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Mestre de mestres

Elon Lages Lima e o estabelecimento de uma cultura matemática no Brasil
Bernardo Esteves
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ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_2017

Em julho de 2014, fui ao Impa entrevistar o alagoano Elon Lages Lima, um matemático cuja história se confunde com a do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. Quando o Impa foi criado, em 1952, Lima – então um rapaz de 23 anos – estava entre os primeiros alunos bolsistas; mais tarde, fez carreira no instituto, que veio a dirigir em três ocasiões.

Com 85 anos recém-completos, Lima frequentava diariamente o centro de pesquisa. Mesmo aposentado, mantinha um gabinete organizado com método no 3º andar do instituto, que ocupa um prédio encravado em plena Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Não tinha computador e usava o quadro-negro para trabalhar.

Diferentemente da maioria de seus colegas, Lima se dedicou mais ao ensino do que à pesquisa acadêmica. É autor de dezenas de livros-texto e foi idealizador dos cursos de aperfeiçoamento para professores de matemática que o Impa oferece desde os anos 90. Lima era um homem baixo de olhos argutos e fala envolvente que se vestia com elegância professoral.

O alagoano evocava a época de seu doutorado nos Estados Unidos nos anos 50 quando uma professora da Baixada Fluminense bateu em seu gabinete. Ela queria que Lima autografasse um volume de Temas e Problemas Elementares – um livro para professores do ensino fundamental que ele assina com outros três autores. “Estudo muito com os livros que o senhor escreve”, disse a jovem, meio encabulada. “Não me xingue muito, não”, brincou o professor, com o sotaque marcado e um sorriso largo estampado no rosto.

Os manuais escritos por Lima são dirigidos a professores ou alunos de níveis variados, do ensino fundamental à pós-graduação. Difícil encontrar um estudante de matemática brasileiro que não tenha passado por seu Curso de Análise em dois volumes ou por sua introdução à Álgebra Linear (os livros do alagoano também eram adotados em cursos como engenharia ou economia). “Aprendi a escrever matemática com ele, como a maioria dos alunos brasileiros”, disse-me a pesquisadora Ana Maria Menezes, que fez doutorado no Impa.

A notícia da morte de Lima num domingo de maio causou comoção. “Morreu o maior professor de matemática de todos os tempos”, exagerou um admirador no Twitter, lembrando que o mestre pertencia à “linhagem direta de Euclides e Camões”.

 

Elon Lima será lembrado principalmente pelos esforços para melhorar o ensino da matemática, mas também teve atuação destacada no breve período em que se dedicou à pesquisa. Conforme justificou anos depois, ele queria provar a si mesmo e aos outros que também era capaz de resolver problemas originais.

O alagoano especializou-se em topologia, a disciplina que estuda as propriedades geométricas de um corpo que permanecem inalteradas quando ele é deformado. “É a matemática dos objetos moles, da massinha de modelar”, comparou Marcelo Viana, diretor do Impa. Viana contou que o francês Henri Poincaré revolucionara a disciplina no começo do século XX, inaugurando uma ampla agenda de pesquisa. “A topologia algébrica era a área mais quente da matemática daquela época”, completou.

Lima fez mestrado e doutorado na Universidade de Chicago, orientado pelo americano Edwin Spanier (com quem disputava eventuais partidas de pingue-pongue quando não estavam discutindo matemática). Resolveu duas questões em aberto graças ao uso de uma ferramenta que seria bastante adotada por seus colegas a partir dali. Suas contribuições “tiveram impacto duradouro” em seu campo, conforme afirmou Spanier numa conferência no Impa em 1989.

Noutra temporada nos Estados Unidos, no começo dos anos 60, o alagoano conseguiria um segundo resultado expressivo. Lima provou um teorema inescrutável para o leigo (o enunciado envolve campos de vetores comutativos), formulado pelo americano John Milnor, um dos grandes do século XX. “Foi um trabalho brilhante”, disse o americano Harold Rosenberg, que dividia o gabinete com Lima na Universidade Columbia. Rosenberg notou que os colegas de sua geração conhecem bem o trabalho do brasileiro. “Elon foi um matemático de primeira antes de se dedicar aos livros.”

Mais de um pesquisador com quem conversei recorreu ao adjetivo “bonito” para caracterizar o segundo resultado de Lima – talvez se trate do elogio maior que um matemático pode almejar. Já para o alagoano, a beleza de um resultado matemático era comparável à de um soneto, “como se fosse uma explosão de pureza inesperada, de elegância”, conforme disse num depoimento à documentarista María Campaña Ramia.

O brasileiro foi convidado a apresentar sua solução do problema na Universidade de Princeton, uma das mais cobiçadas pelos matemáticos. O próprio Milnor sondou se Lima estava interessado em ir para Princeton no ano seguinte. O alagoano pensou por alguns dias e recusou o convite: preferia voltar e trabalhar pelo desenvolvimento da matemática no Brasil. Seu colega de gabinete não conseguia entender a recusa. “Era 1963!”, espantou-se Rosenberg ao evocar o caso numa entrevista recente. “Parecia loucura voltar para o Brasil, onde ele não teria bibliotecas, livros, colegas ou universidades.”

O resto da história é conhecido. A instituição que Lima ajudou a construir ao lado de outros pesquisadores que abriram mão de uma carreira no exterior, como Mauricio Peixoto, Jacob Palis e Manfredo Perdigão do Carmo, se firmou como um centro capaz de atrair estrelas de primeira grandeza em certas áreas da matemática. Em 2014, com Artur Avila – aluno de mestrado de Lima –, conquistou uma Medalha Fields, o maior prêmio da matemática.

Há oito anos, o próprio Rosenberg recebeu convite do Impa e veio para o Rio de Janeiro, após se aposentar pela Universidade de Paris-Sud. Aos 76 anos, o americano disse que hoje admira o gesto dos colegas. “O Brasil teria tido uma grande perda se Elon e Manfredo não tivessem voltado.”

 

Tanto Elon Lima quanto Manfredo do Carmo nasceram em Maceió – Carmo em 1928, e Lima um ano depois. Estudaram no mesmo colégio na capital alagoana, fizeram doutorado em matemática nos Estados Unidos na mesma época e, mais tarde, voltaram a ser colegas, agora como pesquisadores do Impa.

Na capital alagoana, ambos tiveram um professor cativante chamado Benedito de Morais, que despertou seu gosto para a matemática. Morais foi a referência em quem Lima se espelhou quando se viu pela primeira vez diante de uma turma de alunos – tinha então 18 anos. “Não me preocupei muito, pois estava certo de que saberia ensinar a matemática”, ele escreveu num ensaio dedicado ao mestre. “Bastava fazer como o professor Benedito. Foi o que fiz e acho que deu certo.”

Manfredo do Carmo guardou do professor de ginásio a lembrança de um homem metódico e disciplinado, o que não impedia que brincasse com os alunos quando os chamava ao quadro-negro. “As aulas eram uma alegria”, disse ele, ao evocar os anos de escola numa entrevista em sua casa mais de sete décadas depois. Já Lima aprendeu com Morais que os alunos fixam melhor a matéria quando ela é ensinada com exemplos que a conectam ao seu cotidiano e à sua experiência.

Para Lima, não é por acaso que ele, Carmo e outros três alunos de Benedito de Morais fizeram doutorado em matemática e trilharam o caminho da pesquisa acadêmica. O número era expressivo para Maceió, cidade que só chegou a 100 mil habitantes nos anos 40. Morais seria, portanto, o patrono da “dinastia alagoana”, conforme Lima se referia aos muitos matemáticos ilustres conterrâneos seus.

A linhagem alagoana do Impa teve continuidade com a figura de Fernando Codá Marques, jovem matemático que fez mestrado no instituto carioca e às vezes é lembrado como candidato à Medalha Fields. Diferentemente de seu mentor, porém, Codá decidiu aceitar um convite para ser pesquisador em Princeton. Numa conversa por Skype, ele manifestou por Lima uma admiração similar à que este nutria por Benedito de Morais. “Os livros de Elon são de uma elegância primorosa”, disse Codá. “Ninguém encarnou como ele a figura do professor de matemática no Brasil.”

 

Quando me recebeu para aquela entrevista em 2014, Elon Lima fez questão de passar em revista, nas estantes de seu gabinete, as obras de sua autoria e volumes das duas coleções de manuais que ele criou e dirigiu no Impa. “Escrevi 41 livros”, disse-me na ocasião (uma lista de publicações compilada pelo Impa atribui ao alagoano uma dezena a mais de obras, incluindo traduções de seus textos para o inglês e o espanhol).

Lima lançou seu primeiro livro em 1954, aos 25 anos, meses após completar a graduação. Como muitos outros volumes que ele lançaria depois, Topologia dos Espaços Métricos se baseou nas notas preparatórias para um curso que o autor dera naquele ano (uma versão ampliada e atualizada da obra renderia anos mais tarde um dos dois Jabutis que o autor ganhou). Mas a maior parte de seus livros foi escrita a partir dos anos 90.

O matemático pediu que eu consultasse o volume que estava sobre a mesa – era a 12ª edição do Curso de Análise, volume 1 (a obra está hoje na 5ª impressão da 14ª edição). “Cada edição dessas tem 2 mil exemplares. Devo estar rico, né?”, brincou o professor. Explicou, em seguida, que seus livros foram lançados, na maioria, pelo Impa ou pela Sociedade Brasileira de Matemática, e são comercializados a preços módicos. “Estou longe de ter ficado rico com os livros que escrevi.”

Lima era movido sobretudo pelo desejo de consolidar uma cultura matemática no Brasil, o que só seria possível se houvesse uma literatura produzida localmente. Seus livros propuseram traduções para o português de muitos termos técnicos e estabeleceram, com isso, um terreno comum para a prática de professores e pesquisadores. “Elon estava mais preocupado com a formação de uma comunidade matemática do que com o próprio trabalho”, disse-me Manfredo do Carmo quando o visitei em maio.

O matemático costumava dizer que renunciou à pesquisa porque se sentia acima de tudo um professor. Contudo, Marcelo Viana, diretor do Impa, chamou a atenção para o intervalo entre o período em que Lima parou de fazer pesquisa, em meados dos anos 60, e a intensificação da sua produção como autor, na década de 90. “Em retrospecto é tentador achar que essa foi uma decisão ponderada, mas não creio que tenha sido tão consciente”, afirmou.

 

Elon Lages Lima deixou de frequentar o Impa há cerca de dois anos, em função de dificuldades de locomoção. Até então era figurinha fácil na biblioteca de 98 mil volumes que ajudou a estruturar, tornando-a uma das mais completas do continente (noves fora a vista para a Mata Atlântica). Desde os anos 90, ele era casado com Carolina Celano, chefe da biblioteca.

Com atuação voltada para o ensino, o alagoano ocupava uma posição única no instituto, que prioriza a produção acadêmica de ponta ao contratar seus pesquisadores. “É difícil imaginar que venha a surgir outro Elon no Impa”, reconheceu Marcelo Viana.

Lima morreu em decorrência de uma pneumonia, deixando cinco filhas, onze netos e sete bisnetos. Quem consultar sua árvore genealógica matemática será levado a crer que ele não teve descendentes acadêmicos, pois não orientou alunos de doutorado, só de mestrado. Nada mais equivocado, como o próprio Elon tratou de esclarecer numa entrevista de 2003: “Meus alunos estão pelo Brasil inteiro, através dos livros.”

A missa de sétimo dia do alagoano foi celebrada por Paul Schweitzer, um matemático que fez doutorado em Princeton em 1962 e oito anos depois se ordenou padre (há mais de quatro décadas dá aulas na PUC-Rio). A cineasta María Campaña Ramia, que registrou depoimentos de Lima para um documentário de 2015, se admirou com a beleza do sermão. “Foi a primeira vez que ouvi falar do Big Bang numa igreja católica”, notou.

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