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Montanha mágica

Um hotel contra a morte
Natália Portinari
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Para chegar ao Schatzalp, um antigo sanatório no alto dos Alpes suíços, em Davos, é preciso ser içado ao topo da montanha por um funicular. O caminho de ferro em plano inclinado e o casarão, onde hoje funciona um hotel, foram inaugurados em 1900, numa época em que a cidade era a capital europeia da cura para doenças pulmonares.

É verdade que nem sempre sobrevinha a cura. Quando o pior ocorria, e a neve do inverno ainda cobria as montanhas, os cadáveres dos tuberculosos eram acomodados em trenós e empurrados ladeira abaixo. Pelo menos é o que ouve dizer Hans Castorp, o protagonista de A Montanha Mágica, logo depois de chegar à cidade para se tratar. O romance de Thomas Mann se passa no Berghof, um estabelecimento fictício, vizinho ao Schatzalp, que inspirou o escritor alemão e por isso costuma receber levas de leitores-turistas fascinados com o livro.

“É uma boa história, mas seria muito difícil transportar os mortos no gelo”, explicou-me Pius App, um suíço alto de olhos verdes e cabelos loiros, de 71 anos. “Na verdade, havia um túnel subterrâneo para isso, que liga o hotel ao funicular.” Por lá era despachado quem sucumbia à doença.

App comprou o prédio em 2003, depois de se apaixonar pelo jardim botânico erguido ao redor, com mais de 5 mil espécies. O frondoso bosque começou a ganhar forma no início do século passado, por iniciativa dos doentes do sanatório. “Nos outros lugares, as plantas morrem no inverno e são substituídas na primavera, mas aqui elas sobrevivem sob a neve. Somos autênticos”, afirmou. Com o comentário, ele se contrapunha aos demais empreendimentos de Davos, preocupados em se reciclar incessantemente a fim de receber a elite financeira global, que costuma visitar a cidade para esquiar, escalar montanhas ou debater o futuro das nações no Fórum Econômico Mundial.

No Schatzalp, procura-se fazer o oposto: preservar tudo que for possível. “Demos sorte de os donos anteriores não terem tido dinheiro para reformar”, disse App. “São as pequenas coisas que fazem os cômodos falarem.”

Conversávamos em um saguão com pé-direito alto, piso de linóleo branco, lustres de vidro decorado e móveis art nouveau do início do século XX (cinéfilos reconhecerão o cenário do filme A Juventude, de Paolo Sorrentino, rodado ali). Logo ao lado, na recepção, havia cópias de A Montanha Mágica à venda, em inglês e alemão. O dono do hotel se diverte com os fãs de ficção que frequentam o local.

“Uma vez, um hóspede perguntou na recepção onde ficava o lugar em que um dos personagens se mata no fim do livro. Meus funcionários ficaram preocupados, acharam que ele ia se suicidar também”, contou, achando graça. “A clareira que Mann descreve realmente existiu, mas virou um pântano. O problema é que não dá para dizer isso para alguém que está em busca de uma experiência romântica desse tipo. Então inventei um lugar e o levei até lá.”

Para os fãs de literatura, tudo é inevitavelmente comparável ao Berghof. Nos corredores, como no livro, há uma luz amarela “trêmula” vinda de “globos de vidro fosco”. Ainda está lá o elevador de gaiola de pássaro, moda na Belle Époque, que hoje tem apenas função decorativa, ao lado de um modelo mais moderno, dos anos 50, este sim em operação. Há ainda um gigantesco móvel de madeira cheio de interruptores e fios, que parece uma máquina do tempo, mas é um telefone.

Nos quartos, que mantêm a simplicidade projetada para acolher tuberculosos, App dispensa televisão, geladeira e “a tábua de passar horrorosa” dentro do armário que, segundo ele, é onipresente em redes hoteleiras. Nas amplas varandas dos aposentos, há espreguiçadeiras. Nelas se fazia um descanso programado de até seis horas por dia. Acreditava-se que a exposição aos ventos dos Alpes ajudasse a curar a patologia.

 

O Schatzalp virou hotel em 1954. Nos anos seguintes, todos os prédios do mesmo tipo foram descaracterizados. Um deles é o Waldhotel, o antigo Waldsanatorium, onde Katia Mann, mulher de Thomas Mann, se internou em 1912. A visita que o romancista fez à esposa por três meses o inspirou a escrever o romance. No Waldhotel há hoje uma “suíte Thomas Mann”, equipada com duas televisões planas, uma máquina de café Nespresso e banheira com hidromassagem.

Pius App comprou seu hotel para prevenir esse tipo de inovação. No Schatzalp, ele quer que perdure o “enfraquecimento da percepção de tempo” descrito por Thomas Mann. A proposta parece atrair famílias com filhos pequenos e, sobretudo, clientes idosos, que aceitam esquiar com “um pouco mais de calma e silêncio”, segundo App.

O proprietário disse que está investindo nos “tempos de pirâmide etária invertida” – de cujo topo alargado ele próprio faz parte. É um público para o qual faz particular sentido esse enfraquecimento da percepção da passagem do tempo, como devia fazer para os tuberculosos de um século atrás. E para todo mundo mais, que também vai morrer.

N’A Montanha Mágica há um personagem, o dr. Behrens, em cujo consultório é possível ver as chapas de raio X dos doentes, novidade quente dos anos 1900. “As pessoas que morreriam em breve apareciam-lhe sob a forma de esqueletos”, um “triunfo dos tempos modernos”, escreve Mann. Quando comprou o hotel, App descobriu uma sala em que, encobertos pelo revestimento, havia painéis de luz vermelha usados para ver radiografias. O suíço botou os equipamentos para funcionar e batizou o cômodo de “Bar do Raio X”.

Solteiro e sem filhos, ele dedica seus dias a cada detalhe de caracterização do hotel, como se fosse um artista, como se escrevesse uma história. “Não quero que esse lugar seja diferente”, ele me disse, quando perguntei se ele tinha tal preocupação. Parecia não gostar da ideia de agitação, de atividade incessante implícita na pergunta.

“Esse lugar já é diferente”, explicou. A tarefa de App, ao que tudo indicava, consistia apenas em preservá-lo, protegendo-o da passagem do tempo, mantendo a construção viva na memória das pessoas. “Graças a mim hoje todos os suíços sabem o que é o Schatzalp.”

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