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No breu

Sem luz há quase catorze anos
Guilherme Novelli
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Numa noite de julho, a única luz que iluminava o apartamento do ator Teodoro Nunes vinha de fora e penetrava no ambiente por uma cortina rasgada. Era o bastante para entrever o caos em que se transformara a quitinete de 30 metros quadrados: livros, jornais, revistas, pedaços de papel, DVDs, roupas sujas e caixotes de papelão habitados por traças e baratas se espalhavam pelo chão.

“Não pise em nada”, alertou Nunes, um homem magro de 44 anos e 1,75 metro de altura, com fronte avantajada e olheiras salientes. “Qualquer esbarrão vai tirar as coisas do seu contexto, da sua ordem.” Enquanto fazia a advertência, o ator pegou dois candelabros de vidro, acendeu as velas e os pousou sobre uma escrivaninha atulhada. Pôde, então, mostrar o teto da cozinha, destruído por ação dos cupins e de onde pendia um emaranhado de fios soltos. Vestígios do forro se esfarelavam pelo piso. “Quando tento recolher algo do chão, me dá uma espécie de câimbra, que não é física, mas espiritual.”

Demorou alguns minutos até que o anfitrião liberasse o único banco da casa e o oferecesse a mim. Ele sentou-se sobre o colchão que jazia no meio da sala. A roupa de cama exalava um forte odor de suor, que se misturava com o mau cheiro do apartamento. Há 22 anos no mesmo imóvel, o ator disse que só o arrumou em dez ocasiões. “Aos poucos, a bagunça sempre recomeça. Nem sei explicar como.”

Nunes sofre de transtorno obsessivo-compulsivo – ou TOC – pelo menos desde a década de 90. Acumula objetos patologicamente e não consegue se livrar de nada. “Essas coisas são uma tentativa de legendar tudo que aconteceu na minha vida. Descartar qualquer uma delas significaria eliminar um pedaço de mim”, justificou-se. De 1998 a 2001, recorreu a uma combinação de antidepressivos e ansiolíticos na esperança de combater a doença, mas interrompeu o tratamento por não conseguir lidar com os efeitos colaterais das drogas. De gênio difícil e bastante desconfiado, considera-se perseguido pelos colegas de profissão, que o teriam banido da cena teatral paulistana. Não à toa, me pediu para identificá-lo nesta reportagem por um pseudônimo, em vez de usar seu nome real.

 

Teodoro Nunes vive sem luz há ininterruptos treze anos e dez meses. Dispôs de eletricidade entre 1994, quando se mudou para o apartamento que pertence à sua família, e 1998, quando o antigo morador se lembrou de cancelar o débito automático da conta. Períodos com e sem energia se intercalaram até o apagão definitivo, em outubro de 2002, motivado por um episódio nebuloso na memória do ator. “Não consigo precisar o que aconteceu”, confessou, aturdido. “Eu o conheço desde 1997 e, de fato, nunca havia luz nas vezes que o visitei”, atestou o amigo e vizinho André Mesquita, professor de linguística na Universidade Anhembi Morumbi.

Nunes toma dois banhos gelados por dia, ao acordar e antes de dormir. Tem gás de botijão e um pequeno fogão de duas bocas, mas cozinha pouco. Não possui celular, computador nem geladeira. E nunca ligou a tevê de 29 polegadas. Passa o dia a ler e escrever. Usa a internet do Sesc ou da Biblioteca Municipal e volta para casa quase sempre após as dez da noite.

No ano passado, um tio quitou a dívida com a Eletropaulo, concessionária que fornece eletricidade na capital paulista, mas a fiação do apartamento estava em curto-circuito. Como a perspectiva de chamar alguém para solucionar o problema parece intolerável a Nunes, o imóvel continua no escuro. “Qualquer eletricista que entrasse aqui traria a questão da invasão, da devassa à minha reputação”, tentou explicar. “Ele acabaria fazendo comentários no prédio e todos descobririam de que maneira vivo. Aliás, não sei até que ponto já não descobriram.”

 

Filho de um artista plástico e uma escritora, Teodoro Nunes nasceu em Pernambuco e se transferiu para São Paulo nos primeiros anos de vida. O ponto alto de sua carreira foi a passagem pelo Teatro Oficina em 1996. À época, integrou o elenco de Pra Dar um Fim no Juízo de Deus. Segundo José Celso Martinez Corrêa, fundador da companhia, o pernambucano protagonizou “a primeira bronha do Oficina”, numa cena em que se masturbava e ejaculava. Atuou ainda sob a batuta de outros diretores célebres, como Hector Babenco e William Pereira. Atualmente, ganha algum dinheiro treinando atores e participando de comerciais, curtas-metragens e novelas – em 2013, interpretou um médico na versão brasileira de Chiquititas. Nunca abriu conta em banco e, embora trabalhe, está invariavelmente no vermelho; a família é quem paga os 300 reais de condomínio.

Iluminado pelas velas, o ator se levantou do colchão e começou a filosofar sobre sua situação. “O ser humano é mixo, comete muitas atrocidades por causa da grana, e eu vivo nessas trevas, sem nada”, constatou. “Para segurar o tranco, precisa ter força interior, luz própria!”, prosseguiu, erguendo o tom de voz. “Você tem que buscar dentro de si tesouros que os canalhas não encontram”, emendou, agora vociferando. “Estou aqui, inteiro, nem mais nem menos deprimido que a média dos brasileiros e com saúde, vigor intelectual. Mas é claro que há um quadro neurótico e depressivo nisso.”

Eram onze da noite quando Nunes se ajoelhou no colchão e fixou o olhar nas velas. “Esse escuro todo é também tristeza, algum derivativo de não perceberem minha luz própria, de jogarem um pano preto sobre mim, tentando me ofuscar”, conjecturou. No fundo, concluiu com ar grave, não enxerga muita diferença entre ele e aquelas velas. “Quanto mais luz própria, mais escuridão ao redor.”

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