esquina

Numa fria

Agruras do hóquei no gelo brasileiro

Guilherme Pavarin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

À beira da pista de gelo, o ator Pedrinho Prado ajeita ombreiras, checa o capacete e trava os patins. “É hora de relaxar”, diz, alisando o espesso bigode que lhe cai até o queixo. Assim que pega o taco, arranca pelo piso congelado, dobra os joelhos e desliza de costas entre os obstáculos. Ágil, com a larga camisa verde-amarela número 23 a cobrir parte de suas coxas, percorre até cansar o espaço de patinação do shopping Barra Square, no Rio de Janeiro. “Essa pista é só água”, reclama, sem fôlego, tão logo encerra as manobras. “Fora do Brasil, sim, cuidam bem. Fica uma luva!”

Aos 39 anos, Prado é o mais experiente jogador da seleção nacional de hóquei no gelo. É ainda, segundo seus colegas e o técnico, o principal patinador do grupo. No shopping, em pleno domingo, suas reclamações se misturam a um leve exibicionismo. Ao mesmo tempo em que mostra seus dotes, salienta, aos rodopios, que a equipe brasileira de ice hockey está longe das condições ideais de treino. “Simplesmente não temos quadras de gelo”, afirma, enquanto conduz exercícios para meninos de até 12 anos num campo improvisado de 33 por 9 metros  – o oficial chega a 30 por 60 metros . Pais, avós, fliperamas e pista de boliche os rodeiam. “O pessoal da seleção que mora no país só joga com patins inline, em quadras de cimento ou madeira”, continua. “Gelo não tem.”

Ele e os demais entusiastas do hóquei enfrentam as dificuldades características dos esportes pouco populares. Um ice rink, nome do local de jogos, custa em torno de 5 milhões de reais e sua manutenção, mais de 50 mil por mês. São gastos que a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo não consegue assumir. Com recursos escassos, o órgão – que também cuida das equipes nacionais de curling e bobsled – banca apenas as roupas de passeio e os uniformes dos jogadores, além do salário de um técnico estrangeiro, Jens Hinderlie. Ex-jogador no interior dos Estados Unidos, o americano é casado com uma carioca. Hospedagem, viagens e alimentação ficam por conta dos próprios esportistas. “Somos uma família”, resume Prado. “Deixa de ser hobby porque há compromisso. É um segundo emprego, ainda que não remunerado.”

 

Como todos os hoquistas do Brasil, o atleta improvisa treinos nas brechas de seu emprego principal. Há três anos, ele abandonou as funções de chef de cozinha  –  “Era um dos melhores da cidade”, gaba-se – para se dedicar à carreira de ator. Seus treinamentos acontecem entre as apresentações semanais das duas peças em que atua, uma infantil e outra dramática. Podem ser partidas inline com seu time, o Lokomotiv Rio, ou uma volta de bicicleta após muitos chopes no Baixo Gávea. “Pedalo 30 quilômetros por dia”, conta, orgulhoso. “Queria ter dez anos a menos, mas estou inteiro. Nos 2 600 metros de altitude, não tomei oxigênio! Os meninos, sim.”

A menção ao ar rarefeito remete à mais recente disputa de que participou com a camisa verde-amarela. Foi o Pan-Americano na Cidade do México, ocorrido em junho. Durante o torneio, Prado se revelou, de longe, o mais motivado do grupo. Quando entrava em quadra, distribuía encontrões nos rivais, apesar do físico modesto para a modalidade (mede cerca de 1,7 metro). Na disputa pelo terceiro lugar contra a seleção B do México, o carioca mostrou a que vinha. Escalado depois que os adversários marcaram dois gols, prensou um mexicano na parede mal pisou no ice rink e, ao longo dos minutos seguintes, transformou o jogo num festival de corpos ao chão. Se um oponente corresse livre, Prado patinava forte para alcançá-lo e desequilibrá-lo com o choque corporal. A estratégia deu resultado. O Brasil não tomou mais gols, perdeu por apenas 2 a 0 e ficou em quarto lugar – de seis possíveis.

O papel do craque não se resumiu à pancadaria típica do hóquei. Ele também fez as vezes de tutor nos bastidores. Como a maioria dos brasileiros nunca havia jogado num ice rink oficial, a equipe chegou quatros dias antes ao México para se ambientar às peculiaridades do piso congelado. Nos treinos, por causa da superfície mais lisa e escorregadia, muitos dos estreantes não conseguiam parar em pé. O universitário Luiz Paulo Serrano, de 21 anos, era um dos que se espatifava sempre que tentava frear. Prado o ajudou bastante. “Ele me aconselhou a ajeitar a postura com a respiração”, lembra o novato. Serrano precisava inspirar, levantar o peito e, na hora de frear, expirar todo o ar, dobrando os joelhos. “No hóquei, 70% é patinação. Mas no gelo tudo fica diferente: o atrito, a aderência, a passada”, explica o veterano ainda no Barra Square. “O corpo precisa reaprender.”

Três décadas atrás, quem estava na pista infantil, amargando tombos e hematomas, era o próprio Pedrinho Prado. Filho de diplomata, ele costumava patinar em shoppings. Aos 10 anos, acabou descoberto por um olheiro. “Basta observar um pouco para sacar se o garoto leva jeito”, comenta. “Vê aquele ali de azul? Vai ser bom pra caramba!”

O atleta sabe que seu ciclo na seleção está se fechando. “Minha coluna é só o pó. Tenho agora duas hérnias de disco, uma na lombar e outra na cervical.” Os problemas físicos o atrapalham inclusive nos palcos. Em determinadas cenas, sua coluna trava. “Posso dar uma dica para amenizar dores desse tipo?”, pergunta, com uma piscadela. Imita, então, a voz de um locutor e proclama, como se narrasse um comercial: “Osteopatia e shiatsu são a salvação.”

Guilherme Pavarin

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