Mulher no volante

Uma avó contra o golpe na Turquia
Chico Felitti
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Na cabeceira da mesa de mogno com trinta lugares, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yıldırım, leva um copo à boca. Não consegue tomar a água. Após quatro segundos, balbucia: “Uma mulher coberta, lutando ao lado de pessoas com roupas modernas. Isso me emocionou.” As lágrimas do político rolaram durante uma reunião televisionada, tão logo ele reviu a imagem símbolo da resistência popular contra o golpe de Estado que o Exército tentou infligir ao país em 15 de julho. O premiê já havia chorado no pós-crise, como quando citou a reação do neto à insurgência debelada (“Por que os nossos soldados estão brigando contra o povo?”, lhe perguntou o menino). Mas foi o choro na reunião que correu o mundo.

Yıldırım observava a foto de sua compatriota Şerife Boz ao volante de um caminhão em Istambul. Na noite daquele tumultuado 15 de julho, a dona de casa transportou homens e crianças até a ponte do Bósforo, estreito que liga a Ásia à Europa, então bloqueado pelas Forças Armadas, para tentar deter os golpistas. Mal chegou ali, gritou Allahu akbar (Deus é o maior) repetidas vezes. “Nós conversamos com os soldados rebeldes e rezamos muito por eles, que seguiam ordens e não sabiam o que estavam fazendo”, contou duas semanas depois, na frente do possante, numa ladeira do bairro Kağıthane, onde mora. A região proletária de Istambul passa por um vertiginoso processo de gentrificação. Alguns sobrados de três andares, que costumavam abrigar uma família por piso, já foram derrubados e, em seu lugar, estão erguendo prédios modernos. Lojas de sucata, que funcionam ali há décadas, agora têm como vizinhos cafés hipsters.

Na noite seguinte à tentativa de golpe, Boz ligou para o marido, que se encontrava na praça Taksim, centro tradicional de protestos na cidade. Ela queria ir dirigindo até lá. “Você não pode entrar com um caminhão aqui”, alertou o cônjuge. Segundo alguns jornais, a carteira de habilitação de Boz não lhe permite guiar veículos como aquele. Ela fingiu que não escutou e conseguiu abrir passagem em meio à multidão que ainda se mantinha nas ruas. “O caminhão é muito útil em casos assim: dá para carregar mais pessoas, faz mais barulho”, explicou, enquanto passava a mão pela cabeça coberta com um véu de chiffon preto. A mulher de 50 anos já estava rodeada por policiais e fotógrafos quando avistou o marido. Fumando um cigarro atrás do outro, o homem pediu para ficar no anonimato: “Eu tenho um emprego, irmão”, justificou-se.

Há mais de duas décadas no batente, o DeSoto 950 – o número indica a carga máxima que o caminhão comporta, 9,5 toneladas – é normalmente usado pelo chefe da família, que no inverno entrega lenha e, no verão, terra. Sua esposa nem sempre o dirige, embora refute que não possua autorização para conduzir veículos pesados. “Não é que eu seja proibida, como muita gente diz. Só não tenho aonde ir”, esclareceu ela, que mal sai do bairro.

A cabine cor de ketchup e a caçamba cor de mostarda acabaram na capa dos principais jornais e revistas turcas, sob manchetes como “A heroína do contragolpe não usa capa”. “Foi um ato de loucura. Um, não. Foram dois!”, admitiu a mãe de quatro filhos, que se mostrava ofegante após percorrer o caminho de casa até o mercadinho, deixando em suspenso qual seria a segunda insensatez.

 

Enquanto comprava víveres, Boz me ensinava a escolher um regime político como se escolhem melões: “Tem de ser firme, mas doce”, conjecturava, apalpando duas esferas amarelas do tamanho de sua cabeça. Por firme, entenda-se “que siga as regras do Corão”. Indaguei se ela seria favorável à implantação entre os turcos da sharia, conjunto de leis islâmicas que preveem o apedrejamento de adúlteras e a proibição de bebidas alcoólicas, vigente em países como a Líbia e o Iêmen. “A voz de Alá sabe o que diz”, respondeu, dando as costas para pagar os melões e a lentilha vermelha.

Apesar do prenome, que se pronuncia rigorosamente como “xerife” em português, Boz nunca havia comprado uma briga. “Até hoje, só lutava contra a balança”, contou, diante de uma xícara de chá com quatro torrões de açúcar, numa tendinha perto de sua casa. A celebridade, porém, não lhe rendeu somente louvações. “Como ela pôde expor crianças, incluindo seus dois netos, a uma situação tão arriscada quanto aquela?”, criticaram alguns. “De fato, sob esse aspecto, eu deveria ter pensado mais um pouco”, reconheceu, levantando as mãos para o céu. “Não suportaria se acontecesse algo com os meninos.” Essa foi sua segunda loucura.

Terminado o chá, Boz retornou à boleia. Só que, agora, apenas para se deixar fotografar. Os filhos de uma vizinha desejavam tirar selfies no banco do passageiro, com a famosa motorista ao volante. “Todo dia são fotos, fotos, fotos.” Seu rosto foi parar até em camisetas de feministas. Ela costuma agradecer a homenagem, mas nega que se alinhe às militantes. “Não existe essa divisão entre homem e mulher, entre pessoas com véu e sem véu.” Quando lembrei que sua ação fez o primeiro-ministro chorar, Boz disse, com embargo na voz: “Que Alá o abençoe! A gente chorou muito por ele também.” Em seguida, emendou: “Mas que político nenhum tente roubar para si o poder.” E mirou longamente o caminhão.

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