esquina

Não vai ter tinta

A Copa da crise numa rua do Rio

Yasmin Santos
Andrés Sandoval_2018

O produtor de eventos Valter Gonçalves foi o primeiro a chegar naquela segunda-feira de maio. Eram quase quatro da tarde quando ele despontou de óculos escuros e expressão confiante, trazendo a tiracolo três sacos cheios de adereços com as cores da bandeira brasileira. A cada quatro anos, Gonçalves e outros três moradores do bairro da Glória, na Zona Sul do Rio de Janeiro, enfeitam a rua Benjamin Constant para a Copa do Mundo.

Faltando menos de um mês para o início do mundial de futebol, ainda tinham bastante trabalho pela frente. Já havia um trecho de cerca de 50 metros coberto com varais amarrados de um lado ao outro da rua, nos quais estavam penduradas fitas e bolas de plástico verdes e amarelas. Gonçalves tirou de um dos sacos uma faixa verde de 8 metros, que seria pendurada de frente para os varais. Sentado sobre uma bancada de concreto, pôs-se a amarrar as fitas de plástico. Para completar a decoração até o fim da rua, faltavam mais 150 metros.

Gonçalves trabalhava nas imediações de uma escadaria que leva para o bairro de Santa Teresa. Ali há um largo que já abrigou um estacionamento no passado e que, mais recentemente, foi apropriado pelos moradores e frequentadores da roda de chorinho promovida pelo boteco ao lado, onde os torcedores se reúnem para ver os jogos do Brasil num telão. A escadaria já está pronta para a festa, por obra de Luiz Claudio Serra, que trabalha como negociador de cobranças num banco. Cada degrau foi dividido por ele em três partes, pintadas alternadamente de verde e amarelo (quem vê de longe tem a impressão de que são três escadas construídas lado a lado). “Quando eu tinha 15 anos pintava a escadaria numa só noite”, contou Serra. “Hoje preciso de três, e mesmo assim com a ajuda do Valter.”

As cores da bandeira estão também em paralelepípedos, postes e canteiro – nem os vasos de planta escaparam à maré verde-amarela. Pintado no chão do largo há um escudo gigante no formato daquele que adorna o uniforme da Seleção. Em vez das iniciais da Confederação Brasileira de Futebol, porém, ele exibe as letras TBC. “Aqui é Torcida Benjamin Constant”, explicou a recepcionista Vilma Gonçalves, irmã de Valter. “Não tem CBF, não.”

Os quatro amigos de infância, todos na casa dos 50 anos, enfeitam a Benjamin Constant há nove Copas do Mundo, desde 1982 (o quarto componente da equipe é o pintor Giovanni Fernandes). Sempre de celular na mão, Vilma é uma espécie de relações públicas do grupo. De olho nas redes sociais, é ela quem cuida de inscrever a equipe nos concursos para eleger as melhores decorações urbanas para a Copa. Em 2014, a Benjamin Constant foi considerada a rua mais bonita do Rio – o prêmio foi uma festa orçada em 70 mil reais, realizada durante a partida entre Brasil e Colômbia pelas quartas de final.

A festa mais memorável daquela Copa, paradoxalmente, foi realizada após a derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 na semifinal. A carne na brasa e a cerveja gelada falaram mais alto do que a goleada, e os brasileiros comemoraram até tarde com alemães hospedados nos albergues e hotéis do entorno. “A gente não ia parar a festa por causa disso”, justificou Giovanni Fernandes, com um sorriso. “Melhor perder pros alemães do que pros argentinos. Isso aqui ficou igual ao Maracanã, todo mundo vibrando.”

Este ano, porém, a Benjamin Constant deve ficar menos enfeitada. Em tempos de crise, a ajuda dos vizinhos para decorar a rua minguou, e o jeito será fazer uma festa mais comedida. As mais de 2 mil bandeirinhas do Brasil que, na Copa passada, foram doadas para enfeitar a rua não cabem no orçamento dos organizadores para 2018. “Vamos decorar o varal só com fitas e bolas mesmo”, disse Luiz Claudio Serra, com ar resignado. “Também por economia, decidimos não pintar todo o chão na frente da escadaria.”

Nenhum dos quatro organizadores sabe calcular ao certo o orçamento para decorar a rua. “Cada lata de tinta de 18 litros custa cerca de 100 reais”, estimou Valter Gonçalves. “Precisamos no mínimo de quatro, uma de cada cor, e ainda faltam os adereços para o varal de fitas.” Até o fim de maio, perto de 1 mil reais já haviam sido gastos na decoração da rua, obtidos de doações de moradores e comerciantes. Os organizadores estimam que ainda sejam necessários mais 500 reais.

Quem cuida das finanças é Luiz Claudio Serra. “Ainda temos 40 reais em caixa”, ele comunicou aos colegas naquela segunda-feira. A informação alarmou o grupo – nem metade da Benjamin Constant estava decorada até ali, e pelo visto faltaria dinheiro. “Compra tudo em plástico”, aconselhou Giovanni Fernandes. “Precisamos colocar as fitas até o fim da rua.”

Se serve de consolo, o desempenho brasileiro nos últimos mundiais ajuda os decoradores a economizar tinta. Na parede contígua ao boteco onde os torcedores assistem aos jogos, há uma grande bandeira do Brasil com a mensagem “Rumo ao hexa”. É a mesma desde 2010: como há dezesseis anos a Seleção não vence mais um título mundial, o único trabalho do grupo é renovar a demão de tinta a cada Copa.

Naquele mesmo dia, uma pequena parte da calçada da Benjamin Constant amanheceu com uma pichação. Em vermelho, a frase “PM mata pobre” contrastava com o fundo amarelo do retângulo pintado dias antes por Valter Gonçalves. No fim da tarde, ele próprio mergulhou o rolo de tinta na bandeja e, com golpes rápidos, tentou reconstituir a pintura no chão. Sob a tinta fresca e a iluminação do poste, a frase resistia. “Só mais uma demão e isso some”, avaliou.

A pichação atraiu a atenção dos vizinhos que passavam por ali. Houve quem sugerisse que era obra de algum morador do morro Santo Amaro, cuja entrada ficava a poucos metros dali. Uma moça reprovou a intervenção: “‘Fora Temer’ a gente deixava, mas ‘PM mata pobre’ não dá.” Escondida ao pé de um muro, quase no início da escadaria, havia outra pichação. As letras amarelas disputavam espaço entre os tijolos de cimento: “Marielle vive em nossos corações.” Com essa, ninguém mexia.

Yasmin Santos

Yasmin Santos é estagiária do site da piauí. Antes, trabalhou no Museu de Arte do Rio e no Museu Nacional.

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