questões literárias

Nossos três russos

Paula Scarpin
Rubens Figueiredo, Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra: sem eles, ainda estaríamos lendo “wis-me a desarraigar a planta” ao invés de “comecei a cortar a haste”
Rubens Figueiredo, Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra: sem eles, ainda estaríamos lendo “wis-me a desarraigar a planta” ao invés de “comecei a cortar a haste” ILUSTRAÇÃO: MAXIMILIANO BAGNASCO_2010

No final de 1963, o Partido Comunista Brasileiro convocou um grupo de dez jovens militantes para um curso de ciência política em Moscou. Em seis meses eles receberiam subsídios teóricos suficientes para, de volta ao país, participarem do projeto de tomada do poder.  Os militares foram mais rápidos. “Nós soubemos da notícia por uma rádio brasileira que conseguimos sintonizar no alojamento. Ficou impossível voltar para casa. Acho que o Castello Branco soube que eu estava lá e resolveu dar o golpe para me beneficiar”, brincou o paraibano Paulo Bezerra, o único operário do grupo.

Cinco anos antes, deixara a família em João Pessoa e fora para São Paulo, com a intenção de trabalhar na indústria. Faltava-lhe, porém, qualificação profissional. Com as economias que tinha, matriculou-se num curso noturno de desenho mecânico e, para se sustentar, fez bicos em bares e padarias até finalmente ser contratado pela fábrica Brasilona, em Guarulhos.

Era o auge do movimento sindical e Paulo Bezerra não demorou a se engajar. Entusiasmado com as histórias que ouvia da União Soviética, passou a ler tudo que encontrava relacionado ao país, até que Crime e Castigo caiu em suas mãos. “Foi o primeiro romance que eu li na minha vida. Fui arrebatado”, lembrou numa manhã de maio em sua casa, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Encalhado em Moscou, Bezerra resolveu aproveitar o exílio e emendou o curso de política a outros de filosofia, economia e história. Como era aplicado, conseguiu uma bolsa de estudos na Lomonóssov, a maior e mais antiga universidade russa, onde estudou língua e literatura. A temporada em Moscou acabou se estendendo por oito anos, entre moradias estudantis e casas de família.



Quando finalmente se sentiu capaz de ler Dostoiévski [1] no original, Bezerra percebeu uma distância abissal entre o texto russo e o que tinha lido no Brasil, traduzido por Rosário Fusco e publicado pela José Olympio. Teve a impressão de que a edição brasileira, baseada na francesa, e também na espanhola, não conseguira se livrar do perfume enjoativo do beletrismo, ainda em voga na época. “Mas creia-me, por quem é! Por que razão enganá-lo?, pergunto-lhe. Ao contrário, e a coisa espanta-me: parece-me, a mim, particularmente, quase doentiamente pudica”, dizia a tradução de Fusco. “Dostoiévski é um escritor rude: ele tem a concepção de uma realidade dura, feia, e a linguagem que traduz essa realidade precisa ser coerente com isso. Mas os tradutores franceses não entendiam isso e amaneiravam o texto. São os piores tradutores de russo da Europa”, comentou. “Mas pode acreditar! E por que cargas-d’água eu iria esconder de você, quer fazer o favor de me dizer? Ao contrário, eu mesmo acho isso estranho: comigo ela é de um jeito redobradamente, timidamente puro e acanhado”, lê-se o mesmo trecho, agora traduzida por Bezerra.

Aparentando muito menos do que seus 70 anos, Paulo Bezerra mantém a forma frequentando religiosamente uma academia de ginástica da vizinhança. Disciplinando os copiosos cabelos ainda úmidos, contou que foi o incômodo com as traduções indiretas que o estimulou a se lançar no ambicioso projeto de traduzir Dostoiévski diretamente do russo. Ao voltar para o Brasil, traçou uma estratégia: graduou-se em letras, fez mestrado e, nesse meio-tempo, traduziu livros científicos e de autores menos conhecidos até se sentir confiante. Trouxera da União Soviética um ponto de vista firme sobre o trabalho do tradutor: “Não dá para traduzir uma obra de arte literalmente. É o mesmo texto, sendo outro. É o mesmo texto, mas na língua de chegada.”

Foi com essa convicção que, em 1999, lançou O Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Liérmontov, pela editora Martins Fontes. Ao se deparar com uma expressão russa que, traduzida literalmente, significaria algo como “ter ressaca em banquete alheio”, Paulo Bezerra resolveu recorrer à riqueza proverbial de suas raízes nordestinas. “Você tem duas expressões para isso em português: ou pagar inocente pelo pecador, que é muito comportado, porque a expressão russa não é erudita, mas popular, ou papagaio come milho, periquito leva a fama”, contou. Sem piscar, escolheu a segunda opção, o que lhe rendeu críticas à época: como assim, um papagaio na Rússia? Bezerra é categórico: “Eu não estou vertendo português para russo. Quem tem que entender é o leitor brasileiro.”

 

Em A Tradução Vivida, livro tido em alta conta pelos tradutores brasileiros, Paulo Rónai explica a origem da palavra “traduzir”: vem do latim traducere, que significaria guiar alguém pela mão até outro lugar. A partir dessa concepção, Rónai considera a possibilidade de dois métodos diferentes de traduzir: se o objeto guiado for o texto, o tradutor seria o responsável por transportá-lo para o domínio da outra língua; se o objeto guiado for o leitor, a função do tradutor é pegá-lo pela mão e levá-lo a um meio linguístico que não é o seu. Paulo Bezerra não tem dúvidas: quem ele pega pelo braço é o texto, sempre.

Quando começou a peregrinação pelas editoras com o projeto da prosa de Dostoiévski embaixo do braço, Paulo Bezerra encontrou inúmeras casas que se interessaram pela ideia, mas não concordavam com as suas condições. “Fazer a tradução e depois tchau e bênção? Negativo. Eu só traduzo Dostoiévski, um autor cujos direitos estão em domínio público, se os direitos autorais vierem para mim.” Irredutível, bateu à porta de Beatriz Bracher, então diretora de uma editora paulista, a 34. No começo dos anos 90 ela lançara a Coleção Leste, com o objetivo de publicar autores contemporâneos do Leste Europeu, sempre em traduções diretas. Bracher aceitou as condições de Bezerra, e o sucesso foi estrondoso. O primeiro título lançado foi Crime e Castigo, em 2001.

Paulo Bezerra coloca na voz do protagonista Raskólnikov a seguinte reflexão: “Eu falo pelos cotovelos porque não faço nada. Foi neste último mês que aprendi a matraquear, varando dias e noites deitado num canto pensando… na morte da bezerra.” Se não hesita em recorrer às raízes nordestinas para substituir um provérbio russo por outro brasileiro, Bezerra diz que o método está longe do vale-tudo. “Algumas expressões podem desfigurar uma tradução. Por exemplo, Dostoiévski usa uma expressão que no português de hoje, seria algo como ‘falar feito uma metralhadora’. Mas não se pode usar isso porque na época de Dostoiévski não havia metralhadoras. Então eu falo: ‘matraquear’, ‘falar pelos cotovelos’. ‘Verborragia’ já é uma palavra mais erudita, não cabe”, disse. Seu Crime e Castigo não demorou a alcançar o topo das listas de mais vendidos nas livrarias, e já está na sexta edição.

 

O chefe do departamento de língua e literatura russa da USP, Bruno Gomide, diverte-se ao lembrar que a colega Elena Vássina, nascida na Rússia, ficou confusa com a tradução de Paulo Bezerra e perguntou se a expressão “pensar na morte da bezerra” fazia referência ao sobrenome do tradutor. “Mas foi uma ótima escolha, nenhum leitor brasileiro teria dúvidas quanto ao sentido”, elogiou o professor. Entusiasmado com o que chama de “nova onda russa no Brasil”, Gomide se lembra do sucesso retumbante que foi o lançamento de Crime e Castigo. “Eu não podia acreditar naquilo: as pessoas formando filas para comprar Dostoiévski”, lembrou em sua sala na USP. Assíduo frequentador de sebos, livrarias e bienais, ele diz que se encantou pelos autores russos nos anos 90, um período de entressafra do interesse nacional por aquela literatura.
O lento declínio da União Soviética vinha progressivamente afastando de Tolstói e Dostoiévski quem neles buscava as raízes da revolução, e ainda estava por vir o que ele chama de boom russo dos anos 2000.

Em 1993, quando ainda era estudante de história, foi à Bienal do Livro do Rio de Janeiro para garimpar novidades. Deu com o estande de uma editora que lhe interessava, a nanica Ars Poetica. Lutando contra a timidez, conseguiu tirar satisfação: “Poxa, por que vocês não publicam mais literatura russa?” Calhou de dizer isso justamente para o editor, que devolveu: “Ah, então era você que comprava?”

Foram tempos solitários na universidade. “Enquanto meus amigos que estudavam literatura brasileira ou inglesa tinham o luxo de escolher qual seria o congresso mais interessante naquele mês, eu só tinha a biblioteca”, conta Gomide com bom humor. Aos 38 anos e consideravelmente jovem para diretor de departamento, função exercida por professores na faixa dos 60 anos, ele se sente “recompensado por tantos anos sendo considerado meio maluco”.

Gomide tem hoje do que se gabar. O seu departamento é um dos mais concorridos das letras, e este ano, pela primeira vez, todas as vagas foram preenchidas. Intrigado, o professor costuma fazer uma enquete informal entre os estudantes, na qual constata que a causa principal do interesse é a grande quantidade de lançamentos de clássicos russos traduzidos diretamente para o português que vêm chegando às livrarias nos últimos dez anos. “São inegáveis as vantagens da tradução direta, mas acho que ninguém podia prever esse sucesso todo”, disse.

Em viagens recentes a Portugal e Argentina, Gomide notou que o apelo editorial dos russos não se restringe ao Brasil, e reproduz algumas explicações que ouviu para o fenômeno. Há quem diga que a abundância de dicções, registros e temas das obras russas encontra eco na fragmentação de interesses do homem moderno – ou pós-moderno, como querem alguns. Outros, ao contrário, sugerem que um mundo de relações superficiais exige profundidade, e isso os russos têm de sobra. “É um pouco genérico, mas pode ser que os russos respondam a inquietações profundas. Não seria a primeira vez que se recorre a eles para isso”, ponderou.

 

Dando sequência ao projeto de Paulo Bezerra, a Editora 34 lançou Os Demônios em 2004 e, para completar a santíssima trindade dos grandes romances de Dostoiévski, faltava Os Irmãos Karamázov. Mas, à diferença dos dois primeiros, este já tinha uma tradução direta para o português. Em 1944, a extinta editora Vecchi lançou a obra traduzida por Boris Solomonov – pseudônimo já conhecido do decano dos tradutores de russo no Brasil, Boris Schnaiderman.

Perfeccionista, Schnaiderman revisa constantemente suas traduções antigas, tenham sido ou não publicadas sob pseudônimo. Mantinha boas relações com a Editora 34, na qual chegara a publicar, e o editor Cide Piquet achou correto consultá-lo para saber se não gostaria de revisar sua antiga tradução. Havia também questões práticas. “Revisar um trabalho pronto é muito mais simples do que partir para essa empreitada colossal do zero”, contou Piquet, por telefone. Schnaiderman agradeceu, mas disse que não queria voltar aos Karamázov, dando assim carta branca para o colega Bezerra se lançar na tarefa titânica.

Numa manhã de junho, em seu apartamento no bairro paulistano de Santa Cecília, Boris Schnaiderman comentou o caso. Em 1943, sem experiência nenhuma, ele oferecera as suas traduções do russo para algumas editoras. Recebeu de pronto uma resposta positiva da Vecchi. Eles sabiam que a José Olympio havia encomendado a tradução de Os Irmãos Karamázov, do francês, a Rachel de Queiroz, e queriam sair na frente com uma edição traduzida diretamente do russo. “Eu só tinha 27 anos e nunca tinha lido o livro. Se tivesse, não aceitaria de jeito nenhum”, conta. Na época ainda não havia dicionários russo-português, e o jovem tradutor precisou fazer o tortuoso caminho de consultar as palavras que não dominava em dicionários russo-francês e russo-inglês na Biblioteca Nacional. “A tradução acabou sendo muito bem recebida na época, pela crítica inclusive. Mas eu não a aceito mais, ela tem muitos defeitos. Até hoje eu acho Os Irmãos Karamázov um livro muito difícil de traduzir. Eu me esforcei, mas não tinha o preparo necessário”, diz.

Paulo Bezerra publicou a nova tradução em 2008. Partindo evidentemente do original, ele conta que consultou a tradução de Schnaiderman, a de Rachel de Queiroz, e a de Oscar Mendes e Natália Nunes, feita a partir do inglês. “Mas quando Dostoiévski dá o verdadeiro nó na língua, naqueles casos de extrema dificuldade de tradução, quem trazia uma luz era o Boris.” Bezerra conta que conheceu Schnaiderman em 1981. Quando foi lançada a tradução de Problemas da Poética de Dostoiévski, de Mikhail Bakhtin, assinada por Bezerra, Schnaiderman publicou uma resenha muito elogiosa ao seu trabalho. “Escrevi para ele, e fizemos um primeiro contato aqui no Rio, nos encontramos em Ipanema. E daí começou uma amizade que dura até hoje”, lembra Bezerra. “Ninguém que mexa com literatura russa no Brasil pode deixar de fazer referência a Boris Schnaiderman. Ele é o nosso herói fundador no campo da cultura eslava.”

 

Boris Schnaiderman nasceu em 1917, mesmo ano da Revolução Russa, no seio de uma família de comerciantes – que não tardou a planejar a saída do país. Ele não guarda muitas memórias de Odessa, capital da Ucrânia, que deixou aos oito anos de idade. A mais marcante delas é de uma escadaria, perto do porto, onde costumava brincar com um amigo. Um dia, quando chegaram lá, viram uma movimentação diferente: “Eram umas senhoras muito bem-vestidas, de toaletes, balançando os lencinhos, homens acenando com seus chapéus para o navio.” Anos depois, a família já instalada em São Paulo, seu pai o levou pela primeira vez ao cinema – e o menino teve a oportunidade de rever a mesma cena. Entendeu então que presenciara um dia de filmagem de Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein.

A porta do elevador abre diretamente dentro do apartamento de Schnaiderman, o que acontece várias vezes por dia. São amigos, jornalistas, professores, orientandos, diretores de teatro, todos recebidos com entusiasmo pelo tradutor e sua esposa, a professora Jerusa Pires Ferreira. Quem chega pela primeira vez e desembarca ali, percebe um limite claro entre os dois lados do apartamento. O direito parece um cantinho da Bahia, com rede e carrancas; o esquerdo, a Rússia, com sua mobília, bibelôs, tapetes e quadros. “É um enclave russo-baiano à beira do Minhocão”, define Bruno Gomide, um dos assíduos frequentadores do casal.

Muito elegante com um suéter bordô, Boris Schnaiderman disse à empregada que preferia servir ele mesmo o cafezinho, e me pediu que convidasse a esposa para acompanhá-lo. Começou a falar sobre a sua quinta retradução do último romance de Liev Tolstói, Khadji-Murát, um livro que o autor terminou em 1904, mas até sua morte, em 1910, seguiria retrabalhando com vistas à publicação. Foram encontradas quase 2 200 folhas manuscritas nos arquivos de Tolstói, e coube a um grupo de pesquisadores estabelecer a versão final. A primeira tradução que Boris Schnaiderman – na época, Boris Solomonov – fez da obra saiu pela editora Vecchi em 1949, dentro da coleção Os Maiores Êxitos da Tela, estimulado pela adaptação cinematográfica O Diabo Branco, de Alexandre Volkov. A edição saiu com o mesmo título do filme, e assinada por “Conde Leão Tolstói”. Depois da primeira tradução, Schnaiderman retrabalhou o texto, a última vez agora, em 2010, em edição da Cosac Naify. Um leitor menos atento não consegue perceber muitas mudanças entre a tradução de 1946 e a mais recente. Onde se lia “trevos penugentos”, hoje se lê “trifólios felpudos”; onde se lia “a ‘cebola’ de Vorontzov”, agora se lê “o relógio Bréguet de Vorontzóv”.

Bruno Gomide, que morou a poucas quadras da casa de Boris Schnaiderman e Jerusa Ferreira, disse tê-los visto várias vezes num café do Shopping Pátio Higienópolis discutindo textos. “É um casal muito afinado, apesar da diferença de idade e de temperamento”, disse. Boris Schnaiderman acaba de completar 93 anos, e Jerusa tem cerca de vinte anos menos. “Enquanto o Boris é tímido, a Jerusa é um happening! É ela quem veste o Boris, e ele anda sempre muito estiloso. Ele tem um paletozinho de linho, uma boina…” Schnaiderman ainda é um homem bonito. Segundo Gomide, faz um sucesso danado com as mulheres. “Uma amiga minha de 32 anos diz que o Boris parece o Harrison Ford. Ela é completamente apaixonada por ele.”

Filho obediente, Schnaiderman era apaixonado por literatura, mas resistiu à vocação para não desagradar os pais, que consideravam a atividade “um hobby, artigo de perfumaria”. Formou-se em agronomia em 1940 e logo se alistou com a intenção de se juntar aos pracinhas brasileiros na Itália. Combateu na Europa e a experiência da Segunda Guerra Mundial foi mais tarde registrada no livro de ficção Guerra em Surdina, um romance marcado pelas experiências do modernismo, com fluxos de consciência, alternância de pontos de vista, de narração na primeira e terceira pessoas etc.

Na volta da guerra, Schnaiderman chegou a trabalhar como agrônomo na cidade mineira de Barbacena, atividade que conjugou com a primeira tradução de Os Irmãos Karamázov, e logo começou a receber outros pedidos de editoras. O pseudônimo Solomonov só foi aposentado quando se sentiu seguro. O primeiro trabalho assinado com o sobrenome verdadeiro foi uma coletânea de contos de Tchekhov que fez para a editora Civilização Brasileira, em 1959. A rigor, Solomonov não é bem um pseudônimo. Como todos os russos, Boris Schnaiderman tem um nome do meio, o patronímico, uma derivação do nome do pai. Como seu pai se chamava Solomon, seu patronímico é Solomónovitch – apenas quatro letras mais longo que o sobrenome fictício atrás do qual abrigava a sua timidez.

A questão dos patronímicos e apelidos russos, aliás, costuma acrescentar um grau de dificuldade adicional à leitura do idioma, como sabem todos que voltaram freneticamente as páginas para saber quem é o tal Piótr, Peter ou Petróvich que acabou de se materializar na história. Em Os Irmãos Karamázov, por exemplo, o pai às vezes é chamado de Fiódor, seu primeiro nome, às vezes de Pávlovich, seu patronímico. No caso de seus filhos, a dificuldade aumenta: todos têm “Fiódorovitch” como patronímico, mas Dmitri às vezes é chamado de Mítia, Alieksiêi de Aliócha, e Ivan de Vanka. Num trecho da obra, por exemplo, Paulo Bezerra traduziu: “– Mítia! Mítia! – bradou Fiódor Pávlovitch com nervosismo e reprimindo as lágrimas que iam brotando.” Um leitor desatento talvez tivesse que voltar atrás para entender que se trata do velho Karamázov chamando pelo filho. Já o leitor americano não teria a mesma dificuldade. Numa edição, de 1999, de The Brothers Karamazov, da editora Penguin, o mesmo trecho corresponde a: “‘Dmitri! Dmitri!’ cried old Karamazov hysterically, squeezing out a tear.”

 

Em sua tese “Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936)”, Bruno Gomide trata das vicissitudes da literatura russa no país, muito antes das traduções diretas. Alarmada com a expansão marítima e militar da Alemanha – de quem havia acabado de perder a Guerra Franco-Prussiana –, a França começou a se aproximar da Rússia, cujo exército, então, era o maior do mundo. Calculando que uma aliança com o czar seria uma arma poderosa contra o pangermanismo, o governo francês, numa jogada diplomática, deu início à divulgação da arte russa dentro de suas fronteiras. Intelectuais como Émile Zola e Eugène-Melchior de Vogüé entusiasmaram-se com Tolstói e Dostoiévski, nos quais viam uma saída para a literatura fria e cerebral do fim de século. As traduções eram feitas em linha de montagem, em clima de euforia. A França ditava as tendências no mundo ocidental, e a invasão russa não demorou a se espalhar pelos outros países.

No Brasil, a aceitação foi particularmente intensa porque o país começava a demonstrar uma preocupação com a identidade de uma literatura própria, e era a primeira vez que tinha acesso a obras de fora do grande eixo – França, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Gomide mostra como logo após as primeiras edições dos russos em Paris, vários escritores brasileiros passaram a acompanhar os lançamentos. Monteiro Lobato, por exemplo, enviou a seu amigo Godofredo Rangel cartas entusiasmadas com a leitura de Tolstói. “A literatura russa, segundo ele, era muitíssimo superior a qualquer outra contemporânea”, conta. Lima Barreto chegou a espalhar, em ficção, jornalismo e correspondência, grande número de referências a Dostoiévski, Tolstói, Turguêniev e Górki.

Boris Schnaiderman lembra que o escritor Ivan Turguêniev estava morando em Paris à época do tratado entre França e Rússia. “Era um momento literariamente importante, porque os leitores estavam um pouco saturados pelo excesso de naturalismo, de realismo. E a literatura russa tratava dos grandes problemas do homem.” Os editores franceses, entretanto, ficavam preocupados com o excesso de elucubrações metafísicas que pontilham os romances, e faziam cortes nos textos. “Tenho umas edições francesas curiosas, em que vinha uma nota: ‘Adaptação do romance de Dostoiévski.’ Mas as editoras de outros países, suprimiam a palavra ‘adaptação’”, conta o tradutor.

Um comerciante russo, amigo dos pais de Schnaiderman no Brasil, tinha um projeto de tradução direta do russo. Iuri Zéltzov – que preferia assinar Georges Selzoff, que considerava mais chique, afrancesado – fundou uma editora chamada Bibliotheca de Auctores Russos. Como não dominava o português, Zéltzov aliou-se a dois escritores brasileiros principiantes: Brito Broca e Orígenes Lessa. “Ele ia lendo o texto russo com o português precário que tinha, e eles punham em português decente”, conta o professor.

Difíceis de serem encontradas em sebos, as edições de Zéltzov eram artesanais, com o título colado sobre a capa e o miolo refilado irregularmente. Comparando a última edição de Khadji-Murát, traduzida por Schnaiderman, e uma edição de Selzoff, de 1931, é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à valla e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”

 

Em 1961, o teórico alemão radicado no Brasil Anatol Rosenfeld disse a Boris Schnaiderman que gostaria de apresentá-lo a três jovens poetas, e o tradutor convidou-os todos para um jantar em sua casa. Na ocasião, Rosenfeld contou que um deles, apaixonado por Vladímir Maiakóvski, tinha começado um curso de russo para poder lê-lo no original. Era Haroldo de Campos, que foi acompanhado de seu irmão Augusto de Campos e de Décio Pignatari. “Quando li a frase ‘sem forma revolucionária, não há arte revolucionária’ em uma das cartas de Maiakóvski, estávamos na fase do ‘salto participante’ da poesia concreta”, contou Augusto de Campos, por e-mail. “Queríamos fazer poemas politicamente engajados, que não perdessem as características da linguagem de vanguarda ou experimental.” Haroldo de Campos encontrou poemas do poeta russo em francês e espanhol. Numa entrevista concedida ao Jornal da Tarde em 1985, o poeta – falecido em 2003 – disse ter percebido um descompasso entre as ideias que Maiakóvski esboçara sobre sua própria obra e as traduções que chegavam ao Brasil. “Ele dava mostras de ser um poeta extremamente consciente do seu trabalho”, mas nessas versões parecia “palavroso, banal em muitos aspectos”.

Incomodado, Haroldo de Campos quis tentar ele mesmo traduzir um poema e mostrou-o a Schnaiderman nessa primeira visita. Trabalhara a partir do texto original e de traduções para outras línguas. Era “A Sierguêi Iessiênin”, que Maiakóvski tinha escrito por ocasião do suicídio desse outro poeta russo. “Apesar do conhecimento precário de russo que ele tinha, a tradução estava excelente, só mexi um pouquinho”, lembra Schnaiderman, que se prontificou a dar aulas particulares de russo ao poeta brasileiro. Haroldo de Campos disse ao Jornal da Tarde que o curso que vinha fazendo até então era muito rudimentar. “Lembro-me até hoje da horrorosa cartilha soviética, de padrão visual vitoriano, na qual eu comecei a me alfabetizar em russo. E entre aquela cartilha e Maiakóvski havia uma distância de anos-luz.”

As aulas particulares aconteciam nas tardes de sábado na casa de Haroldo de Campos, e foi durante uma delas que surgiu a ideia de publicar uma coletânea de poemas de Maiakóvski. Nessa mesma época, Boris Schnaiderman soube que a faculdade de história da USP estava organizando uma seção de estudos orientais que pretendia oferecer aulas de idiomas. Apresentou sua candidatura e foi aceito. Animado com o projeto, Augusto de Campos, irmão de Haroldo, matriculou-se no curso e foi incorporado ao grupo. O livro Maiakóvski: Poemas foi publicado em 1967, com uma nota explicativa informando que os poemas tinham sido traduzidos por dois caminhos diferentes: ou do original por Augusto ou Haroldo de Campos e depois revistos por Boris Schnaiderman, ou traduzidos literalmente por Boris Schnaiderman e depois retrabalhados pelos poetas.

Augusto de Campos contou que Maiakóvski trabalhava com rimas pouco ortodoxas e muitos jogos de palavras, e que por isso era difícil reproduzir a beleza e criatividade de sua dicção poética. Na introdução do livro, Boris Schnaiderman conta que muitas vezes já se afirmou que Maiakóvski era um poeta ‘intraduzível’, mas “a tradução como recriação, no caso, constitui o caminho da verdadeira fidelidade ao texto”. Em A Operação do Texto, Haroldo de Campos diz que a tradução de poesia se inclui na categoria da criação. “Traduzir poesia há de ser criar, sob pena de esterilização e petrificação, o que é pior do que a alternativa de trair.”

Maiakóvski chegou a declarar que ficava particularmente satisfeito quando a tradução dos poemas era feita segundo seus procedimentos de criação poética, mesmo que para isso fosse necessário afastar-se consideravelmente do significado original. No poema “A extraordinária aventura vivida por Vladímir Maiakóvski no verão na datcha”, Augusto de Campos inclui, na tradução de um dos versos, a frase conhecida de uma canção de Roberto Carlos:

Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é para brilhar,
que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

Entusiasmados com a produção, Schnaiderman e os irmãos Campos ampliaram a pesquisa para outros poetas modernos russos, e organizaram uma antologia, Poesia Russa Moderna, lançada em 1968, pela Civilização Brasileira. A repercussão dentro do país não foi das melhores: a capa com chamas vermelhas exigia alguma coragem do leitor, dado o clima de forte repressão militar. Especialistas em Maiakóvski no exterior, entretanto, não deixaram o trabalho passar despercebido. Em sua visita a São Paulo, Roman Jakobson, um dos maiores linguistas do século passado, que viera ao país a convite de Schnaiderman, se disse deslumbrado com o texto em português, principalmente com a solução “entremeado às estrelas” para “vzviózki vriézivaias”. “Na realidade, Haroldo conseguira fazer o português cantar com sotaque russo, a ponto de um russo como Jakobson encontrar, no texto traduzido, o som de sua língua-mãe”, elogiou o professor, em artigo de 2003 para a revista Fragmento.

 

Em 1981, o grupo lançou uma nova edição da antologia, acrescida de novos poemas. Augusto de Campos explica seu método de trabalho no trecho do poema “Sobre Isto – a Balada no ‘Reading Gaol’”, de Maiakóvski. “O original em russo diz ‘Niemólod ótchen lad balád / no ecli slová boliát / i slová govoriát pro to, tchto boliát, / molodiéiet i lad balád’. Como se percebe, há todo um trabalho de elaboração em torno desses ls que percorrem todas as linhas. A tradução literal seria mais ou menos esta: ‘As baladas não são nada jovens / mas se as palavras que estão sentindo dor / falam daquilo que as faz sentir dor, / então isso rejuvenesce o modo das baladas.’ Eu traduzi assim: ‘Velha é a melodia das baladas / mas se as palavras combalidas / falam daquilo que as abala, / de novo soam belas as baladas.’ Tentei preservar toda aquela música do poema”, conta. Ao Jornal da Tarde, Haroldo de Campos deixou claro: “Ao invés de ser infiel ao texto, como às vezes ocorre a algum observador menos informado, nosso trabalho deve ser considerado como hiperfidelidade ao texto, porque revela todas as constituintes da gramática e da fonia textuais, aspectos semânticos que nas traduções banais não ficam nem evidenciados.”

Com uma formação literária tradicional, Boris Schnaiderman confessou que não gostava de poesia concreta quando conheceu Augusto e Haroldo de Campos. “Mas eu estava me voltando para o moderno, estava numa fase de transição, lendo Joyce, Pound. E a proximidade com os irmãos Campos ajudou a me firmar justamente naquilo que eu estava procurando.”

Bruno Gomide vê uma ligação entre o encontro de Boris Schnaiderman com os irmãos Campos e o fato de ele não ter seguido uma trajetória mais previsível de divulgador da cultura russa. Ao contrário de outros tradutores pioneiros de uma língua, Schnaiderman não teve sua trajetória marcada pela publicação das obras mais canônicas de cada autor: ele não deixou de enfrentar Dostoiévski e Tolstói, mas nunca traduziu Crime e Castigo nem Anna Kariênina. Foi a geração seguinte de tradutores diretos que fez esse papel. Depois da má experiência com Irmãos Karamázov, Schnaiderman encontrou seu nicho na poesia, nos contos e nos romances mais curtos. “O Boris se voltou para as vanguardas sem perder o cuidado filológico. Ele tem esse olhar muito atento para essas rupturas na linguagem, para concepções mais arrojadas de tradução, de visão da literatura”, diz Gomide.

Boris Schnaiderman, que tem no prelo o livro Tradução: Ato Desmedido, pela editora Perspectiva, diz que se identifica com a teoria de tradução do filósofo Ortega y Gasset. No seu ensaio “Miseria y esplendor de la traducción”, Gasset conclui que traduzir um texto de um idioma para outro é uma tarefa impossível. Entretanto, mesmo a par dessa condição, continua sendo desejável libertar os homens da distância imposta pelas línguas e, portanto, o tradutor deve almejar o máximo de proximidade. “A aproximação pode ser maior ou menor, e isto projeta essa atividade ao infinito, o que garante que a tradução sempre seja suscetível de aperfeiçoamento e melhora”, escreve o pensador espanhol.

“Eu sinto que o Boris está com essa preocupação de deixar um testamento, a casa em ordem, tudo amarrado”, arriscou Augusto Massi, editor da Cosac Naify, na sede da editora. Na mesma semana, Jerusa Pires Ferreira, a esposa de Boris Schnaiderman, em conversa na ala baiana da casa, contestou essa teoria: “Na verdade, Boris quer deixar tudo desamarradinho! Ele sabe que a língua é uma coisa viva, e a tradução precisa ser refeita de tempos em tempos.” Na introdução de uma reedição de 1981 de A Dama de Espadas, de Aleksandr Púchkin, publicada pela editora Max Limonad, Schnaiderman escreveu: “Efetuei nova revisão do texto deste livro, quase vinte anos após a edição anterior. Evidentemente, havia o que modificar, nessa tentativa de transmitir, em português, a prosa límpida e harmoniosa de Púchkin.”

 

Empenhada em ocupar o nicho cada vez maior dos russos no Brasil, a Cosac Naify tem feito mais do que revisar traduções antigas e organizar coletâneas. A editora tem se notabilizado pela publicação dos grandes romances russos ainda inéditos em tradução direta para o português, como Anna Kariênina, Ressurreição e Guerra e Paz, os três de Tolstói, todos traduzidos por Rubens Figueiredo. “É curioso que o Rubens, ao contrário do Boris, tem pouco interesse por contemporâneos, prefere trabalhos de fôlego, de longo prazo”, observou Augusto Massi.

Irmão mais novo de Reinaldo Figueiredo, o jazzista e humorista do Casseta & Planeta, Rubens Figueiredo é uma versão mais enxuta do irmão famoso, sem dúvida consequência da dieta macrobiótica e dos 3,8 quilômetros que percorre diariamente a nado, na Travessia dos Fortes de Copacabana. Alguns traços compartilhados, entretanto, não deixam dúvidas quanto aos laços de sangue, como o nariz afilado, a calvície, o riso fácil e o tom de voz. De temperamento, o caçula é bem mais tímido.

Considerado tradutor de primeiro escalão do inglês, Rubens Figueiredo já traduziu mais de quarenta obras para a Companhia das Letras – autores como Susan Sontag, Philip Roth e Paul Auster –, trabalho que faz com esmero, mas sem o entusiasmo que devota aos clássicos. Sem as razões da origem familiar, como Boris Schnaiderman, ou do ativismo político, como Paulo Bezerra, Figueiredo pensa um pouco antes de responder como foi parar no seleto grupo dos que traduzem diretamente do russo para o português: “Veja só como tudo na vida é aos trambolhões, nada tem esse charme do projeto…” Disse isso, olhou para o lado e batucou de leve na toalha de plástico que cobria a mesa do seu apartamento espartano de Copacabana.

 

Figueiredo escolheu cursar literatura russa na Universidade Federal do Rio de Janeiro no próprio dia do vestibular, em 1973. Recém-saído de uma escola pública, julgou que não teria base suficientemente sólida para passar nos cursos mais concorridos. “Eu já gostava de alguns escritores russos que eu comprava nos sebos, aí assinalei ‘Letras: russo’. O que pode ter passado na cabeça de um garoto de 17 anos? Fazer uma coisa diferente, estranha… era a época da ditadura militar, a Rússia era um lugar comunista, tinha esse lado contestador. Tudo isso era atraente”, lembra. Terminada a faculdade, começou a dar aulas de literatura para alunos do ensino médio, mas como o dinheiro era curto, passou a fazer traduções de inglês para engrossar o orçamento.

Um dia, flanando numa livraria com o poeta Carlito Azevedo, Figueiredo fez um comentário sobre a capa de um livro escrito em russo e o amigo percebeu que ele tinha noções da língua. “O Carlito não fazia ideia de que eu tinha estudado russo na faculdade, ficou muito espantado”, recorda-se. Azevedo encomendou logo ali a tradução de um texto em prosa, do poeta Óssip Mandelstam, para a revista Inimigo Rumor que a editora 7Letras editava na época. Figueiredo não prometeu que conseguiria dar conta do projeto: já fazia mais de quinze anos que não tinha contato com o russo. “Eu comecei a ler com uma certa dificuldade, mas percebi de cara que o negócio não estava extinto. Desde o mais elementar, do alfabeto… e foi vindo numa correria, voltando à memória. E é bonito, porque é como se as coisas não se perdessem de todo”, lembra emocionado.

Pouco tempo depois “um outro conhecido calhou de ir trabalhar numa editora em São Paulo, e virou logo o diretor do negócio”. Era Augusto Massi, da Cosac Naify. Massi procurou o tradutor com um projeto megalomaníaco. “Era um catatau de 700 páginas do Henry Fielding, um escritor inglês do século XVII”, explicou Figueiredo, referindo-se à obra A História das Aventuras de Joseph Andrews e de Seu Amigo Abraham Adams (inédito no Brasil). Disse obrigado, mas não. Massi ainda investiu no argumento meio pilantra de que o livro era um dos preferidos de Antonio Candido, mas não teve conversa. Em contrapartida, Rubens Figueiredo sugeriu um projeto que tinha em mente: uma coletânea de contos do Tchekhov. Massi topou e, desde então, Figueiredo tem emendado uma tradução do russo atrás da outra para a editora. No começo, por causa da falta de traquejo com a língua, era só um trabalho de fim de semana, “mas em dois, três anos, o inglês foi ficando de lado e, nos últimos tempos, eu tenho feito meio a meio”. Augusto Massi disse que a Cosac Naify oferece uma remuneração fixa ao tradutor. “Isso mudou a vida dele, porque hoje ele pode pegar muito menos traduções do inglês. Ele continua fazendo, mas põe num projeto anual uma divisão para os livros em russo.”

 

Enquanto a característica que mais salta à vista em Paulo Bezerra é o abrasileiramento do texto, e em Boris Schnaiderman é o seu preciosismo exaustivo em busca de uma perfeição que sabe inatingível, a de Rubens Figueiredo é o rigor na fidelidade ao texto original. Na introdução de Anna Kariênina, Figueiredo esclarece: “Esta tradução teve em mira preservar ao máximo traços patentes no original russo.” Alerta o leitor para o fato de que, ao contrário da grande maioria das traduções, ele não quebrara as frases longas de Tolstói para que o texto soasse mais natural a ouvidos estrangeiros. A maior frase do livro tem 146 palavras no original “e discute, talvez não por acaso, os processos econômicos do Estado russo”. Figueiredo também optou por manter as palavras repetidas, sem o artifício comum de recorrer a sinônimos. “A repetição é tão insistente que não cabe supor um descuido do escritor. Ao contrário, os rascunhos, as provas tipográficas e o testemunho da esposa – que todas as noites passava a limpo o difícil manuscrito de Tolstói – dão notícia de como ele reescrevia cada palavra à exaustão.” Figueiredo mostra um trecho em que a palavra “retrato” é repetida oito vezes, uma descrição do personagem Liévin contemplando o retrato pintado de Anna, segundos antes de vê-la ao vivo, “como se a figura de Anna já não estivesse apenas nela mesma, na pessoa viva”.

Na medida do possível, Figueiredo tenta ler cartas, diários, tudo o que remeta à vida social de um autor antes de traduzi-lo. “Acho que eu deveria ler mais, mas isso aqui é dirigir um táxi, entendeu? Tem que rodar.” Ele não acredita que se possa compreender esses livros sem ter uma ideia do contexto em que foram escritos, pois revelam ideias que remetem continuamente ao ambiente em que foram feitos. Um problema comum dos clássicos seria o fato de as pessoas os usarem para verem a si mesmas, encontrar soluções para suas vidas, em detrimento da vida singular dos personagens. “As pessoas leem Dostoiévski e parece que estão lendo Freud. Mas aqueles eram problemas da época! Nenhum desses autores era um ermitão, eles reproduzem frases de personagens do seu tempo. Se você não tem essa noção do contexto, só vai ver a si mesmo no livro, e perderá muito.”

Às vezes a gente fala: ‘Essa palavra repetiu demais’, e ele responde: ‘Mas era assim’, e a gente insiste: ‘Tudo bem, era assim, mas será que vai ficar bom?’ Aí ele passa um dia meio invocado, às vezes acaba mudando de ideia”, conta Augusto Massi. “Tem um trabalho de edição maior com ele. O Rubens é um tradutor literário e escritor. Diferente dos outros dois, ele tem essa habilidade.” De fato, Figueiredo já ganhou duas vezes o prêmio Jabuti por livros de ficção que escreveu – em 1999, por As Palavras Secretas, e em 2002, por Barco a Seco.

Ao contrário de Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, que moraram na Rússia e têm amigos russos, com quem falam de tempos em tempos, Rubens Figueiredo disse que conversou em russo apenas três ou quatro vezes na vida – no Rio de Janeiro. Das quatro competências de linguagem – falar, entender, ler e escrever –, ele diz ter ficado apenas com a de ler: “Essas competências são mais independentes do que a gente supõe”, diz. “Mas eu fiquei com a faculdade de ler associada à outra, que não é considerada normalmente, por ser muito específica, que é a capacidade de traduzir. Porque eu já era tradutor.” Viajar para a Rússia não está nos planos de Rubens Figueiredo. “Não acho que viajar seja tão importante, sabe? Só um monte de McDonald’s por toda parte… Qualquer lugar que você vá é tudo igual.”

Muito crítico quanto às relações “desiguais entre os países”, ele se incomoda com o fato de participar do que chama de processo de colonização. “É inevitável encarar a língua inglesa como um instrumento de dominação, não é ilusão.” Explica: “Se um autor tem um bom agente literário em Nova York, quando estiver escrevendo o primeiro parágrafo, o agente já vendeu o livro para vinte países. É uma máquina, as pessoas obedecem. Eu estou no fim dessa linha de produção, e isso abala a convicção de qualquer um.” Por outro lado, quando traduz do russo, se sente aliviado não só porque pode ficar à margem desse sistema, mas porque a literatura russa clássica é marcada pelo questionamento da vida social do país. “E esse questionamento não é autocentrado, porque era feito de diversas perspectivas. A Rússia era um país multinacional, e os assuntos eram debatidos numa situação ambígua muito rica, que permitia ver a história de um ângulo histórico-geográfico muito fecundo.” A literatura funcionava como arena de debate de todos os assuntos da vida social. “O sujeito lia um romance, um poema, como lia um livro de um economista, como lia um livro de teologia de um padre, como lia um matemático, um médico, um geógrafo, um jornal.”

Nesse turbilhão de debates, as obras russas não se encaixam facilmente na classificação europeia de gêneros literários. Durante uma palestra no Sesc Pompeia sobre tradução de Tolstói, em dezembro do ano passado, Boris Schnaiderman comentou: “Guerra e Paz já foi muito criticado pelo excesso de pseudofilosofia, e eu concordo que o que há de reflexão filosófica em Tolstói é muito fraco; o forte mesmo é esse vulcão de narração. No entanto, apesar de Tolstói não ser filósofo e querer fazer filosofia, Guerra e Paz é uma obra-prima.”

Para Rubens Figueiredo, Tolstói não escolheu ser narrador, romancista, artista ou filósofo; ele busca apenas encontrar um caminho para expressar as suas questões. “Nós não temos conceito para aquela obra, chamamos de ficção misturada com polêmica, misturada com filosofia, mas é uma maneira própria dele”, diz. “A gente tem que ver o que aquilo representa, e não julgar pelas normas flaubertianas, como se fossem universais. É estranho, incomoda, mas nós não temos autoridade de desqualificar porque não se enquadra no nosso conceito de literatura e de livro. Dane-se o que eu penso de livro! O que ele faz é muito mais rico que isso!”

[1] A grafia dos nomes segue o critério adotado pelas traduções da Cosac Naify

Paula Scarpin

Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.

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