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Marujá, bom dia

O telefonista da ilha isolada
Daniel Lisboa
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O trajeto entre Cananeia e a Ilha do Cardoso, no extremo sul paulista, sugere que o passageiro está em alguma outra parte do Brasil. Quem navega pelo canal de água salobra não vê prédios, condomínios, lanchas, jet skis, tríplex, banhistas. Há apenas o mangue, a Mata Atlântica, as montanhas e, eventualmente, alguns golfinhos.

O cenário só muda depois de uma hora de viagem, quando surgem pequenos píeres e uma modesta construção amarela e vermelha. É nela que Marcelo Ramos, de 40 anos, exerce a função de telefonista oficial da comunidade caiçara do Marujá – que pertence ao município de Cananeia –, uma das mais isoladas de São Paulo.

“Não que eu nunca tivesse visto um telefone. Eu só nunca tinha feito uma ligação na vida”, esclarece Ramos sobre o obstáculo enfrentado para conquistar seu posto. Desde 1998 – quando eleito por voto popular – ele é o encarregado de chefiar a central telefônica da comunidade. Recebe 880 reais da Prefeitura de Cananeia para trabalhar de segunda a sexta, das 9 às 18 horas (na alta temporada do verão, outro funcionário permanece na cabine até nove da noite). Em um bom feriado, ainda consegue tirar mais 700 reais com passeios turísticos em seu barco. O dinheiro é mais que suficiente para sobreviver com a avó – a quem chama de mãe – no Marujá. “Estou feliz aqui. Um coreano até me chamou para trabalhar na padaria dele em São Paulo, mas minha mãe não deixou”, conta.

O telefone, hoje preto, já foi mudado oito vezes desde 1998. “No começo achei um pouco estranho, principalmente quando ouvia as vozes das pessoas”, lembra. A lacuna no currículo, afinal, não era exclusividade sua, visto que até aquele ano, a tecnologia patenteada por Graham Bell em 1876 jamais chegara ao Marujá. “Mas fiz um treinamento de dois dias e logo peguei o jeito.”

Desde então, nenhuma outra maravilha das telecomunicações aportou por lá. Alguns moradores até trataram de adquirir linhas fixas, mas é a Ramos que a maioria recorre para contatar parentes, cônjuges, namoradas e, por vezes, amantes. Não há sinal de internet ou celular na comunidade.

“Minha lembrança mais forte de como era a vida aqui antes da chegada do telefone é de quando sofri um acidente de bicicleta”, ele conta. “Eu vinha pedalando por uma trilha, estava escuro e chovendo. Não vi meu primo, que vinha a pé na outra direção. Bati cabeça com cabeça. Tive afundamento de face e precisei ir de barco até o Ariri. Só de lá é que puderam chamar a ambulância.” Afastado cerca de 60 quilômetros do Centro de Cananeia, o bairro de Ariri tem sinal de celular e internet, mas sua distância para o Marujá – vinte minutos de barco, se o tempo estiver bom – ainda o deixa como opção pouco viável para quem precisa se comunicar com o mundo.

 

Marcelo Ramos sempre responde com a saudação “Marujá, bom dia”. Sua tarefa, de uma simplicidade fordista, consiste em atender ao telefone quando ele toca e em discar um número quando solicitado. Cobra de 1,20 a 2 reais por minuto de conversa (locais pagam a tarifa baixa e turistas, a inflacionada; o dinheiro vai para a Associação dos Moradores do Marujá). Permanece sempre sentado, contando o tempo da ligação enquanto a clientela fala. Acaba escutando a conversa alheia, o que significa estar a par dos segredos dos 200 moradores da comunidade. “Já é tanto tempo fazendo isso que eu fico quase no automático, nem presto muita atenção”, desconversa. “Mas é claro que a gente fica sabendo de coisas. Do cara que tem amante no continente, por exemplo.”

O dever do ofício ainda o obriga, em raros casos, a ser porta-voz de más notícias para os moradores ou visitantes. Certa feita, uma professora que vai à ilha para dar aulas às crianças precisou ouvir, dele, que seu pai havia enfartado. Em outra, Ramos teve de lidar com uma mãe desesperada, que acabara de receber uma ligação dizendo que o filho – que estava hospedado na ilha – havia sido sequestrado. Ramos tentou convencê-la, em vão, de que havia visto o rapaz. “No desespero de não conseguir falar com o filho, ela foi lá e pagou mil reais para os caras”, lamenta.

Outra função do telefonista é ter certos números na ponta da língua. “As pessoas chegam aqui já pedindo: ‘Liga no Mercado da Ilha! Liga para a farmácia tal! Para o posto de saúde! Para a escola no Ariri!’ Nem passa pela cabeça delas que eu posso não saber os números de cor.” E elas estão certas: por força do hábito, Ramos tornou-se o mais perto que há, na comunidade, de uma agenda telefônica de iPhone. “O 3851-1143 dá na Farmácia Rede Farma; o 3851-1810 cai no Supermercado da Ilha”, comprova, orgulhoso. “Ainda tem o 3851-3867, da Canis Lan House, e o 3851-1550, para falar com o Restaurante Gaivota.”

Na alta temporada, ele diz fazer até setenta ligações por dia. “Mas no inverno, tem dia que se o telefone toca duas vezes é muito.” É para fugir do marasmo que ainda prefere os momentos corridos, apesar de admitir certa dificuldade em lidar com os turistas. “Já vi de tudo nesses quase vinte anos. Muita briga de casal. Sabe como é, o cara vem pra cá, fica isolado, celular não pega”, explica. “Teve um que brigou com a namorada. Depois ela ficava ligando de volta pra cá sem parar. Um monte de gente na fila para ligar e ela travando a linha…”

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