O presente mais inusitado foi uma luva cirúrgica, que me foi dada pela médica de plantão, devidamente uniformizada, com o número do seu telefone
Ver dados da foto O presente mais inusitado foi uma luva cirúrgica, que me foi dada pela médica de plantão, devidamente uniformizada, com o número do seu telefone FOTO: FOLHA IMAGEM

Malas bem feitas são fundamentais

A correria hotel-palco-rádio-ônibus-van de uma turnê
Nando Reis
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O presente mais inusitado foi uma luva cirúrgica, que me foi dada pela médica de plantão, devidamente uniformizada, com o número do seu telefone FOTO: FOLHA IMAGEM

O compositor, baixista e cantor NANDO REIS não pára quieto quando está em turnê. Junto com os infernais, a banda que o acompanha, ele vai do hotel para o teatro, do estádio para o restaurante, do bar para a estrada, da van para estações de rádio, e delas para a sua casa, em São Paulo. Entre uma coisa e outra, liga para os filhos, faz ginástica, vai ao analista, acompanha o campeonato de futebol do momento, vê shows de colegas, se irrita com os críticos. De madrugada, sozinho, faz arte: compõe.

SEXTA-FEIRA, 15 DE JUNHO   Cheguei em casa às 3 da manhã, depois de ter assistido o show de Lauryn Hill, a cantora americana. Fui com três dos meus filhos – Theo, Sophia e Sebastião. Não é uma coisa tão comum assim, como poderia parecer, ou mesmo como eu gostaria que fosse: ter um artista que preencha a interseção dos gostos diferentes dos meus filhos, e que seja também do meu. Foi o primeiro show que Sebastião (que tem 12 anos) assistiu, fora os meus. Como moro separado deles, é rara a oportunidade de nos encontrarmos e fazermos um programa juntos.

Dormi duas horas e meia, pois às 5 e meia da matina já estava de pé para treinar na academia. Não é o meu horário habitual (treino quatro vezes por semana, com um personal), mas queria repor horas que havia perdido na semana anterior, por estar fora de São Paulo. Treino curto, de apenas uma hora. Às 7 e meia estava de volta em casa, pronto para dormir até as 10. Quando acordei, percebi que havia me enganado no horário. Estava atrasado para viajar para Campinas, onde toco à noite. Faço trabalho de divulgação. Como estou lançando um disco novo, e estou no início da turnê, tenho uma agenda de rádio e televisão para cumprir.

Tomei café, banho e fiz minha mala correndo, coisa que detesto. Embora seja muito prático para fazer malas, não gosto de fazer sob a pressão do atraso. Malas bem feitas são fundamentais para viagens. Saía de São Paulo rumo a três destinos bem diferentes: Campinas, Curitiba e São Leopoldo. Dois shows e uma visita ao meu filho mais novo, Ismael, que mora com a mãe, em São Leopoldo.

Na van, falando pelo celular com a mãe do caçula, vi que minha viagem seria em vão. Eu ia para ficar com ele, enquanto ela prestaria um exame no domingo à tarde. Por falta de vôos em horário conveniente, constatei que não haveria sentido nesse deslocamento, pois teria que voltar para casa já na segunda de manhã.

Chegando em Campinas, fomos direto para a TV. Tivemos de esperar. É sempre assim: crente que as pessoas vão atrasar, o pessoal de televisão tem o costume idiota de pedir para a gente chegar muito antes do necessário. Eu estava lá, pronto, meia-hora antes de entrar no ar, ao vivo, no jornal local. Entrevista de dois minutos, com direito a palhinha de violão. Depois, fiz mais uma entrevista, para universitárias mal preparadas, e fomos para a outra emissora. Participação em programas ao vivo, gravação de chamadas, e especial de rádio para ser exibido pouco antes da hora do show.

Às 3 horas da tarde, sentei numa churrascaria para matar a fome animalesca que já me deixava de mau humor. Fomos para o hotel, onde recebi uma ligação importantíssima, de um produtor de um grande artista, querendo uma música minha para seu disco de inéditas de final de ano. Chequei e-mails, falei com meus filhos pelo telefone, dormi duas horas. Saí do hotel às 7 e meia, para passar o som. É fundamental fazer esse tipo de ensaio, principalmente num show novo, numa turnê que está começando. Uma hora de ensaio, depois fotos e autógrafos com fãs. Voltei ao hotel para um banho, mais telefonemas para meus filhos, e-mails, e para me arrumar para o show.

Como o show estava marcado para a meia-noite e meia, saímos do hotel às 23h40. No camarim, as funções habituais: fotos com os vencedores da promoção da rádio (seis ao todo), receber os patrocinadores. Antes de entrar no palco, o nosso tradicional grito de guerra, o “pesto-pesto”. Esse é o primeiro show que faremos nessa turnê fora das capitais onde estreiamos – São Paulo e Rio. Há uma certa expectativa de como este show será recebido. O local está lotado, 2 500 pessoas ansiosas e receptivas. Tudo corre tranqüilo até a última música da parte acústica, Espatódea. No fim do primeiro compasso, caiu a luz. Um carro bateu num poste na esquina e desmontou toda a rede de energia elétrica. Consegui me comunicar com a platéia e saí do palco. Da coxia, vejo um número significativo de bombeiros em ação. O problema é contornado em menos de cinco minutos. Retomo o show com razoável continuidade. Terminamos o roteiro com uma excepcional e calorosa manifestação. No camarim, cerveja para a comemoração. Voltamos para o hotel de van, todos felizes e cantando. Entro no quarto às 3 da manhã. Uma hora para o banho e descanso. Descemos para entrar no ônibus e viajar até Curitiba.

SÁBADO, 16   O motorista disse que levaríamos de seis a sete horas para chegar a Curitiba. Dito e feito. Uma parada rápida, às 10 da manhã, para um café num posto de beira da estrada. Comi um excelente Bauru, com três iogurtes de frutas vermelhas.

Chegamos a Curitiba exatamente uma da tarde. Subi para o quarto, chequei e-mails, liguei pras crianças e fui almoçar. Num restaurante italiano, com uma amiga local. Depois da comida, algumas horas de sono antes de ir para o ensaio. Fizemos uma passada de som rápida, eficiente. O lugar é bom, palco grande de assoalho de madeira. Tudo certo com o som. Depois do ensaio, tiro fotos com os seguranças, bato papo com alguns fãs que ficaram amigos, e volto para o hotel. Janto no quarto, pois sairemos às 22h45.

Esfriou, e estou um pouco rouco pela má qualidade do sono. Chegamos a tempo de relaxar no camarim. Pedi um violão. Nada de fotos com contratantes. Entramos no palco pontualmente, à meia-noite. Casa lotada, som muito melhor do que o de ontem, show sem transtornos. A platéia é muito quente, carinhosa, excitada, canta tudo. Depois do show, recebi fãs no camarim. O presente mais inusitado foi uma luva cirúrgica, que me foi dada pela médica de plantão, devidamente uniformizada, com o número do seu telefone. Saímos de van e, antes do pessoal embarcar no ônibus (eu voltaria separado, de avião), fomos até um bar ao lado. Fotos, conversas, o tradicional zoológico da madrugada.

DOMINGO, 17   Acordei, tomei banho, almocei no hotel e fui para o aeroporto. Sem atrasos, cheguei em Congonhas, São Paulo. Passei em casa e resolvi ouvir o álbum Gil e Jorge na íntegra, refastelado na minha poltrona mole. Vi o segundo tempo do jogo do São Paulo, que venceu o Vasco por 2 a 0, e saí para comer pizza com as crianças. Fomos ao Camelo. Deixei-os na casa da mãe, desci para conversar com a Sophia e fui para casa. Dormi, exausto.

SEGUNDA-FEIRA, 18   Acordei às 11 da manhã, tomei meu café tradicional – suco de lima da Pérsia com torradas – e fiz as funções elementares: ler os jornais, checar e-mails, telefonemas. Almocei e saí para a academia. Segunda-feira é sempre o pior dia para treinar. A alteração profunda que um fim de semana de trabalho impõe sobre as horas de sono, com seus horários extravagantes de alimentação, sempre acabam me deixando meio chumbado. Já não tenho vinte anos…

Voltei para casa e liguei para o escritório. Fiquei muito irritado com uma matéria leviana e preguiçosa que saiu no blog de um velho jornalista carioca, obsoleto e decadente. Num único parágrafo, ele conseguiu dar três informações erradas sobre o meu disco, e se utilizou delas para fazer um comentário depreciativo. Fiquei com vontade de responder. Estou de saco cheio dessa leviandade dos “críticos” acomodados, que escrevem um texto raso, que apenas jorra a pobreza de suas conjecturas opinativas.

Jantei com meus filhos e fui para o show. Foi um voz e violão para a Natura. Shows como esse, em eventos corporativos, são relativamente chatos. É comum haver uma dispersão da platéia, que não está lá exatamente para me assistir. Mas já me acostumei; faço o show meio que para mim. Só que houve uma inesperada fonte de inspiração: uma linda menina, que vestia uma camiseta laranja absurdamente berrante, se postou bem na minha frente. Encantado com a sua beleza, fiz o show inteiro olhando para ela. Fui salvo pelos seus estonteantes olhos azuis. Depois, cumprimentos e fotos no camarim. Inclusive com ela. Fui para casa, para dormir mais feliz do que esperava.

TERÇA-FEIRA, 19   Dia estranho, depois de uma noite conturbada por insônia e pensamentos confusos. Desmarquei minha análise e o treino na academia. Tomei café e voltei a dormir. Às duas da tarde, levantei para almoçar. Às 3 e meia chegou meu filho Theodoro, que quis ir comigo no programa da Eliana, na Record. Motivo inusitado e original: ele queria levar seus CDs para serem autografados por Chimbinha e Joelma, da banda Calypso. Theo esteve na Amazônia durante as férias de janeiro e voltou encantado com a música do Norte.

Chegamos na televisão e logo encontramos Chimbinha no corredor. Extremamente simpático, nos convidou para irmos ao camarim. Joelma imediatamente reconheceu Theodoro, que havia assistido um show da banda há mais ou menos um mês. Parecia absurdo, mas era totalmente explicável: meu filho tem dreadlocks enormes, que chamaram a atenção dela no meio da platéia popular. Tiramos fotos e combinamos de compor juntos. Tenho enorme vontade de trabalhar com o Chimbinha.

Desci para fazer a minha apresentação. Eliana, simpática, pediu um medley de sucessos. Depois cantei a música de trabalho. Fazer divulgação em televisão é isso. Estar presente em todos os lugares que têm atrações musicais. Eu gosto. Herança dos Titãs. À noite, voltei para casa e trabalhei numa nova canção. Acho que fiquei mais de seis horas tocando violão, ininterruptamente. A música ficou pronta. Chama-se Mil galáxias.

QUARTA-FEIRA, 20   Perdi a hora. Os excessos da noite passada me fizeram digitar o número errado no despertador. Acordei às 11, e tinha só uma hora e meia para escrever o artigo do Estadão, antes de sair para as rádios. Escrevo na coluna Boleiros, no Caderno de Esportes, às quintas-feiras. Tenho que entregar o artigo até as 7 da noite de quarta, mas hoje será um dia corrido, com muita divulgação em rádios. Para piorar, não tinha muito assunto. Acabei fazendo um artigo meio vago sobre a Copa América, sobre o Dunga e a minha implicância com a CBF.

Meio dia e meia, tocou a campainha e fui para a Transamérica, fazer um programa ao vivo. Programa meio de humor, meio de informação, desses que abundam. Não sou muito bom para esse tipo de papo. Mas os entrevistadores foram respeitosos e tudo rolou legal. Perguntas de fãs pelo telefone, uma horinha no ar, e fim. Almocei em casa, tive tempo de rever o artigo e mandar para o jornal.

Saí para a Eldorado e a Cultura. Sempre que vou a essas rádios que não são pops, há mais tempo para as entrevistas. Elas acabam sendo mais profundas e interessantes. São entrevistas gravadas, que depois serão editadas e montadas com músicas, e virarão especiais.

Cheguei em casa no final da tarde. Quarta-feira é o dia que meus filhos menores vêm dormir comigo. Jantei com eles e assistimos um filme. Cortei a unha de Sebastião. É uma estranha tradição de minha família. Meu pai cortava minhas unhas, e sou eu quem corta a dos meus filhos. Tenho uma excelente tesourinha alemã, que guardo a sete chaves. Eles foram para a cama e eu fiquei na sala, à espera do jogo entre Grêmio e Boca Juniors. Dei uma repassada na música da noite anterior. Ela me pareceu estranha. É natural: no dia seguinte, a música dorme. E eu também. À meia-noite, estou na cama, pronto para dormir pelas próximas onze horas, para recuperar todo o sono perdido ao longo da semana.

QUINTA-FEIRA 21   Levantei às 11, bem disposto e feliz. Tomei café e li os jornais. Dei uma checada no meu artigo, e vi que deram uma editada, que o deixou um pouco confuso. Escrevo sempre demais, e sofro com as edições. Dessa vez, suprimiram algumas vírgulas importantes.

Fui para a academia e treinei uma hora e meia. Tomei uma vitamina e embarquei para mais uma tarde de trabalho de divulgação. Fomos para o estúdio de uma produtora que gera conteúdo para mais de cem rádios, do Brasil todo. Gravei uma única vez a frase “Olá, aqui quem tá falando é o Nando Reis.” Depois, gravei 88 frases diferentes, para diversas rádios, tipo “e estou aqui na Rádio Pombal, a número um da região!”

Subi para Jovem Pan AM, que é no mesmo prédio, e gravei um especial. Aproveitando minha presença, me pediram para responder algumas perguntas para um programa esportivo. Domingo, o São Paulo joga com o Santos, e querem minha opinião. Tenho que passar, voando, no consultório do meu dermatologista para pegar uma receita, pois ele vai viajar. Estou com uma maldita alergia, que não sara. Ele acabou me aplicando uma injeção de corticóide, para atenuar a irritação.

De lá fomos para a 89. Mais gravações, LDs – que são gravações que depois serão editadas para a apresentação da música, até depoimentos desejando Feliz Natal e Próspero Ano Novo! Seguimos para a MIX FM, para a gravação de um especial. Paramos para comer no Bob’s, no térreo do prédio da rádio, pois já são 5 da tarde e ainda não almocei. Mais chamadas, LDs etc.

Voamos para a última rádio do dia, que é no outro extremo da avenida Paulista. Já são 7 da noite, e eu entraria ao vivo num programa na mesma hora. Conseguimos driblar o trânsito e, às 19h22, peguei o elevador. Perguntas sobre o disco, sobre futebol, 25 minutos no ar, e fim.

Cheguei em casa às 20h15. Vou sair para jantar e depois tenho que fazer a mala. Amanhã, às 6 da manhã, irei de ônibus para Londrina. Sábado, Maringá. Domingo estarei de volta.

E começará tudo de novo.

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