O vinil renasce graças a colecionadores e uma tribo de jovens que cultua o som analógico
Ver dados da foto O vinil renasce graças a colecionadores e uma tribo de jovens que cultua o som analógico ILUSTRAÇÃO: DAVIDE BONAZZI @SALZMANART

A multiplicação das bolachas

Uma nova fábrica de LPs no país
Michele Oliveira
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O vinil renasce graças a colecionadores e uma tribo de jovens que cultua o som analógico ILUSTRAÇÃO: DAVIDE BONAZZI @SALZMANART

Naquela tarde de 2014, Luiz Carlos Bueno estava em casa, diante do computador, quando o telefone tocou. O desconhecido que o procurava foi direto ao assunto: “Eu e meu sócio achamos umas prensas de discos de vinil, bem velhinhas. Queremos saber se você consegue fazê-las funcionar.” Havia muitos anos que ninguém lhe propunha nada semelhante. “Só posso dar um parecer depois de conferir o lote”, respondeu Bueno, ressabiado. Marcaram um encontro para o dia seguinte.

Morador de Caieiras, município da Grande São Paulo, ele pegou a moto e se dirigiu à Vila Madalena, bairro da Zona Oeste paulistana, onde Clênio Lemos, autor do telefonema, o esperava junto de seu sócio, Michel Nath. Uma semana antes, Lemos comprara oito prensas hidráulicas num ferro-velho. Fabricados em 1954, nos Estados Unidos, os equipamentos pertenceram à extinta gravadora Continental e ficaram parados por quase duas décadas, justamente o período em que Bueno se manteve afastado da indústria fonográfica, prestando serviços como eletrotécnico a firmas de outros segmentos. “E então, você consegue fazer as máquinas funcionarem?”, insistiu Lemos.

Mesmo sem examiná-las, Bueno acabou garantindo o serviço. De 1981 a 1997, lidara com trambolhões similares na RCA Victor, gravadora de origem americana que abrigou artistas tão populares quanto Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves e Fafá de Belém. Quando o operário saiu da empresa, o CD já havia tomado o lugar do vinil – uma troca de bastão que se iniciou em 1995. Por isso, as 42 prensas automáticas da RCA sumiram da praça, assim como os equipamentos das fábricas concorrentes. “Restaram muito poucos porque as próprias gravadoras se encarregaram de destruir a maioria deles”, conta Bueno, que tem 61 anos e uma fala apressada, a ponto de atropelar um ou outro plural.

 

Guitarrista e DJ, Michel Nath se aproximou de Clênio Lemos ao fazer seu primeiro álbum, Solar Soul, que concebeu entre 2011 e 2012, durante um período sabático na Inglaterra. Mal retornou ao Brasil, entrou em estúdio para gravar as dez faixas compostas e arranjadas por ele mesmo. Gostou tanto do resultado que, modéstia às favas, classifica o disco de obra-prima – ou masterpiece, como prefere dizer (Nath costuma salpicar frases com palavras e expressões da língua inglesa).

Disposto a transformar o áudio em LP, procurou a Polysom, à época – e até agora – a única fabricante de vinis no país. A companhia, que possui quatro prensas antigas, começou a operar em 1999 para atender principalmente um nicho que continuava reverenciando o formato: o de música gospel. Com dificuldades financeiras, fechou em 2007, mas reabriu após dois anos e segue na ativa em Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense.

Como as tratativas com a empresa não avançaram, Nath recorreu à Media4Music, importadora de Lemos que representava uma fábrica tcheca de vinis. Encomendou-lhe 500 cópias do Solar Soul por 13 mil reais, sob a promessa de que os LPs entrariam no Brasil em agosto de 2014. A entrega, porém, atrasou oito meses.

Enquanto aguardava a encomenda, Nath topou com uma imagem recém-publicada por Lemos no Facebook. “Olha o que acabei de comprar!”, dizia a legenda da foto. Eram as oito prensas da Continental, ainda no ferro-velho. O músico vislumbrou ali uma oportunidade e pediu para conhecer as máquinas. Visitou o ferro-velho numa sexta-feira. No fim de semana, supervisionado pela mãe advogada, redigiu um contrato. Na segunda, assinou o documento com Lemos, e os dois viraram sócios. Na terça, ligaram para Luiz Carlos Bueno, indicado por um técnico egresso da RCA. Nascia, assim, a Vinil Brasil, segunda fábrica nacional de LPs, que pretende ser a maior da América Latina. Ocupando um galpão de 200 metros quadrados no bairro paulistano da Barra Funda, a companhia inicia as atividades neste mês.

De acordo com a Associação Americana da Indústria Fonográfica (RIIA), as vendas de vinil nos Estados Unidos geraram uma receita de 416 milhões de dólares em 2015 (ou 6% de tudo que a indústria local faturou com música, incluindo a digital). Foi o melhor resultado em aproximadamente três décadas. Desde 2008, a procura por “bolachas” naquele país sobe ano a ano, graças tanto a colecionadores que nunca abandonaram o formato quanto a jovens que passaram a cultuar o som analógico. No Brasil, não existem números precisos sobre o mercado de vinil, mas há indícios de que a demanda também esteja crescendo. Em São Paulo, por exemplo, aumenta o número de lojas e feiras que só negociam LPs.

 

Foi numa garagem que Bueno avistou as prensas pela primeira vez. Os sócios alugaram o imóvel às pressas para receber as oito máquinas de 2 toneladas cada uma. A situação dos equipamentos se revelou pior do que o eletrotécnico imaginava. “Estavam sujos, enferrujados, descascados, imprestáveis”, relembra. Ele preferiu ser sincero com a dupla: teria um trabalho grande para ressuscitá-las, sem falar nos custos. Nath deu sinal verde. Possuía uma reserva de dinheiro e desejava realmente apostar naquela aventura.

À medida que as prensas passavam por uma ampla reforma, outros equipamentos da RCA apareceram e se mostraram essenciais para a nova fábrica, já que o vinil ainda é confeccionado de maneira idêntica à de cinquenta anos atrás. O mesmo ocorreu com ex-funcionários da gravadora, resgatados por Bueno. “Ele me deu todas as coordenadas, dizia ‘faça isso, faça aquilo’, e eu entrei com o know-how de logística, de correria, de orçar, barganhar, comprar”, resume Nath. Certas peças indispensáveis às máquinas não existiam mais no Brasil, caso do molde que formata o vinil. Orçado em 60 mil reais fora do país, o acessório acabou sendo desenhado de cabeça pelo próprio Bueno e produzido aqui mesmo. Há cerca de um ano, Lemos deixou a sociedade e levou embora um dos oito equipamentos. O eletrotécnico virou, então, gerente geral da companhia.

 

Numa tarde abafada de abril, Nath caminhava ansioso pela fábrica – e não só porque, em dezoito meses, gastara com a empreitada “o equivalente a um apartamento médio no Centro de São Paulo” (ele não revela a quantia exata). O DJ de 39 anos também sentia a pressão dos amigos, a maior parte músicos da cena alternativa. Todo dia alguém lhe perguntava quanto iria custar um lote de 300 ou 500 LPs e quando a empresa aceitaria pedidos. As grandes gravadoras manifestaram igual interesse pela iniciativa. Tão logo saíram as primeiras notícias sobre o empreendimento, no fim de janeiro, a Sony Music procurou Nath e acertou relançar os dois únicos álbuns de Chico Science & Nação Zumbi: Da Lama ao Caos e Afrociberdelia. O compositor estima que as sete prensas da Vinil Brasil poderão gerar cerca de 200 mil LPs por mês, produção cinco vezes maior que a da Polysom.

Fã do esfuziante George Clinton, artista-chave do funk psicodélico, Nath amarga uma dose de frustração por não conseguir divulgar direito o próprio álbum. “Eu poderia ter decolado e estar agora em outro nível. Mas não arranjei tempo para nada além da Vinil Brasil.” Por enquanto, boa parte de seus discos continua encaixotada.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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