esquina

Minha asa, minha vida

O engenheiro que mora num Boeing

Flavio Sampaio
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Para visitar Bruce Campbell é preciso pegar uma estrada de terra enlameada no interior do Oregon, no noroeste dos Estados Unidos. A subida íngreme leva ao platô coberto de cascalho e rodeado de árvores onde está sua casa: um Boeing 727-200 pousado sobre um calço de madeira improvisado, de prefixo N7275H.

Três buzinadas curtas são a senha para proceder ao embarque. Nenhum sinal do anfitrião. O protocolo recomenda então ligar três vezes para um telefone fixo – só então o anfitrião veio acolher o visitante. Não é preciso usar finger ou escada móvel para embarcar no 727: a parte traseira da aeronave se abre em direção ao chão com uma escada acoplada à própria fuselagem. Essa é uma característica única do modelo, reconhecível também pelos três motores na parte de trás do avião.

Quando o primeiro degrau encostou na lama, um senhorzinho magrelo, calvo e sorridente acenava de dentro do Boeing. O capitão residente estava envolto numa toalha e com uma das orelhas coberta por espuma. “Suba com cuidado para não contaminar o avião”, disse Campbell, um engenheiro e piloto amador de 67 anos.

Não é permitido entrar no N7275H com sapatos, roupas ou qualquer objeto que tenha tido contato com o solo. Há um tapetinho para se descalçar, outro para pisar com as meias e um terceiro para calçar pantufas esterilizadas. “Bem-vindo”, saudou o comandante, antes de se desculpar. “Tenho que voltar para o banho, ainda estou muito sujo.” Ato contínuo, pendurou a toalha e voltou para o chuveiro atrás de um box improvisado com uma placa de PVC envergada.

“Os aviões foram construídos para encarar todo tipo de adversidade”, explicou o piloto enquanto esfregava as costas. “São verdadeiras obras de arte da engenharia.” Campbell contou que comprou aquele terreno de 10 hectares (ou dez campos de futebol) quando tinha 20 e poucos anos. A intenção original era construir uma casa a partir de peças usadas de automóveis, mas ele mudou de ideia quando soube de um cabeleireiro do Mississippi que tinha transformado um avião em casa.

 

Já agasalhado, protegendo-se da constante temperatura interna de 13°C, Campbell apontou para o chão, onde funcionava a área de carga na época em que aquele Boeing ainda voava. “Minha casa já serviu como rabecão de bilionário”, disse, com ar orgulhoso. Foi no N7275H que o cadáver de Aristóteles Onassis foi trasladado de Paris para a ilha de Skorpios, na Grécia, quando o magnata morreu em 1975. O atual proprietário guarda uma foto que mostra a viúva Jacqueline Kennedy Onassis prestes a embarcar. “Na época o avião fazia parte da frota da Olympic Airways, empresa que pertenceu ao próprio Onassis”, contou.

O N7275H foi construído há quase cinquenta anos em Renton, no estado de Washington, não muito longe de onde está estacionado hoje. Foi entregue em 1969 à companhia grega e fez cerca de 43 mil voos antes de se aposentar. No último deles, pousou no aeroporto de Hillsboro, a 20 quilômetros do terreno de Campbell, que adquiriu a aeronave por 100 mil dólares em 1998.

O engenheiro gastou outros 120 mil dólares para fazê-la chegar até a sua propriedade. “Foi uma verdadeira operação militar”, relembrou. Seu lar alado – medindo 40 metros de comprimento por 33 de largura e 10 de altura – foi transportado por via terrestre (asas e cauda foram desmontadas e levadas separadamente). O engenheiro mediu uma a uma as esquinas por onde a fuselagem passaria. A operação envolveu três guindastes, dois tratores e um sem-número de curiosos.

O N7275H ainda guarda a pintura azul e branca desbotada dos tempos da Olympic (o nome da companhia aérea, porém, está semiapagado). Afora isso, pouca coisa resta do avião original. Turbinas, poltronas, bagageiros e carrinhos de serviço foram vendidos. Os revestimentos internos estão em boa parte despedaçados, e o piso foi trocado por placas translúcidas que permitem visualizar o bagageiro na parte inferior da fuselagem. A área de carga que transportou o cadáver de Onassis hoje serve de depósito para peças velhas e entulho em geral, além de funcionar como sala de máquinas onde ficam geradores elétricos e bombas hidráulicas.

A cabine de comando, por outro lado, foi mantida quase intacta: estão lá as poltronas, os manches, visores e uma infinidade de botões. Mas janelas do cockpit estão encobertas por árvores, como se aquele 727 tivesse feito uma aterrissagem forçada na mata.

O espaço habitável do N7275H é de 99 metros quadrados. Não há sequer uma cama no interior da cabine; Campbell dorme num sofazinho surrado. Sua mesa de trabalho vive coberta por um emaranhado de parafusos, porcas, soldas, fios e equipamentos elétricos dos anos 70. Comer a bordo não é muito diferente da experiência gastronômica a 10 mil metros de altitude. Não há fogão, apenas um micro-ondas que esquenta alimentos semiprontos como as sopas Campbell’s (as preferidas de Campbell).

 

Solteiro e sem filhos, o engenheiro mora sozinho em seu Boeing. Filho de um piloto e de uma enfermeira da Força Aérea americana, Bruce Campbell teve uma empresa de componentes elétricos, mas fez fortuna mesmo no mercado financeiro, no qual começou a investir em 1985. Chegou a acumular 13 milhões de dólares, mas perdeu a maior parte do dinheiro com investimentos que não deram certo.

Apesar da situação financeira confortável, Campbell vive sem luxo ou excessos. Para ele, morar num avião é antes de tudo uma atitude de respeito ao meio ambiente. “Essa é uma das melhores maneiras de reciclagem”, argumentou. “Gastam-se fortunas para desenvolver máquinas perfeitas, com isolamento térmico, sistemas mecânicos e hidráulicos, para depois virar sucata?” O engenheiro chamou a atenção também para a segurança do seu lar. “Minha casa flutua e é resistente. Se houver um terremoto ou enchente, estarei mais seguro que qualquer um.”

Campbell divide seu tempo entre a manutenção do avião e a gestão da sua carteira de ações na Bolsa de Valores. Ocasionalmente recebe visitantes, com hora marcada e sem custos, e atualiza o site de seu avião (www.airplanehome.com), uma página de organização caótica e design espartano.

Ultimamente, tem dedicado boa parte do tempo à organização da versão 2.0 do seu projeto. Quando recebeu a piauí, o piloto amador se preparava para uma longa viagem ao exterior. Iria voar para o Japão (com a JAL, sua companhia aérea predileta) e se encontrar com a namorada. Juntos, procuram um terreno em Miyazaki, no litoral sul do país, onde pretendem fincar raízes. Desta vez, num Boeing 747-400, quatro vezes maior que o N7275H. “É um castelo aeroespacial”, na definição de Campbell. O upgrade deverá custar 150 mil dólares.

Flavio Sampaio

Flavio Sampaio é jornalista em Portland

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