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Manual de sobrevivência

Um professor sob tiroteios no Rio


Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Poucos alunos compareceram à prova de recuperação que o professor Fernando Lopes aplicou no fim de 2015. Na favela Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, Zona Norte carioca, aquela manhã começara com uma sequência de rojões seguida de um intenso tiroteio. Por isso, a Escola Municipal Bernardo de Vasconcellos, localizada dentro da comunidade, estava quase às moscas. “As balas passavam tão perto de nós que podíamos ouvir o zunido delas”, relembrou o educador.

Branco, com cabelos negros encaracolados e barba, Lopes dá aulas de história no ensino fundamental. Desde o início da carreira, procura lecionar em pontos do Rio de Janeiro que vários de seus colegas evitam – aqueles onde há conflitos frequentes entre policiais e facções do narcotráfico. Além de ter atuado na Vila Cruzeiro, o professor já cumpriu expediente na favela de Manguinhos e hoje trabalha no Complexo da Maré.

Embora o professor costume recomendar aos estudantes que não saiam de casa em dias de confronto, muitos deles se sentem impelidos a ir ao colégio por causa do Bolsa Família. “A alta frequência escolar é obrigatória para o recebimento do benefício”, explicou Lopes. Não à toa, diversas famílias temem perdê-lo caso os filhos se ausentem das aulas. “Mas peço que não se preocupem, porque sempre abono as faltas nessas ocasiões”, continuou. Mesmo assim, as crianças aparecem.

Lopes constatou o impacto dos tiroteios no comportamento dos alunos quando notou que alguns tinham o hábito de subir escadas batendo os pés com força no chão, de maneira ritmada – um movimento acompanhado invariavelmente de palmas. O professor decidiu perguntar o significado daquele pá-pum e ouviu de um menino que era a reprodução da rajada de um fuzil 7.62.

Ele contou também que, quando lecionava em Manguinhos, a presença corriqueira de traficantes e PMs nos arredores da escola assustava os estudantes. Certa vez, um garoto de 13 anos agrediu uma colega durante a aula. Lopes o retirou da sala e o acalmou. Naquele instante, alguns policiais entraram no colégio para tratar de um assunto que nada tinha a ver com o incidente, mas as crianças acharam que os soldados estavam ali para prender o menino brigão. “Dezenas de alunos, muitos com 7 ou 8 anos, ficaram em polvorosa e se puseram a vaiar a polícia. O caos me fez perceber como a presença das forças de segurança causa insegurança entre eles.”

Ao longo dos últimos sete anos, o educador vem se esforçando para desnaturalizar o bangue-bangue. “Digo sempre aos estudantes que tiro não é chuva, não é algo natural. É o reflexo de uma política de segurança que protege os bairros ricos e abandona os pobres.”

 

Entre janeiro e junho de 2017, houve apenas oito dias em que todas as escolas da rede pública carioca funcionaram normalmente, sem qualquer interrupção provocada pela violência. Dos 1 537 colégios municipais, 382 tiveram suas atividades suspensas em algum momento do semestre. Apesar disso, a prefeitura ainda não dispõe de um protocolo para nortear os professores em caso de tiroteio.

Na falta de orientações oficiais, Lopes segue sua própria cartilha. No dia em que uma troca de tiros interrompeu a prova de recuperação que aplicava na Vila Cruzeiro, o professor removeu da classe as poucas crianças presentes assim que a artilharia recrudesceu e as levou para o refeitório, protegido por muros e menos vulnerável aos projéteis. “Nessas circunstâncias, os menores se desesperam facilmente. Já os mais velhos querem ir até a janela para ver o que está acontecendo.”

Outra providência de seu protocolo pessoal é pedir aos alunos que entrem em contato com os familiares durante as batalhas. “As escolas proíbem o uso de celular pelos estudantes, mas abro uma exceção em situações de confronto”, explicou. “A meninada fica mais calma quando se comunica com os pais.”

Na maioria das vezes, o professor tenta retomar a aula depois que os tiros cessam. Conversa sobre futebol ou música para distrair a turma antes de voltar às lições de história. No entanto, dependendo do estresse gerado pelos combates, os alunos não conseguem se acalmar e o dia letivo se perde. A violência rotineira também desestabiliza o professor, que já foi parar num consultório psiquiátrico e teve de usar remédios controlados.

 

Em breve, Fernando Lopes e outros docentes do Rio não precisarão mais se comportar intuitivamente quando estiverem sob perigo. No mês passado, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha começou a oferecer um treinamento de proteção aos diretores de escolas públicas e coordenadores da Secretaria Municipal de Educação que trabalham em áreas conflagradas. A ideia é que transmitam as lições para os professores.

Um dos encontros ocorreu numa tarde recente num velho colégio do Centro. Aproximadamente trinta pessoas, a maioria mulheres, sentavam em círculo e conversavam com expressão grave. Jornalistas não puderam acompanhar as instruções, mas souberam que o módulo daquela tarde ensinava como reconhecer os sinais de um confronto iminente.

Por exemplo: se as vias em torno de uma escola, normalmente movimentadas, tiverem seu fluxo reduzido ou se um bar da vizinhança, que costuma tocar músicas altas, desligar o som, recomenda-se ficar alerta. A ausência de cães nas ruas também pode ser sinal de conflito nos arredores, já que os cachorros costumam desaparecer quando ouvem tiros ou fogos de artifícios.

Fernando Lopes soube do treinamento oferecido pela Cruz Vermelha, mas manifestou ceticismo em relação ao protocolo de segurança. “Não nego que seja necessário saber direito como agir em zonas de conflito”, ponderou. “Mas tendo a achar que estratégias desse tipo acabam reiterando a noção de que o Rio está em guerra.” O professor contesta essa narrativa e as estratégias de combate à violência que derivam dela. “Se há mesmo uma guerra, por que traficantes e policiais confraternizam, trocam armas, dinheiro e estratégias?”, indagou. “O que está em questão é como o Estado trata os territórios da cidade onde vivem os mais pobres.”

Tiago Coelho

Tiago Coelho é repórter da piauí e roteirista

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