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Na marca do pênalti

A defesa mais importante da vida do goleiro Andrada

Kelly Cristina
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Numa quarta-feira de novembro de 2011, Edgardo Andrada viu-se acossado por jornalistas na porta do Tribunal Federal de San Nicolás, na província argentina de Santa Fe. Aos 73 anos e com escassos cabelos brancos, ele já não tem o porte altivo do goleiro que zelou pela meta do Vasco da Gama entre 1969 e 1975. Era um outro tipo de defesa, muito mais grave, que o levava ao Tribunal naquela manhã. Andrada é acusado de participação no sequestro e assassinato de dois opositores da ditadura argentina – uma das mais sangrentas da América Latina, que deixou um saldo de 30 mil mortos entre 1976 e 1983.

Em 14 de maio de 1983, Osvaldo Cambiaso e Eduardo Pereyra Rossi, dois militantes de uma organização guerrilheira, foram levados do bar Magnum, no Centro de Rosario. Segundo o relato de um colaborador do regime, foram interrogados e espancados durante todo o dia dentro de um pequeno caminhão. Três dias depois, seus corpos foram encontrados. Tinham sido amarrados, torturados com choques elétricos e mortos com tiros à queima-roupa.

Andrada foi acusado de envolvimento no episódio junto com outras oito pessoas, entre elas o general Reynaldo Bignone, ditador que presidiu a Argentina entre meados de 1982 e o final de 1983. Naquela manhã o ex-goleiro não seria julgado. Fora convocado pelo juiz para um interrogatório preliminar, no qual poderia dar sua versão dos fatos.

Os repórteres queriam saber o que ele tinha a dizer sobre as dezenove armas de fogo confiscadas em sua casa uma semana antes. Embora Andrada tivesse permissão para portar todas elas, a promotoria mandou apreendê-las por considerar que aquele “verdadeiro arsenal” representava “perigo para testemunhas e vítimas”, já que ele responde às acusações em liberdade.

Impassível, o ex-goleiro ignorou as perguntas dos jornalistas enquanto caminhava em direção ao Tribunal. Diante do juiz, manteve o silêncio, fazendo valer uma garantia constitucional. Deixou o local poucos minutos depois.

Andrada não foi um goleiro qualquer. Podia ter seu nome associado à campanha vitoriosa de 1974, quando o Vasco sagrou-se campeão brasileiro com um time que tinha ainda Roberto Dinamite, já um ídolo da torcida com apenas 20 anos de idade. Mas o argentino será sempre lembrado pelo gol que levou no Maracanã numa outra quarta-feira de novembro, mais de 42 anos atrás.

Foi um gol de pênalti, de difícil defesa. Andrada honrou o apelido de “Gato” dado por seus conterrâneos: escolheu o canto certo, o esquerdo, pulou com agilidade e chegou a resvalar na bola com a ponta dos dedos. Mas não o suficiente para impedi-la de tomar o rumo das redes. Pelé anotava naquele instante o seu milésimo gol. A imagem mostra Andrada socando o gramado de raiva enquanto o camisa 10 do Santos beijava a bola no fundo do gol, já rodeado por dezenas de jornalistas.

Depois do Vasco, Andrada ainda defendeu o Vitória da Bahia, em 1976, antes de regressar à Argentina. Aposentou-se em 1982, aos 43. Continuou trabalhando como treinador de goleiros e, depois, foi coordenador das categorias de base de seu primeiro time, o Rosario Central. Ao ser intimado pelo Tribunal, renunciou ao cargo.

Rumores que ligavam Andrada à ditadura argentina começaram a circular em meados dos anos 90. As acusações ficaram mais sérias em 1997, quando um documento anônimo entregue ao Tribunal Federal de San Martín citava Andrada como o “agente secreto C-3 do Destacamento de Inteligência de Rosario”, em cujas funções teria tido participação ativa no sequestro e morte dos militantes.

O ex-goleiro se complicou ainda mais no início de 2008, depois da entrada em cena de Eduardo “Tucu” Costanzo, militar que confessou seu envolvimento com a máquina de repressão da ditadura e cumpre prisão perpétua por crime contra a humanidade. Em entrevista a uma rádio de Rosario, ele apontou Andrada e vários outros nomes como participantes do sequestro.

O delator disse que o ex-goleiro era chamado de Antelo nas operações policiais. Insinuou ainda que Andrada participou de outras operações, já que “ninguém ali era figurinha decorativa”. Em entrevista ao Clarín naquela ocasião, Andrada declarou que “participou do Exército, mas não era delinquente”.

Me ligue dentro de alguns meses, quando isso tudo terminar, que contarei tudo”, disse Andrada ao atender o telefone de casa numa tarde de março. Sua voz parecia distante e cansada. “Isso tudo é uma farsa”, disse, esquivando-se de responder a perguntas sobre o caso. Antes de desligar, levantou o tom de voz para se defender: “Sou inocente. Ponho as mãos no fogo.”

Depois da audiência de novembro, o juiz considerou que não havia evidências suficientes para ligar Andrada ao caso. Dos oito acusados de envolvimento com o sequestro, só ele e o tenente-coronel Victor Hugo Rodríguez se beneficiaram dessa interpretação. Os outros devem ser julgados. A maior parte, já condenada por outros crimes, aguarda na prisão.

Ana Oberlin, advogada das irmãs de um dos ativistas assassinados, não se conformou com a decisão. “Ela é arbitrária”, alegou. “A partir das mesmas evidências, o juiz considerou alguns acusados passíveis de serem julgados e outros, não.” Oberlin e a promotoria – que afirma ter documentos oficiais norte-americanos e argentinos que comprovariam o envolvimento de Andrada com o caso – recorreram da decisão. Não há previsão para que a Justiça argentina volte a apreciar o caso. Enquanto isso, Andrada segue em liberdade.

Roberto Dinamite, hoje presidente do Vasco, tem dificuldade para acreditar no envolvimento do ex-goleiro. “Ele sempre foi uma pessoa boníssima. Era alegre e tinha uma ótima convivência com colegas e funcionários”, disse. “Algumas pessoas acusam e outras têm o direito de se defender.” Andrada continua na marca do pênalti.

Kelly Cristina

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