um avião particular, em que ele podia escrever e dormir; bons hotéis, onde podia ler e compor com um teclado; um carro para levá-lo ao hotel no minuto em que deixasse o palco.

Algumas das performances musicais mais memoráveis que Cohen viu na vida foram de Alberta Hunter, a cantora de blues que nos anos 70 se apresentou por uma longuíssima temporada no Cookery Club, no Greenwich Village, em Nova York. Hunter tinha passado décadas afastada da música, trabalhando como enfermeira, e voltou a se apresentar nos seis últimos anos de sua vida. Leonard Cohen seguiu seu exemplo: um homem idoso mas cheio de vigor, cantando o melhor que podia, horas a fio, várias vezes por semana.

“Todo mundo estava preparado, não só em relação às notas, mas também em algo não dito”, lembrou Cohen. “No camarim, quando ia se aproximando a hora do concerto, o comprometimento de todos era palpável.” Dessa vez, não havia aquecimento com Château Latour. “Eu não bebia nada. Tomava ocasionalmente meia cerveja Guinness com Neil Larsen, mas não tinha mais interesse por álcool.”

A apresentação que vi, no Radio City Music Hall, em Nova York, foi um dos espetáculos mais comoventes da minha vida. Cohen, um velho mestre de sua arte, nos serviu a nata do seu catálogo com a ajuda de um grupo inspirado de excelentes músicos. Em vários momentos, interpretava suas músicas, além de simplesmente cantá-las, dobrando um joelho em gratidão ao objeto de seu afeto ou dobrando os dois para enfatizar sua devoção – ao público, aos músicos, às canções.

A turnê não se limitou a restaurar (com folga) as finanças de Cohen – também produziu um sentimento de satisfação raramente associado ao compositor e cantor. “Certa vez perguntei a ele no ônibus: ‘Você está gostando de se apresentar?’ E ele nunca admitia totalmente que sim”, lembrou Sharon Robinson. “Mas um dia, depois que acabamos, estive na casa dele e ele reconheceu que aquela turnê lhe havia proporcionado uma plenitude; ela completou o ciclo de sua carreira de um modo que ele não esperava mais.”

Em 2009, Cohen se apresentou pela primeira vez em Israel desde 1985, num estádio de Ramat Gan, e doou a renda para organizações de paz israelo-palestinas. Também quis se apresentar em Ramallah, na Cisjordânia, mas grupos palestinos julgaram a ideia politicamente insustentável. Ainda assim ele insistiu, dedicando o concerto à causa da “reconciliação, tolerância e paz”, e sua canção Anthem, aos sobreviventes da violência. Ao final do espetáculo, Cohen ergueu as mãos, num gesto rabínico, e recitou em hebraico o Birkat Kohanim, a bênção sacerdotal, para a plateia.

“Não foi um gesto deliberadamente religioso”, Cohen me disse. “Sei que foi descrito assim, e não me aborrece. Faz parte da falácia intencional. Mas quando vejo James Brown percebo uma dimensão religiosa. Qualquer coisa profunda me provoca isso.”

Quando perguntei se suas apresentações pretendiam exprimir uma espécie de devoção, ele hesitou. “Será que a dedicação artística é capaz de se encontrar com a devoção religiosa?”, ele retrucou. “Meu ponto de partida é a dedicação artística. E sei que, se você estiver com o espírito, ele vai tocar os outros humanos que estão assistindo. Mas não me atrevo a partir da outra extremidade. É como pronunciar o nome sagrado – uma coisa que não se faz. Mas se você está num dia de sorte, tocado pela graça, e a plateia se encontra numa condição especialmente benéfica, essas reações mais profundas se produzem.”

A última noite da turnê ocorreu em Auckland, na Nova Zelândia, no final de dezembro de 2013, e foi encerrada por canções de despedida: If It Be Your Will, que é quase uma prece, e depois Closing Time, I Tried to Leave You e, finalmente, uma recriação de Save the Last Dance for Me, originalmente gravada pela banda The Drifters. Os músicos todos sabiam que era não só a noite final de uma longa viagem mas, para Cohen, talvez a última viagem. “Todo mundo sabe que tudo precisa acabar em algum momento”, disse Sharon Robinson. “Por isso, quando saímos do palco, todo mundo estava pensando: ‘Acabou.’”

 

O mais provável é que nunca mais houvesse uma turnê. Cohen só pensava na família, nos amigos e no trabalho imediato. “Eu tinha uma família para sustentar, não há nada de virtuoso nisso”, ele me disse. “Nunca vendi tanto a ponto de me despreocupar com dinheiro. Tinha dois filhos e a mãe deles para sustentar, além de a mim próprio. E por isso jamais cogitei parar de todo. Trabalhar se tornou um hábito. Além disso, preciso levar em conta a questão do tempo, que é poderosa, com seu incentivo para deixar tudo arrumado. Mas ainda não estou perto do fim. Acabei algumas coisas. Não sei quantas outras vou conseguir deixar prontas, porque a esta altura tenho sentido um cansaço profundo… Há horas em que preciso me deitar. Não consigo mais tocar, e minhas costas também estão se acabando depressa. As coisas espirituais, baruch Hashem [graças ao Senhor], chegaram ao devido lugar, pelo que sou profundamente grato.”

Cohen tinha poemas inéditos para rever, letras inacabadas para completar e gravar ou publicar. Pensava preparar um livro em que os poemas, como as páginas do Talmude, viriam emoldurados por textos de interpretação.

“A grande mudança é a proximidade da morte”, ele disse. “Sou uma pessoa muito arrumada. Gosto de deixar todos os laços amarrados, se puder. Se não puder, também não há problema. Mas meu impulso natural é terminar tudo aquilo que comecei.”

Cohen disse que tinha uma “canção bonitinha” em que vinha trabalhando, uma de muitas, e, de repente, fechou os olhos e começou a recitar a letra:

Listen to the hummingbird
Whose wings you cannot see
Listen to the hummingbird
Don’t listen to me.
Listen to the butterfly
Whose days but number three
Listen to the butterfly
Don’t listen to me.
Listen to the mind of God
Which doesn’t need to be
Listen to the mind of God
Don’t listen to me.[4]

Ele abriu os olhos e parou por um instante. Depois falou: “Eu não acho que eu vá conseguir terminar essas canções. Talvez, quem sabe, eu ainda tenha fôlego, sei lá. Mas não pretendo me agarrar a uma estratégia espiritual. Isso não. Eu ainda tenho trabalho a fazer. Cuidar dos negócios. Estou pronto pra morrer. Espero que não seja muito desconfortável. Isso é tudo pra mim.”

As mãos de Cohen doíam, por isso tocava violão com menos frequência – “perdi minha ‘pegada’” –, mas ele me mostrou seu sintetizador. Programou uma progressão de acordes com a mão esquerda, apertou alguns botões para determinar a sonoridade e tocou a melodia com a mão direita. A certa altura, escolheu um “modo grego” e dali a pouco estava entoando uma canção de pescadores gregos, como se de repente tivéssemos viajado no tempo de volta à Taverna Douskos, “na noite profunda de estrelas fixas e cadentes” da ilha de Hidra.

Em sua cadeira, Cohen rechaçava com um aceno qualquer ideia do que poderia vir depois da morte. Eram coisas além da compreensão e da linguagem: “Não procuro informações que provavelmente não seria capaz de processar, mesmo que me fossem concedidas.” Persistir, viver até a última gota, as pontas soltas, o trabalho — isso sim o interessava. Uma canção de cinco anos atrás, Going Home, deixava clara a sua ideia dos limites:

He will speak these words of wisdom
Like a sage, a man of vision
Though he knows he’s really nothing
But the brief elaboration of a tube[5]

 

O disco mais recente de Cohen começa com a canção-título, You Want it Darker, e no refrão o cantor declara:

Hineni Hineni
I’m ready, my Lord[6]

Hineni, em hebraico, significa “Eis-me aqui”, “Aqui estou”. É a resposta de Abraão quando Deus lhe ordena o sacrifício de seu filho Isaac. A canção era um claro anúncio que os preparativos se encerraram: um homem, no final da vida, pronto para seu serviço e sua devoção. Cohen pediu a Gideon Zelermyer, o cantor da sinagoga Shaar Hashomayim, aquela que ele frequentou na Montreal de sua juventude, para entoar os vocais de apoio. E, mesmo depois disso, aquele homem sentado numa cadeira hospitalar estava longe de se entregar ou admitir a derrota.

“Sei que a vida de todo mundo tem um aspecto espiritual, queira-se ou não lidar com ele”, disse Cohen. “Esse aspecto sempre está presente, e qualquer um pode senti-lo nas pessoas – o reconhecimento da existência de alguma realidade em que não é possível penetrar, mas que afeta o estado de espírito e a atividade. De modo que ele está sempre ativo. E em certos momentos do dia ou da noite exige uma resposta. Às vezes é só: ‘Você está perdendo muito peso, Leonard. Está morrendo de qualquer jeito, não precisa exagerar.’ Vá comer um sanduíche.”

E continuou: “O que eu quero dizer é que nessa hora você escuta a Bat Kol.” A voz divina. “Você ouve essa realidade mais profunda cantando pra você o tempo todo, e quase nunca consegue decifrar. Mesmo quando eu não estava doente, já era sensível a ela. E nessa altura do campeonato, é essa voz que eu escuto: ‘Leonard, continue com aquilo que você tem que fazer.’ É uma coisa de compaixão, no ponto em que eu me encontro. Mais do que em qualquer outro momento da vida, não tem mais aquela voz dizendo: ‘Você está fazendo merda.’ O que, afinal de contas, é uma bênção e tanto.”

[1] Deixei meu hábito pendurado num prego/na velha cabana/onde passei tanto tempo sentado e tão pouco dormindo./Finalmente compreendi/que não tenho dom/para Questões Espirituais.

[2] Toque os sinos que ainda tocam/Esqueça a oferenda perfeita/Existe uma rachadura em tudo/É assim que entra a luz.

[3]  Nasci assim, não tive escolha/Nasci com o dom de uma voz de ouro.

[4] Atente para o beija-flor/Cujas asas não pode ver/Atente para o beija-flor/Não faça caso de mim.// Atente para a borboleta/Cujos dias são só três/Atente para a borboleta/Não faça caso de mim.// Atente para a mente de Deus/Que não precisa existir/Atente para a mente de Deus/Não faça caso de mim.

[5]  Ele vai pronunciar essas palavras profundas/Como um sábio, um homem de visão/Embora saiba que na verdade/Não passa da breve elaboração de um tubo.

[6] Eis-me aqui, eis-me aqui/Estou pronto, meu Senhor.

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