história pessoal

Meus avós em ruínas

Por que não consigo me livrar do apartamento modernista que herdei há cinco anos?

Carol Bensimon
Decorado em 1968 por um casal de arquitetos, o imóvel de Porto Alegre sugeria que seus proprietários confiavam na tecnologia e tinham uma ideia muito otimista de futuro
Decorado em 1968 por um casal de arquitetos, o imóvel de Porto Alegre sugeria que seus proprietários confiavam na tecnologia e tinham uma ideia muito otimista de futuro FOTOS: ÁLBUM DE FAMÍLIA

Como qualquer história, é uma história cheia de lacunas. Doze pessoas da família Sevi Bensimon embarcam em um navio no porto de Alexandria, Egito. A mais velha tem 58 anos e a mais nova, 4. São meu bisavô e minha mãe. Como de costume, não há fotografias desse tipo de evento crucial, a expulsão de uma família de judeus sefarditas da cosmopolita Alexandria de 1957. Devia ser uma manhã de sol e o Mediterrâneo talvez estivesse bem esticado, turquesa. Podemos imaginar no cais os acenos de alguém que ainda não possuísse os documentos necessários para ser acolhido em outro país, ou que relutasse até o último segundo em deixar a casa para trás, as tardes de domingo na praia de Stanley, os sanduíches de foul enrolados em pedaços de jornal com notícias velhas. Do navio, a pequena Daniele olha para Alexandria. A tia Evelyne mente que aquilo será temporário e acaricia a cabeça da sobrinha.

Nessa hora, meu avô, Elie Bensimon, já está dentro da cabine, pragmático, conformado. Não foram sempre arremessados de um lado para o outro, tendo que despregar a mezuzá do umbral da porta antes de nem mesmo saber para onde iriam? O olhar passa pelos beliches, mas evita a escotilha. Sua mãe viera do Marrocos e seu pai, da Palestina. Elie e os irmãos foram os primeiros Bensimon a nascer no Egito, e agora estão todos em um navio pronto para zarpar, nos bolsos os laissez-passer com capa de couro azul, fotografias sérias, letra cursiva e a frase “válido apenas para uma viagem sem retorno”.

Pelo menos não tinham acabado em uma câmara de gás.

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, a tensão entre judeus e árabes encontrava-se em uma ascendente. Em 1952, o rei do Egito, Faruk I, fora cercado no Palácio de Montazah por um grupo de jovens militares dissidentes e forçado a deixar o país. O desgaste de seu governo era tremendo, sobretudo devido às sucessivas derrotas do exército egípcio perante as forças de Israel. Em 1954, após destituir o presidente Muhammad Naguib – o primeiro depois da queda da monarquia –, o coronel Gamal Abdel Nasser assumiu o controle do país até sua morte, em 1970. Um dos maiores legados da administração Nasser foi a nacionalização do Canal de Suez, em 1956. A iniciativa gerou um conflito entre egípcios, de um lado, e israelenses, britânicos e franceses, de outro. Ao longo da crise de Suez, que durou meses, Nasser tomou a decisão de expulsar do Egito todos os estrangeiros e todos os judeus.

Foi assim que meus parentes acabaram chegando ao Brasil, movidos como peões pelo sionismo e pelo pan-arabismo de terceiros. Carregavam panelas de alumínio, roupas, fotografias e um prato de metal que, no meio, exibia a figura de um cervo, cuja galhada dava mil voltas até encher o utensílio inteiro. Também trouxeram um enfeite de cerâmica em forma de casa. Tanto o prato quanto a pequena casa seriam posteriormente pendurados nas paredes de um peculiar apartamento modernista, na rua Duque de Caxias, Centro de Porto Alegre, onde Julia Sevi Bensimon – minha avó – e Elie moraram de 1968 até o fim de suas vidas.

Herdei esse apartamento e não sei o que fazer. Este é um texto sobre um lugar desocupado e tudo o que resta nele.

 

Dentro do imóvel vazio, verão de 2018, pensando em um anúncio fictício: “Cenário de Mad Men em Porto Alegre! Raro exemplar de apartamento modernista, decorado em 1968, no ponto mais nobre do Centro histórico. 200 m2 de área privativa, piso de mármore e jacarandá, vista sobre o Guaíba nos quartos. Mobiliário fixo muito bem conservado. Verdadeira cápsula do tempo. Agende sua visita agora!”

Vou andando lentamente pelos cômodos. Há muitos armários para abrir e algo que é sempre deixado para trás, por mais que se tente esvaziar o lugar de todos os vestígios de outros tempos. Cabides, um pote de sal, um desenho feito por um colega de faculdade da minha tia, em que a Mafalda chama um cassetete de “borracha de apagar ideologias”. Me lembro de quando esse desenho estava pendurado na parede e de quantos anos demorei para entendê-lo. Na sacada estreita, os tocos secos de azaleia ainda não foram retirados das floreiras. O pó que cobre o chão da sala parece vir da poluição lá de fora. Entra pelas frestas das janelas e se acomoda no piso como uma película protetora. É bem menos pó do que quando havia pessoas ali o tempo todo, desprendendo, lenta e imperceptivelmente, seus minúsculos pedaços de pele morta. O apartamento está fechado há cinco anos.

Quando eu era pequena, na década de 90, o primeiro romance que realmente me impressionou tinha um edifício na capa e um título curioso, O Último Mamífero do Martinelli. Marcos Rey, o autor, já havia emplacado uma série de livros infantojuvenis de sucesso, como Um Cadáver Ouve Rádio e O Mistério do 5 Estrelas. Seu menos popular O Último Mamífero do Martinelli contava a história de um homem que, durante a ditadura militar, escondeu-se por um tempo no então degradado arranha-céu da capital paulista, erguido entre 1927 e 1929. Mas esse homem tinha, na verdade, uma importância secundária, ou nem isso: sua função era ser um par de olhos do presente a observar aquelas muitas camadas de passado. Pelos vestígios que encontrava nas peças – buracos na parede, inscrições, um lustre –, podia imaginar ou recriar cenas em velhos escritórios, em salões de sinuca de reputação duvidosa ou no luxuoso apartamento da cobertura. Esse foi meu primeiro contato com uma espécie de arqueologia dos tempos modernos. Minha conclusão óbvia foi a de que os lugares diziam muito sobre as pessoas e, em geral, sobreviviam a elas. Nunca mais consegui olhar para uma parede ou uma simples cadeira sem ver algo de profundamente humano naquela concretude. Sem ver algo que não estava mais lá.

O último dia em que o apartamento da Duque de Caxias foi habitado foi 12 de agosto de 2013. Naquela tarde, levaram meu avô em uma ambulância enquanto ele sofria o que o médico mais tarde iria definir como uma série de pequenas isquemias cerebrais, que o tornaram agressivo, assustado e incontrolável por intermináveis horas. Ele tinha Alzheimer, mas andava calmo, estável, quase catatônico. Viveu o que poderíamos chamar de uma boa vida. Depois do imenso trauma – a expulsão do Egito –, sobre o qual ele mal falava, fincou os dois pés neste novo país, ascendeu socialmente exportando madeira brasileira para outros continentes, viajou muito e tirou fotografias em cruzeiros e diante de prédios espelhados em Houston, Texas, usando o que parecem ser trajes de tenista. Apesar das viagens, passou quase toda a vida sentado. Então não me surpreende que, diferentemente de tantos velhinhos e velhinhas com Alzheimer, Elie Bensimon nunca tenha tentado fugir de casa. É assim, praticamente imóvel, que me lembro dele: sentado no banco comprido do Landau, sentado na cama enquanto assistia a um filme do Charles Bronson, sentado na poltrona Eames com um copo de uísque na mão.

 

Em 1977, o geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan propôs que a definição da palavra “lugar” se construísse em oposição à palavra “espaço”. Enquanto a primeira remeteria à calma e a valores estabelecidos, a segunda carregaria a ideia de liberdade, futuro, ação. Espaço seria, portanto, movimento, e lugar, pausa. “Os seres humanos necessitam de espaço e de lugar”, escreveu Yi-Fu Tuan. “As vidas humanas são um movimento dialético entre refúgio e aventura, dependência e liberdade.”

Se pensarmos na versão material desses dois conceitos – isto é, nas coisas que melhor os representam –, chegaremos provavelmente ao carro (espaço) e à casa (lugar). Acredito que o antropólogo inglês Daniel Miller, que citarei aqui mais de uma vez, concordaria comigo. Miller, cuja obra analisa sobretudo a relação do homem moderno com objetos, viveu um período na ilha de Trinidad. Ao observar os costumes dos habitantes locais, concluiu que a casa simbolizava todos os valores importantes daquela sociedade, mas que a mesma população que desejava manter esses valores também se sentia cada vez mais fascinada pela mobilidade do carro e por sua promessa de liberdade em relação ao lar e à família.

Acabo de me lembrar de uma história familiar envolvendo um carro. Conta a lenda que um tio do meu avô, ao descobrir que suas propriedades seriam confiscadas pelo governo de Nasser e que ele só poderia sair do país com uma quantia bastante limitada de libras egípcias, foi ao porto de Alexandria e jogou seu carro no Mediterrâneo. Teria esse gesto marcado o fim da mobilidade para os Sevi Bensimon? De fato, a família que conheci nunca demonstrou grande apreço pelo movimento, viagens turísticas à parte. Estabelecer raízes tornou-se mais importante do que se aventurar. A mesma imobilidade que acabei associando ao meu avô – curioso que a palavra “imóvel” pode também designar um apartamento, este onde estou agora e do qual não consigo me livrar – manifestou-se nas gerações seguintes. Os exemplos são inúmeros. Vão desde a insistência da minha tia em manter uma videolocadora aberta até a segunda década dos anos 2000 (quando aquele tipo de negócio já perdera o sentido) ao fato de que minha mãe jamais desmontou meu quarto no apartamento onde atualmente mora sozinha. Estou falando de uma casa do Playmobil, um pôster da banda Hole, bichos de pelúcia e uma caixa de música com uma bailarina, tudo rodeado por um papel de parede verde com passarinhos voando. Talvez eu também não seja inocente nessa história.

 

Foram três mortes na pequena família em um período de sete anos: minha avó (embolia pulmonar após um almoço de sábado), meu avô (a tal sucessão de isquemias) e, por fim, minha tia (um câncer que começou no útero). Restaram três pessoas: eu, minha mãe e meu primo.

Tínhamos, então, que lidar com um apartamento cheio de coisas. Nos primeiros meses após a sequência de mortes, houve tentativas de resolver a situação de um modo bastante prático. Em primeiro lugar, minha mãe e meu primo, os herdeiros diretos, contrataram um especialista em garage sales. Tal como o herói guarani dos Sete Povos das Missões, ele se chamava Sepé Tiaraju. Ato contínuo, me agarrei a algumas cadeiras, uma luminária, um tabuleiro de gamão e, resignada, vi Sepé Tiaraju marcar o preço em tudo que pudesse ser vendido – e tudo realmente pode ser vendido. Velhas raposas do ramo dos antiquários lotaram o hall de entrada, esperando o sinal que marcava o início da pilhagem. Depois vieram as “pessoas físicas”, procurando bibelôs, roupas vintage ou tapetes persas com marcas do tempo. Não ficamos para ver. Sepé Tiaraju disse que seria duro constatar que estranhos manipulavam como mercadorias os objetos que outrora nos foram caros. Isso não impediu que, dois dias depois, eu estivesse andando pelo Brique da Redenção, tradicional feira dominical de Porto Alegre, e me deparasse com um familiar açucareiro vermelho à venda. Fiquei chocada demais para comprá-lo de volta.

Lidar com esses objetos faz parte de um delicado processo de luto. “Há uma bem estabelecida teoria antropológica sobre o papel das coisas em relação à morte”, escreveu Daniel Miller no livro Trecos, Troços e Coisas. Segundo o autor, um dos problemas da morte é que frequentemente ela ocorre de forma inesperada. A solução para esse desaparecimento repentino é enxergar a morte real, biológica, como um sinal para o início dos rituais que devem acompanhá-la. E a despossessão – o ato de nós, vivos, abrirmos mão dos pertences deixados pelos mortos, algo que pode levar muitos anos – seria parte desses rituais.

Minha mãe e meu primo procuraram resolver tudo às pressas, sabe-se lá se por insensibilidade ou, pelo contrário, porque não conseguiam lidar com certa aura de “Museu da Morte” que todo lugar desocupado parece adquirir. Após a garage sale, no entanto, ambos entraram em um ritmo lento, preguiçoso. Na tentativa de vender o imóvel, fizeram contato apenas com um corretor freelancer chamado Anaurelino. Ele colou uns números grandes nas janelas da sala, como se alguém pudesse erguer tanto a cabeça e se interessar por uma faixa improvisada no 10º andar do Edifício Corrêa Sá. Depois de um tempo, Anaurelino sumiu.

 

Corra quatro anos e uns meses para a frente. Nada mudou. Desde a garage sale, nenhum de nós três voltou a entrar aqui. Mas agora estou de novo no apartamento, sozinha, em pleno verão de 2018, sentindo um misto de tristeza e potência. De uma vez por todas, vim resolver as coisas. Literal e concretamente, as coisas.

O problema é que os mortos não deixaram um lugar fácil de desmontar. Ainda que a maioria dos objetos tenha ido embora na mão de desconhecidos para se tornar parte de outras casas, há pilhas e pilhas de velhos papéis e documentos, que incluem agendas telefônicas com números de seis dígitos, jornais que anunciam o primeiro disco do Queen ou Glória Pires como “a gatinha do momento”, cartões de Natal enviados por serrarias do Paraná nas décadas de 60 e 70, colagens feitas pela minha tia quando estava no primário, fitas cassete com a letra miúda da minha avó e a nota fiscal de um casaco comprado na Cidade do México em 1976.

Acredito que todos tendemos a acumular objetos aparentemente inúteis que, com o passar do tempo, adquirem a função de evocar memórias. No fundo de nossas gavetas, há sempre um ingresso amarelado de cinema ou o nunca usado guardanapo com a logomarca de um restaurante. Quanto mais velhas são essas coisas, mais significado afetivo adquirem. Um bilhete escrito na semana passada é banal. Um bilhete de trinta anos atrás – ainda que diga apenas “tem comida na geladeira” – torna-se, sem querer, uma relíquia.

O acúmulo dos meus avós foi exagerado. Tudo bem, eles não pegavam coisas da rua e levavam para dentro de casa – como algumas pessoas cujo comportamento é frequentemente exposto no Discovery Channel –, mas ambos pareciam ter grande dificuldade em triar suas posses de tempos em tempos, ou então de perceber que não havia razão para guardar um cartão de aniversário remetido por um banco. Faziam isso ainda como consequência daquela viagem sem retorno, em 1957? Para eles, a ideia de casa seria tanto mais sólida quanto mais acumulassem coisas dentro dos armários? Será que sabiam o que estavam fazendo? Estavam conscientemente deixando um rastro de suas vidas em recortes de revista, planilhas financeiras ou antigas provas de francês? E isso porque, nas poucas cartas e cartões-postais que encontrei, não conseguiam expressar o mais vago dos sentimentos, restringindo-se a assuntos banais de toda ordem? Por que deixaram para trás todos esses carnês de IPTU em vez de uma simples linha que dissesse o que estavam sentindo? Por alguns instantes, sinto espasmos de raiva. Como vou jogar no lixo agora os desenhos de criança da minha tia? Não seria mais fácil para mim, para todos, que eles tivessem aceitado a passagem do tempo?

 

Um dos romances mais célebres de Orhan Pamuk, O Museu da Inocência, narra o amor obsessivo do abastado istambulense Kemal Basmaci por sua prima Füsun. Após acontecimentos trágicos, Basmaci dedica o resto da vida à construção de um museu em homenagem à amada. Esse museu agrega coisas como 4 213 bitucas de cigarro organizadas por data de uso, dezenas de chaves, pequenos cachorros de porcelana, pães mordidos e algumas escovas de dente. James Lasdun, em uma resenha sobre o livro para o jornal britânico The Guardian, escreveu: “Os furtos compulsivos, assim como o museu propriamente dito, foram com certeza uma inspirada versão da ideia proustiana de tempo recuperável.”

A banalidade disfarçada dos objetos parece tocar tanto o coração de Pamuk que o autor franqueou ao público, a partir de abril de 2012, a versão real de seu Museu da Inocência, em uma rua silenciosa do bairro de Çukurcuma, em Istambul. Na época, o escritor disse à imprensa que a empreitada havia lhe custado o que ele recebera pelo Prêmio Nobel de Literatura, em 2006 – cerca de 1,5 milhão de dólares. O Museu da Inocência é hoje mais uma atração turística da cidade, sobretudo para aqueles familiarizados com a obra de Pamuk, que podem ouvir trechos do romance enquanto percorrem as vitrines banhadas de luz amarela.

Instalado logo na entrada, o carro-chefe do museu é sem dúvida o imenso painel de bitucas retorcidas que, no livro, foram descartadas por Füsun e discretamente recolhidas pelo narrador. “Cada uma delas tinha tocado seus lábios rosados e entrado em sua boca, algumas até atingindo sua língua e ficando umedecidas, como eu descobria ao encostar a ponta do dedo no filtro logo depois que ela apagava o cigarro; as pontas, avermelhadas por seu adorável batom, traziam a impressão única de seus lábios em um momento cuja memória estava carregada de angústia ou felicidade, o que as transformava em artefatos de uma intimidade singular.”

Orhan Pamuk tem ideias bastante interessantes sobre museus e o futuro dessas instituições. Em um artigo também publicado no Guardian, o romancista defende que os novos museus deveriam se preocupar menos com a história das nações e mais com o ordinário e as trajetórias dos indivíduos. Pamuk sugere que estamos cansados desse tipo de narrativa que vemos em grandes museus – social, comunitária, nacional – e que os percursos pessoais são muito mais reveladores de nossa humanidade. Uma analogia literária, segundo o escritor, oporia o épico (museus monumentais) e o romance (museus centrados em indivíduos). “O futuro dos museus está dentro de nossas próprias casas”, enfatiza Pamuk ao final do artigo.

 

Antes de comprar este apartamento, meus avós viveram com minha mãe, meus bisavós e tios-avós em um hotelzinho da rua General Andrade Neves, junto de outras famílias judias recém-chegadas do Egito. Todas recebiam ajuda financeira da Hebrew Immigrant Aid Society, a HIAS, sediada nos Estados Unidos. Elie, Julia e Daniele alugaram depois um pequeno apartamento na Cidade Baixa, do qual minha mãe mal se lembra. Enquanto os Sevi Bensimon aprendiam a língua do novo país, minha avó começou a dar aulas de francês, e a vida melhorou até levá-los ao Edifício Duquesa, cuja entrada ficava – fica, ainda está lá – no meio da escadaria do viaduto da Borges de Medeiros. Não guardo nenhuma imagem mental dos lugares habitados por meus ancestrais antes de eu nascer porque velhas fotos de família raramente mostram salas, cozinhas e quartos. Não sei que tipo de mesa de jantar eles tinham ou o que havia nas paredes, além de, muito provavelmente, aquele prato e aquela casa de cerâmica vindos de Alexandria. O que imagino muito bem é que, em uma manhã de 1965 ou 1966, Elie Bensimon debruçou-se em uma janela nos fundos do prédio, de onde podia ver a cúpula metálica da Catedral Metropolitana. Um barulho intenso o levara até lá. Estavam pondo abaixo alguns sobrados da rua Duque de Caxias.

O terreno vago daria lugar, nos anos seguintes, ao Edifício Corrêa Sá, um gigante com um olho no Centro da cidade e outro nas águas plácidas do Guaíba. Naquela altura, com suas idas constantes às serrarias do Paraná e ao porto de Itajaí, despachando araucárias para que virassem cabos de vassoura no Alabama, meu avô já podia sonhar com um lar definitivo e ideal.

Mesmo agora, vazio, depois de cinquenta anos desde o primeiro dia em que foi habitado, o apartamento ainda transmite uma convicção insolente. Foi concebido pelo arquiteto Sérgio Monserrat e por sua mulher, Maria Alice da Silva Monserrat, em um tempo em que o design de interiores era um campo quase desconhecido em Porto Alegre. Não sei como meu avô conheceu o casal, mas o fato é que embarcou com vontade nesse sonho modernista, concretizado nos mínimos detalhes: as portas de eixo pivotante com ripas de madeira laqueada; o semicírculo de concreto armado que contornava a mesa de jantar, provavelmente inspirado em uma obra de Mies van der Rohe; o sistema de som central, com caixinhas escondidas até no forro dos banheiros; os painéis de tecido; o cooktop importado dos Estados Unidos; as seis cadeiras Herman Miller na sala de jantar.

Um dia, na ânsia de agir – vender o apartamento, ter acesso a parte do dinheiro, por um tempo viver uma vida de escritora sem preocupações com contas a pagar –, entrei em contato com Marta Peixoto, arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tratava-se, segundo haviam me descrito, de uma autoridade em interiores modernistas. Municiei-me com fotos do lugar e com uma narrativa atraente. Ela aceitou visitar o apartamento.

Em um fim de manhã abafado, percorremos as peças. A professora aponta detalhes, frequentemente traçando comparações entre aquele projeto e a arquitetura praticada hoje. Estamos falando há dez minutos sobre rodapés quando finalmente sentamos no único lugar que há para sentar, um sofazinho creme do vestíbulo, que só sobreviveu porque está grudado à parede. À nossa frente, há montanhas de papéis e pastas de todos os tamanhos. É então que finalmente entendo que não estou agindo. Agir seria chamar um corretor de imóveis animado, representante de uma grande imobiliária. Agir seria ficar contente assim que ele encontrasse um possível comprador, não sendo relevantes as predileções estéticas desse comprador – um jovem casal, por exemplo –, e seguir contente se por acaso o jovem casal quisesse colocar tudo abaixo. Se por acaso quisesse colocar abaixo tudo o que faz desse apartamento esse muito específico apartamento. O triplo luto, enfim, terminado.

Mas o que faço com Marta Peixoto é remoer minhas dúvidas sentimentais. Como uma mãe, uma sábia, a professora me aconselha a desapegar daquilo, no fundo são só coisas, embora ela própria já tivesse vivido situações semelhantes ou até mais extremas, tentando juntar dinheiro para que uma obra célebre da arquitetura contemporânea porto-alegrense, a Casa Fatia, não virasse um banal salão de beleza. De repente, ficamos em silêncio. Não posso nem mesmo oferecer um copo d’água. Então a arquiteta diz: “Ninguém jamais entendeu este lugar. Nem agora, nem nos anos 60.”

Ninguém jamais entendeu este lugar. Meus avós deviam sentir isso, que os apartamentos de seus amigos eram diferentes, com suas pequenas cristaleiras, seus conjuntos de porcelana e suas toalhas rendadas.

Diz o escritor suíço Alain de Botton em A Arquitetura da Felicidade: “Em essência, o design e a arquitetura nos falam sobre o tipo de vida que deveria se desenvolver mais adequadamente dentro e ao redor deles. Eles nos falam de certos estados de espírito que buscam incentivar e sustentar.” Por razões que desconheço, meus avós não estavam interessados em mobílias e adornos que normalmente nos confortam porque se associam ao passado e a uma vida simples, calorosa e aconchegante. A ironia do destino faria com que minha tia, que morou neste apartamento até se casar pela primeira vez, fosse uma caçadora de antiguidades. Meus avós, por outro lado, ao optarem por uma residência modernista, provavelmente estavam escolhendo o tipo de pessoa que queriam ser: uma família que via com bons olhos as mudanças, que acreditava na ciência, na tecnologia, que estava, em resumo, olhando sempre para a frente, para uma ideia muito otimista e brilhante de futuro.

Não fomos tão bons quanto esta casa. Fomos todos imperfeitos. Elie e Julia tornaram-se, no Brasil, acumuladores de sua própria história, deixando rastros de tudo que fizeram de mais objetivo – comprar coisas, pagar contas, viajar, administrar uma empresa, preparar aulas de francês. As filhas, Daniele e Vivian, cada uma a seu jeito, negaram o sonho modernista: minha mãe, justificando todos os seus problemas a partir de um fato passado, a expulsão de Alexandria, o sol se pondo no convés do navio, a menina desconhecida que arrancou os berloques da sua pulseira; minha tia, percorrendo os antiquários da Fernando Machado nos sábados de manhã, na tentativa, talvez, de recuperar algo remoto que não lhe foi transmitido pelos pais. Quanto a mim, sou também culpada por manter este museu. Culpada por escrever. A casa me encara e irradia um ideal que nenhum de nós jamais conseguiu alcançar.

Carol Bensimon

Carol Bensimon é escritora. Publicou O Clube dos Jardineiros de Fumaça pela Companhia das Letras.

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