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Negócio da Índia

Muçulmano vende a hindus o capim que suas próprias vacas comem

Juliana Cunha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

No meio das ruas do bairro de Lal Darwaja, na cidade indiana de Ahmedabad, um rapaz magrinho de 32 anos mantém um negócio lucrativo: um restaurante para vacas. Com duas vacas leiteiras e uma carroça cheia do mais fresco capim da região, Sameer Qureshi transita dentro de um pequeno perímetro de ruelas definido como seu ponto. Mais adiante não pode ir, para não invadir a área da concorrência.

Apressados para o trabalho, os transeuntes param junto à carroça, compram um punhado de capim e logo depois entregam as folhas a uma das vacas. Sameer vende a grama que suas próprias vacas comem, um negócio de ouro. Os clientes parecem satisfeitos. Um homem balança a cabeça de um lado para o outro enquanto observa a vaca mastigar feito chiclete a comida que lhe foi entregue.

Muçulmano, Sameer explica que os hindus ficam felizes em alimentar suas vacas. Cada punhado de grama é vendido por 20 rúpias, ou 70 centavos de real. Questionado sobre quantas porções de capim cada vaca é capaz de comer, Sameer exclamou: “Infinitas! Elas sempre aceitam um pouco mais.” Na dúvida, ele reduz a porção discretamente nos horários de maior afluência, que é para não formar fila.

No sistema de castas hindu as vacas ficam acima dos sacerdotes, os brâmanes. Leite, urina e fezes são sagrados, assim como seu direito de ir e vir pelas ruas apinhadas de pedestres e tuk-tuks, os temerários veículos de três rodas que são símbolo do país. Não é prudente questionar o status bovino. Que o diga o historiador Dwijendra Narayan Jha, execrado publicamente em 2002 por um livro no qual contestava a santidade desses animais e defendia que os antigos hindus comiam lá seus bifinhos.

Os muçulmanos, que representam 13% da população indiana, não adoram vacas, mas também não criam confusão com elas. Segundo uma pesquisa de 2006, 31% dos indianos são classificados no país como “vegetarianos puros”, ou seja, consomem alimentos de origem vegetal e laticínios, e outros 9% são ovolactovegetarianos – comem tudo isso mais ovos, que também são banidos da dieta dos hinduístas mais restritivos. Mesmo entre os carnívoros a frequência no consumo de carne é pequena: menos de 30% da população coloca um bife no prato uma vez por semana.

 
Onde se ganha o pão não se come a carne. Ahmedabad é a maior cidade do estado de Gujarati, o rincão mais radicalmente vegetariano da Índia. Quando o avô de Sameer se mudou para lá, vindo de Nova Delhi, viu vantagem em mudar seus hábitos alimentares: ofereceram-lhe 15% de desconto no aluguel caso se comprometesse a não levar carne para dentro da casa. Hoje a família só encara um churrasco nas visitas a Nova Delhi e ao Paquistão. Para todos os efeitos, são vegetarianos puros.

Acontece que, por gerações, a carne foi o sustento dos Qureshi, uma casta tradicional de açougueiros. “Não tem problema se você não quiser seguir a profissão que a sua casta vinha seguindo. Se for melhor para os negócios fazer outra coisa, a família entende”, conta Sameer. “Mas os parentes acham esquisito meu filho não saber lidar com a carne ou nem sequer conhecer os cortes da vaca. Nem eu sei direito, na verdade. Isso é ruim, dizem que perdemos a raiz.”

A clientela não vê maiores problemas na origem carnívora do vendedor de capim. “Sei que ele é muçulmano e sei que é um Qureshi, mas todo mundo no bairro sabe que eles não comem carne, então tudo bem. O que importa mesmo é alimentar as vacas”, diz Tanvi, uma senhora hindu de 57 anos que passa pelas ruas de Lal Darwaja duas vezes por semana para atrair boa sorte dando de comer aos bovinos. Mas tolerância tem limite. Ai de Sameer se a cliente descobrisse que ele come carne. “Aí, não. Eu pararia de vir aqui, não teria sentido.”

 
Quando não estão ocupadas comendo, as vacas de Sameer dão leite à família de quatro membros e ainda amamentam para fora. A Amul, maior cooperativa de laticínios do país, nasceu em Gujarati e foi uma das principais responsáveis pela chamada “revolução branca” da década de 50, quando passou a comprar o leite de pequenos produtores como Sameer. O negócio impulsionou a economia indiana e hoje envolve mais de 10 milhões de produtores, 70% dos quais de micro e pequeno porte.

O esquema, no entanto, pode embrulhar os estômagos ocidentais mais sensíveis. É que as vacas de pequenos produtores urbanos são famosas por andarem soltas pelas ruas das cidades indianas, comendo o que veem pela frente, frequentemente lixo. Nada que deva tirar o sono do freguês, na avaliação do vendedor. “Não tem problema, porque eles pasteurizam o leite”, desconversa. Suas vacas, privilegiadas, usam colares de miçangas e jamais comem lixo, que é para deixar espaço no rúmen para o capim de 20 rúpias.

As vacas “vira-latas” – um apelido que o tradutor da repórter repudiou – são aquelas que pertencem a famílias de pastores urbanos. Como vivem na cidade e já não possuem um pasto, eles deixam seu rebanho solto durante o dia e montam um pequeno curral na porta de casa para que os animais durmam. Apesar do clima de permissividade, com vaca sambando na cara dos pedestres e deitando em ponto de ônibus, não pense que é só chegar e clamar por um pouco de leite. Os animais são treinados para que somente os donos possam pegar em suas tetas. “Já tentou roubar leite da vaca dos outros? Elas te chutam e correm. A vida toda ali, sentindo a pressão da mão do dono. Não tem como confundir”, explica Sameer, enquanto ordenha uma vaca imaginária.

Além de treinadas para a prática da fidelidade láctea, as superdotadas vacas indianas ainda sabem o caminho de volta para casa. “É como ensinar os filhos a ir para a escola”, explica o ex-açougueiro enquanto acaricia o animal. “Na primeira semana você vai com eles e depois volta, vai e depois volta. Com o passar dos dias eles aprendem.”

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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