esquina

Metformina ou morte

O tratamento de um mico diabético

Dafne Sampaio
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

Bauru andava diferente. Irritava-se com qualquer coisa – sobretudo com quem ousasse se aproximar de sua comida – e chegou a sair na mão com colegas. Estava sempre com muita fome, bebia incontáveis litros de água e fazia um volume assombroso de xixi. O quadro piorou quando ele começou a perder pelos e a pele exposta ganhou feridas que demoravam a cicatrizar. Precisava de ajuda médica, sem dúvida.

Em fevereiro de 2016, ele deu entrada na creche do Zoológico de São Paulo, um espaço que serve tanto para cuidar de filhotes abandonados quanto para tratar de enfermidades que acometem indivíduos de pequeno porte – caso de Bauru, um dos 51 micos-leões-de-cara-dourada da instituição. A julgar pelos sintomas, ele estava com diabetes, diagnóstico que um exame da taxa de glicose em seu sangue tratou de confirmar.

A veterinária que tem acompanhado seu caso é Suzana Hirata, uma paulistana de 35 anos e olhos castanhos. Ela passa a maior parte do tempo num pequeno prédio que faz as vezes de ambulatório e farmácia de manipulação para o plantel do zoológico. É ali que Hirata e seus colegas preparam os remédios que serão ministrados pelos tratadores aos animais enfermos.

Numa manhã de outubro, a veterinária misturou um pouco de ração com banana amassada, acrescentou três gotas de metformina – um antidiabético também usado por humanos – e preparou um bolinho. Esse é o tratamento que Bauru vem recebendo diariamente desde que foi diagnosticado há quase dois anos.

Mas o caso do mico-leão está longe de ter sido desvendado. Hirata disse que a diabetes é apenas uma moléstia secundária causada por uma doença de base ainda não identificada. “É sempre um desafio fechar diagnósticos em animais selvagens porque a gente não tem parâmetros de laboratório”, explicou. Como os especialistas não dispõem de índices de referência para todas as espécies, muitas vezes calculam a dosagem dos tratamentos com base no metabolismo do cão ou de outros bichos mais conhecidos. “Vamos adequando conforme a espécie”, continuou a veterinária, enquanto preparava mais um bolinho.

Na parede ao lado da bancada onde ela trabalhava, um painel informava os tratamentos em curso, com as dosagens e horários para cada paciente. Naquela quarta-feira, um urso-pardo idoso que sofre de osteoartrose receberia tratamento homeopático e acupuntura, técnica que também seria adotada para aliviar os sintomas de uma cobra-cipó acometida por um processo degenerativo ósseo.

Enquanto caminhava rumo à creche para levar os bolinhos que daria a Bauru, Hirata arriscou um palpite sobre o quadro do paciente. “A gente acha que pode ser hiperadrenocorticismo”, afirmou, acrescentando que a moléstia explicaria a queda de pelos e a diabetes. “Em humanos, essa doença está muito associada a tratamentos prolongados com corticoides, mas não existem trabalhos publicados para outras espécies de primatas.” O caso de Bauru certamente não foi causado por essas substâncias, mas os veterinários do zoológico não sabem o que pode estar por trás da doença. “Mudamos dosagens, alteramos a dieta e esperamos ter alguma resposta nos próximos meses.”

 

A creche do zoológico paulistano é um espaço de 70 metros quadrados no qual há uma série de ambientes com casinhas, troncos, cordas, chão de cimento ou teto, adequados para diferentes espécies. É habitada principalmente por pequenos primatas e aves. Trata-se em princípio de um lar provisório, mas alguns – como Bauru – às vezes passam mais de um ano ali.

Mal Suzana Hirata entrou na creche, o mico-leão se manifestou ruidosamente e colou a cara dourada na grade. “Esse é o Bauru”, brincou a veterinária. Ágil, ansioso e com uma juba vistosa, o primata parecia bem, mas tão logo se virou para voltar à casinha, revelou o dorso ainda sem pelos e com algumas feridas. “O caso dele é difícil, mas o tratamento para controlar a glicemia melhorou os sinais clínicos e o comportamento”, disse a veterinária. Mas notou também que, assim como acontece com os humanos diabéticos, nem sempre o controle do nível de glicose significa um retorno à normalidade.

Bauru chegou ao micário do Zoológico de São Paulo no começo de 2008, “para compor o plantel e integrar as ações de conservação da espécie”, conforme registra sua ficha. Apesar de xará da cidade do interior paulista, Bauru nasceu no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Por fazer parte do programa de conservação, nunca foi exposto ao público. “Para ele tanto faz estar na creche ou no micário”, disse Hirata.

Em dezembro de 2017, Bauru completou 17 anos, dois a mais do que vivem em média os indivíduos de sua espécie. A idade avançada é um obstáculo para o tratamento e diminui a chance de cura. “Nem tudo a gente consegue tratar”, admitiu a veterinária. “Nem a medicina humana consegue, né? Às vezes dá uma certa frustração, mas a gente continua mesmo assim.” Hirata disse que o tratamento buscava garantir a qualidade de vida do primata e combater a dor e o mal-estar. Nesse momento, o mico-leão saiu novamente da casinha, desta vez acompanhado de uma fêmea.

Parceira de Bauru em seu retiro, Cláudia é fruto do programa de conservação do zoológico paulistano e nasceu na instituição em 2009. Diferentemente de outros hóspedes, ela tem saúde de ferro e está ali para não deixar sozinho o colega doente. “Micos-leões são animais gregários, então o ideal é que sempre tenham companhia”, explicou Hirata.

O casal de micos se movimentava com agitação na expectativa por comida. Hirata calçou as luvas, pegou dois bolinhos e ofereceu pequenos pedaços aos primatas, com o cuidado de dar a Bauru o quitute batizado com metformina. O primata diabético foi o primeiro a acabar sua porção. Quando Cláudia ia dar a última mordida na dela, ele tomou-lhe o pedaço e saiu correndo. Hirata balançou a cabeça para o paciente incorrigível. “Ai, Bauru!”

Dafne Sampaio

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