esquina

Mayara e Marjorie

Um encontro de gêmeos na USP

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

“E se a gente usar a calça branca?”, sugeriu Mayara Soares antes de saírem de casa. “Ótimo! Com o casaco do Mickey e tênis branco?”, emendou sua irmã Marjorie. “Perfeito.” Passaram uma camada de base no rosto, bastante rímel preto ao redor dos olhos e batom rosa. Com os cabelos longos ondulados nas pontas, estavam idênticas. Poderiam muito bem dispensar o espelho se quisessem.

As gêmeas de 19 anos costumam se vestir com roupas iguais ou muito parecidas, mas capricham quando serão vistas por muita gente. Foi o caso na manhã de 28 de julho, quando se preparavam para participar de um encontro de gêmeos de todo o país promovido pelo Instituto de Psicologia da USP. Dos quarenta pares de irmãos reunidos no evento, não havia dupla mais parecida do que Mayara e Marjorie.

No gramado do centro esportivo da universidade, onde os participantes se apresentaram, diversos grupinhos formavam rodas animadas de conversa. Eram observados com interesse pela psicóloga Emma Otta, a idealizadora do encontro. A professora da USP – uma mulher de 66 anos de cabelos curtos, óculos de aro grosso e sorriso fácil – tomou a iniciativa de criar um amplo cadastro de gêmeos que possa servir de base para pesquisas variadas. Otta contou que desenvolveu um fascínio pela relação entre gêmeos quando ainda estava na graduação, embora não tenha casos do tipo na família.

Os gêmeos – especialmente os univitelinos, idênticos, que compartilham a mesmíssima genética – são objeto de interesse para os pesquisadores porque oferecem uma oportunidade única de entender a influência dos genes e do ambiente no comportamento. Já no século XIX, Francis Galton, primo de Darwin e criador do conceito de eugenia, investigava a questão estudando gêmeos que haviam sido criados juntos ou separados.

Desde então, pesquisas do tipo já permitiram afirmar que doenças tão diversas como a catarata, a osteoartrite e mesmo a anorexia – que muitos atribuem à influência da mídia – têm em sua origem componentes determinados pela genética. A Inglaterra tem um centro de pesquisa dedicado às investigações sobre os pares de irmãos. Nos Estados Unidos, onde a questão é investigada desde a década de 50, há quase 10 mil indivíduos catalogados.

O cadastro do Painel USP de Gêmeos, criado em novembro de 2016, é mais modesto, mas já conta com 845 pessoas (o número é ímpar porque trigêmeos também entram na conta). “Não dá para pensar natureza de um lado e cultura do outro”, justificou Otta. “Talvez a gente tenha natureza via criação.”

 

Um grupo de WhatsApp foi criado entre os gêmeos do painel e os cientistas da USP. A ideia é que eles respondam a questionários e sejam acionados para futuros projetos de pesquisa. Alguns pesquisadores aproveitaram o encontro para iniciar seus trabalhos ali mesmo. Um aluno de mestrado filmou e monitorou o batimento cardíaco dos irmãos enquanto eles viam vídeos com cenas de ternura, medo e nojo – queria entender como o corpo de ambos reage aos mesmos estímulos.

Mayara e Marjorie Soares foram convidadas a responder um teste sobre experiências olfativas. Em uma sala fechada, sentaram-se em extremidades opostas de uma longa mesa de madeira e responderam, separadamente, a um questionário. Quando saíram, sem que uma soubesse a resposta da outra, a piauí refez algumas perguntas às irmãs. Vocês prestam atenção no perfume que os outros usam? Ficam felizes ao sentir um cheiro bom no ar? Gostam de cheirar livro novo? Nos três casos, a resposta foi dada em uníssono: “Sempre.”

As duas disseram vir de uma família com 24 pares de gêmeos, inclusive a mãe delas – uma ocorrência rara, que os pesquisadores da USP pretendem investigar. Estavam confiantes de que seguiriam em sintonia até a última pergunta do questionário. Nariz entupido incomoda? Marjorie cravou: “muito”; “nada”, Mayara disse de bate-pronto. “Como não incomoda?”, Marjorie questionou, com ar de frustração. Mas logo afetou um sorriso.

As gêmeas costumam dizer que nunca se desentendem. Entre elas, tudo é decidido em comum acordo. “Sei que as pessoas prezam pela individualidade, mas nos sentimos como se fôssemos uma única pessoa”, disse Mayara. “Para mim ela não é outra pessoa, é outra metade.” No encontro da USP, continuou, elas tinham ouvido numa palestra que gêmeos monozigóticos têm o mesmo DNA. “Isso significa que os filhos dela serão um pouco meus”, disse Mayara. “E os seus serão meus”, completou Marjorie, com a cara de quem acabara de ter um estalo. “Que demais!”

 

O encontro se aproximava do fim quando os gêmeos se sentaram em roda para conversar num gramado. Quando alguns participantes contaram que na adolescência passaram por uma fase de se vestir com estilos diferentes, de modo a buscar alguma individuação, as gêmeas os olharam com certo desdém.

Num relato emocionado, trigêmeas de Belém do Pará seguraram o choro quando contaram que entraram juntas em depressão quando o marido de uma delas a pressionou para que se afastasse das irmãs. Mayara e Marjorie ouviram a história balançando a cabeça em sinal de reprovação. “Isso jamais aconteceria com a gente”, disse uma delas. “Não mesmo”, a outra completou.

Nesse momento, João Gustavo Machado, o namorado de Mayara, tirou o celular do bolso e fez que a conversa não era com ele. Machado – um rapaz baixo de 19 anos que usava jeans e camisa apertada – passou todo o evento na companhia das gêmeas.

Debaixo de uma árvore para se proteger do sol, as irmãs confidenciaram que pretendiam morar na mesma casa quando se casassem. Mayara disse que nunca havia falado sobre o plano ao namorado, que as observava de longe. “Claro que não!”, reagiu Machado, com os olhos esbugalhados, ao ser inteirado do projeto. “Mas o que é que tem?”, perguntaram-lhe as gêmeas, contrariadas. “Sua irmã pode morar ao lado”, cedeu o rapaz. “Mas na mesma casa?”

Machado costuma assistir a filmes e séries na tevê com Mayara deitada entre ele e a irmã. Quando a piauí quis saber se Marjorie se incomodava em segurar vela para a gêmea, as duas responderam simultaneamente, com o mesmo tom indignado: “Quem segura vela é ele.” O rapaz protestou: “Eu queria estar só com minha namorada, mas fazer o quê?” Mayara torceu a cara: “Os incomodados que se retirem.”

Tiago Coelho

Tiago Coelho é repórter da piauí e roteirista

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