Para nossos pais, a Europa Oriental era como outro planeta; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal. Por isso, em 

grande medida, agora sofremos uma espécie de desespero
Ver dados da foto Para nossos pais, a Europa Oriental era como outro planeta; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal. Por isso, em grande medida, agora sofremos uma espécie de desespero ILUSTRAÇÃO: @PEJAC_ART / WWW.PEJAC.ES

Nenhum país é uma ilha

As desilusões de um jovem filósofo com o Brexit
Tom Whyman
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Para nossos pais, a Europa Oriental era como outro planeta; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal. Por isso, em grande medida, agora sofremos uma espécie de desespero ILUSTRAÇÃO: @PEJAC_ART / WWW.PEJAC.ES

Qual a sensação, depois do Brexit? Uma possível descrição: é como levar um murro na cara, só que bem devagar. Deveríamos ter visto o punho vindo em nossa direção – o plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na comunidade econômica e política europeia estava na mesa desde janeiro de 2013 –, mas nós o ignoramos, não nos demos conta de que se aproximava, até que fosse tarde demais; apenas o estrepitar horrível do punho em nossos dentes, nossos lábios se partindo e o gosto de sangue na boca nos alertaram para o que realmente se passava. Ninguém pensou que iríamos de fato votar por nossa saída da União Europeia – afinal, boa parte de nossa segurança econômica e da nossa capacidade de influência em política externa estava atrelada ao fato de pertencermos a essa entidade supranacional específica. Não era pouca coisa. Era coisa demais, na verdade, para que pudesse ser atirado janela afora por qualquer grupo político que agisse de forma racional. Mas foi o que fizemos.

Outra sugestão: o Brexit é como um animal que está preso, e o espaço confinado onde ele se encontra está começando a se encher de água. A gente começa a entrar em pânico, o coração acelera, corremos de um lado para o outro em busca de uma saída, subimos pelas paredes e emitimos um estranho ganido de medo e dor. Por fim, percebemos que havia uma saída, mas o mesmo problema que fez com que a água vazasse ao ponto de agora inundar a cela também teve como efeito bloquear aquela rota de fuga, o único lugar por onde poderíamos fugir. O melhor a fazer numa situação como essa é, digamos, ser capaz de se adaptar a uma realidade em que não é mais possível respirar. É mais ou menos assim que muitos de nós estamos nos sentindo, como cidadãos do Reino Unido, agora que o Brexit se consumou.

Nos dias seguintes à vitória do Leave [1], senti como se estivesse o tempo todo num estado aguçado de consciência sensorial, uma espécie de entorpecimento perturbador que teimava em não passar. Tudo era ou estava grande demais, barulhento demais, próximo demais, e havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. O primeiro-ministro havia renunciado, e ainda assim essa era apenas a segunda ou terceira chamada, em ordem de importância, nos sites de notícia. A libra despencara – nunca tinha despencado desse jeito antes –, a economia estava à beira do colapso, mas a população, de maneira democrática, acabara de dar uma ordem aos seus representantes no Parlamento (uma decisão que, todos insistem, precisa ser respeitada) para agravar a crise, para piorar ainda mais a situação. A principal legenda de oposição, em vez de aproveitar a oportunidade para se mostrar apta a governar, se ocupava nos dias seguintes ao Brexit de disputas internas e uma bizarra tentativa de golpe contra seu principal líder, imensamente popular entre as bases do Partido Trabalhista [2]. Na semana anterior, uma parlamentar francamente pró-imigração havia sido assassinada – a tiros – por um neofascista. À votação pró-Leave, seguira-se uma escalada nos relatos de atitudes racistas no país.

“Eu não pensei que fôssemos sair de fato da UE”, entoava o coro de um sem-número de infelizes nos noticiários, pessoas que haviam votado Leave. “Só queria dar uma sacudida nas coisas.” O mundo parecia ter mergulhado – deliberadamente – na estupidez e no caos. Para mim, em particular – um sujeito de 27 anos, precariamente empregado numa universidade como professor de filosofia –, tudo parecia estar fugindo ao controle. Não dormia, mal era capaz de comer ou de fazer exercícios: tudo que eu conseguia fazer era ficar sentado diante do computador, atualizando os sites de notícia, aguardando por novas postagens nas mídias sociais e esperando que os acontecimentos viessem a fazer um pouco mais de sentido. Sentia vontade de seguir adiante, mas sem nenhuma direção específica, talvez em todas as direções ao mesmo tempo; queria ir para algum lugar, fazer alguma coisa. Se já não estivesse num relacionamento estável, provavelmente teria tentado fazer sexo com alguma pessoa desconhecida. Que outras opções me restavam? Talvez pudesse bater com a minha cara contra um muro.

O “desespero com o Brexit” já se tornou, a essa altura, um estado de ânimo reconhecível. Eu não era o único que, em decorrência do resultado da votação, tinha passado a viver naquele tipo particular de ansiedade febril. Sei que meus sentimentos são compartilhados por quase todo mundo dentro do universo das pessoas que conheço e amo, ou pelo menos entre aqueles da minha faixa etária. Para além dessa observação subjetiva, uma pesquisa feita pela London School of Economics revelou que 55% dos que votaram Remain [3] “choraram ou sentiram vontade de chorar” ao saber do resultado do referendo; 67% dos eleitores com menos de 40 anos declararam ter sentido “raiva” ao saber do resultado; 72% estavam “frustrados”; e 61 % ficaram “enojados”.

 

Quem são as pessoas tipicamente afetadas pelo “desespero com o Brexit”? Bem, eu diria que ele afeta “pessoas como eu”. E o que quero dizer com isso é: jovens urbanos, “progressistas” ou de esquerda, com alto nível de escolaridade, oriundos da classe média e… pobres. Em essência, somos de modo geral mais pobres que nossos pais eram na nossa idade, e temos muito pouca perspectiva de enriquecer. Somos filhos da crise financeira. Os acontecimentos que tiveram lugar em 2008 marcaram indelevelmente nossa identidade.

Fomos todos criados para buscar segurança financeira e profissional. Essa sempre foi a mensagem que incutiram em nossa cabeça na escola: se nos aplicássemos para valer e fizéssemos faculdade, provavelmente evitaríamos para sempre o desemprego. No mínimo dos mínimos, teríamos garantido um emprego seguro, ainda que insatisfatório. Por volta dos 30, provavelmente teríamos casa própria, pensão assegurada, parceira, parceiro ou cônjuge estável, além da perspectiva de ter filhos. Tudo isso, no entanto, parece agora simplesmente impossível de alcançar.

Tão logo entramos para a universidade – ou assim que nos graduamos, talvez –, todas as nossas possibilidades de obter segurança de longo prazo desapareceram. E mesmo quando a economia começou a se recuperar, ainda que devagar, ideólogos do livre mercado – empregados, no caso do Reino Unido, no governo de David Cameron – trabalharam duro para que essa segurança jamais voltasse a ser possível para gente como nós. Imagine uma carreira profissional qualquer que você poderia querer seguir – e digo “querer” porque o que te motiva não é apenas o dinheiro. Jornalismo, digamos, ou uma carreira acadêmica, no magistério, na medicina, nas artes. Bem, é quase certo que, neste mundo, você jamais venha a experimentar um único momento na vida em que possa ser bem-sucedido nessa carreira e, ao mesmo tempo, ter a chance de parar por um segundo para respirar – são pouquíssimos os felizardos capazes disso, tão abençoados que suas vidas chegam a parecer inumanas. Na melhor das hipóteses, você nunca vai parar de correr atrás, e isso apenas para conseguir permanecer sempre no mesmo lugar.

É assim, em todo caso, que tenho vivido minha vida adulta. Por causa do medo de parar (que é sobretudo o medo de não poder recomeçar), nunca deixei de trabalhar na carreira que escolhi: a acadêmica. Fiz meu doutorado em três anos e, para ser sincero, arruinei minha saúde: meus músculos hoje doem o tempo todo, manco ao andar, adquiri uma psoríase no couro cabeludo e nas coxas, e um problema de refluxo gastroesofágico que corroeu todo o esmalte da parte posterior dos meus dentes – e, o que é pior, não posso pagar pelo tratamento dentário de que preciso para impedir que meus dentes da frente caiam. Toda a minha existência física neste mundo se caracteriza pela presença constante de algum tipo de dor, ainda que não muito intensa. E, ainda assim, não posso parar, não estou nem perto de ser um acadêmico estabelecido e sequer consigo entrevistas de emprego para algo muito melhor do que uma posição temporária de professor-assistente. A vertigem da inércia ainda é uma ameaça.

Por causa desse tipo de experiências, que me marcaram em toda a vida adulta, não tenho nem mesmo certeza de que alguém possa de fato obter segurança, quero dizer, a ponto de conseguir relaxar. (Ainda que alcançássemos essa meta, não estou certo de que jamais sentiríamos tê-la alcançado de fato.) Casa própria, aposentadoria… não são coisas que eu consiga acreditar que existirão “para mim”. Ter filhos, talvez sim, isso eu consigo vislumbrar. Mas é provável que essa possibilidade se deva a uma peculiaridade da minha história de vida, resultante do fato de que minha companheira era babá quando nos conhecemos, e de eu ter, aqui e ali, gostado de ajudá-la a cuidar das garotinhas sob sua responsabilidade.

O que procuramos, então? O que perseguimos? Para que trabalhar, afinal de contas? De modo geral, penso que, privados da perspectiva de obter segurança, optamos pela “experiência de vida”. Jamais teremos dinheiro suficiente para sermos prósperos, mas – dada a rede de segurança que representa o imóvel que nossos pais possuem – temos o suficiente para pelo menos poder tentar fazer algo interessante. Assim, vivemos de um modo que nos permita acumular experiências, quaisquer que sejam elas. Gastamos nosso dinheiro saindo à noite, tirando férias, concedendo-nos luxos frívolos, ou utilizamos alguma economia para nos manter enquanto fazemos malfadadas incursões pelas artes ou um mestrado que não vai aumentar, e sim diminuir – pela dedicação que exige – nossa chance de conseguir algum emprego. E, claro, um bocado disso envolve tirar vantagem da liberdade de movimento que a condição de membros da União Europeia nos oferece. Para a geração de nossos pais, a Europa Oriental em particular era como um outro planeta, um mundo estranho; para nós, todo o continente europeu é parte de nosso quintal, e nos é natural não apenas viajar como também morar e trabalhar lá. (Um exemplo pessoal: conheci minha companheira, também cidadã britânica, quando ambos morávamos em Berlim.)

É por isso, em grande medida, que agora sofremos uma espécie de desespero. Privados da perspectiva de segurança financeira pelos poderes constituídos, nós tínhamos aceitado trocá-la pela “experiência”; agora, porém, mesmo as possibilidades de novas experiências estão sendo corroídas. E não me refiro necessariamente à livre movimentação de trabalhadores, à capacidade de podermos nos empregar na Europa apenas. A perspectiva de uma nova crise financeira também se apresenta, e, com ela, menos oportunidades ainda de ganhar o dinheiro necessário para explorar o mundo. O animal apanhado na armadilha crava as garras nas paredes de seu cativeiro na tentativa de, escavando, encontrar um meio de escapar, enquanto o nível da água começa a subir cada vez mais rapidamente. Ele se agita, choraminga e gane, na esperança de que isso possa, de algum modo, protelar seu fim.

 

Isso é choradeira burguesa”, é o que diz o meu amigo David quando discuto o assunto com ele, uma discussão cada vez mais acalorada, embora estejamos ainda no primeiro litro de cerveja. “Seu desespero não é real. É só o medo de não poder voltar a morar em Berlim quando bem entender. Mas isso é absolutamente ridículo. Você tem um Ph.D., arrumaria emprego fácil por lá. E ainda que nos tirassem de verdade a liberdade de podermos nos empregar na Europa, você continuaria podendo viajar a Berlim. Você precisa pensar é nas pessoas que votaram Leave. Para começo de conversa, acha que, para os jovens que votaram pelo Brexit, mudar-se para a Europa em algum momento chegou a ser uma opção viável? Para eles, a livre movimentação de trabalhadores era na verdade uma coisa ruim e, seja como for, eles é que serão os mais afetados por um novo crash.”

É claro que há um elemento disso que David fala em nosso desespero com o Brexit. Trata-se de um desespero que, em muitos aspectos, foi produzido por nossos privilégios – tanto os culturais como os educacionais. Antes de mais nada, foi o fato de nossos pais pertencerem a uma classe privilegiada que nos tornou “abertos” em relação à Europa, o que, por sua vez, permitiu que nos beneficiássemos do bloco político e econômico e, portanto, agora nos faz sentir a retirada de nossa cidadania europeia como uma perda. Essa é a razão pela qual acabamos chegando à conclusão de que “mais Europa” era a resposta para a nossa insegurança econômica, em vez de “menos Europa”, que, claro, é o que querem os que votaram Leave. Muitos dos jovens que votaram dessa maneira não tiveram tanta sorte como nós – não tiveram, nas suas famílias, o mesmo nível de segurança financeira e psicológica das casas onde nós crescemos, nem chegaram a ter a chance de ir para a universidade. E caso haja de fato uma nova crise, são esses jovens em especial que vão se ferrar – e se ferrar não porque terão de voltar a morar com os pais, como nós, e sim porque simplesmente não vão ter onde morar, nem tampouco como alimentar suas famílias.

Isso posto, eu penso que as causas do desespero com o Brexit provavelmente vão ainda mais fundo. Para começo de conversa, esse desespero se manifesta entre imigrantes conhecidos meus, provenientes da União Europeia, muitos dos quais passaram boa parte da vida no Reino Unido, com o qual se identificam muito, portanto. Além de se manifestar também entre britânicos que conheço que possuem outras nacionalidades europeias, outros passaportes. O desespero não diz respeito, assim, apenas à possibilidade ou impossibilidade que temos, como indivíduos, de deixarmos o Reino Unido, ou à nossa liberdade para explorar o mundo, ou à possibilidade de vivermos nossas vidas como bem entendermos: o desespero tem a ver com o que o voto pelo Brexit nos revela sobre aquilo que o Reino Unido se tornou.

 

O que o Brexit nos diz sobre o Reino Unido? Para poder responder, temos primeiro que compreender no que exatamente as pessoas votaram. A campanha para o referendo sobre a União Europeia foi uma coisa confusa, amorfa, indefinida – como apontou o blogueiro, e meu amigo, Sam Kriss, daria no mesmo se entregassem a todos os eleitores uma cédula contendo apenas um “Sim” e um “Não”, sem nenhuma pergunta à qual responder sim ou não. Você quer rejeitar a realidade? Vote não. Quer afirmá-la? Vote sim. Esse, de acordo com Sam, foi o motivo pelo qual o Brexit ganhou: mais gente preferiu rejeitar a realidade do que afirmá-la, um número maior de pessoas preferiu rejeitar o que quer que seja que hoje exista. Na minha opinião, no entanto, há pelo menos duas coisas que as pessoas efetivamente pretenderam alcançar ao votar Leave. Elas queriam impor limites à imigração e queriam também “retomar o controle” (Take Back Control, como dizia o slogan da campanha pelo Leave) das mãos da União Europeia.

A verdade é que não é difícil se solidarizar com esse desejo de tomar o controle de volta da União Europeia. A UE é uma organização infernal, corrupta, antidemocrática e tecnocrática, cujo propósito geral é promover e preservar o consenso neoliberal entre seus Estados-membros, muitas vezes valendo-se de violência econômica para impô-lo. É perfeitamente válido olhar para a UE e pensar: essa é uma organização que precisa ser reformada; ou olhar para sua atuação recente na Grécia e em Portugal e pensar: alguém precisa enviar uma mensagem enérgica a essa organização, para que ela pare de tratar seus Estados-membros dessa maneira. Essa foi a justificativa para a “esquerda” que apoiou o voto pelo Leave (o chamado “Lexit” [4]), manifestada no início da campanha por figuras proeminentes da esquerda britânica.

Esse desejo de “retomar o controle” resulta de uma forma de alienação. A UE é uma coisa distante e inescrutável, dotada de uma lei própria que não entendemos e que não controlamos. O instinto de querer o controle de volta é o instinto de querer trazer essa lei de volta para a nossa realidade imediata, torná-la algo nosso – algo que potencialmente podemos transformar. Ou seja, trata-se de acabar com o déficit de democracia existente entre os Estados-membros, de um lado, e a União Europeia, de outro. Esse é o instinto por trás do Lexit; curiosamente, é também o instinto por trás de boa parte dos argumentos da direita tradicional para sair da União Europeia, uma causa que existe desde a derrota sofrida pela direita do Partido Conservador para o então primeiro-ministro John Major, por ocasião da aprovação do Tratado de Maastricht no Parlamento[5] – livrar-se da UE dos excessos burocráticos e dos regulamentos, que existe apenas para impor um cânone bizarro de normas enigmáticas a atropelar desnecessariamente o velho e saudável bom senso britânico.

 

No contexto, porém, da campanha em torno do plebiscito, não foi isso que “retomar o controle” acabou significando. Tecnicamente, o referendo terminou por opor a opção de simplesmente sair da União Europeia, de um lado, a uma “renegociação” com o bloco comandada pelo primeiro-ministro David Cameron, de outro, em torno de um pacote que se concentrava quase que exclusivamente em impor limites à imigração – uma espécie de reforma que pretendia sobretudo desestimular a imigração para o Reino Unido por meio de restrições aos direitos dos imigrantes da UE no país. Assim sendo, a União Europeia sempre figurou no debate sobre o Brexit, de um lado e de outro, como uma organização que impede o Reino Unido de controlar suas próprias fronteiras – e era destas que, no contexto da campanha pelo Leave, se precisava “retomar o controle”.

Isso fez com que o debate fosse dominado pela retórica anti-imigração, estimulada por figuras de ponta da campanha pelo Leave, como Boris Johnson[6] – à época, ainda buscando cinicamente a liderança dos conservadores – e pelo líder do Partido pela Independência do Reino Unido, o Ukip[7], Nigel Farage[8], o homem que, praticamente sozinho, reintroduziu o euroceticismo e a xenofobia na agenda política nacional durante o governo Cameron. De ambos os lados, partiu-se do pressuposto de que a imigração era um problema, de que seus níveis eram “insustentáveis” e de que era preciso limitá-la; e, mais do que isso, de que os problemas que hoje afligem a economia britânica eram, de alguma maneira, culpa da imigração proveniente da UE. A única dúvida de fato era em que medida limitar a imigração – quais seriam seus “níveis sensatos”. Provavelmente a única figura política de vulto que não favoreceu a agenda do Ukip nesse debate foi o líder trabalhista Jeremy Corbyn, que no entanto acabou sendo acusado pelos próprios parlamentares trabalhistas de não ter “se empenhado com afinco” na campanha pelo Remain.

É isso, pois, o que o Brexit tem a dizer sobre o Reino Unido: que ele vem se tornando cada vez mais racista, xenófobo e fechado – o tipo de lugar que não deseja acolher estranhos, coisas novas e culturas ou valores diferentes. O sentimento anti-imigração tornou-se norma no debate político corrente – numa tal medida que qualquer pessoa que deseje ser tomada pela mídia como eleitoralmente relevante e viável precisa expressar “preocupação” com a imigração. Tudo isso, é claro, acabou inevitavelmente chegando às ruas: relatos de atos racistas ou xenófobos deixaram de ser exceção, e se tornaram corriqueiros.

É por isso que o desespero com o Brexit que muitos de nós sentimos resulta em não pouca medida do fato de a Grã-Bretanha estar se tornando um lugar que “tipos como nós” – escolarizados, cosmopolitas e jovens – não temos mais vontade de defender, um lugar com o qual nos sentimos incapazes de nos identificar. Pois bem: o momento em que se confirmou que havia um distanciamento radical entre nós e a Grã-Bretanha tal como ela é hoje – a vitória do Leave – foi também aquele em que nos vimos apartados de uma outra coisa, algo que nos interessaria e, não fosse o resultado do plebiscito, nos permitira criar uma espécie de identidade alternativa – uma identidade baseada em nossa cidadania europeia, ou em alguma noção de uma “Grã-Bretanha dentro da Europa” (mais aberta, mais progressista). Assim, nosso desespero resulta da sensação de que nos alienamos da comunidade política – a Grã-Bretanha que não admiramos – em que, justamente, passamos a ser obrigados a viver. Se não é uma prisão literal, a Grã-Bretanha é decerto um fardo que amarramos a nossas pernas e que temos de arrastar conosco o tempo todo; nossa identidade britânica virou algo que nos incapacita, um obstáculo que temos de driblar.

 

“Mas pense nas pessoas que votaram pelo Leave em Clacton.” É meu amigo David de novo, referindo-se à cidade empobrecida à beira-mar, a cerca de vinte minutos de trem de onde estamos, representada no Parlamento por Douglas Carswell, o único parlamentar do Ukip em todo o Reino Unido. “Elas já estavam alienadas. E a alienação delas é muito pior.” Eu mal abri a boca, mas sei do que estou sendo acusado. Onde está a minha solidariedade?

Depois do Brexit, os noticiários têm com frequência nos brindado com visões alarmantes de pessoas da “classe trabalhadora” que votaram no Leave. Em geral, essas matérias são feitas por um repórter que visita uma área “carente” com alto percentual de votos contrários à permanência na União Europeia. Ali, o jornalista sai à procura do indivíduo mais pálido, miserável e mirrado possível, a fim de apresentá-lo a nós como um coitado e fazê-lo vomitar o que há de mais incoerente, absurdo e contraditório sobre imigrantes terem roubado seu emprego (embora ele, o entrevistado, já não tivesse emprego algum), sobre a necessidade de mandá-los de volta para casa (em especial aqueles que nasceram no Reino Unido) e de a Grã-Bretanha voltar a ser dos britânicos (dos britânicos brancos). Essas pessoas são obviamente vítimas de gerações de políticas governamentais excludentes que falharam em proporcionar a suas comunidades até mesmo o que há de mais básico: não lhes deram trabalho nem assistência médica apropriada, acesso a educação de qualidade ou a qualquer coisa que pudesse dar sentido a suas vidas.

Portanto, não pretendo aqui contestar que o sentimento anti-imigração conseguiu fincar pé no Reino Unido em decorrência do modo como as pessoas – incluindo a classe trabalhadora – se sentem alienadas de sua comunidade política. Cientes de que precisam “retomar o controle” que está nas mãos de alguma outra coisa, muitos escolheram (equivocadamente) os imigrantes – e, portanto, a UE – como o inimigo a ser vencido (em vez de, por exemplo, as políticas econômicas destrutivas do Partido Conservador). O que quero contestar é que essa alienação seja sentida apenas pelos membros da classe operária tradicional e que sejam, pois, essas pessoas – os desempregados, os ignorantes, os pais de onze filhos, os malcheirosos – que devam agora ser culpadas pelo que aconteceu. Pois o Brexit não se deu apenas porque um punhado de pobres supostamente idiotas, dotados de uma ridícula falsa consciência, votaram nele. Um bocado de gente da classe média também votou pelo Leave – em especial, os eleitores mais velhos, que sempre soubemos serem eurocéticos, e os que vivem fora das grandes cidades. Além de ameaçar degenerar num show de aberrações, o foco na classe operária tradicional livra a cara dos demais, dos outros eleitores que também escolheram o Brexit.

 

A alienação das classes trabalhadoras é, antes de mais nada, econômica. A classe média, onde quer que viva, não está alienada do sistema econômico. Ela pode pagar por saúde, educação e boa moradia. Tem emprego formal e sai de férias. No interior do Reino Unido, contudo, as classes operária e média provincianas compartilham de uma mesma forma de alienação – uma forma característica de alienação cultural.

Essa alienação cultural pode ser vista, na verdade, em toda parte, e não apenas nos lugares óbvios em que “gente como nós” – educada, cosmopolita e jovem – esperaria encontrá-la. É como se estivesse debaixo de cada pedra. Ela se manifesta nas postagens da tia louca no Facebook ou naquelas dos amigos que nunca deixaram a nossa cidade natal. Trata-se do mundo que costuma ser descrito num tabloide como o Daily Express, um mundo em que estamos constantemente sob a ameaça de refugiados, de gays e até mesmo de fantasmas. Podem-se ouvir notícias dele nos bares do interior, nas filas de compras, nos pontos de ônibus.

Isoladas no interior do país – onde seu pensamento e sua experiência podem facilmente se descolar da realidade –, essas pessoas desenvolveram uma compreensão radicalmente diferente da nossa (daquela de “gente como nós”) de como o mundo moderno é de fato. Elas acham que quem “escolheu” não trabalhar pode ganhar centenas de milhares de libras por ano em benefícios sociais do governo; acham que a maioria das crianças de 5 anos do país simplesmente não fala inglês; e que casamentos heterossexuais estão prestes a ser proibidos. Em geral, não são pessoas religiosas, o que não as impede de acreditar em relatos de videntes e de vidas passadas. Teorias conspiratórias as atraem. Durante a campanha para o referendo, um braço local do Ukip no interior fez circular um panfleto no qual se afirmava que o voto pelo Remain acarretaria a privatização do Serviço Nacional de Saúde britânico, o desmonte do Exército e o fim da monarquia. A campanha pelo Brexit tem sido descrita como o bastião de uma nova política “pós-fatos”. É o que tudo isso realmente significa: a alienação cultural possibilitou a essas pessoas habitar uma ordem simbólica inteiramente diferente da de seus concidadãos, majoritariamente urbanos e culturalmente não alienados.

É essa realidade mainstream, culturalmente predominante, que o voto das pessoas do interior rejeitou em massa. Essa é a razão pela qual gente como Boris Johnson (educado em Eton, a escola particular mais exclusiva da Inglaterra) e Nigel Farage (milionário ex-corretor de commodities da City londrina) pode descrever sua campanha como um empenho para “se livrar das elites”. Afastadas as elites – o entendimento culturalmente predominante do mundo do qual se está alienado –, pode-se acreditar no que quer que seja a respeito dos muçulmanos ou dos gays.

 

Tudo isso tem a ver com “retomar o controle”. E especificamente, penso eu, com uma tentativa de “retomar o controle” que, para ser bem-sucedida, considera necessário apartar a Grã-Bretanha do mundo moderno, o mundo que – econômica ou culturalmente – deixou para trás esse interior provinciano. Às vezes, acho que o equívoco mais revelador dessa gente é considerar a Grã-Bretanha uma “pequena ilha” – algo que se ouve bastante – ou crer que ela está “cheia demais”. A Grã-Bretanha é só uma ilha, mas uma ilha bem grandinha, e ainda bem longe da superlotação. Sua densidade populacional, por exemplo, é pouquíssima coisa maior que a da Alemanha. Essa, aliás, é a razão pela qual a maioria das pessoas afirma que não podemos continuar a acolher imigrantes: simplesmente não teríamos espaço para eles, não teríamos casas, escolas nem hospitais em número suficiente. Trata-se, no entanto, de uma questão de infraestrutura. A reação correta deveria ser uma expansão da capacidade, construir mais. O Brexit, porém, vai fazer a economia encolher, vai nos tornar menores do que somos hoje.

“Menor”, todavia, é exatamente o que essas pessoas apartadas desejam, creio eu. De fato, o modo típico como a alienação costuma ser sentida tem a ver com a impressão de que a estrutura de que se está apartado é grande demais, gigantesca demais para ser compreendida. Basta pensar nas instituições descritas por Kafka, o grande mestre da alienação. Em “Durante a construção da Muralha da China”, o escritor tcheco retrata uma corte imperial tão vasta que, ainda que o imperador quisesse se comunicar com algum de seus súditos, o portador da mensagem precisaria de toda uma vida apenas para deixar o interior do palácio, e isso não é nada em comparação com a distância invencível que ele teria de viajar para efetivamente chegar até o destinatário, na província. Assim, parece natural que se tente superar a alienação pela via do encolhimento das estruturas com as quais se está buscando lidar: fazê-las pequenas o bastante a fim de que pareçam familiares e possamos entendê-las.

Essa é, acredito eu, a mesma lógica que regeu a austeridade econômica durante o governo Cameron, até que se desse a vitória do Brexit (refiro-me ao, digamos, apelo libidinal da austeridade). O Estado é grande demais, está “fora de controle” e, portanto, precisamos encolhê-lo para retomar o controle sobre ele. O Brexit é a austeridade como política externa. Como a Grã-Bretanha está superlotada, precisamos apartá-la da corrente sanguínea global, encolhê-la até que ela retorne a um tamanho saudável. Trata-se do mesmo tipo de bom senso que fez com que a imaginação medieval pudesse considerar a sangria uma forma eficaz de tratamento médico.

Podemos chamar isso de um desejo por mais “fechamento”. As pessoas que votaram pelo Brexit querem diminuir a quantidade de energia que agita a realidade – é provável que honestamente preferissem mesmo um mundo anterior à criação, digamos; o mundo antes que qualquer coisa existisse e se agitasse. Querem viver num país tão fechado para o mundo quanto elas são; querem se apartar do mundo e ser puras e limpas, vivendo sozinhas. Esse é o limite lógico e existencial da famosa sentença de Margaret Thatcher: “Não existe sociedade, apenas os indivíduos e suas famílias.” Essas pessoas são os tais “indivíduos atomizados” de que tínhamos ouvido falar, e seu único desejo é o de um mundo no qual elas possam ser ainda mais atomizadas, em que ninguém possa tocá-las nem chamá-las à responsabilidade. É por esse motivo que são pessoas fechadas também aos fatos e, com efeito, a toda argumentação no contexto de um debate: simplesmente recusam-se a ouvir o que quer que contradiga sua visão de mundo. “Essa é a minha opinião” é a frase que provavelmente lhe foi dita por aquele parente intolerante com o qual você, tolamente, tentou discutir no Facebook.

É justamente por essa razão que o Brexit não é bem uma questão de falsa consciência. Ele será um desastre, do ponto de vista econômico, vai trazer imenso prejuízo aos trabalhadores, mas é provável que dê a essa classe média provinciana exatamente o que ela quer. Ela aguenta o baque econômico, e está disposta a pagar um bom dinheiro para poder se isolar do resto do mundo.

E esse é também o motivo pelo qual estamos certos, penso – voltando à “gente como eu” por um instante –, ao nos desesperarmos com a vitória do Leave. Ainda que o voto pelo Leave possa conter algo de uma reação dos trabalhadores à austeridade, o impulso primordial por trás dele é uma visão de mundo que deseja o fechamento, o isolamento – o provinciano niilismo britânico. Essa visão de mundo nos contempla agora triunfante. Essa é a visão de mundo que definirá a agenda política do Reino Unido por muitos e muitos anos.

Ruptura: nosso vínculo com a Europa será cortado. Desastre: a economia vai desmoronar. Adeus: nossas oportunidades de construir uma vida longe de nossos pais vão desaparecer. Fracasso: seremos forçados a voltar para o quarto de hóspedes da casa paterna, incapazes de pagar por moradia própria. Voltar, no caso de muitos de nós, para os subúrbios, onde não há nada – e portanto nenhuma escolha a fazer. De volta à prisão dourada das casas onde crescemos, que serão também nossas tumbas.

 

[1] Retirar-se, o voto de quem quis sair da União Europeia.

 

[2] Jeremy Corbyn,  eleito pelo voto direto dos filiados como líder trabalhista em 2015, com 60% dos escrutínios, pertence à esquerda do partido e conta com escasso apoio entre os demais parlamentares da legenda.

 

[3] Permanecer, o voto de quem desejava ficar na União Europeia.

 

[4] Neologismo que, a exemplo de Brexit (combinação de “Britain” e “exit”), reúne as palavras “left” (esquerda) e “exit” (saída).

 

[5] Setores do Partido Conservador britânico se rebelaram contra o próprio líder, o então primeiro-ministro John Major, por ocasião da votação do Tratado de Maastricht no Parlamento, no início dos anos 90. O tratado estabeleceu as bases legais e institucionais da União Europeia e definiu os critérios que levariam à adoção da moeda única europeia, o euro.

 

[6] Atual secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, ex-prefeito de Londres, Boris Johnson pertence ao Partido Conservador e foi um dos líderes da campanha pelo Brexit.

 

[7] Partido populista de direita que desde a sua criação, no início dos anos 90, teve como principal plataforma a saída do Reino Unido da União Europeia.

 

[8] Líder do Ukip entre 2010 e 2016, Farage foi um dos fundadores da legenda, em 1992, tendo deixado o Partido Conservador por se opor à assinatura do Tratado de Maastricht.

 

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