Para conquistar a Casa Branca, Barack Obama precisou ser um advogado formado em Harvard, com dez anos de experiência política e um talento impressionante para falar com diferentes frações do país. Para Donald Trump, o dinheiro e a arrogância branca foram o bastante
Ver dados da foto Para conquistar a Casa Branca, Barack Obama precisou ser um advogado formado em Harvard, com dez anos de experiência política e um talento impressionante para falar com diferentes frações do país. Para Donald Trump, o dinheiro e a arrogância branca foram o bastante FOTO: PETE SOUZA_CASA BRANCA_GETTY IMAGES_2009

Meu presidente era preto

Uma história da primeira Casa Branca afro-americana – e do que veio em seguida
Ta-Nehisi Coates
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Para conquistar a Casa Branca, Barack Obama precisou ser um advogado formado em Harvard, com dez anos de experiência política e um talento impressionante para falar com diferentes frações do país. Para Donald Trump, o dinheiro e a arrogância branca foram o bastante FOTO: PETE SOUZA_CASA BRANCA_GETTY IMAGES_2009

É uma gente nojenta”,
gritei do outro lado do gramado.
“Você vale muito mais
do que todos eles juntos!
Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

 

I.
“O AMOR VAI FAZER VOCÊ ERRAR”

Nos derradeiros dias da administração Barack Obama, ele e a mulher, Michelle, organizaram uma festa de despedida cuja importância, àquela altura, ninguém poderia imaginar. Foi numa sexta-feira, 21 de outubro. O presidente tinha passado boa parte das semanas anteriores, como ainda passaria as duas seguintes, em campanha em favor da candidata democrata, Hillary Clinton. Tudo indicava que a coisa ia bem. As pesquisas em estados cruciais como Virginia e Pensilvânia mostravam uma bela vantagem para Clinton. Dizia-se que os robustos redutos do Partido Republicano na Georgia e no Texas estavam periclitantes. O momento parecia inteiramente favorável a Obama. E ele vinha se comportando de modo descontraído, fazendo piada com os adversários republicanos e rindo de quem o detratava. Num comício de 28 de outubro, em Orlando, dos alto-falantes ouviu-se uma música e ele saiu dançando na direção de uma estudante que subia ao palco a seu encontro, e em seguida observou que a canção – Outstanding, da Gap Band[1] – era anterior ao nascimento da jovem. “Um clássico!”, ele disse. Exibiu o sorriso que o ajudou a se eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e retomou a dança. Ainda faltavam três meses para a posse de seu sucessor, mas parte da sua equipe já estava em contagem regressiva, imbuída de um misto de orgulho e nostalgia – como ocorre com os alunos no mês anterior à formatura. Não têm a menor ideia do mundo que os espera depois da graduação. Nenhum de nós tinha.

A festa de despedida, organizada pela BET[2] (Black Entertainment Television), foi a última de uma série de eventos que o casal presidencial promoveu na Casa Branca. Pedia-se aos convidados que chegassem às cinco e meia da tarde. Às seis, duas longas filas se estendiam até o Treasury Building, onde o serviço secreto conferia a identidade de cada um. Os convidados eram majoritariamente negros, e isso se refletia no humor dominante. A fila mais rápida foi apelidada de “turma do cabelo bom” por um dos presentes, e muitos riram quando alguém disse que o serviço secreto iria nos submeter ao “teste do saco de papel pardo”.[3] A segurança não chegou a tanto, mas era bem rígida. Várias pessoas foram encaminhadas a uma área de espera improvisada enquanto seus antecedentes eram verificados mais uma vez.

Dave Chappelle[4] estava lá. E, com graça, falou do potencial cômico de um até então improvável mandato de Donald Trump, referindo-se ao escândalo conhecido como “Pussygate”: “Quer dizer, a gente nunca viu um cara ter um Pussygate só pra ele.” Todo mundo riu. Poucas semanas mais tarde, o mesmo comediante seria alvo de críticas generalizadas ao contar à plateia da casa de shows Cutting Room, em Nova York, que tinha votado em Hillary, mas nem por isso se sentia bem. “Vai que um dia usam a imagem dela numa moeda”, disse Chappelle. “E não sei se ela vale tudo isso.” Mas naquela noite fria de outubro tudo parecia correr bem, a situação era promissora. Soprava um vento fraco. A temperatura tinha passado boa parte da semana acima dos 25 graus, mas naquele momento, quando o sol se punha, o outono não dava mais trégua. As mulheres tremiam de frio em seus vestidos de festa. Seus acompanhantes, cavalheiros, ofereciam-lhes os paletós. Mas quando Naomi Campbell passou pela segurança com um vestidinho sem manga, ela parecia mais intocável do que nunca.

Os celulares foram confiscados para evitar o vazamento de gravações desautorizadas. (Mas o esforço foi em vão. No dia seguinte, alguém tuitou um vídeo em que o “líder do mundo livre” aparecia dançando Hotline Bling, do rapper Drake.) Depois de vencer a malha fina da segurança, os convidados se dirigiram à Ala Leste da Casa Branca, e em seguida foram reconduzidos ao lado de fora, onde embarcaram numa série de ônibus pintados de laranja e verde. A cantora e atriz Janelle Monáe, precedida por seu extravagante topete, subiu a bordo e brincou com outro passageiro sobre o sentido histórico de “sentar na traseira do ônibus”. Ela se instalou na terceira fila e saiu cantarolando pela noite. O ônibus desembarcou os convidados no Gramado Sul, em frente a uma tenda gigantesca. Luzes azuis adornavam a fonte do local. A Casa Branca propriamente dita se erguia a distância, como um fantasma. Ouvi a orquestra, no interior da residência, começando a tocar Let’s Stay Together, de Al Green.

“Bom, qualquer um pode ver que tipo de festa estamos dando”, disse Obama no palco, ao abrir o evento. “Sem frescura e ostentação!”

O público adorou.

“Até parece um programa da BET!”

E o público aplaudiu ainda mais alto.

Obama disse que o concerto se inseria na tradição musical da Casa Branca, lembrando que convidados do casal Kennedy chegaram a dançar o twist na residência presidencial – “o twerking[5] daquela época”, esclareceu, antes de acrescentar: “Mas nada de twerking hoje à noite. Eu, pelo menos, estou fora.”

 

O casal Obama adora música e tem preferências ecléticas. Nos últimos oito anos, de Mavis Staples a Bob Dylan, de Tony Bennett aos Blind Boys of Alabama se apresentaram na Casa Branca. Depois que o rapper Common foi convidado em 2011, ouviram-se protestos moderados nos meios de comunicação de direita. Mas ele cantou assim mesmo – e ainda foi novamente convocado para essa gloriosa noite de outono, em que quase roubou o espetáculo. Toda a plateia o acompanhou em seu maior sucesso, a balada The Light. E quando ele chamou ao palco a cantora gospel Yolanda Adams para o trecho normalmente entoado por John Legend na canção Glory, ganhadora do Oscar em 2015, o entusiasmo do público se transformou em arrebatamento.

O trio de hip-hop De La Soul também subiu ao palco. No começo da carreira, jovens, eles se apresentavam como dançarinos de break e tinham os cabelos raspados na nuca, mas espetados no cocoruto. Agora se deslocavam pelo palco com uma mistura adorável de letargia e graça, como tios queridos que se apresentassem por alguns segundos no “Train Line”, um quadro do antigo programa de tevê de música soul, arremessando os quadris para a frente até onde conseguiam. Tive uma sensação de vitória ao constatar como eles agradavam a todos, mesmo sem se esforçar muito. A vitória era do hip-hop – uma forma de arte nascida no Bronx em chamas, hoje madura e apresentada em plena Casa Branca, inteiraça e sem se entregar à edição alheia. O cantor Usher interagiu com o público numa dinâmica de chamada e resposta: “Say it loud, I’m black and I’m proud” [Digam bem alto, eu sou negro e tenho orgulho], numa referência à canção de James Brown. Jill Scott demonstrou o alcance operístico de sua voz. O Bell Biv DeVoe, contemporâneo do De La Soul, ofereceu um show que fez história, tornando-se certamente o primeiro grupo a sugerir a uma plateia presidencial que não se deve confiar “numa bunda grande e num sorriso”.

Os vínculos entre a Casa Branca de Obama e a comunidade do hip-hop são legítimos. Os Obama se dão com Beyoncé e Jay-Z. Já receberam Chance the Rapper e Frank Ocean num jantar de cerimônia, e no ano passado convidaram Swizz Beatz, Busta Rhymes e Ludacris, entre outros, para discutir a reforma da justiça criminal e outros projetos. Certa vez, no Rose Garden, Obama chegou a passar bilhetinhos para o criador de Hamilton, o rapper Lin-Manuel Miranda, propondo palavras para suas improvisações. “Vamos ouvir a batida” [Drop the beat], disse Obama ao abrir o espetáculo, empregando a fórmula habitual do hip-hop. Aos 55 anos, Obama é mais novo que alguns artistas pioneiros do hip-hop, como Afrika Bambaataa, DJ Kool Herc e Kurtis Blow. Se seu enorme poder simbólico se deve originalmente ao ineditismo de ter sido o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, o fato de pertencer à geração fundadora do hip-hop também ajudou.

Naquela noite, os homens estavam chiques em seus ternos cinza ou pretos – a gravata era opcional. Quem não vestia terno é porque havia decidido afirmar alguma coisa, como o jovem de pele escura que estava com as pernas das calças jeans arregaçadas de maneira a realçar seus fantásticos sapatos de camurça preta sem meias. Tudo em seu figurino parecia dizer: “Queridões, não tentem repetir esta experiência em casa.” Havia mulheres com casacos de pele e salto alto; outras com penteados esculpidos, as laterais quase raspadas e a parte de cima explodindo em caracóis; outras ainda com argolas douradas e longos dreadlocks louros. Quando o ator Jesse Williams subiu ao palco, fingindo espanto diante de tamanha elegância, tamanha opulência negra, a poucos metros do local onde outrora escravos se esfalfavam, disse simplesmente: “Olhem só onde nós estamos. Olhem só onde estamos agora.”

Aquilo não tornaria a acontecer, e todo mundo sabia. E não só porque é possível que não haja outro afro-americano na Presidência dos Estados Unidos. O sentimento era de que essa família negra em especial, a família Obama, representava o melhor dos negros americanos, o fino da raça, incomparável na postura e na elegância. “Não existe outro igual”, disse o comediante Sinbad, ainda em 2010. “Não existem mais pretos criados no Kansas e no Havaí. Ele é o último. Melhor vocês tratarem esse cara muito bem. O próximo vai ser de Cleveland, e vai usar permanente no cabelo. E aí o bicho vai pegar.” Ao longo dos dois mandatos, a família Obama evitou mostrar aos Estados Unidos como “o bicho” poderia “pegar”, preferindo seguir o lema ditado pela primeira-dama. “Quando eles atacam por baixo, nós respondemos por cima.” Era este – negros reagindo com elegância a qualquer ataque – o ideal que se celebrava naquela noite. O presidente foi consagrado como “nossa joia da coroa”. A primeira-dama foi louvada como a mulher que “pôs o Oh em Obama”.

 

A eleição e a reeleição de Barack Obama, em 2008 e 2012, foram reduzidas, por alguns de seus críticos, a vitórias meramente simbólicas para os afro-americanos. Mas os símbolos nada têm de “meros” ou simples. O poder que emana da palavra nigger[6] também é simbólico. As cruzes em chamas não têm o poder efetivo de aumentar a proporção de negros na pobreza, e a bandeira confederada não contribui diretamente para aumentar a desigualdade econômica.

Na mesma medida em que a série ininterrupta de 43 presidentes homens e brancos sinalizava que o mais alto posto político do país – na verdade, o posto político mais poderoso do mundo – não estava ao alcance de indivíduos negros, a eleição de Barack Obama anunciou que essa interdição não vigorava mais. E anunciou muito mais. Antes do triunfo de Obama em 2008, as representações mais famosas do sucesso negro tendiam a vir do mundo do espetáculo ou do esporte. Mas Obama mostrou que era “possível ser inteligente e cool ao mesmo tempo”, como disse Jesse Williams na festa da BET. Além disso, não envergonhou sua gente com nenhum escândalo. Em contraste com o conhecido espectro da patologia negra, com as humilhantes imagens de mães sustentadas pela previdência social e pais negligentes, seu período na Casa Branca pode ser descrito como oito anos exemplares de uma família negra saudável e bem-sucedida, formada por representantes de três gerações e, de quebra, dois cachorros. Em suma, Obama se transformou no símbolo da família negra em seu cotidiano, em sua notável americanidade.

Nos Estados Unidos, a brancura da pele é um símbolo distintivo – uma insígnia que assegura várias vantagens. Num país onde vigora uma competição supostamente meritocrática, tal insígnia vem garantindo há muito tempo certos privilégios invariáveis, representados por um monopólio de 220 anos na ascensão ao cargo máximo do país. Para um setor nada desprezível dos Estados Unidos, a consagração de Barack Obama sinalizou um decréscimo do poder dessa insígnia e, por oito longos anos, os detentores da insígnia ficaram de olho nele. Assistiram a vídeos em que o presidente passava uma bola de futebol americano ou fazia elegantes arremessos a uma cesta de basquete. Viram-no entrar num vestiário, cumprimentar um empregado branco com um aperto de mão convencional e em seguida trocar com Kevin Durant[7] um cumprimento bem mais rebuscado. Viram sua mulher dançar com Jimmy Fallon[8] e posar, deslumbrante, para capas de revistas que, apenas dez anos antes, eram quase exclusivamente, embora extraoficialmente, reservadas a senhoras impregnadas do grande poder da insígnia da brancura.

No interesse de preservar essa insígnia, produziram-se boatos insidiosos para denegrir os primeiros negros na Casa Branca. Obama teria dado celulares gratuitos aos beneficiários mais desfavorecidos da previdência social. Obama foi à Europa e teria dito que “os homens e mulheres comuns pensam pequeno demais para cuidar de suas vidas”. Obama teria mandado gravar um provérbio árabe em sua aliança de casamento, e depois deixara de usar o anel em respeito ao Ramadã. Cancelou o Dia Nacional da Prece; recusou-se a assinar certificados para os Eagle Scouts, os escoteiros de mais alto “grau” dos Estados Unidos; falsificou suas listas de presença na Universidade Columbia; precisou de um teleprompter para se dirigir a um grupo de alunos da escola primária. Os detentores da insígnia estavam furiosos. Queriam seu país de volta. E, embora nenhum dos participantes da celebração de despedida soubesse disso, dali a poucas semanas eles finalmente iriam tomar o país de volta.

Naquela noite de outubro, porém, quem ocupava o palco era uma outra América. Perto do fim da festa, Obama olhou para a plateia, à procura de Dave Chappelle. “Onde está Dave?”, perguntou. E então, quando localizou o comediante, o presidente aludiu à lendária apresentação de Chappelle no Brooklyn. “Você foi lá e promoveu uma festa no seu pedaço. Agora é a minha vez.” Em seguida, a orquestra tocou Love and Happiness, de Al Green – o tema da noite. O presidente dançou em fila, ao lado de Ronnie DeVoe. Juntos, entoaram a letra: “O poder do amor faz você acertar. O amor vai fazer você errar.”

 

 

II.

ELE CAMINHOU NO GELO, MAS NUNCA ESCORREGOU

Na última primavera, o presidente me convidou para almoçar na Casa Branca. Cheguei um pouco antes da hora e esperei na antessala. Fui apresentado a uma mulher surda que trabalhava como recepcionista do presidente, a uma negra empregada na assessoria de imprensa, a uma muçulmana de véu que atuava no Conselho de Segurança Nacional e a uma iraniana-americana que era a assistente pessoal do presidente. Esse grupo representava um recorte significativo das pessoas de que Donald Trump vinha zombando e das quais continuaria a zombar até o final de sua campanha. Naquela ocasião, porém, o presidente não parecia se incomodar com Trump. Quando eu lhe disse que achava a candidatura de Trump uma reação explícita à presença de um negro na Presidência, Obama retrucou que entendia o meu ponto de vista, mas depois enumerou várias outras explicações. Ao avaliar as chances de Trump, foi direto: não havia meios de ele ganhar.

Essa opinião se devia ao otimismo inato do presidente, à sua fé inabalável na sensatez do povo americano – os mesmos fatores que impulsionaram sua improvável ascensão, em apenas cinco anos, de senador estadual do Illinois a membro do Senado dos Estados Unidos, e daí a líder do mundo livre. O pronunciamento que daria início à sua escalada, o discurso de abertura que fez na Convenção Nacional do Partido Democrata em 2004, derivava diretamente dessa lógica. Obama se dirigiu a seus “concidadãos americanos, democratas, republicanos, independentes”, todos os quais, insistiu, eram mais unidos do que supunham.

A América abrigava religiosos devotos e treinadores de equipes infantis de beisebol nos estados de maioria democrata, e defensores das liberdades civis e “amigos dos gays” nos estados de maioria republicana*. Os “condados em torno de Chicago”, de presumível maioria branca, não queriam que seus impostos se consumissem em taxas para benefícios sociais, mas tampouco que fossem desperdiçados num orçamento inflado do Pentágono. As famílias negras das áreas pobres das grandes cidades, apesar dos riscos a que se expunham, entendiam que “o governo não tem como ensinar sozinho nossos filhos a aprender… as crianças não podem se desenvolver se não elevarmos suas expectativas, se não desligarmos os aparelhos de tevê e abolirmos a calúnia segundo a qual um jovem negro que lê um livro está agindo como um branco”.

As diferenças percebidas entre negros e brancos eram obra de “assessores de imprensa e promotores de propaganda política negativa, que preferem uma política de ‘vale-tudo’”. A verdadeira América extrapolava essas categorizações. Na opinião de Obama, não existia uma América liberal, uma América conservadora, uma América negra, uma América branca, uma América dos latinos, uma América dos asiáticos: só os “Estados Unidos da América”. E todos se igualavam numa esperança comum:

É a esperança dos escravos sentados em torno de uma fogueira, entoando cantos de liberdade; a esperança de imigrantes que partiram para terras distantes; a esperança de um jovem tenente da Marinha patrulhando corajosamente o delta do Mekong; a esperança do filho de um operário que ousa desafiar as dificuldades; a esperança de um menino magricela de nome estranho que acredita que a América também tem lugar para ele.

Este discurso ia contra a história das pessoas a quem procurava se dirigir. Alguns daqueles mesmos imigrantes tinham lançado bombas incendiárias nas casas dos filhos daqueles mesmos escravos. O jovem tenente da Marinha era um agente imperial envolvido numa guerra imoral, fadada ao fracasso. A divisão da América era real. Em 2004, John Kerry não venceu em nenhum estado do Sul. Mas Obama apelava para a crença na inocência – a inocência branca, em especial – ao atribuir os erros históricos de toda a nação a mal-entendidos e conspirações de uma pequena cabala, e não à malevolência deliberada ou ao racismo amplamente disseminado. A América era boa. A América era grande.

Ao longo dos doze anos seguintes, aprendi a ver em Obama um político habilidoso, um ser humano de profundos valores morais e um dos maiores presidentes da história americana. Ele era fenomenal – o maior intérprete, e o mais ágil representante, da diferença de cor que eu já conheci. Tinha a capacidade de acionar uma conexão profunda e sincera com o coração dos negros, sem jamais duvidar do coração dos brancos. Foi esse o cerne do seu discurso na convenção de 2004, e a marca do seu histórico discurso sobre a raça durante a campanha de 2008, no Centro Nacional da Constituição, na Filadélfia – e isso o deixou cego para o apelo exercido por Trump. (“Como proposta geral, é difícil concorrer à Presidência só dizendo para as pessoas que as coisas vão de mal a pior”, Obama me disse certa vez.)

Mas se a incapacidade do presidente em consolidar seu legado no perfil de Hillary Clinton foi a prova de que seu otimismo era em parte infundado, também revelou o quanto suas vitórias presidenciais foram extraordinárias. Por oito anos, Obama caminhou no gelo, mas nunca escorregou. Nada, nesse período, sugeria que uma conversa mais direta sobre o racismo na vida americana era politicamente necessária.

 

Eu já tinha encontrado o presidente em outras ocasiões. Durante seu segundo mandato, escrevi artigos que criticavam sua absoluta confiança em iniciativas que não levavam em consideração a cor, e também a adoção de uma retórica que, ao se dirigir aos afro-americanos, enfatizava a “responsabilidade pessoal”. Na minha opinião, Obama tentava jogar dos dois lados: invocava sua condição de presidente de todos os americanos para abrir mão de defender medidas em favor dos negros – e em seguida invocava sua identidade de negro para censurar as “escolhas infelizes” dos demais afro-americanos. Para responder às críticas, o presidente me convidou, juntamente com outros jornalistas, para alguns encontros informais na Casa Branca.

Tentei defender meus pontos de vista nessas reuniões, mas meus esforços foram sempre risíveis e ineficazes. Eu nunca estava vestido da maneira certa, e meu tom jamais se mostrava bem calibrado: certa vez fui excessivamente cerimonioso; em outra, belicoso demais. Eu perdia o prumo devido ao medo – não o medo da autoridade do cargo (embora essa autoridade seja impressionante e assustadora), mas medo de seu brilho pessoal tão evidente. Dizer que Obama fala “em tom professoral” é subestimar a agilidade e a rapidez de seu raciocínio. Esses encontros de que participei não lembravam em nada coletivas de imprensa – o presidente discorria em profundidade, e com grande conhecimento de causa, sobre uma vasta gama de temas. Certa vez ele respondeu sem piscar a questões que primeiro trataram da política eleitoral, depois da economia americana e em seguida da política ambiental. E então ele se virou para mim. Lembrei de George Foreman, que certa ocasião marcou uma luta contra múltiplos adversários e surrou cinco iniciantes, um atrás do outro – e de repente tive uma boa noção de como o último deles deve ter se sentido.

Na primavera passada, almoçamos juntos. Conversamos informalmente, em tom franco. Ele falou do brilho de LeBron James e Stephen Curry – não como jogadores de basquete especialmente talentosos, mas como indivíduos bem resolvidos. Perguntei-lhe se tinha alguma raiva do pai, que o abandonou ainda muito pequeno e voltou para o Quênia, e se isso de algum modo se refletia em sua retórica. Ele disse que não, e atribuiu tudo o que dizia às atitudes da mãe e dos avós. Então foi a minha vez de trilhar o viés autobiográfico. Eu disse que tinha escutado muitas vezes, ao longo de toda a vida, a mesma mensagem de “tome juízo” que ele sempre endereçava aos jovens negros, como por exemplo no discurso de abertura que fez no encerramento do ano letivo da Faculdade Morehouse, no estado da Georgia, em 2013. Comentei que, na minha opinião, suas palavras não eram sensíveis à turbulência interna muitas vezes encoberta pela atitude mais dura que esses jovens demonstram. E disse que eu pensava assim porque já tinha sido como eles. Ele pareceu reconhecer que eu tinha razão, mas não sei dizer se deu muita importância às minhas palavras. Ainda assim, concordou em marcar uma série de conversas mais regulares sobre essa e outras questões.

A improbabilidade de os Estados Unidos terem um presidente negro era tão alta que suas representações mais memoráveis sempre ocorreram no campo da comédia. Como o Black Bush de Dave Chappelle, sempre irreverente, no começo dos anos 2000 (“Esse crioulo só pode ter armas de destruição em massa! Durma-se com um barulho desses!”) ou o presidente negro de Richard Pryor[9] na década de 70, prometendo mais astronautas e quarterbacks negros  (“Depois que os Rams dispensaram James Harris,[10] meu queixo caiu!”). De acordo com esse modelo, a força da negritude é tão poderosa que o exercício da Presidência é forçado a se adaptar a ela. No entanto, quando a ideia deixou o âmbito da comédia e se tornou real, o que se viu foi justamente o oposto.

O discurso de Obama na Convenção Nacional Democrata diz tudo. Não se enquadra na retórica da “luta por mais direitos”, mas na retórica dos futuros presidentes – homens (como depois ficou claro) que se dirigem não às autoridades e à realidade do presente, mas às aspirações e aos sonhos do país. Quando Lincoln invocou o sonho de uma nação “concebida em liberdade” e jurou fidelidade ao ideal de que “todos os homens são iguais”, ignorou o quase extermínio de um povo e a escravização de outro. Quando Roosevelt disse que “a única coisa que temos a temer é o próprio medo”, invocava o sonho da onipotência americana e de uma capacidade sem limites. Mas os negros, na época submetidos a uma campanha de terror de mais de meio século, tinham muito a temer, e Roosevelt não dispunha de meios para salvá-los. O sonho invocado por Ronald Reagan em 1984 – “Amanhece de novo na América” – não queria dizer nada para os habitantes pobres das grandes cidades, cercados havia décadas por políticas isolacionistas, para não falar do crack e das armas de fogo. Da mesma forma, o discurso de abertura de Obama juntava o escravo à nação de imigrantes que o explorou. Para reforçar o sonho da maioria, elimina-se o pesadelo da minoria. É a essa tradição que se filiava o “menino magricela de nome estranho” que um dia viria a ser presidente. Tratava-se também da única tradição que poderia conduzir uma pessoa negra à Casa Branca.

 

A presunção da inocência branca foi claramente necessária como recurso de sobrevivência política. Sempre que Obama tentou desviar dessa diretiva, acabou pagando caro. Sua oposição moderada à prisão de Henry Louis Gates Jr.,[11] em 2009, contribuiu para o declínio do número de brancos favoráveis a ele – e os brancos ainda eram a maioria dos eleitores. Suas palavras depois da morte de Trayvon Martin[12] – “Se eu tivesse um filho, seria parecido com Trayvon” – ajudaram a fazer dessa tragédia um ponto de convergência entre aqueles que, menos preocupados com o homicídio, queriam mais era encontrar novas maneiras de se opor ao presidente.

Michael Tesler, professor de ciência política na Universidade da Califórnia em Irvine, estudou o efeito racial de Obama sobre o eleitorado americano. “Nenhum outro fator, na verdade, chegou perto de dividir o eleitorado das primárias do Partido Democrata com tanta força quanto o sentimento em relação aos afro-americanos”, concluíram ele e seu coautor, David O. Sears, no livro Obama’s Race: The 2008 Election and the Dream of a Post-Racial America [A Corrida de Obama: A Eleição de 2008 e o Sonho de uma América Pós-Racial]. “O impacto da atitude quanto à raça sobre a decisão de cada eleitor foi tão forte que parece ter ultrapassado de longe o impacto significativo da atitude quanto à raça na campanha bem mais racialmente carregada de Jesse Jackson[13] pela indicação democrata, em 1988.” Quando Tesler examinou a campanha de 2012 em seu segundo livro, Post-Racial or Most-Racial? Race and Politics in the Obama Era [Pós-Racial ou Mais Racial? Raça e Política na Era Obama], pouca coisa havia melhorado. Analisando em que medida as atitudes quanto à raça afetaram pessoas associadas a Obama nas eleições de 2012, Tesler conclui que “elas extravasaram de Barack Obama e afetaram a avaliação popular de Mitt Romney, Joe Biden, Hillary Clinton, o ex-governador republicano da Flórida Charlie Crist e até de Bo, o cão da família Obama”.

Ainda assim, não obstante esse ressentimento racial arraigado, e diante de uma resistência peremptória por parte dos republicanos no Congresso – iniciada na cara dura no momento em que Obama chegou à Casa Branca –, o presidente conseguiu feitos importantes. Reformou o sistema de saúde do país. Revitalizou o Departamento de Justiça, que investigou com energia a brutalidade e a discriminação policial, além de iniciar o desmonte do sistema de prisões federais privatizadas. Obama nomeou para a Suprema Corte a primeira juíza latina, prestou apoio presidencial à igualdade no casamento e pôs fim à política Don’t Ask, Don’t Tell[14] nas Forças Armadas americanas, honrando assim a tradição de abraçar a luta pelos direitos civis que sempre o inspirou. E se sua simples existência bastava para inflamar a consciência racista americana, ela também contribuiu para expandir a imaginação antirracista no país. Hoje milhões de jovens sabem quem foi seu único presidente afro-americano.

Em artigo para a revista The New Yorker, Jelani Cobb assinalou que “até o advento de um presidente negro, era impossível conceber as limitações que ele sofreria no cargo”. O que se aplica também às suas possibilidades. Em 2014, o governo Obama comprometeu-se a reverter a guerra às drogas usando o poder presidencial de comutação de sentenças penais. Anunciou que poderia comutar as penas de até 10 mil prisioneiros. Até novembro último, só 944 sentenças haviam sido comutadas[15]. À luz de qualquer critério, os esforços de Obama foram lamentavelmente insuficientes, salvo por um detalhe: a comparação com todos os presidentes modernos que o antecederam. As 944 comutações de Obama foram o maior número registrado em quase um século – e excederam a soma de todas assinadas pelos últimos onze presidentes.

Obama nasceu num país onde leis que proibiam sua própria concepção – quanto mais sua ascensão à Presidência – vigoravam havia muito tempo. Um presidente negro sempre haveria de ser uma contradição para um governo que, ao longo da maior parte de sua história, sempre foi marcado pela opressão aos negros. A tentativa de resolver essa contradição por meio de Obama – um negro com raízes profundas no mundo dos brancos – foi notável. O preço que ela nos cobrou, inacreditável. O mundo a que deu lugar, inconcebível.

 

III.
“DECIDI FAZER PARTE DESSE MUNDO”

Quando Barack Obama completou 10 anos, seu pai lhe deu uma bola de basquete, presente que os conectava diretamente. Obama nasceu em 1961, no Havaí, e foi criado pela mãe, Ann Dunham, que era branca, e os pais dela, Stanley e Madelyn. Os três devotavam o maior amor ao menino, a quem conferiam todo apoio emocional e estímulo intelectual. Também lhe contaram que ele era negro. Ann lhe deu livros sobre negros famosos. Quando a mãe de Obama começou a sair com o pai dele, a notícia não foi recebida com uma ameaça de linchamento (como poderia ter ocorrido em várias partes continentais dos Estados Unidos), e os avós de Obama sempre se referiram ao pai dele em termos positivos. Esses traços biográficos fazem dele um personagem quase único entre os negros de seu tempo.

Nas memórias do presidente, A Origem dos Meus Sonhos, ele conta que não tinha um talento especial para o basquete, mas jogava com uma paixão profunda. Uma paixão dirigida não só a aprender a bloquear e contornar os adversários, ou aperfeiçoar arremessos. Obama chegou à maioridade quando o time de basquete da Universidade do Havaí era conhecido como os “Fabulous Five” – apelido de sua formação titular, toda de jogadores negros, duas décadas antes de ser ressuscitado na Universidade de Michigan por atletas como Chris Webber e Jalen Rose.[16] Em suas memórias, Obama conta que ficava vendo os jogadores rindo “de alguma piada entre eles”, piscando “para as meninas das arquibancadas” ou “treinando arremessos de tabela”. O que o atraía nos Fabulous Five não era só o basquete, mas toda uma cultura:

Quando entrei no colegial, já jogava contra os times de Punahou, batia bola nas quadras das universidades, onde um punhado de negros, em sua maioria frequentadores assíduos dos ginásios e jogadores universitários do passado, me ensinou uma atitude que não tinha a ver apenas com o esporte. Que o respeito se devia ao que você fazia, e não a quem era o seu pai. Que você podia dizer coisas para abalar um adversário, mas devia se calar se não fosse capaz de cumprir o que dizia. Que você não deveria externar suas emoções – como dor ou medo – se não quisesse que elas fossem vistas.

São lições, especialmente a última, que são úteis para os negros tanto nas ruas quanto nas quadras. O basquete foi uma ferramenta importante para Obama, um meio de absorver toda a cultura negra do continente que tinha dado origem aos Fabulous Five. Avaliando a maneira como pensava naquele tempo, ele escreve: “Decidi me tornar parte daquele mundo.” É uma das frases mais incríveis já escritas na longa e variada literatura de memórias de negros, inclusive porque muito poucos desfrutaram do poder para afirmá-la.

Historicamente, nessas autobiografias, ver-se confinado à raça negra equivale a estar exposto a um sem-número de traumas, muitas vezes desde a primeira infância. Frederick Douglass[17] é separado de sua avó. Harriet Ann Jacobs,[18] escravizada, precisa enfrentar a ameaça constante de estupro, até conseguir fugir. Depois de contar a um professor que queria ser advogado, Malcolm X  ouve que o direito não era uma profissão para niggers. Muitas vezes a cultura negra serve como um bálsamo para esses traumas, ou um meio de responder a eles. Douglass consegue reunir a coragem necessária para enfrentar “o domador de escravos” Edward Covey,[19] depois de ganhar uma raiz supostamente encantada de “um africano autêntico”, com poderes mágicos “das terras do Oriente”. A dança serve para conectar Malcolm X a “seus instintos africanos reprimidos desde sempre”. Se a identidade racial evoca todos os sofrimentos das pessoas de descendência africana recente, a identidade cultural negra é uma reação a eles. A divisão não é nítida: as duas coisas são interligadas, e é muito difícil participar plenamente do mundo da identidade cultural negra sem experimentar o trauma dessa identidade racial.

Obama é um pouco diferente. Ele conta que tirou sangue do nariz de um garoto branco que o chamou de “neguinho”; que respondeu enfurecido às observações racistas de um professor de tênis; que se ofendeu quando uma branca disse ao síndico do prédio onde morava que ele costumava segui-la. Mas os traumas que marcaram os afro-americanos da sua geração – surras de policiais racistas, escolas mais pobres, a vida dura num conjunto habitacional – eram quase todos abstratos para ele. Além disso, o tipo de restrição espacial que a maioria dos negros experimenta desde cedo – ser reprimido por andar onde não devia – não ocorria em sua vida. Ao contrário, Obama era dono de um passaporte com muitos carimbos e teve acesso a escolas particulares de elite – marcas de outras identidades, outras vidas e outros mundos, em que a linha divisória da cor não era decisiva nem especialmente relevante. Obama podia ter se transformado num cosmopolita sem raça. Claro que teria enfrentado um mundo de problemas, mas problemas que não o afetavam.

Em vez disso, resolveu entrar neste mundo.

 

“Sempre achei que ser preto era bacana”, ele me contou numa viagem. Estava no Air Force One, a gravata folgada, as mangas arregaçadas. “Ser negro não era algo a evitar, mas uma coisa a assumir. Os motivos disso, eu acho, são complexos. Em parte, é porque eu sempre achei que minha mãe gostava dos negros, e quando sua mãe ama e valoriza você – e diz que você é bonito e inteligente – da maneira como você é, você não fica se perguntando ‘Como faço pra me livrar disso?’. Você gosta de ser como é.”

Para Obama, assumir a condição de negro na infância foi uma atitude estimulada, e não dificultada, pelos brancos. Sua mãe lhe contava a história dos negros e falava sobre a cultura dos afro-americanos. Stanley, seu avô, originário do Kansas, acompanhava o menino aos jogos de basquete na Universidade do Havaí, além de levá-lo a bares frequentados por negros. Stanley apresentou o jovem Obama ao escritor negro Frank Marshall Davis. E o estímulo também era indireto. Obama se lembra de ter compreendido, ao ver o avô naqueles bares frequentados por negros, que “a maioria dos presentes não estava lá por escolha própria”, e que “nossa presença parecia um pouco forçada”. Da vida de muitas viagens de sua mãe, ele aprendeu a valorizar a importância de ter um lar.

Essa suspeita de falta de raízes se estende por seu livro de memórias. Obama descreve a integração como uma “rua de mão única”, em que os negros precisam abandonar quem são em troca do pleno usufruto do que a América tem de melhor. Diante de uma jovem de nome Joyce, colega de turma de raça mista e olhos verdes que insistia em dizer que não era “negra”, mas “multirracial”, Obama reage com sarcasmo. “Era este o problema de pessoas como Joyce”, escreveu. “Falavam com muito orgulho da riqueza de seu legado multicultural, mas aí você percebia que evitavam o convívio com os outros negros.” Algumas páginas adiante, Obama conta que se apaixonou por uma mulher branca. Durante uma visita à casa de campo da família dela, entrou na biblioteca, repleta de fotos de parentes ilustres. Em vez de se admirar, Obama percebeu que ele e ela viviam em mundos diferentes. “E entendi que, se fôssemos ficar juntos, eu acabaria tendo de viver no mundo dela”, ele conta. “Entre nós dois, eu era o único que sabia viver como alguém de fora.”

Depois da faculdade, Obama encontrou um lar, além de certa identidade, dedicando-se ao trabalho comunitário no South Side de Chicago.[20] “Quando comecei esse trabalho, minha história se mesclou a uma história mais ampla. O que acontece naturalmente no caso de um John Lewis”, ele me disse, referindo-se ao herói dos direitos civis e deputado democrata. “E acontece mais naturalmente para você. Para mim, não foi tão óbvio. ‘Como é que posso reunir esses fios diferentes: Quênia, Havaí e Kansas, branco e preto e asiático – como é que isso tudo se encaixa?’ Pela ação, pelo trabalho, de repente me vi como parte do processo mais amplo de, sim, promover a justiça, mais especificamente para a comunidade do South Side de Chicago, o pessoal de baixa renda – justiça em prol da comunidade afro-americana. E, ao mesmo tempo, passava para a frente minhas ideias de justiça, igualdade e empatia, que minha mãe tinha me ensinado que eram universais. Assim, eu me vi numa posição em que podia entender essas partes essenciais da minha pessoa não como elementos separados, diferentes das de qualquer comunidade em particular, mas conectados a todas as comunidades. E pude me enquadrar na luta afro-americana pela liberdade e justiça no contexto de uma aspiração universal por liberdade e justiça.”

Ao longo da campanha de Obama em 2008, e durante seus dois mandatos, essa atitude foi crucial para ter o apoio da comunidade negra. Os afro-americanos, fartos dos indivíduos superbem-sucedidos que se distanciavam de suas raízes negras, entenderam que Obama pagara um alto preço por se definir como “negro” no formulário do recenseamento e por levar uma vida de negro; por receber na Casa Branca o rapper Common; por responder espanando os ombros às ofensas sofridas durante as primárias; por ter casado com uma mulher com a aparência de Michelle Obama. Se o gênero feminino já se vê obrigatoriamente submetido à avaliação constante e a difamações ocasionais por parte dos homens, as mulheres negras são ainda mais excluí-das daquilo que a sociedade americana considera belo. Mas Michelle Obama tem o tipo da beleza dos negros que sabem que são belos. Sua projeção como primeira-dama atua diretamente como antídoto para o veneno que deprecia as meninas negras desde o momento em que folheiam a primeira revista ou ligam a televisão.

 

Pode-se dizer que o South Side de Chicago, onde Obama começou sua carreira política, é a sede da vida política negra de mais proeminência e com mais história do país. Além de Oscar Stanton De Priest, o primeiro afro-americano eleito para o Congresso no século XX, o South Side produziu o primeiro prefeito negro, Harold Washington, eleito em 1983; Jesse Jackson, que concorreu duas vezes à Presidência dos Estados Unidos; e Carol Moseley Braun, a primeira afro-americana a vencer uma eleição para o Senado. Essas vitórias ajudaram a ascensão de Obama. Harold Washington lhe serviu de inspiração, e sua presença domina o trecho do livro dedicado a Chicago.

Harold Washington forjou o tipo de coalizão ampla que Obama mais tarde viria a construir em escala nacional. Mas conseguiu esse feito em meados da década de 80, numa Chicago segregada; à diferença de Obama, ele nunca experimentou o luxo de ser negro com um mínimo de trauma. “Harold tinha uma aspereza que assustava alguns eleitores brancos”, me disse recentemente David Axelrod, que trabalhou tanto para Washington quanto para Obama. Axelrod se lembra de ter sentado a uma mesa de reunião com Harold Washington depois da vitória das primárias do Partido Democrata para sua reeleição em 1987, pouco antes de uma coletiva de imprensa. O prefeito perguntou que porcentagem de votos dos brancos tinha conquistado. “E alguém respondeu: ‘Bem, foram 21%. O que não é mau, porque da última vez, em sua campanha para a prefeitura em 1983, foram só 8%’”, lembra Axelrod. “Harold deu um meio sorriso triste e disse: ‘Sabe, devo ter passado 70% do meu tempo nas áreas de maioria branca, e acho que tenho sido um bom prefeito para todo mundo; aí recebo 21% dos votos dos brancos, e a gente acha bom.’ Então, sacudiu a cabeça e disse: ‘Não é mesmo uma merda ser preto nessa terra?’”

“Harold era assim. Ele sentia essas coisas. Lutou num batalhão só de negros na Segunda Guerra Mundial. Enfrentou as dificuldades de seu tempo – e isso, mais as indignidades que você precisava encarar ao lidar com a máquina, realmente deixou marcas nele.” Durante sua campanha para a prefeitura em 1983, Washington foi estrepitosamente vaiado na porta de uma igreja, na parte noroeste da cidade, por brancos de classe média de origem polonesa, italiana e irlandesa, que temiam ser desalojados pelos negros. “Foi tão feio e cruel quanto o tipo de coisa que acontecia antigamente no Sul”, disse Axelrod.

As relações de Obama com a tradição do South Side representada por Harold Washington eram complicadas. Como Washington, Obama tentou forjar uma coalizão entre os negros do South Side e a comunidade mais ampla. Mas Obama, a despeito de sua adesão aos costumes culturais dos negros, ainda era, com suas raízes no Kansas e no Havaí, com suas credenciais de Harvard e seus laços com a Universidade de Chicago, um sujeito meio exótico, um forasteiro. “Olhavam para ele com certo ceticismo”, disse Salim Muwakkil, jornalista que cobre Obama desde antes de sua eleição para o Senado estadual de Illinois. “Chicago é uma comunidade insular, e para todos os efeitos ele tinha vindo de lugar nenhum.”

E a desconfiança que cercava Obama aumentou quando ele se recusou à humilhação de se alinhar às correntes políticas do South Side. “Muitos políticos, sobretudo os negros, não confiavam nele”, declarou-me recentemente Kaye Wilson, madrinha das filhas de Obama e uma das primeiras a dar apoio político ao presidente.

Ainda assim, embora muita gente na comunidade política negra demonstrasse ceticismo em relação a Obama, outros o estimulavam – às vezes, inclusive, quando votavam contra ele. Ao perder as primárias do Partido Democrata para Bobby Rush, o candidato afro-americano que representava o Primeiro Distrito Congressional de Illinois, o futuro presidente, à época ainda pouco conhecido, atribuiu sua derrota mais à pouca idade do que a seu exotismo. “Saí para falar com as pessoas, bati à porta das casas e tudo o mais, e uma parte das avós, que eram as pessoas com quem eu trabalhava em questões comunitárias, não me jogava na cara que eu era ‘Harvard demais’ ou ‘Hyde Park demais’, nada disso”, Obama me disse. “Diziam: ‘Você é um jovem ótimo e ainda vai fazer muitas coisas boas. Só precisa ser paciente.’ Por isso não me senti rejeitado pelos negros. Para mim, a derrota ensinou que ‘a política é dura em qualquer lugar’. Sobretudo em Chicago. E ser acolhido pelos afro-americanos é difícil, dada a lealdade que sentem por quem já está na atividade há mais tempo.”

Quando Obama concorreu ao Senado em 2004, ou à Presidência em 2008, não havia ninguém competindo em matéria de lealdade. Ele não concorria com outros afro-americanos, era o representante deles. “E tinha a condição híbrida que o tornava aceitável aos partidários das reformas”, disse o jornalista Muwakkil.

 

Obama concorreu ao Senado duas décadas depois da morte de Harold Washington. Axelrod acompanhou a votação justamente na área onde Washington tinha sido vaiado pelos brancos de Chicago. “Entre oito candidatos ao Senado, Obama conquistou quase toda a área noroeste da cidade, e aquela área em particular”, ele disse. “E eu pensei: ‘Harold deve estar feliz hoje à noite.’”

Obama acredita que sua vitória na disputa de uma cadeira no Senado estadual foi um prenúncio significativo do que ocorreria em 2008. “Em termos demográficos, Illinois é o estado mais representativo do país”, ele me disse. “Se você pegar as porcentagens de negros, brancos e latinos; do contingente urbano e rural da população; da atividade agrícola e industrial – se fizer esses cortes no país inteiro e reduzir na mesma proporção, vai ter Illinois.”

E Illinois de fato permitiu que Obama disputasse uma preliminar particularmente dura antes da grande disputa de 2008. “Quando concorri ao Senado, precisei ir ao sul do estado de Illinois, ao interior, às comunidades agrícolas – muitas com histórias raciais complicadas, com áreas onde simplesmente não havia nenhum afro-americano”, disse Obama. “E, quando ganhamos essa disputa – não só um afro-americano de Chicago, mas um afro-americano com uma história peculiar e chamado Barack Hussein Obama –, ficou claro que eu poderia significar alguma coisa para um público muito mais amplo.”

A combinação da “condição híbrida” de Obama com os novos tempos lhe permitiu ampliar seu apelo para além dos bairros de maioria branca em Chicago, para além de localidades no interior do Illinois e para o país como um todo. “Ben Nelson, um dos democratas mais conservadores do Senado, de Nebraska, chamou apenas um democrata de outro estado para participar da sua campanha”, lembrou Obama. “E escolheu a mim. Em parte, decidi concorrer à Presidência em 2008 porque havia passado dois anos reunindo multidões por todo o país – e não de maioria afro-americana, mas em lugares bem distantes, ou mesmo improváveis. Não foi só nas grandes cidades ou nem só nos enclaves liberais. Assim, eu fui me convencendo de que seria possível.”

O que essas multidões viam era um candidato negro totalmente diferente de todos os outros. Lembrar que sua mãe era branca, ou seu pai era africano, ou mesmo que fora criado no Havaí, não definia nada. Para a maioria dos afro-americanos, os brancos existem como uma força direta ou indiretamente ativa em favor do mal em suas vidas. A birracialidade não protege ninguém, muitas vezes só piora. O que se mostrou crucial para Barack Obama não foi ser filho de negro com branca, mas que sua família branca tenha aprovado a união e acolhido a criança que dela resultou. E isso em 1961 – época em que o sexo entre homens negros e mulheres brancas, em grandes áreas do país, era não só ilegal como ainda punha em risco a vida dos envolvidos. Mas esse perigo não faz parte da história de Obama. Os primeiros brancos com quem conviveu, as pessoas que o criaram, tinham uma atitude decente que poucos negros de sua época vieram a conhecer.

Perguntei a Obama como ele encarava a maneira incrivelmente civilizada como seus avós receberam seu pai. “Ele não era nenhum Harry Belafonte[21]”, disse Obama sobre o pai, entre risadas. “Era um africano de verdade. Azul de tão preto… Nilótico. Por isso, nunca vou me cansar de dar o devido crédito a meus avós. Não estou dizendo que ficaram felizes com a situação. E nem que, depois que o sujeito foi embora, eles não tenham se perguntado: ‘Como assim?’ Mas as apreensões que podem ter tido nunca chegaram a mim, nunca afetaram a maneira como interagiam comigo. Boa parte disso, como digo no livro, se deve ao ambiente singular do Havaí, onde acho que tudo foi bem mais fácil. Não sei se teria sido assim se na época eles morassem em Chicago, porque no Havaí as linhas divisórias não eram tão nítidas quanto no continente.”

 

A natureza positiva das primeiras interações de Obama com os membros brancos de sua família acabou por lhe dar uma visão de mundo basicamente diferente da que teve a maioria dos negros na década de 60. Obama me contou que raramente “precisava recorrer à premissa da discriminação, raramente pensei que os brancos não me tratariam de maneira justa ou me negariam alguma oportunidade, ou deixariam de me avaliar com base no mérito”. E continuou: “Esse tipo de premissa” – de que os brancos o tratariam de forma discriminatória ou o tratariam mal – “está muito menos presente na minha psique do que, por exemplo, na de Michelle.”

Nesse sentido, a primeira-dama é mais representativa da América negra do que seu marido. Os afro-americanos costumam criar seus filhos recomendando que se protejam de uma hostilidade básica por parte de professores, policiais, superiores e colegas brancos no ambiente de trabalho. A necessidade dessa defesa é, na maioria das vezes, reforçada diretamente pelos fatos ou, indiretamente, pela observação das vastas diferenças entre as experiências da própria pessoa e as das pessoas do outro lado da fronteira da cor. Marty Nesbitt, o melhor amigo do presidente há muitos e muitos anos – que, como Obama, teve interações positivas com brancos numa idade relativamente tenra –, me contou que, quando ele e sua mulher foram comprar o primeiro carro do casal, ela teimou que o vendedor deveria ser negro. “Eu disse que íamos falar com o primeiro que aparecesse”, conta Nesbitt, “e ela fez questão de esperar pelo negro. Argumentei que ele estava ocupado, preenchendo os documentos de outro comprador, e ela fincou pé. Aí um vendedor branco veio falar conosco. ‘Posso ajudar?’ ‘Não.’” Nesbitt não conta sua história para condenar ninguém. Só estava afirmando que “a disposição dos afro-americanos de Chicago para se ajudarem uns aos outros é poderosa”.

Mas essa disposição é também uma defesa, produzida por décadas de discriminação. Obama vê a raça sob um prisma diferente, disse Kaye Wilson. “A visão dele é muito diferente da nossa”, explicou. “Ele tem amigos brancos, que são bons amigos e o adoram. E não acho que gostem dele porque seja o presidente dos Estados Unidos. Eles o adoram porque são amigos dele desde o Havaí, alguns desde o tempo da escola. Ele tem isso, enquanto eu acredito que ter crescido em meio ao racismo dos Estados Unidos nos fez entrar nessa coisa com alguma desconfiança: ‘Estou de olho em você. Não acredito que você vai ser 100% comigo.’ E acho que ele cresceu de um modo que o fez confiar – como é que você pode viver debaixo do mesmo teto de outras pessoas e não acreditar no amor delas por você? Ele precisa dessas referências. Precisa desse prisma. Se não fosse por ele, seria só… um Jesse Jackson, sabe como é? Ou um Al Sharpton.[22] Prismas totalmente diferentes.”

Esse prisma, literalmente devido a seu parentesco com brancos, permitiu que Obama imaginasse que poderia ser o primeiro presidente negro do país. “Se eu entrar numa sala e encontrar um grupo de fazendeiros brancos, sindicalistas brancos, homens de meia-idade – eu não entro pensando ‘Cara, preciso mostrar para eles que sou normal’”, explicou Obama. “Acho que entro com outras premissas, tipo: essas pessoas são iguais a meus avós. E vejo a mesma gelatina colorida que minha avó servia, e elas têm, sabe como é, os mesmos bibelôs. Então pode ser que acabem desarmados, porque eu simplesmente imagino que esteja tudo bem.”

O que Obama podia oferecer à América branca era algo que pouquíssimos afro-americanos tinham – confiança. Em nossa vasta maioria, nossas defesas nos limitam tanto que sequer temos condições de cogitar isso. Mas Obama, graças à sua combinação de conexões familiares e distância dos efeitos mais tóxicos da discriminação, pôde autêntica e sinceramente confiar na população majoritária do nosso país. Uma confiança que é reforçada, e não contestada, por sua negritude. Obama não se rebaixa diante do poder dos brancos (como Herman Cain em seu apoio a Trump) nem corteja o ego dos brancos (como o. j. Simpson, que considera um grande feito não ser visto como negro). Essas também são atitudes defensivas e, no fundo, acredito que os brancos saibam disso. Obama se posiciona com firmeza do lado de suas tradições culturais e transmite ao país algo que virtualmente nenhum outro negro poderia dizer, mas precisa ser dito por todo e qualquer presidente: “Acredito em vocês.”

 

 

IV.
“VOCÊ AINDA PRECISA VOLTAR PARA O SEU BAIRRO”

Ainda nas primeiras semanas de outubro, acompanhei o presidente e sua imensa comitiva a uma visita à Universidade AT&T da Carolina do Norte, em Greensboro. Três dias antes, o Washington Post havia divulgado um antigo áudio em que Trump lamentava uma conquista sexual frustrada e louvava as virtudes de uma atitude agressiva nesse departamento. No dia seguinte à notícia, Trump alegou que aquilo era “conversa de vestiário”. Enquanto voávamos para a Carolina do Norte, o presidente se mostrava pasmo, custava a acreditar naquilo. Desabou numa poltrona na cabine do Air Force One e disse: “Já andei por muitos vestiários. Acho que nunca ouvi uma história dessas.” Estava tranquilo e falava em tom descontraído.

Uma sensação de “está no papo” emanava de seus assessores, e por que não? Cada dia parecia trazer uma revelação, um indício mais chocante que demonstrava como Trump não estava à altura da Presidência. Tinha perdido 1 bilhão de dólares num único ano. Tudo indicava que nos últimos dezoito anos não havia quitado seus impostos. Tinha fundado uma “universidade” que estava sob investigação. Contradizia as mensagens de sua própria campanha, empreendendo, pelo Twitter, uma perseguição implacável contra uma ex-concorrente de um concurso de beleza. Vinha sendo desautorizado por lideranças importantes de seu próprio partido, e o número de republicanos notáveis – com ou sem mandato – que o repudiava publicamente ameaçava se transformar num verdadeiro gêiser. Àquela altura, a ideia de que uma campanha tão saturada de preconceito, misoginia, caos e possível corrupção pudesse vencer uma eleição era francamente ridícula. Afinal, estávamos na América.

O presidente ia à Carolina do Norte falar num comício da campanha de Hillary Clinton, mas antes tinha uma conversa agendada sobre as medidas que propunha em favor dos jovens desprivilegiados, o programa conhecido como My Brother’s Keeper [O Guardião do Meu Irmão]. Ao anunciá-lo em 2014, o presidente tentara desvinculá-lo de uma iniciativa partidária, assinalando que não se tratava de “um novo grande programa de governo”. Na verdade, o governo se associava ao setor empresarial e a organizações sem fins lucrativos, com a finalidade de interceder na vida de jovens negros que se encontrassem “em risco”. O programa funciona como uma espécie de rede que conecta instâncias do governo federal, estadual e local que já tenham presença na vida desses jovens. É um programa com a marca típica de Obama – conservador em suas aspirações, mas com impactos mensuráveis.

“O programa saiu direto da experiência de vida dele”, afirmou o dirigente da iniciativa, Broderick Johnson, secretário do Gabinete e assessor do presidente. “Ele disse que não queria organizar só foros de discussão sobre raça. Sempre diz que é possível falar sobre isso, mas quer saber o que pode ser feito.” Naquela tarde, na Carolina do Norte, o que Obama fez foi reunir-se com um grupo de jovens que tiveram suas vidas profundamente afetadas pelo programa. Contaram que viviam na rua, preferiam ganhar algum dinheiro rápido a frequentar a escola, tinham a casa alvejada por tiros. Com a ajuda de iniciativas de apoio aos estudos ou de busca de empregos patrocinadas pelo programa, chegaram à faculdade ou conseguiram um emprego. Obama ouviu cada um com ar solene e muita empatia. “Não é preciso muita coisa”, ele disse aos jovens. “Basta alguém lhes dar a mão e dizer que ‘vocês também são importantes’.”

Quando perguntou se eles tinham alguma mensagem que devesse ser encaminhada aos tomadores de decisões da capital, um dos jovens observou que, apesar dos esforços de cada um, eles ainda voltavam para as mesmas áreas carentes que eram a origem de todos os seus problemas. “É o nosso lugar”, disse um rapaz. “Independente do que faça, você acaba voltando para o seu bairro.”

E tinha razão. Os guetos da América são consequência direta de décadas de decisões de políticas públicas: a delimitação de certas zonas nas áreas residenciais, a autoridade cada vez maior concedida aos promotores, as verbas crescentes dedicadas às prisões. E tudo isso por causa de negros ainda aparvalhados com o legado de 250 anos de escravidão. E os resultados desses investimentos negativos são claros – segundo quase todos os critérios socioeconômicos, os afro-americanos se encontram entre a parcela mais baixa da população americana.

 

A fórmula que Obama prega para reduzir o fosso entre a América branca e a América negra, a exemplo de muitos outros políticos progressistas da atualidade, deriva de medidas voltadas para a América como um todo. E os benefícios dessas medidas para os negros são desproporcionais, na medida em que suas carências são igualmente desproporcionais. O Affordable Care Act, também conhecido como Obamacare, que reduziu em pelo menos um terço a porção da comunidade negra desprovida de seguro-saúde, foi o exemplo mais notável no caso de Obama. Mas seus benefícios para os afro-americanos ainda não foram plenamente sentidos, pois vários estados do Sul ainda não decidiram ampliar o Medicaid.[23] Mas no momento em que o presidente e eu nos encontrávamos, os defensores do Affordable Care Act acreditavam que a pressão sobre os orçamentos estaduais forçaria a expansão do Medicaid, e havia indícios que confirmavam essa ideia: Louisiana tinha ampliado o Medicaid no início de 2016, e os defensores da medida se preparavam para verdadeiras guerras na Georgia e na Virginia.

O presidente enfatizava a necessidade de fortalecer o Departamento de Justiça, e comprometê-lo profundamente com a não discriminação. Quando Obama se instalou na Casa Branca, em 2009, a Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça estava “reduzida a escombros”, me disse recentemente o ex-procurador-geral Eric Holder. “Eu trabalhava lá havia doze anos, como funcionário comum. Comecei em 1976 – servi tanto sob o comando de republicanos quanto de democratas. E o que o governo de George W. Bush fez, o que aconteceu com o Departamento de Justiça na presidência de Bush, foi uma distribuição política dos cargos de direção, uma coisa sem precedentes.” Os funcionários de carreira abaixo dos dirigentes nomeados, contou Holder, não eram sequer convidados às reuniões em que se discutiam decisões fundamentais sobre contratações e medidas a tomar. Depois da posse de Obama, disse Holder, “eu me lembro de ter dito a todo mundo, na Divisão de Direitos Civis, que o departamento ‘estava aberto de novo’. E o presidente me concedeu mais fundos para contratar pessoal”.

Comentaristas políticos desenvolveram uma narrativa segundo a qual, como Obama sentia que precisava modular sua retórica sobre a questão da raça, Holder era a consciência autêntica, e portanto mais negra, de seu governo. Holder é sem dúvida mais direto, o que inquietava alguns membros da Casa Branca. No início do primeiro mandato de Obama, ele fez um discurso sobre a questão da raça afirmando que, nessa matéria, os Estados Unidos eram “uma nação de covardes”. Mas situar esses dois homens em polos opostos é ignorar um fato fundamental: Holder foi nomeado pelo presidente, e só ia até onde o presidente deixava. Perguntei-lhe se ele se viu obrigado a moderar sua retórica depois daquele discurso polêmico. “Não”, foi a resposta. Refletindo sobre sua relação com o presidente, Holder disse: “Somos pessoas de tipos diferentes, sabe? Ele é um cara mais zen. E eu sou o antilhano de sangue quente. E achei que formávamos uma boa dupla, mas não disse nem fiz nada que ele não pudesse apoiar integralmente. No caso do discurso da ‘nação de covardes’, é bem possível que o presidente usasse outra expressão – é o mais provável. Mas nós temos a mesma visão do mundo, sabe? E quando ouço alguém dizer: ‘Bem, mas você é mais preto que ele’, ou coisa parecida, eu penso comigo: ‘Que diabos esse cara está dizendo?’”

 

Por uma parte considerável de seus mandatos, vários discursos de Obama abordando a questão da raça sempre diziam que os negros precisavam desligar a televisão, parar de comer junk food e deixar de culpar os brancos por seus problemas. E repetia o mesmo sermão para qualquer plateia negra, independente do contexto. Foi bizarro, por exemplo, ver o presidente admoestar os jovens que tinham acabado de se formar na Faculdade Morehouse, uma das instituições para negros mais tradicionais do país, para que não procurassem “desculpas para o fracasso”, nem tentassem pôr a culpa nos brancos.

Esse viés da retórica de Obama é, para mim, o mais perturbador, e o menos questionado. E minha opinião se deve à minha biografia. Sou fruto de pais negros que me estimularam a ler, de professores negros que achavam que minha ética de trabalho não estava à altura do meu potencial, de professores universitários negros que me ensinaram o rigor intelectual. E isso num mundo que dia após dia insultava a humanidade deles. Não que os preguiçosos e os letárgicos negros que Obama invocava em seus discursos não fossem reconhecíveis. Conheci gente assim. Entre brancos também. Se havia uma super-representação de negros entre traficantes de drogas e pais ausentes, isso tem relação direta com o fato de estarem sub-representados entre os Bernie Madoffs e os Kenneth Lays.[24] O que importa é o poder, e o que caracteriza as distinções entre a América negra e a América branca não é uma diferença na ética do trabalho, mas um sistema organizado de forma a situar uma em posição superior à outra.

As marcas desse sistema são visíveis em todos os níveis da sociedade americana, independente das escolhas de cada um. Por exemplo, a taxa de desemprego entre os negros com diploma de graduação (4,1%) é quase a mesma que entre os diplomados brancos (4,6%).[25] Mas esse diploma custa bem mais caro para os negros. De acordo com uma pesquisa da Brookings Institution, os afro-americanos continuam arcando com mais dívidas de crédito estudantil quatro anos depois da formatura (53 mil dólares contra 28 mil) e sofrem de uma taxa de inadimplência maior em seus empréstimos do que os americanos brancos (7,6% contra 2,4%). Isso é tanto consequência quanto fator de perpetuação de um abismo econômico cada vez maior entre as raças. As residências das famílias brancas, em média, contêm sete vezes mais bens que os lares negros – a diferença é tamanha que a comparação entre “classe média negra” e “classe média branca” perde qualquer sentido: as duas não são comparáveis. Segundo Patrick Sharkey, sociólogo da Universidade de Nova York que estuda a mobilidade econômica, as famílias negras que ganham 100 mil dólares ou mais por ano vivem em áreas mais desfavorecidas que famílias brancas com renda abaixo de 30 mil. E essa diferença não surgiu por mágica: resulta de um esforço governamental de décadas no sentido de promover a pigmentocracia – que continua a existir sem necessidade de intervenção explícita.

Consta que Obama se opõe às reparações.[26] Mas agora, no final de seu segundo mandato, parecia mais receptivo à ideia – pelo menos em teoria, embora não na prática.

“Teoricamente, é óbvio que você pode defender, com justiça, que séculos de escravidão, políticas segregacionistas e discriminação são a causa primária de todas essas diferenças”, disse Obama, referindo-se às desigualdades profundas em termos de educação, riqueza e emprego que separam as Américas negra e branca. “Que esses males atingiram a comunidade negra como um todo, especificamente as famílias negras, e que, a fim de mitigar essa diferença, nossa sociedade tem a obrigação moral de fazer investimentos amplos e agressivos, se não sob a forma do pagamento de cheques individuais de reparação, na forma de um Plano Marshall.”

Os problemas políticos para concretizar os argumentos em favor das reparações são muitos, disse Obama. “Se você olhar para países como a África do Sul, de maioria negra, vai ver que houve medidas fiscais para ajudar essa maioria, mas que não integraram um programa formal de reparação. Há países como a Índia, que tentou ajudar os intocáveis, essencialmente por meio de programas de ação afirmativa, mas sem mudar a estrutura fundamental das suas sociedades. Em suma, é difícil encontrar um modelo que possibilite administrar na prática, e de maneira sustentável, um apoio político para esse tipo de esforço.”

Obama disse em seguida que seria melhor, e mais realista, arregimentar o país em favor de uma agenda liberal sólida, e então avançar, com base no progresso assim obtido, e fazer os brancos aceitarem a não discriminação como uma premissa operacional básica. Mas o progresso no sentido da não discriminação nunca apareceu da noite para o dia. Foi sempre conquistado por pessoas dispostas a conduzir uma discussão impopular e frequentar uma zona limítrofe da opinião pública. Perguntei ao presidente se não valeria a pena – a despeito dos obstáculos práticos – reafirmar que o Estado tem uma responsabilidade coletiva não só pelo que realiza, mas também por seus erros.

“Eu quero que as minhas filhas entendam que são responsáveis não apenas pelo que fizeram pessoalmente”, respondeu Obama. “Que elas têm um compromisso com a comunidade mais ampla e o país como um todo, que precisam se mostrar sensíveis e especialmente preocupadas em relação ao sofrimento das pessoas que foram oprimidas no passado, ou ainda são oprimidas nos dias de hoje. É uma ideia que quero transmitir a Malia e Sasha… Mas eu diria que você está propondo que a maioria da sociedade adquira um alto nível de esclarecimento. Pode ser uma coisa para a qual as gerações futuras estarão mais abertas, mas estou convencido de que, no futuro imediato, usar o argumento da não discriminação e dizer ‘vamos acertar a vida dos meninos que estão aí hoje’, dando a eles a melhor oportunidade possível, vai ser mais convincente.”

 

Obama se mostrava invariavelmente otimista quanto à empatia e ao potencial do povo americano. E precisava disso para seu trabalho. “Em algum nível, o que as pessoas querem sentir é que seu governante vê o que elas têm de melhor”, ele me disse. Observei, então, que esse otimismo não se estendia à possibilidade de o público aceitar ideias – como a lógica moral das reparações – que o presidente, segundo ele próprio, aceitava e se dispunha a transmitir para suas filhas. Obama disse que sempre afirmava à sua equipe que “melhor já é bom”. Para um presidente, é apropriada a ideia de tentar aceitar a mudança dentro dos limites do consenso já consagrado. Mas ele se mostrava quase constitucionalmente cético em relação aos que procuram obter mudanças fora desse consenso.

No início de 2016, Obama convidou um grupo de líderes afro-americanos para um encontro na Casa Branca. Quando alguns dos ativistas filiados ao movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam], BLM,[27] se recusaram a comparecer, Obama começou a questioná-los em discursos públicos. “Vocês não podem se recusar a uma conversa alegando que isso poderia comprometer a integridade da posição de vocês”, ele disse. “O valor dos movimentos sociais e do ativismo está em poder sentar a uma mesa de reunião, ter acesso a um gabinete, onde você pode tentar encontrar um meio de resolver os problemas. Nessa hora, é sua responsabilidade preparar uma agenda possível – capaz de institucionalizar as mudanças que você deseja – e tentar convencer quem diverge de você.”

Opal Tometi, ativista comunitária nigero-americana que, junto com Patrisse Cullors e Alicia Garza, fundou o BLM, me explicou que o grupo tem uma estrutura mais difusa que a maioria das organizações que militam em prol dos direitos civis. E um dos motivos é para evitar o culto à personalidade que assolou muitas organizações negras no passado. Assim, as fundadoras do movimento decidiram perguntar aos associados de Chicago, a cidade onde morava o presidente, se deviam se encontrar com Obama. “Eles acharam – e acredito que muitos outros membros também – que a discussão poderia não ter a profundidade que eles pretendiam”, ela disse. “E ainda que, se não havia espaço para uma troca sincera e era tudo superficial, a reunião funcionaria como um desserviço ao movimento.”

Tometi lembrou que outros ativistas aliados ao BLM haviam planejado comparecer ao encontro e que, portanto, o movimento julgava que suas opiniões estariam representadas. Ainda assim, o BLM se considera engajado num protesto contra o tratamento dispensado pelo Estado americano a todos os negros, e por isso Tometi e boa parte da liderança do grupo, temendo que suas fotos fossem usadas pela instituição contra a qual protestavam, optaram por não ir.

Quando perguntei a Obama o que achava dessa postura dos ativistas, ele oscilou entre a compreensão e a mágoa. “Acho que quando me frustrei durante meu governo não foi ao ser pressionado para entender a justeza de uma causa ou a essência de uma questão”, ele disse. “Mas me frustrei quando me vi diante da convicção de que o presidente pode fazer qualquer coisa. E o fato de um ativista não perceber as limitações do sistema político e da natureza do cargo às vezes me fez resmungar baixinho. Foi muito raro eu perder a esportiva em público. Em geral eu me limitava a sorrir.”

Deu uma risada, e depois continuou: “E digo isso porque foi nessas ocasiões que fiquei de fato um pouco magoado. Porque senti vontade de responder: ‘Vocês não acham que, se eu pudesse, já não teria feito isso? Vocês acham que o único problema é que não me preocupo tanto quanto deveria com os pobres ou os gays?’”

Perguntei se a desconfiança dos contestadores em relação aos poderes constituídos não poderia ser saudável. “Sim, pode”, ele respondeu. “E é por isso que não me magoo demais. Quer dizer, acho benéfico manter o poder sob pressão até ver se as promessas vão ser cumpridas de fato. Isso eu entendo e acho importante. Para falar a verdade, às vezes a simples presença dos ativistas é útil para você se manter alerta e não ficar complacente, mesmo que julgue injustas algumas das críticas.”

 

O próprio Obama tem um passado de ativista e militante em organizações comunitárias, embora de apenas dois anos – mas não tem um temperamento contestador. Obama é um construtor de consensos; para ele, o consenso é que produz resultados. Entende a força emocional do protesto, a necessidade de extravasar diante da autoridade – mas esse não é o tipo de abordagem que lhe ocorre naturalmente. No que diz respeito às reparações, ele disse: “Às vezes me pergunto em que medida essas discussões têm a ver com o desejo, um desejo legítimo, de que toda essa história seja reconhecida. Porque o reconhecimento tem uma força psíquica que não pode se satisfazer com um programa universal de ajuda; não se satisfaz com a mudança do sistema de saúde, nem com a expansão de subsídios aos universitários ou restituições maiores sobre os impostos pagos.” Programas desse tipo, embora eficazes e benéficos para os negros em proporção bem maior que para os brancos, não “respondem à mágoa, à sensação de injustiça e à insegurança produzida pela desvantagem em que ainda vivem os afro-americanos. Às vezes, até nos convencem de que devemos ter mesmo algum tipo de problema – a menos que cada um seja capaz de olhar para a história e dizer: ‘É impressionante termos chegado até aqui, com tudo que tivemos de enfrentar.’ Assim, as discussões que tenho com os defensores de programas voltados especificamente aos negros não têm tanto a ver com a viabilidade prática, mas, talvez, com outra ideia: ‘Queremos que a sociedade veja o que aconteceu, elabore um juízo a respeito e responda com medidas palpáveis.’ Entendo perfeitamente esses impulsos – mas minha esperança, no mundo para o qual nos encaminhamos hoje, é de que conseguíssemos essa paz psicológica ou emocional vendo, de forma muito concreta, que nossos filhos estão com uma vida melhor, com mais esperança e melhores oportunidades”.

Obama vislumbrava – pelo menos naquele momento, antes da eleição de Donald Trump – um caminho em linha reta que levasse diretamente a este mundo. “Experimente raciocinar da seguinte maneira”, ele me disse. “Imagine uma educação eficaz e de alta qualidade para cada criança desde o começo da infância, e de repente todas as crianças negras da América – e também todas as crianças pobres brancas ou latinas, mas vamos ficar só com as crianças negras – começam a receber uma educação excelente. E concluem o ensino médio na mesma proporção dos jovens brancos, e entram na faculdade também na mesma proporção, podendo arcar com os custos porque o governo mantém programas universais que impedem que a condição financeira dos pais possa barrar o acesso à universidade. E aí eles começam a se formar. E vamos supor também que o Departamento de Justiça e os tribunais garantam, como eu já disse num discurso, que o currículo de Jamal seja recebido pelos empregadores da mesma forma que o de Johnny. Será que assim vamos ter o mesmo número de dirigentes de empresa, de bilionários etc. que a comunidade branca? Em dez anos? É provável que não, talvez nem em vinte. Mas garanto que estaríamos prosperando, estaríamos começando a dar certo. Não teríamos mais um enorme contingente de jovens afro-americanos nas cadeias. Teríamos a formação de mais famílias à medida que as jovens com diploma universitário conhecessem rapazes com formação equivalente, o que por sua vez iria garantir que a próxima geração de crianças cresceria em condições muito melhores. E de repente temos toda uma geração apta a canalizar a incrível criatividade que podemos ver na música, nos esportes e, até para ser sincero, nas ruas, em empreendimentos de todo tipo. E me sinto bem otimista em relação a nossas chances numa situação assim.”

Mas acontece que não consigo imaginar esses desdobramentos. Os programas que Obama apadrinhou também favorecem a América branca – e, sem um compromisso específico com a igualdade, não há garantia de que vão compensar a discriminação. A solução de Obama depende de uma boa vontade que sua história pessoal lhe diz existir no país. Mas a minha história diz outra coisa. O número de negros presos, por exemplo, não se deve apenas à insuficiência de iniciativas políticas, mas ao fato de esses homens não serem vistos como seres humanos.

Quando o presidente Obama e eu tivemos esta conversa, o ponto que ele visava atingir me parecia a várias gerações de distância, e hoje – enquanto o presidente eleito Trump se prepara para a posse – me parece a uma distância maior ainda. As realizações de Obama foram reais: mais de 1 bilhão de dólares pagos em compensações para agricultores negros, um Departamento de Justiça que expôs a roubalheira municipal em Ferguson, o aumento da oferta de auxílio para estudantes negros (estendida a alguns prisioneiros) e a redução da disparidade entre as sentenças devidas a possessão de crack ou de cocaína,[28]  para falar apenas de algumas delas. Obama também foi o primeiro presidente em exercício a visitar uma prisão federal. Havia uma sensação de que ele estava lançando as bases para a construção de políticas cada vez mais progressistas. Tenho a tentação de dizer que essas bases estão em risco, mas a verdade é que nunca foram sólidas.

 

V.
“ELES MONTARAM NO TIGRE”

O mais grave passo em falso de Obama foi provocado pela melhor de suas ideias. Só Obama, um negro que emergiu da melhor América branca e por isso conseguia confiar sinceramente na América branca, poderia ter tanta certeza de obter um apoio amplo no país. Por outro lado, só um negro com essa mesma biografia poderia subestimar a determinação de seus oponentes em destruí-lo. Num certo sentido, caso seguisse as linhas usuais de atuação presidencial, Obama jamais poderia ser bem-sucedido; precisava de uma parceria, ou parcerias, no Congresso, que pusesse a governança acima dos partidos. Mas precisou lutar muito para conquistar até mesmo alguns de seus aliados. Ben Nelson, o senador democrata de Nebraska que o presidente ajudou a eleger, transformou-se num obstáculo à reforma do sistema de saúde. Joe Lieberman, que ele poupou do revide por parte dos democratas do Senado depois que ele fez campanha para John McCain, o adversário de Obama em 2008, também obstruiu o Obamacare. Entre os republicanos, senadores que pareciam concordar com a agenda de Obama – Chuck Grassley, Susan Collins, Richard Lugar, Olympia Snowe – opuseram-se a ele vezes sem conta.

A obstrução se devia a objetivos políticos estreitos. “Se os republicanos não cooperassem”, Obama me disse, “e se não houvesse uma imagem de cooperação bipartidária e um governo federal operante, o partido não poderia pagar o preço e eles conseguiriam recuperar a maioria no Senado e/ou na Câmara. Não era um cálculo político equivocado.”

Obama não sabe ao certo até que ponto o racismo influiu nesses cálculos. “Eu me lembro de ter assistido à abertura do impeachment contra Bill Clinton, e de Hillary ter sido acusada de matar Vince Foster”,[29] ele disse. “E se eu fosse perguntar a eles, tenho certeza de que diriam: ‘Não, na verdade isso não está acontecendo porque você é negro, mas porque pertence ao Partido Democrata.’”

A hostilidade pessoal, porém, é apenas uma das manifestações do racismo; pode-se dizer que a animosidade mais profunda ocorre no nível da participação política. A configuração mais recente do Congresso contava com 138 membros dos antigos estados confederados.[30] Dos 101 republicanos desse grupo, 96 são brancos e apenas um é negro. Dos 37 democratas, 18 são negros e 15 são brancos. No Congresso, não há democratas brancos vindos do Extremo Sul. As pesquisas de boca de urna realizadas no Mississippi no 2008 constataram que 96% dos eleitores que se definiram como republicanos eram brancos. O Partido Republicano não é simplesmente o partido dos brancos, mas o partido preferido pelos brancos que defendem os privilégios históricos da condição branca. Os pesquisadores Josh Pasek, Jon A. Krosnick e Trevor Tompson constataram que, em 2012, 32% dos democratas sustentavam pontos de vista racistas em relação aos negros, caso de 79% dos republicanos. E essas posturas também podiam se estender aos políticos brancos do Partido Democrata, vistos como representantes do partido dos negros. Estudando as eleições de 2016, o cientista político Philip Klinkner descobriu que a melhor pergunta para captar a inclinação do eleitor era: “Barack Obama é muçulmano?”

Em nossas conversas, Obama disse acreditar que existia um contingente do Partido Republicano sinceramente favorável aos direitos dos estados não racistas. Mas desconfiava que outros fatores pudessem estar envolvidos. “Um conhecimento elementar da história americana mostra que a relação entre o governo federal e os estados sempre esteve amalgamada a atitudes em relação à escravidão, às leis segregacionistas, aos programas de combate à pobreza e à distribuição de seus recursos”, ele disse.

“Por isso, procuro não atribuir apenas à questão da raça alguma resistência particular, ou hostilidade ou qualquer oposição. Mas acredito que, se você não viu nenhum problema quando seu pai recebeu dinheiro do governo federal, quando certas comunidades do Tennessee tiveram acesso à energia elétrica, quando se construiu um sistema de autoestradas interestaduais, quando o GI Bill[31] foi instituído, quando a suburbanização foi subsidiada, e você acha que tudo isso contribuiu para criar riqueza e consolidar uma classe média. E de repente, assim que afro-americanos ou latinos querem dispor dos mesmos mecanismos de apoio para ascender à classe média, você manifesta uma oposição violenta a eles, então você precisa pelo menos se perguntar se está sendo de fato coerente, qual é a diferença e o que teria mudado.”

 

Obama enfrentou o racismo em todas as suas campanhas, tanto na disputa das primárias quanto nas eleições presidenciais de 2008. Circularam fotos do candidato em trajes somalis. O radialista Rush Limbaugh o apelidou de “Barack, o Negro Mágico”. O lobista e consultor político Roger Stone, que mais tarde se tornaria conselheiro da campanha de Trump, afirmou que, numa certa fita de áudio, era possível ouvir Michelle Obama gritando: “É um branco azedo!” Detratores divulgaram e-mails noticiando que a futura primeira-dama tinha escrito uma dissertação de fim de curso claramente racista, durante seus estudos em Princeton. Um quinto de todos os eleitores da Virginia Ocidental, nas primárias democratas de 2008, admitiu abertamente que seus votos tinham sido influenciados pela questão da raça. Naquele estado, Hillary Clinton trucidou Obama: obteve 67% dos votos, enquanto ele teve 26%.

Depois que Obama conquistou a Presidência, o tráfego do website Storm-front, defensor da supremacia branca, aumentou seis vezes. Ainda antes das eleições, em agosto,  dias depois da Convenção Nacional Democrata, o FBI descobriu um plano de assassinato tramado por supremacistas brancos em Denver. As grandes publicações conservadoras ventilaram que as memórias de Obama eram “penetrantes e bem escritas demais” para serem de autoria do candidato, e encontraram um ghost-writer plausível no radical (e branco) Bill Ayers.[32]

Um clube feminino republicano da Califórnia distribuiu “Dólares de Obama”, ilustrados com melancias, costelas e pedaços de frango frito.[33] Naquele ano, no Values Voter Summit, conferência de ativistas conservadores realizada anualmente em Washington, os participantes ganharam uma caixa de “Obama Waffles”, estampada com uma caricatura do candidato com os olhos esbugalhados. Letras falsas de hip-hop apareciam nas laterais da embalagem (“Barry’s Bling Bling Waffle Ring”)[34] e, na tampa, a mesma caricatura do presidente era repetida, mas com um turbante na cabeça e a legenda “Aponte a caixa para Meca e obtenha waffles mais saborosos”. O patrocinador da conferência, o Conselho de Pesquisas da Família, embargou o “brinde”, mas seu gesto não surtiu muito efeito: o presidente da mesma organização, Tony Perkins, certa vez se dirigiu ao Conselho de Cidadãos Conservadores, dominado por supremacistas brancos, tendo ao fundo a imagem de uma bandeira confederada. Em 2015, Perkins qualificou de “legítimo” discutir sobre a certidão de nascimento de Obama. E afirmou que “fazia sentido” concluir que, na verdade, Obama era muçulmano.

A essa altura, a questão do berço de Obama – inflada em grande parte por Donald Trump, rico empreendedor do setor imobiliário e astro de reality shows – tinha se espraiado entre dirigentes e eleitores republicanos. Em 2015, uma pesquisa constatou que 54% dos eleitores republicanos achavam que Obama era muçulmano. Só 29% acreditavam que ele tivesse nascido nos Estados Unidos.

Ainda assim, em 2008, Obama foi eleito. Todos que o apoiavam comemoraram. Como disse Jay-Z, celebrando a ocasião: O meu presidente é preto, meio branco na verdade,/Mesmo aos olhos de um racista, serve pela metade.

Mas nem isso. Um mês depois de Obama se mudar para a Casa Branca, Rick Santelli, editor e comentarista da rede CNBC, entrou no ar direto da Bolsa Mercantil de Chicago, denunciando os esforços do presidente para ajudar proprietários de imóveis ameaçados pela crise financeira da habitação. “Quantos de vocês querem arcar com a hipoteca do vizinho, que tem um banheiro a mais e não está conseguindo pagar suas contas?”, perguntou Santelli aos investidores reunidos. E afirmou que Obama devia “recompensar as pessoas responsáveis por carregar a água” em vez de favorecer “as pessoas que só bebem a água”, acusando de “perdedores” os clientes em risco de inadimplência. O fator raça estava implícito na peroração de Santelli – a crise da habitação e a política de empréstimos abusivos devastaram comunidades negras e agravaram as diferenças na distribuição de renda –, e sua fala concluía convocando uma “Festa do Chá” (“Tea Party”) para resistir ao governo Obama. Na verdade, os ideólogos de direita já vinham planejando uma resistência havia décadas. E não titubearam em responder à convocação de Santelli.

 

Um dos supostos líderes do movimento Tea Party é Ron Paul, o republicano heterodoxo que por três vezes foi candidato à Presidência, que se opôs à guerra no Iraque e já saiu em defesa das liberdades civis. Noutras questões, Paul é mais conservador. Ao longo da década de 90, publicou uma série de panfletos racistas que se referiam à cidade de Nova York como “Welfaria”.[35] Chamava o feriado que celebra o nascimento de Martin Luther King Jr. de “Dia do Ódio ao Branco”, e afirmava que 95% dos negros de Washington D.C. eram “semicriminosos ou criminosos de fato”. Os apologistas de Paul sustentam que ele não tinha nada a ver com esses panfletos, embora todos tenham sido publicados em seu nome (“O Relatório Ron Paul de Sobrevivência”, “O Relatório Político Ron Paul” e “O Relatório da Liberdade Dr. Ron Paul”) e escritos com sua dicção. Seja como for, as opiniões veiculadas nos panfletos foram repetidas por seus asseclas.

Ao longo de todo o primeiro mandato de Obama, os defensores do Tea Party manifestaram suas queixas em termos racistas. Ativistas exibiam cartazes dizendo que Obama iria implementar a “escravidão branca”, brandiam a bandeira confederada, representavam Obama como um feiticeiro tribal e reivindicavam que ele “voltasse para o Quênia”. Os membros do Tea Party escreveram cartas “satíricas” em nome de “Nós, o Povo de Cor”, e atiçaram as chamas da dúvida quanto ao berço de Obama.

Uma das mais proeminentes simpatizantes do movimento, Laura Ingraham, apresentadora de um programa de rádio, escreveu um panfleto dizendo que Michelle Obama se empanturrava de costelas, enquanto Glenn Beck, outro comentarista de rádio e tevê, dizia que o presidente era “racista”, com “um ódio profundamente arraigado contra os brancos”. O maior expoente do Tea Party, Andrew Breitbart, promoveu uma campanha de difamação contra Shirley Sherrod, a diretora de Desenvolvimento Rural para a Georgia no Departamento de Agricultura, divulgando vídeos claramente deturpados em que ela dava a impressão de se entregar a invectivas racistas contra os brancos. Sherrod acabou demitida. (Num raro ato de pusilanimidade, o governo Obama se acovardou diante dessas pressões.)

Nas poucas ocasiões em que Obama fez algum comentário repudiando o racismo, tempestades de fogo ameaçaram consumir sua agenda de governo. Em julho de 2009, ao desaprovar a prisão do professor de Harvard Henry Louis Gates Jr., o presidente afirmou que o policial tinha agido de maneira “estúpida”. Um terço dos brancos revelou que tal pronunciamento diminuiu seu sentimento favorável em relação ao presidente, e quase dois terços disseram que Obama tinha tomado uma atitude “estúpida” ao comentar o episódio. Um Obama bem mais contido decidiu então deixar claro que suas declarações ligadas à raça não eram meramente reativas, mas visavam obter um efeito. Uma resposta inteligente, mas a censura se manteve mesmo assim.

Durante um discurso de Obama sobre o sistema de saúde numa sessão conjunta do Congresso, Joe Wilson, deputado republicano pela Carolina do Sul, num arroubo incrível, sem precedentes e ofensivo ao decoro, gritou: “Você está mentindo!” Um deputado do Missouri comparou Obama a um macaco. Uma dirigente do Partido Republicano na Califórnia resolveu levar a ideia adiante e enviou a seus amigos um e-mail em que Obama era representado como um chimpanzé, com a legenda: “Agora vocês sabem por que ninguém encontra a certidão de nascimento!” A ex-candidata à Vice-Presidência Sarah Palin afirmou que a política externa do presidente era uma “típica conversa mole para enganar branco”. Newt Gingrich o apelidou de “presidente do auxílio-alimentação”. E os ataques retóricos contra Obama ainda tinham a contrapartida de um ataque muito concreto à sua base política – em 2011 e 2012, dezenove estados implementaram restrições ao voto que complicaram a situação dos eleitores afro-americanos.

Não obstante, em 2012, tal como em 2008, Obama ganhou. Antes das eleições, sempre otimista, tinha afirmado que os republicanos intransigentes acabariam decidindo colaborar com ele em favor do progresso do país. Mas uma colaboração desse tipo não tinha a menor chance de ocorrer. O processo legislativo ficou paralisado, e temas bem conhecidos voltaram a emergir. Um dirigente republicano do estado de Idaho postou uma foto no Facebook mostrando uma armadilha à espera de Obama. A isca era uma fatia de melancia. A legenda dizia: “Extra: O serviço secreto acaba de descobrir um plano para sequestrar o presidente. Mais detalhes a seguir…”

Em 2014, os conservadores se reuniram em apoio ao protesto de Cliven Bundy[36] contra a cobrança de taxas pelo uso de pastagens públicas. Quando os repórteres acorreram ao rancho de Bundy, em Nevada, o dono lhes apresentou suas opiniões sobre “negros”. “Eles abortam seus filhos e põem seus jovens na cadeia porque nunca aprenderam a colher algodão”, explicou Bundy. “E eu sempre me pergunto o que será melhor para eles: viver como escravos, colhendo algodão, tendo uma vida em família e fazendo as coisas, ou viver subsidiados pelo governo? Eles agora não são mais livres do que eram. São menos livres.”

Nesse mesmo ano, depois da morte de Michael Brown,[37] o Departamento de Justiça abriu uma investigação sobre a polícia de Ferguson, Missouri. E encontrou uma cidade em que, mediante a seleção de suspeitos por raça, multas sem justificativa e assédio ilícito, a polícia usava seu poder para explorar os cidadãos. E mais tarde, quando vieram à tona e-mails trocados entre os policiais, revelou-se que a extorsão ainda era coroada por um humor racista. O presidente dos Estados Unidos, que em seu primeiro ano no cargo tinha recebido três vezes mais ameaças de morte que qualquer um de seus predecessores, era um dos alvos prediletos dessas piadas.

 

Muita tinta foi gasta tentando entender os protestos do Tea Party e a candidatura de Donald Trump, que, em última instância, deles emergiu. Uma teoria disseminada entre intelectuais (basicamente) brancos de vários matizes políticos atribui essa reação, em grande parte, aos rosnados de uma classe trabalhadora branca contrariada, ameaçada pela globalização e pelo capitalismo clientelista, o “capitalismo de ação entre amigos”. Confundir esse ressentimento com racismo denotaria uma atitude condescendente em relação a esse proletariado, submetido aos muitos ataques das elites litorâneas, de tecnocratas desalmados e reformadores esnobes. O racismo não seria um fenômeno a ser avaliado fria e empiricamente, mas uma calúnia contra os trabalhadores. A desindustrialização, a globalização e a imensa desigualdade de renda são reais. E, nos Estados Unidos, atingiram as populações negra e latina com força pelo menos equivalente à sentida pelos brancos. Ainda assim, estranhamente, esses outros grupos não estão representados nesse novo populismo.

Christopher S. Parker e Matt A. Barreto, cientistas políticos na Universidade de Washington e na UCLA, respectivamente, encontraram um nexo relativamente forte entre o racismo e o apoio ao movimento do Tea Party. “A atração dos brancos pelo Tea Party é menos motivada por razões materiais do que pelo prestígio social”, dizem eles. A ideia de que o Tea Party representou a ira justa, ainda que desfocada, de uma classe especialmente ultrajada permite que todos – esquerdistas, neoliberais, nacionalistas brancos – contornem uma realidade simples e terrível: uma porção considerável deste país não gostou de ter um presidente negro, e essa porção não é composta por aqueles mais prejudicados por uma fé cega no mercado. Melhor imaginar que os sentimentos contrários ao presidente se deviam ao eco de fábricas em ruínas e sedes sindicais extintas, e não ao que de fato eram – um movimento promovido por ardorosos e assustados capitalistas brancos, irradiando sua raiva a partir da sede da Bolsa de Valores de um dos maiores centros financeiros do mundo.

Esse movimento floresceu no verão de 2015, com a candidatura de Donald Trump, um homem cuja projeção política se deve à insistência no mito racista de que o presidente não era americano. Foi a dúvida quanto ao berço de Obama – não o comércio, não os empregos, não o isolacionismo – que impulsionou a incursão de Trump na disputa eleitoral. Vivendo essa ascensão inesperada, Trump passou toda a campanha dando livre vazão a uma pregação misógina, xenófoba e islamofóbica. E, no dia 8 de novembro de 2016, venceu as eleições presidenciais.

Os historiadores hão de passar o próximo século analisando como um país com tradições democráticas supostamente tão esplêndidas pode ter chegado, em tão pouco tempo e com tamanha facilidade, ao limiar do fascismo. Mas não é preciso forçar muito o raciocínio para concluir que uma campanha de oito anos de racismo às claras e constante, tendo como alvo o líder do mundo livre, deu uma bela força para abrir esse caminho.

“Eles montaram no tigre. E agora o tigre vai devorá-los”, me disse David Axelrod a respeito do Partido Republicano, em outubro último. E suas palavras, afinal, pecavam pelo otimismo. O tigre iria devorar a todos nós.

 

 

VI.
“QUANDO VOCÊ SE FOI, LEVOU TUDO DE MIM COM VOCÊ”

Em maio passado, numa bela manhã de sábado, me juntei ao comboio presidencial que saía pelo portão sul da Casa Branca, diante de uma multidão de maioria branca. À passagem da comitiva, as pessoas aplaudiam, levantavam seus celulares para registrar o momento, acenavam com bandeiras americanas. Estar a poucos metros do presidente parecia a maior emoção da vida delas. Aquilo me impressionou. Uma antiga euforia, que não identifiquei de imediato, foi me tomando. E então lembrei que tinha sentido a mesma coisa durante boa parte de 2008, enquanto assistia à ascensão da estrela de Barack Obama ao firmamento da política dos Estados Unidos. Nunca tinha visto tantos brancos aplaudindo um negro que não era um ídolo esportivo ou um astro do show business. Todos pareciam amá-lo por quem ele era, e naqueles dias, que hoje me parecem tão distantes, pensei que também poderiam amar a mim, minha mulher e meu filho, e nos amar da maneira recomendada pelo Deus que citam com tanto fervor. Cresci cercado de pessoas que queriam muito acreditar que um Barack Obama era possível, ainda que tudo em suas vidas demonstrasse o contrário. Louvavam Martin Luther King Jr. num minuto e, no minuto seguinte, amaldiçoavam o homem branco, “O Grande Enganador”. Então surgiram os Obama, negros e belos como todos nós queríamos ser, e todo esse amor se verteu sobre eles. Mas, à medida que a comitiva de Obama se aproximava de seu destino – a Universidade Howard,[38] onde ele faria o discurso de formatura –, a cor dos espectadores nas calçadas foi escurecendo. Então compreendi que aquele era um amor específico, que embora permitisse a Barack Obama, embora permitisse ao mais afortunado de nós, desafiar os limites, as massas que formamos, em cidades como esta, jamais teriam acesso a uma realização da mesma ordem.

Foram nossos anos erráticos e espasmódicos.

Entramos na Era Obama sem ideia do que esperar. Inclusive porque a presença de um negro na Presidência sempre nos parecera improvável. Não houve preparação, porque não há como se preparar para o impossível. Foram poucas as avaliações prévias de seu impacto, porque seriam consideradas ficção especulativa. Em retrospecto, agora tudo faz sentido, e pode-se traçar uma linhagem política irregular mas real se desenvolvendo na Chicago negra. Começa com Oscar Stanton DePriest,[39] continua com o deputado William Dawson, que, no governo Roosevelt, trocou o Partido Republicano pelo Democrata; apresenta alguns pontos altos com o lendário Harold Washington,[40] sobe ainda mais em 1988, com a vitória de Jesse Jackson nas prévias democratas de Michigan; atinge um novo ponto alto com o triunfo de Carol Moseley Braun,[41] e então chega a seu recente apogeu com a eleição de Barack Obama. Se essa linhagem fica evidente em retrospectiva, o mesmo ocorre com os limites do poder presidencial. Um século depois da emancipação dos escravos, a quase escravidão continuava a assolar o Sul. E mais de meio século depois que a Suprema Corte consagrou (em 1954) a inconstitucionalidade das leis estaduais que instituíam escolas públicas diferentes para negros e brancos, as escolas de boa parte do país continuam segregadas.

Não há vitórias nítidas para os negros, nem, talvez, para povo algum. A Presidência de Barack Obama não foi diferente. Hoje é possível dizer que um indivíduo afro-americano pode ascender ao mesmo nível de um indivíduo branco, mas o número de indivíduos negros qualificados para tanto é pequeno. Basta pensar em Serena Williams – sua supremacia e suas conquistas espetaculares, por si sós, não bastam para assegurar às jovens negras um acesso igual às quadras de tênis. O portão está aberto, mas muito distante.

Naquele dia, senti uma combinação de orgulho e admiração quando entrei no campus da Universidade Howard. Os ex-alunos da Howard, entre os quais me incluo, constituem uma irmandade extravagante, conhecida por entoar os cânticos da faculdade pelas ruas, menosprezar as outras faculdades e universidades historicamente negras e desdenhar dos formandos negros em instituições de maioria branca. Gosto de imaginar que sou mais contido, mas senti uma baita satisfação ao entrar na biblioteca onde no passado encontrei minha história, e dessa vez na companhia do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Achei oportuno que ele fizesse o discurso de abertura daquela cerimônia de encerramento do ano letivo, neste último ano de sua Presidência. E o mesmo orgulho que eu sentia se irradiava por todo o jardim do campus, onde ocorreria a cerimônia. Obama apareceu e o público explodiu em aplausos; quando a guarda uniformizada apresentou armas, foi uma gritaria: “O-ba-ma! O-ba-ma! O-ba-ma!”

Seu discurso foi bom – prestou o devido tributo aos rituais da universidade, enumerando os ex-alunos mais famosos e instando os jovens ouvintes a votar. (Dessa vez, deixou de lado seu mote sobre a respeitabilidade.) Mas acho que bastaria ele ter aparecido, exibir um sorriso e dizer apenas “Boa sorte”, que todos teriam adorado. Ele era o paladino daqueles estudantes, isso ficava patente nas menores coisas. Primeiro tocaram o hino nacional, em seguida o hino dos afro-americanos, Lift Every Voice and Sing [Levante Cada Voz e Cante]. Enquanto os versos ressoavam, os estudantes ergueram o punho à moda do Black Power – um símbolo de desafio. Ainda assim, aqui, diante desse negro em seu último ano no poder, o gesto era mais uma saudação do que um protesto.

Seis meses mais tarde, esses estudantes tomariam consciência do preço terrível de uma Presidência negra, embora o país teimasse em não reconhecer isso. Nos dias que se seguiram à vitória de Donald Trump, muito se insistiria que algo tão “simples” como o racismo não poderia explicá-la. Como se a escravidão não tivesse nada a ver com a economia global, ou como se os estupros nada dissessem sobre a visão das mulheres como propriedade. Como se os últimos 400 anos pudessem ser reduzidos ao ressentimento irracional diante de lábios grossos. Não. O racismo nunca é simples. E não havia nada de simples no que estava por acontecer, ou em Obama, o homem que, involuntariamente, provocou o advento desse futuro.

 

Já foi dito que os americanos que elegeram Trump foram vítimas da condescendência liberal. A palavra racista não serve, pois seria uma ofensa imposta ao homem comum, e não uma descrição precisa de homens reais. “Simplesmente não sabemos em que medida os eleitores de Trump foram motivados pelo racismo ou pela misoginia”, escreveu David Brooks no New York Times. “Se você estiver confinado em uma cidade sem emprego, vendo os amigos morrerem de overdose, lutando a cada mês para pagar a conta de luz, e então surgir alguém que parece capaz de dar um jeito em seus problemas e está disposto a ouvi-lo, pode ser que você também se decida a tolerar uma certa feiura.” Isso me parece perfeitamente lógico. E, na verdade, também poderia se aplicar à atração que Louis Farrakhan[42] exerce sobre os negros pobres e trabalhadores. Mas enquanto os seguidores do nacionalista branco islamófobo gozam da simpatia com que a nata dos privilegiados é quase sempre recebida, os seguidores do nacionalista negro antissemita suportam o escárnio destinado aos descendentes dos escravos.

Deu-se demasiada importância aos eleitores menos favorecidos de Wisconsin, Pensilvânia e Michigan que votaram em Obama em 2008 e 2012, e em 2016 escolheram Trump. Não há dúvida de que esses eleitores provam que o racismo não explica tudo. Ainda não ficou clara a maneira como ocorreu essa mudança na preferência de muitos eleitores. Mas a premissa subjacente – de que Hillary Clinton e Barack Obama fossem intercambiáveis – apresenta um problema. Clinton era uma candidata que pela primeira vez na vida disputava um cargo competitivo; seus instintos políticos eram questionados até por seus assessores; ela recebeu, por palestras, mais de meio milhão de dólares de um banco de investimentos porque “foi o que eles ofereceram”; e se propunha a trazer de volta para a Casa Branca um presidente acusado de estupro e assédio sexual. Obama foi um candidato que se tornou o terceiro senador negro da era moderna a ser eleito; ele se elegeu duas vezes presidente, a cada vez revertendo as expectativas nos estados republicanos ou indefinidos; comandou um dos governos mais livres de escândalos da memória recente. Imagine uma versão afro-americana de Hillary Clinton: ela jamais seria indicada por qualquer grande partido, e provavelmente nem teria uma carreira política.

Apontar o dedo para os cidadãos que votaram em Obama e depois em Trump não significa que o racismo não seja importante, muito pelo contrário. Para conquistar a Casa Branca, Obama precisou ser um advogado formado em Harvard, com dez anos de experiência política e um talento impressionante para falar com diferentes frações do país. Para Donald Trump, o dinheiro e a arrogância branca foram o bastante.

Na semana que se seguiu às eleições, fiquei péssimo. Fazia quinze dias que não via minha mulher. O prazo para entregar este artigo estava estourando. Meu filho vinha tendo dificuldades na escola. Minha casa estava um caos. Eu ouvia Marvin Gaye sem parar – Quando você foi embora, levou tudo de mim. Os amigos começavam a rememorar em tom sombrio os fantasmas dos anos da pós-Reconstrução.[43] A eleição de Trump confirmava tudo aquilo que eu sempre soubera do meu país, e eu não me dispunha a aceitar nada. Mas Donald Trump suceder o primeiro presidente negro tinha tudo a ver com a história americana. E fiquei chocado com meu próprio espanto. Eu queria que Obama tivesse razão.

E ainda quero. Ainda gostaria de me ajustar ao sonho. Mas não vai ser possível.

 

Por alguma coincidência cósmica, uma semana depois da eleição me enviaram um trecho da ficha do FBI sobre meu pai. Meu pai cresceu pobre na Filadélfia. O pai dele caiu morto na rua. Seu avô morreu esmagado num matadouro. Ele serviu seu país no Vietnã, radicalizou-se na guerra e entrou para os Panteras Negras, o que chamou a atenção de J. Edgar Hoover[44]. Encaminharam ao diretor do FBI um memorando escrito “com a finalidade de abalar a credibilidade de WILLIAM PAUL COATES, liderança ativa do Partido dos Panteras Negras em Baltimore”. O memorando propunha enviar uma carta falsa a um dos cofundadores dos Panteras Negras, Huey P. Newton, na qual se acusaria meu pai de ser informante. E concluía: “Quero que faça alguma coisa com esse nego safado lambedor de bota da polícia, e logo.” As palavras faça alguma coisa dispensam muita interpretação. Os Panteras Negras acabaram consumidos por uma guerra interna instigada pelo FBI, na qual ser descrito como informante era uma sentença de morte.

Poucas horas depois de ler a ficha, tive minha última conversa com o presidente. Perguntei como estava seu otimismo diante da vitória de Trump. Ele admitiu que foi surpreendido, mas disse que era difícil “elaborar uma grande teoria a partir daí, porque as circunstâncias foram muito incomuns”. Ressaltou a avaliação negativa dos dois candidatos, a cobertura da imprensa e o “desalento” do eleitorado. Mas disse que seu otimismo em relação à história americana em linhas gerais permanecia inalterado. “Ter uma visão otimista das tendências a longo prazo dos Estados Unidos não significa que tudo vá sempre correr bem, sem problemas, numa linha reta”, ele disse. “Às vezes a coisa avança, às vezes recua, às vezes anda de lado, às vezes em zigue-zague.”

Pensei no FBI de Hoover, que perseguiu três gerações de ativistas afro-americanos – os nacionalistas negros de Marcus Garvey, os integracionistas de Martin Luther King Jr. e os Panteras Negras de Huey Newton, entre os quais meu pai se incluía. E pensei no recrudescimento do poder presidencial a partir dos acontecimentos do 11 de Setembro – o acesso aos registros das chamadas telefônicas de todos os cidadãos americanos, a seus e-mails, a possibilidade de mandar prender por prazo indefinido. Perguntei ao presidente se no final das contas isso valia a pena. Se sua geração de ativistas negros e seus aliados tinham algum motivo para ter medo.

“Não se esqueça de que é absolutamente proibido aplicar os recursos da Agência de Segurança Nacional, ou outras ferramentas de vigilância, a cidadãos ou residentes americanos sem que haja indícios de conexão com atividade terrorista ou outra atividade envolvendo estrangeiros”, ele disse. “Por isso, acho que não procede toda essa história de que o Grande Irmão expandiu seus poderes e, agora que elegemos um novo presidente, vai haver uma arma carregada pronta para ser usada contra a oposição interna.”

Obama recomendou vigilância, “porque sempre existe a possibilidade de mau uso pelas autoridades governamentais. A questão não é que novas ferramentas estejam à disposição – a questão é garantir que o novo governo, como o meu, leve a sério as restrições que se aplicam no que diz respeito aos cidadãos e residentes americanos”. Esta resposta não me deixou muito confiante.

No dia seguinte, o presidente eleito Trump ofereceu o posto de conselheiro de Segurança Nacional ao ex-general de divisão Michael Flynn, e indicou o senador pelo Alabama Jeff Sessions para o cargo de procurador-geral. Em fevereiro último, Flynn tuitou: “Temer os muçulmanos é RACIONAL”, e anexou um link para um vídeo do YouTube em que os seguidores do Islã eram acusados de “querer escravizar ou exterminar 80% da humanidade”. O senador Sessions já foi acusado de chamar um advogado negro de boy,[45] afirmando que um advogado branco que se dispusesse a representar clientes negros era uma vergonha para a sua raça, e, brincando, disse que achava a Ku Klux Klan “boa, até saber que fumam maconha”. Senti que sabia o que viria pela frente – mais Freddie Grays,[46] mais Rekia Boyds,[47] mais informantes e policiais à paisana infiltrados nas mesquitas.

E percebi também que o homem incapaz de aceitar essas coisas em sua América tinha sido o responsável pela única ocasião da minha vida em que me senti, como disse certa vez a primeira-dama, orgulhoso do meu país, e que foi justamente sua incapacidade de aceitar essas coisas, sua incrível fé, sua confiança improvável em seus concidadãos que tornou possível esse meu sentimento. O sentimento de ver aquele garotinho encostar a mão no cabelo do presidente. De acompanhar Obama em campanha, sempre esperando pelo pior e me admirando porque o pior nunca acontecia. Foi o que senti ao ver Barack e Michelle no dia da posse, o carro avançando devagarinho pela avenida Pensilvânia, os aplausos da multidão e os dois descendo da limusine, deixando de lado o medo, sorrindo, acenando, desafiando o desespero, desafiando a história, desafiando a gravidade.

* – Trecho alterado em relação à versão impressa

[1]  Banda de soul americana, famosa na década de 70.

[2]  Canal de tevê a cabo americano com programação especificamente direcionada ao público negro e afrodescendente.

[3]  Referência a um antigo costume discriminatório nos Estados Unidos, ainda vigente em meados do século XX. Para permitir a entrada em certos eventos sociais, comparava-se a pele da pessoa à cor de um saco de papel kraft; se a pele fosse mais clara, a entrada era permitida.

[4] Um dos mais famosos comediantes negros americanos, Dave Chappelle também ficou conhecido por abandonar, em 2005, seu programa de tevê Chappelle’s Show, então no auge, para fazer uma viagem à África do Sul e distanciar-se do mundo do entretenimento.

[5]  A expressão twerk vem de twist + jerk, girar e sacudir. É uma forma popular de dançar hip-hop.

[6]  A palavra nigger é uma forma extremamente racista de se referir ao negro nos Estados Unidos. A palavra é tão ofensiva que americanos brancos frequentemente se referem a ela com um eufemismo: the N-word (“a palavra que começa com N”). Contudo, negros americanos, sobretudo os da comunidade hip-hop, ocasionalmente usam a palavra entre si – ou a sua variante, nigga – como forma de expressar solidariedade e se apoderar do termo.

[7]  Um dos principais jogadores da liga americana de basquete (NBA), da equipe Golden State Warriors.

[8]  Comediante americano famoso, apresentador do programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon, da rede NBC.

[9]  Um dos mais famosos e influentes comediantes negros da história americana, e um dos primeiros a usar a identidade negra como foco de sua comédia.

[10]  James Harris fez história em 1969 ao tornar-se o primeiro quarterback titular negro da história do futebol americano, jogando primeiro pelo Buffalo Bills e depois pelo Los Angeles Rams. Harris ajudou a destruir a mitologia racista de que, por ser mais cerebral, a posição de quarterback era destinada a brancos.

[11]  Em 2009, Henry Louis Gates Jr., um professor negro de Harvard, ficou trancado para fora de sua casa e, ao tentar forçar a porta, a polícia o abordou e depois o prendeu por “ameaça de desordem”. A polícia tinha respondido à ligação de um vizinho que suspeitara de invasão domiciliar. Gates Jr. foi solto rapidamente e o caso gerou um debate nacional sobre racismo policial.

[12]  Em 2012, na Flórida, George Zimmerman, um homem de descendência latina de 28 anos, atirou e matou Trayvon Martin, estudante negro de 17 anos que caminhava desarmado pelo condomínio onde morava. Zimmerman estava atuando como segurança do local, e após um longo processo judicial foi absolvido com base no argumento de legítima defesa, gerando revolta na comunidade negra americana.

[13]  Político negro democrata, candidato nas primárias presidenciais do partido em 1984 e 1988.

[14]  Don’t Ask, Don’t Tell (Não pergunte, não se declare) refere-se a uma diretiva ambígua do governo norte-americano, implementada pelo presidente Bill Clinton em 1993, que tanto proibia a discriminação de homossexuais no serviço militar como não aceitava homossexuais declarados.

[15]  Em 22 de novembro de 2016, a Casa Branca divulgou que Obama havia comutado o total de 1 023 sentenças.

[16]  Chris Webber e Jalen Rose, hoje desafetos, foram membros do mesmo time de basquete universitário na temporada de 1991, jogando pela Universidade de Michigan. O time, formado somente por jogadores negros e considerado um dos melhores da história do esporte universitário, ficou conhecido como os “Fab Five” – apelido que o autor do artigo sugere ter nascido originalmente para designar a equipe da Universidade do Havaí, também só composta por jogadores negros.

[17]  Ex-escravo que fugiu para tornar-se pensador, escritor e um dos maiores líderes do movimento abolicionista americano no século XIX.

[18]  Contemporânea de Douglass, foi também uma ex-escrava que fugiu e participou do movimento abolicionista no século XIX. Escritora, publicou uma famosa autobiografia, Incidents in the Life of a Slave Girl [Incidentes na Vida de uma Garota Escrava], sob o pseudônimo de Linda Brent.

[19]  Dono de escravos e fazendeiro do século XIX, tinha a reputação de ser um dos mais cruéis e eficientes em subjugar jovens escravos, de acordo com os relatos de Frederick Douglass.

[20]  Região da cidade habitada majoritariamente por negros – inclui o Hyde Park, o bairro em que Obama possui uma casa e que abriga a Universidade de Chicago, onde ele deu aulas de direito (e onde alguns de seus assessores mais próximos, como o consultor político David Axelrod, citado no artigo, estudaram).

[21]  Famoso cantor negro americano de origem caribenha, muito popular na década de 50. Foi também ativista e militante político, envolvido no movimento pelos direitos civis.

[22]  Político negro democrata, pastor e ativista, foi candidato nas primárias presidenciais do partido em 2004.

[23]  Programa de assistência de saúde aos indivíduos de baixa renda, fundado pelo governo americano em 1965.

[24]  Bernie Madoff e Kenneth Lay: dois empresários americanos famosos pelo envolvimento em grandes escândalos corporativos. Madoff foi preso em 2008, após irregularidades encontradas em seu fundo de investimentos; Lay, falecido em 2006, foi o CEO da Enron, empresa de energia do Texas que passou anos utilizando fraudes contábeis para esconder os prejuízos aos acionistas.

[25]  Pesquisas de instituições americanas diferem entre si quanto ao dado citado pelo autor.

[26]  Existe nos Estados Unidos um debate controverso sobre reparações históricas e possíveis mecanismos compensatórios (inclusive financeiros) para descendentes de escravos. O argumento dos que apoiam a ideia é que a exploração dos ancestrais teve impacto nas oportunidades econômicas e sociais das gerações subsequentes. Ta-Nehisi Coates, o autor deste artigo, milita a favor das reparações.

[27]  Movimento ativista iniciado em 2013, em resposta a uma sucessão de casos de racismo policial e de assassinatos cometidos por policiais brancos contra vítimas negras.

[28]  Existe nos Estados Unidos uma disparidade entre as sentenças de prisão recebidas por posse de crack – considerado uma droga mais pesada – e cocaína. No primeiro mandato de Obama, em 2010, o Congresso aprovou uma lei que tenta eliminar alguns aspectos dessa distorção, que muitos dizem punir desproporcionalmente pessoas negras e pobres, já que o crack é uma droga mais barata.

[29]  Assessor de Bill Clinton em seu primeiro mandato. Cometeu suicídio em 1993. Em 1997, o jornalista Christopher Ruddy publicou um livro – The Strange Death of Vincent Foster [A Estranha Morte de Vincent Foster] – que elaborava uma teoria conspiratória na qual acusava Bill e Hillary Clinton de serem os assassinos.

[30]  Os estados confederados são aqueles que fizeram parte da aliança do Sul escravocrata na Guerra Civil americana no século XIX. Queriam dividir o país em dois blocos, mas foram derrotados pela União, a aliança composta pelos estados do Norte e liderada por Abraham Lincoln, que unificou o país e aboliu a escravidão.

[31]  A GI Bill foi uma lei assinada em 1944 que provia vários benefícios do governo a veteranos que tinham acabado de voltar da Segunda Guerra Mundial. Um de seus maiores benefícios era o custeio integral da educação dos veteranos, incluindo anuidades universitárias.

[32]  Teórico da área de educação, famoso por seu ativismo contra a Guerra do Vietnã.

[33]  Nos Estados Unidos, existe um estereótipo racista de que negros adoram as comidas citadas.

[34]  “Barry” era o apelido de Obama na adolescência e no início da faculdade. Com o tempo, ele passou a preferir que se referissem a ele pelo seu nome inteiro, Barack.

[35]  Uma referência ao welfare state – Estado de bem-estar social.

[36]  Cliven Bundy, um pecuarista de Nevada, ocupou o noticiário nacional quando, em 2014, juntou alguns de seus apoiadores e resistiu com armas a uma ordem judicial que autorizava o governo a apreender bens – por vinte anos, Bundy havia se recusado a pagar taxas pelo uso de pastagens públicas. Atualmente Bundy está preso, mas seu protesto reverberou na comunidade ultraconservadora americana.

[37]  Jovem negro de 18 anos, morto a tiros por um policial de Saint Louis depois de roubar cigarros de uma loja de conveniência.

[38]  Histórica universidade negra americana, alma mater do autor.

[39]  O primeiro negro eleito para o Congresso americano no século XX, em 1928, pelo estado de Illinois.

[40]  Prefeito negro de Chicago, eleito em 1983.

[41]  Senadora negra pelo estado do Illinois de 1993 a 1999.

[42]  Ativista negro, líder do grupo Nation of Islam (NOI), um movimento radical a favor da supremacia negra e que prega o antissemitismo e outras formas de discriminação.

[43]  O autor refere-se à reconstrução do Sul dos Estados Unidos, após o fim da Guerra Civil no fim do século XIX.

[44]  O primeiro e mais longevo diretor da Polícia Federal americana (FBI – Federal Bureau of Investigations) – exerceu o cargo de 1935 a 1972.

[45]  Termo racista usado no Sul dos Estados Unidos na época da escravidão.

[46]  Freddie Gray era um homem negro de 25 anos que, em 2015, morreu sob custódia policial enquanto a van o levava do local do suposto crime (ele foi preso sob circunstâncias duvidosas, por atitude suspeita em uma área conhecida por tráfico de drogas) até a delegacia. O caso gerou um longo processo legal que terminou com o município de Baltimore pagando aproximadamente 6 milhões de dólares em indenização para a família de Gray.

[47]  Rekia Boyd era uma mulher negra de 22 anos que foi assassinada em 2012 em Chicago por um policial que estava sem farda e fora do expediente. O policial atirou após uma altercação verbal (Boyd estava com um grupo de amigos, desarmada). O policial foi absolvido da acusação de homicídio involuntário, e se aposentou em 2016.

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