questões nacionais

Meu guri

A mãe, a avó e a mulher de um dos 250 mil brasileiros presos antes do julgamento*

Armando Antenore
Capturado em flagrante após roubar um celular de 150 reais com uma pistola falsa, Jeremias está no Complexo Penitenciário de Bangu desde outubro de 2016. O rapaz de 21 anos não faz parte de nenhuma organização criminosa. Mesmo assim, ocupa um presídio destinado à facção ADA
Capturado em flagrante após roubar um celular de 150 reais com uma pistola falsa, Jeremias está no Complexo Penitenciário de Bangu desde outubro de 2016. O rapaz de 21 anos não faz parte de nenhuma organização criminosa. Mesmo assim, ocupa um presídio destinado à facção ADA ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2017

Quando o celular tocou, Conceição sentiu uma fisgada no estômago. “Coisa boa não deve ser”, intuiu enquanto caçava o telefone. Não espiou o relógio, mas sabia que passava um pouco das cinco horas. Só notícia ruim chegaria tão cedo. Como de hábito, a empregada doméstica já estava de pé. No banheiro da casa inacabada, aprontava-se para o demorado trajeto até o apartamento dos patrões, em Copacabana. “Um ônibus, dois metrôs e uma sandália de primeira”, gracejava sempre que lhe perguntavam quantas conduções tinha de enfrentar logo pela manhã. Moradora da Baixada Fluminense, dificilmente desembarcava no mais célebre dos bairros cariocas em menos de noventa minutos. “Ceição, prenderam o Jeremias”, disparou uma amiga mal a doméstica pegou o aparelho. “O meu filho? Não é possível! Tu se enganou.” A amiga confirmou: “O Jeremias, sim. Mas não me contaram o motivo.” Entre a vertigem e o desespero, Conceição acordou o marido: “Amor, tu não vai acreditar…”

Na véspera, dia 2 de outubro de 2016, um domingo de eleições, a doméstica deixou o sobradinho em São João de Meriti e seguiu para Belford Roxo, outro município da Baixada, onde se criou. Iria votar. Num boteco de Belford, avistou o filho de 20 anos, que jogava conversa fora com um grupo de conhecidos. Não precisou se aproximar demais para perceber que o moço bebera além da conta. “Que horror, Jeremias! Encher a cara desse jeito… Vamos embora!”, pediu inúmeras vezes, sem conseguir dobrá-lo. Não por acaso, quando digeriu minimamente a notícia da detenção, imaginou que o rapaz se metera numa briga. “Trocou socos de madrugada e acabou preso”, comentou com o marido depois de avisar à patroa que iria faltar.

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Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

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