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Nós que nem roubávamos tanto

Nos anos 70, alguns jovens protestaram contra a ditadura; outros tomaram todos os ácidos; e outros pichavam os muros com a frase "Rendam-se terráqueos!" Cineasta hollywoodiano roubou uma escultura.
Cadão Volpato
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DESENHO_FLÁVIO DE CARVALHO / FOTO_ARQUIVO PESSOAL DE CARLOS NASCIMBENI

O Monumento a Federico Garcia Lorca, de Flávio de Carvalho, continua no mesmo lugar onde foi depositado pela última vez, em 1979. O tempo fez estrago na sua carcaça, enferrujando pedaços da estrutura de metal. A deterioração sublinha a sua fragilidade estrutural. Nela não há nenhuma figura eqüestre, ninguém aponta a espada salvadora para o céu, não há a força do poder transformado em História. Parece um amontoado de canos de ferro, com cores desbotadas aqui e ali. Lembra as garatujas de Miró, as formas flutuantes, quase insustentáveis, de Calder. Ou os próprios desenhos de Lorca. Numa espécie de estandarte roto, está escrito em relevo uma estrofe do poeta espanhol, datada de 1919:

Hay que abrirse del todo
frente a la noche negra,
para que nos llenemos de rocío inmortal!

Pois esse inofensivo conjunto de estacas de ferro tem mais a contar do que outros monumentos, de pedra e metal, freqüentados pelos pombos de São Paulo.

O Monumento a Federico Garcia Lorca foi inaugurado na Praça das Guianas, quase na esquina da Avenida 9 de Julho, em outubro de 1968. Era uma homenagem do Centro Democrático Espanhol, associação que abrigava velhos republicanos exilados no Brasil, ao poeta assassinado pelos franquistas no começo da guerra civil espanhola. O projeto de Flávio de Carvalho foi executado pela Serralheria Diana, propriedade de espanhóis do bairro do Tatuapé. A inauguração reuniu artistas e intelectuais. O poeta chileno Pablo Neruda e um irmão de Lorca, Paco, cortaram a fita que descerrou o monumento. Neruda foi amigo de Lorca. Quando serviu como diplomata na Espanha, ajudou a embarcar 2 mil refugiados republicanos no navio Winnipeg, rumo ao Chile. Foi com entusiasmo que Neruda discursou. “Proclamo São Paulo cidade benemerente em nome da poesia universal”, disse. “O monumento de Flávio de Carvalho, belo, misterioso e transparente, é um acontecimento em nossas vidas.”

O tempo não estava belo nem transparente. Dois meses depois da inauguração, a ditadura baixou o Ato Institucional nº 5. Em julho de 1969, um grupo paramilitar, o Comando de Caça aos Comunistas, CCC, atacou e destruiu a obra da Praça das Guianas. A escultura foi derrubada e transformada em sucata. Seus restos foram parar num depósito da prefeitura. Em 1971, o próprio Flávio de Carvalho restaurou a escultura. Convenceu a prefeitura a instalá-la ao lado do prédio da Bienal, no Ibirapuera. O embaixador da Espanha, franquista fanático, protestou contra a presença da “escultura do comunista”. O prefeito (nomeado) José Carlos de Figueiredo Ferraz recolheu-a novamente ao depósito. Lá ela ficou, esquecida, até o final dos anos 70. Aí começou a nova vida, cheia de aventuras, da escultura. Um bando de garotos roubou a obra de Flávio de Carvalho.

A idéia do roubo começou a nascer durante uma aula de Gustavo Daher na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU. O tema do professor naquele dia era o expressionismo na arquitetura e o personagem principal, Flávio de Carvalho. Embora suas idéias sobre moda (fez um saiote ventilado para homens do trópico e desfilou com ele pelo centro da cidade) ou performance (quase foi linchado ao entrar na contramão de uma procissão, de chapéu enterrado na cabeça) fossem mais provocadoras, Carvalho também era vanguardista na arquitetura. Especificamente, era modernista, interlocutor de Le Corbusier e amigo de Gregori Warchavchik. Daher falou também sobre o destino do Monumento a Federico Garcia Lorca – e impressionou um aluno ruivo, de óculos, parecido com Bill Gates quando jovem, chamado Fernando.

Fernando procurou os endereços de depósitos da prefeitura na lista telefônica e descobriu o paradeiro da obra. A via-crúcis do monumento incluía até uma passagem pelo viveiro Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera, onde permaneceu, ao lado de sementes, mudas e estufas, até o final de 1977. O amontoado foi finalmente levado para a cidade de Cotia, que faz fronteira com São Paulo, e jogado no Centro Municipal de Campismo. O estudante de arquitetura foi de moto até o local. Estudou as possibilidades. Voltou para São Paulo com um plano: reunir um grupo de amigos e, conforme conta, “roubar a escultura e devolvê-la à cidade”. (Fernando ainda lembra um pouco Bill Gates, agora cinqüentão.)

Os tempos ainda não eram belos e transparentes. Mas haviam melhorado em relação à depredação da estátua, dez anos antes. Ainda havia ditadura militar, censura, presos políticos, partidos na clandestinidade. Mas havia também contestação aberta ao regime, que, ziguezagueando, enveredava pela desmoralizante senda do ridículo. A censura, por exemplo, botou bolas pretas sobre a genitália desnuda dos atores de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

O movimento estudantil voltara alegremente às ruas, depois de um longo período confinado nos campi. Na minha faculdade, a Escola de Comunicações e Artes da USP, novos jornais e grupos (políticos, culturais e artísticos) apareciam. Entre eles, o mais influente e estridente se chamava Libelu, abreviatura de Liberdade e Luta, um grupo de trotskistas que nadava contra a corrente. Enquanto a maioria dos grupos de esquerda, com o Partido Comunista à frente, calçava pantufas e usava expressões como data venia para reivindicar liberdades democráticas, os libelus gritavam “Abaixo a ditadura”. Um dos chefes do grupo era o Gordo, um bigodudo à la Obelix que estudava Filosofia. Outro era a Clara, moça alta e sorridente que andava pela FAU com um cabeludo apelidado de Bicho. Havia um grupo teatral, influenciado pelo surrealismo, com o nome de Viajou Sem Passaporte, que, em vez de encenar peças, arreliava as peças dos outros. Marcia, irmã de Fernando, estudava teatro na ECA e integrava o Viajou. E havia os jornais e revistas, todos clandestinos: Cine Olho, Avesso (organizado pelo Rodrigão, da ECA), Dois Pontos, Palavra de Ordem. Essas tribos atuavam na USP inteira. Mas eram mais fortes nas faculdades de Comunicações e na de Arquitetura.

Enquanto um estudante de economia como Aloizio Mercadante (já então de bigode) vibrava com um show de bumbo e poncho de Mercedes Sosa, e o PC do B de Aldo Rebelo (que então achava que Enver Hoxa era o farol dos povos) defendia que as bicicletas da Albânia eram socialistas, os alunos da ECA e da FAU ouviam os Rolling Stones, fumavam maconha nos centros acadêmicos, tomavam ácido nos gramados e organizavam as festas mais animadas.

Fernando não era um libelu, dois pontos ou cine-olho. Mas havia alguns militantes desses grupos no pequeno exército que ele conseguiu organizar para o roubo da obra de Flávio de Carvalho. Era um exército de Brancaleone (o filme de Mario Monicelli fora lançado em 1965, e ainda fazia sucesso dez anos depois nos circuitos alternativos). Dele, os libelus tiraram uma de suas mais divertidas palavras de ordem: “Branca! Branca! Branca! Leon! Leon! Leon!”, referência ao primeiro nome de Trotski. Havia no bando integrantes duma agremiação conhecida como Atelier Mãe’s Janaína, “um ateliê no Alto de Pinheiros”, explica Fernando, “que era uma mistura de escola de desenho para quem queria entrar na Arquitetura e garçonnière“.

Carlão, que estudava cinema na ECA, era um dos libelus que se juntaram ao bando de Fernando. “Essa época tinha uma energia bruta, selvagem, anarquista”, ele diz. Ele ainda guarda uma coleção de velhos recortes de jornal do ano de 1977. Uma espiada neles mostra que cansamos bastante a polícia com passeatas-relâmpago. E apanhamos também. Carlão era adepto de Marx e Rimbaud, queria mudar o mundo e a vida, e tinha como instrumento a Cine Olho.

A revista cobriu a expropriação. A ação está documentada numa edição de 1979. Ali se vê a foto do grupo diante do caminhão, com os pedaços da obra de Flávio de Carvalho em cima. No meio dos alegres estudantes, está um jovem negro ainda mais sorridente, de penteado black power, conhecido como Pinho. Ele estudava jornalismo, como eu, e ambos tínhamos vindo da escola pública. Era com o queixo caído que assistíamos àquele desfile de idéias novas e vermelhas, de garotas maravilhosas e liberadas, todo mundo de jeans nacional, bamba e bolsa de couro a tiracolo. Tive que deixar meu cabelo crescer para não destoar do conjunto. E entrei para a Libelu. Até hoje não me perdôo por não ter entrado no Exército Brancaleone do Fernando. Onde diabos eu estava? Na certa assistindo uma discussão sobre cinema entre Serjão, o anarquista que usava calçados de boneca, e Ismail, um marxista inteligentíssimo.

Havia quatro estudantes negros na ECA, e podia-se contar nos dedos os outros matriculados no campus. “Eu era o crioulo da turma, estava em todas, as pessoas queriam minha companhia”, lembra Pinho, mas não só para ele a USP parecia um mundo à parte. Tanto quanto Carlão e Fernando, ele esteve próximo de várias pequenas escaramuças da ala artística do anárquico movimento estudantil de 77. Entre elas: grafitar muros com inscrições enigmáticas (“Rendam-se terráqueos!”); percorrer em grupo a Bienal com os olhos vendados; ensacar estátuas da cidade à maneira de Christo, o artista de origem búlgara.

Fernando teve o cuidado de criar toda uma papelada burocrática antes de se dirigir a Cotia com Pinho e Carlão. “Inventei uns seis ou sete carimbos, criei departamentos fictícios, enchi uma pasta de documentos”, ele conta. E lá se foram todos, num caminhãozinho emprestado. O funcionário que os recebeu ficou confuso e vacilou. Enquanto buscava um superior hierárquico, os cabeludos localizaram a escultura, “ao ar livre, embaixo de uma paineira, em pedaços”, segundo Fernando. Puseram os destroços no caminhão e foram embora. “A fraude foi descoberta no dia seguinte, com o encaminhamento da documentação para a prefeitura, constatando-se que os autores do furto haviam falsificado os ofícios, com nomes e departamentos inexistentes”, relatou um jornal naquela semana.

Os estudantes deixaram a peça na FAU. Afinal, a USP parecia um mundo à parte. Ali, ela ganhou uma incrível invisibilidade: alunos, professores, funcionários e diretoria fingiam não enxergá-la. O bando de Fernando resolveu restaurar a obra por conta própria. Para tirar a ferrugem, voluntários passaram a lixar incessantemente as partes. O trabalho começou com forte adesão. Como a faina se revelou insana, e não avançava, o voluntariado foi diminuindo. No final, três ou quatro rapazes se revezavam nas lixas. Até que um deles, cujo pai fabricava cofres e tanques para o Exército, resolveu pedir ajuda aos profissionais da empresa.

Um especialista da fábrica levou soldadores à faculdade de arquitetura, que puseram em pé a flor e o estandarte deteriorados, assim como as outras partes destruídas. Operários vieram mostrar aos estudantes como é que se lixava. Chegaram as férias escolares e, três meses depois, estava pronto. Só aí a diretoria da escola percebeu que a escultura existia. Fernando foi chamado. “Não dá mais pra dizer que eu não sei”, disse-lhe o diretor. “Mas ele foi bacana. Deu um tempo pra que a gente retirasse a peça de lá”, conta Fernando.

O problema era para onde levar o Monumento a Federico Garcia Lorca restaurado. Como era de praxe, fez-se uma assembléia. Vinda de um grupo em que os arquitetos eram maioria, a frase que selou o destino da obra não surpreendia: “Ficaria linda no vão livre do MASP”, o Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista.

O mesmo grupo de ladrões embarcou no caminhãozinho e seguiu no meio da noite na direção da Avenida Paulista, que seria fechada no dia seguinte, 20 de janeiro de 1979, como parte das comemorações do aniversário da cidade. Os cabeludos atravessaram os cordões de isolamento usando uma farta papelada burocrática. “Isso aqui faz parte do cenário”, disseram à polícia. Carlão levava uma câmera na mão (e uma idéia na cabeça) para documentar tudo. Existe um curta-metragem sobre a façanha. Houve uma nova assembléia no vão livre do museu, para decidir em que ângulo a obra ficaria melhor. Decidiu-se pelo lado esquerdo. Os estudantes foram até lá, retiraram os paralelepípedos do chão e chumbaram o monumento. Como já estavam por ali, resolveram esperar o amanhecer e a chegada das autoridades. O Monumento a Federico Garcia Lorca havia se transformado em um Cavalo de Tróia.

As lembranças são meio esfumaçadas para todos. Para Carlão, apenas o prefeito Olavo Setúbal apareceu. Para Fernando, o diretor do MASP, Pietro Maria Bardi, esteve ali antes, possesso, e deu um pequeno escândalo. “Ele disse que aquilo ia comprometer a estrutura do museu”, lembra. Ao que os estudantes responderam: “A gente é arquiteto, não vai comprometer não”. Lina Bo, mulher de Bardi e arquiteta daquela impossível estrutura de concreto sobre o vão livre, era um ídolo dos rapazes. “Parece que o Bardi, antes de tudo, achava a obra feia”, diz Carlão. Chega então o prefeito, ainda na versão de Fernando, trazido pelos jornalistas. “É a política do fato consumado”, diz Setúbal a Bardi, mirando, bovinamente, a obra de Flávio de Carvalho. “Não há o que fazer, a cidade aceita”, disse o prefeito nomeado.

Dois dias depois, o Monumento a Federico Garcia Lorca foi devolvido à sua praça de origem, das Guianas, de onde nunca deveria ter saído. E está lá até hoje. Passaram alguns meses e Fernando foi intimado a prestar depoimento numa delegacia das Perdizes. Era uma delegacia comum, de bairro, sem departamento político. Ao ouvir o relato do garoto, o delegado de plantão apenas riu. “Vai embora e não faz mais isso”, disse.

A risada do delegado boa-praça acompanhou Fernando ao longo dos anos. O grupo se dispersou. Cada um seguiu sua vida. Carlão virou Carlos Nascimbeni e hoje é diretor de cinema e televisão. Pinho, ou Genulino José Santos, é revisor desde que deixou a ECA. Outros personagens daqueles tempos se tornaram bem conhecidos. O Gordo da Filosofia passou a ser conhecido como Glauco Arbix, e foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, no primeiro mandato de Lula. Clara é Clara Ant, assessora especial do presidente. Bicho é o crítico de gastronomia Josimar Melo. Rodrigão é Rodrigo Naves, o crítico de artes plásticas. Serjão é o cineasta Sergio Bianchi, diretor de Cronicamente Inviável. Ismail continua na ECA: é Ismail Xavier, professor e crítico de cinema.

Fernando é Fernando Meirelles, o diretor de Cidade de Deus. No momento, ele tenta dar uma certa leveza ao roteiro do filme que vai rodar a partir de julho, baseado na sombria narrativa de José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. A produção é internacional, e o orçamento do filme é de 25 milhões de dólares. Ele tem dois filhos moços. Um deles vive afundado nos livros. No mês passado, o jovem lia Pindorama Revisitada, de Nicolau Sevcenko, no qual se conta a história do Monumento a Federico Garcia Lorca (sem, no entanto, chegar à aventura vivida pelo pai). Na formatura do filho, num dos colégios da elite de esquerda de São Paulo, Fernando Meirelles ouviu uma reprimenda coletiva do diretor da escola, para quem os alunos não eram mais capazes de sonhar, de acreditar em alguma coisa.

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