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Moisés e Maria

Uma história de amor
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O encontro se deu num sábado chuvoso, em fevereiro do ano passado. Maria José Cândido da Silva caminhava pela rua Dois, na comunidade da Rocinha, quando viu um pintinho desamparado. “Pensei: ‘Levo ou não levo? Levo ou não levo?’”, rememorou. Acabou levando. Pegou o bicho, apertou-o contra o peito e rumou a uma birosca, onde pediu um pouco de arroz. “Ele comeu tudo e ficou mais triste ainda”, disse. “Sabe quando a pessoa come e fica triste porque comeu demais?” Pensou em chamá-lo de Pelegrino.

Maria José lembrou-se então de uma história que aprendera meses antes, ao assistir a uma novela da Record: versava sobre uma mãe que não tinha condição de criar os dois filhos – e que por isso abandonara o mais novo, ainda bebê, num cesto à margem de um rio. O bebê seria encontrado por uma princesa, que lhe daria o nome de Moisés. Adulto, acabaria por abrir um corredor pelas águas do Mar Vermelho, por onde faria o povo hebreu escapar da perseguição egípcia. “A história do pintinho abandonado era tipo a do Moisés da novela”, explicou. Batizou a ave com o nome bíblico.

Maria José Cândido da Silva nasceu há 52 anos em Bom Sucesso, município miúdo no interior da Paraíba. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 18 anos, para trabalhar em casa de família. Logo conheceu seu primeiro marido, com quem teve quatro filhos, que lhe deram quatro netos. Hoje mora sozinha num quarto na Rocinha alugado por 350 reais. Trabalha seis dias por semana fazendo faxina e organizando as prateleiras de um pequeno mercado na Barra da Tijuca.

Moisés entrou na vida de Maria José quando ela saía de um trauma. No fim de 2015, a faxineira foi obrigada a se desfazer de sua pata, Safira – com quem vivia desde que o último filho saíra de casa. “Eu queria ter um bicho de estimação, mas não tinha condição de criar cachorro ou gato”, explicou. “Comprei a Safira filhote por 7 reais.” Apesar de mansa na infância – “Ela andava solta comigo pela comunidade” –, Safira passou, com o tempo, a apresentar impulsos típicos de um pato que chega à maturidade: corria atrás das pessoas e cutucava com o bico o tijolo da parede e a cerâmica do chão. O senhorio de Maria José foi irredutível: a ave deixaria o quarto em que ela morava, sozinha ou acompanhada da dona. “Dei a Safira pra uma moça que tinha um casal de patos, mas chorei demais”, contou.

Meses depois, Maria José mudou-se para um quarto em outro prédio, que pertencia a um proprietário mais permissivo. Foi então, imbuída de um franciscanismo moderado, que adotou Moisés. “Pensei em criar o pintinho até ele ficar grande”, explicou. “Depois ia vender pra botar na panela.” Assim teria sido, não fosse o tempo passando, o galo preto madurando, e o seu peso estabilizando em parcos 500 gramas. Logo ficou claro, para Maria José, que Moisés era um garnisé – algo como os pigmeus dos galináceos. “Vi que ele ia ser sempre pequeno e bonitinho daquele jeito, e entendi que a gente ia ficar juntos até um de nós dois morrer.” Se tudo conspirar a favor, o galo chega aos 8 anos de idade. “Ave Maria! Se Moisés sumir antes eu enlouqueço no mundo”, ela disse.

 

Um dia normal na vida de Moisés começa por volta de 5h45, quando ele e Maria José acordam ao som do despertador. “Ele não canta de manhã, é meio preguiçoso, esse galo”, ela explicou. Dali até as cinco da tarde, a ave permanece no quarto, cacarejando só, até o momento em que a porta se abre. “Moisés, mamãe chegou!”, Maria José costuma gritar, ao reencontrá-lo, na volta do trabalho. O bicho então se alvoroça: “Ele canta e roda em volta do meu pé.” Os vizinhos, assegurou, não se incomodam.

A dona aproveita o anoitecer para limpar os dejetos da ave, espalhados pelo quarto, e para esquentar o jantar. Os dois comem juntos, no chão, Moisés numa cumbuca, Maria José num prato. “Ele gosta é de xerém, mas também dou macarrão, alface, agrião, cebola, semente de tomate e drumete de frango”, ela disse, indiferente ao fato de ter convertido o galo ao canibalismo. É nesse momento que Maria José aproveita, também, para atualizá-lo sobre a família e o trabalho. “Converso com ele, e ele me entende. As pessoas acham que sou maluca, que tenho depressão, mas não, é muito amor.” Seus filhos estranham a relação. “Filho é bom de 15 anos pra baixo, depois fica muito abusado”, rebateu. “Já o meu menino aqui não faz abuso nenhum.” Quando o relógio marca dez da noite, a dupla recosta-se cara a cara – ela no colchão, ele num paninho depositado logo ao lado.

A rotina só muda na quinta-feira, dia de folga em que Maria José veste invariavelmente uma camiseta rosa estampada com o nome e a foto do galo. “O açougueiro perto de casa tem uma máquina que faz essas camisas”, contou. “Paguei vinte contos. Agora quero encomendar uma xícara.” Uma vez paramentada, ela ruma ao ponto de ônibus, seguida pelo galo, que caminha, obediente, 2 metros atrás. Pega-o no colo, entra no coletivo, cruza a catraca e senta-se à janela para apresentar-lhe as maravilhas da cidade. “A gente fica olhando a rua. Quando passa moto buzinando ele grita.”

No período de um ano e seis meses em que estão juntos, Maria José e Moisés visitaram a Pedra do Arpoador, o Mirante do Leblon, o comércio de Ipanema e o supermercado onde ela trabalha. Na praia de São Conrado a ave observou o ir e vir das asas-deltas. Na Lagoa Rodrigo de Freitas perseguiu um grupo de galinhas-d’água. Mas a felicidade suprema, contou Maria José, foi a visita ao Campo de Santana – uma praça apinhada de cotias, pavões e gatos no Centro da cidade. “O Moisés ficou igual maluco correndo atrás das cotias”, lembrou. “Mas não deixei ele chegar perto dos outros bichos, por medo de dar briga.” O próximo plano é encomendar uma carteirinha veterinária. “Assim o Moisés vai poder andar comigo de metrô.”

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