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O ajudante do Nobel

Um amigo de Vargas Llosa na selva
Gustavo Faleiros
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Santa María de Nieva está sem luz. No calor abafado da selva peruana, os ventiladores permanecem silenciosos desde as quatro da tarde, mas as crianças seguem fazendo algazarra. Homens e mulheres puxam suas cadeiras para a calçada e se abanam na companhia dos vizinhos. No alto do bairro Miraflores, numa casa de madeira com teto de jarina, há um senhor que parece não se incomodar muito com a modorra. Calmamente ele come picarones, uns anéis de massa frita embebidos no melado da cana.

Não fossem as sandálias de borracha e os cabelos brancos, alguém poderia confundir Jaime Nuñez com um jovem cabo do Exército pronto para o cooper vespertino. Próximo de completar 80 anos, ele mantém a postura ereta, veste uma regata branca e short esportivo.

Em 1941, quando Nuñez tinha apenas 3 anos, sua mãe e o padrasto se mudaram para Borja, cidade a poucos quilômetros de Nieva, descendo o caudaloso rio Marañón. Era lá que se localizava então o quartel-general das forças que combatiam os equatorianos. O país vizinho disputava territórios com o Peru na Amazônia, mas não teve sucesso, e soldados equatorianos acabaram capturados. “Eu me lembro de ver os prisioneiros do Exército do Equador passando com seus fuzis levantados, já sem balas para atirar”, conta o morador, sua silhueta desenhada contra o lusco-fusco do entardecer.

Os Nuñez vinham de Iquitos, então uma metrópole tropical como a brasileira Manaus, cosmopolita e esbanjadora graças ao ciclo da borracha. Mas na vila a que chegavam, a família de “mestiços” era minoria. Ali era terra de “índios bravos”. “Este era um mundo awajún”, diz Nuñez em referência aos indígenas popularmente conhecidos como aguarunas.

Nieva é um dos distritos mais isolados da Amazônia peruana. Com 29 mil habitantes, fica a pouco mais de 1 400 quilômetros ao norte de Lima. Dom Jaime Nuñez é parte da história local. “Sou pioneiro deste povoado”, repete com frequência. Domina o idioma awajún, algo essencial para sobreviver na região. Aprendeu tão bem a língua que, aos 15 anos, tendo cursado apenas o primário, se tornou professor nas comunidades da redondeza.

Sua experiência nas aldeias indígenas fez com que seu caminho cruzasse com o de um jovem escritor que chegava a Nieva. Em 1958, o padre jesuíta Gonzalo Puerta o apresentou a Mario Vargas Llosa e pediu a Nuñez que ajudasse o moço de Arequipa em uma investigação na selva. Naquela época com 22 anos, o futuro Prêmio Nobel ainda não havia publicado seus primeiros livros, a coletânea de contos Os Chefes, lançada em 1959, e o romance A Cidade e os Cachorros, de 1963.

O livro seguinte, A Casa Verde, lançado em 1965, tem como cenário Santa María de Nieva. A riqueza de detalhes da obra não deixa dúvida de que Vargas Llosa registrou bem os contornos da região. No prólogo de uma edição comemorativa recente, o escritor peruano reconheceu que o romance nasceu das memórias daquela viagem. Nas décadas seguintes, outros de seus romances voltariam a ser ambientados na floresta amazônica, como Pantaleão e as Visitadoras, de 1973, e O Sonho do Celta, de 2010.

 

Em Nieva, basta perguntar por Dom Jaime que qualquer pessoa apontará para as escadarias que levam à casa com teto de palha. Todos o conhecem por seus anos de dedicação à educação. Mas poucos, a não ser seus familiares, sabem das aventuras ao lado do famoso escritor. “Eu e Vargas Llosa passamos seis noites trabalhando, de segunda a sábado, das seis da tarde até dez, onze da noite. Eu falava e ele escrevia”, relembra enquanto beberica uma copita de aguardente com ervas.

Na trama de A Casa Verde, o chefe da província está mancomunado com a guarda civil para achacar os aguarunas que não colaboram com o contrabando de jebe – resina de árvores nativas. Numa passagem, o governador espanca o indígena Jum com uma lanterna e manda que os guardas o pendurem em uma árvore por horas. “Vargas Llosa era um jovem como eu, apenas dois anos mais velho, e eu confiei a ele o que via, o que esses ratos faziam com os pobres aguarunas.”

Ainda que, nos anos 70, os awajún tenham conseguido o reconhecimento legal de seus territórios, a relação com as autoridades nunca foi realmente pacífica. Um episódio relativamente recente é prova disso. No dia 5 de junho de 2009, após bloquearem por 55 dias uma rodovia próxima ao distrito de Bagua, 200 quilômetros ao sul de Nieva, os índios entraram em choque com a polícia e o Exército. O conflito vitimou dez índios e 23 policiais.

O bloqueio havia sido montado em protesto contra decretos do governo de Alan García que buscavam aumentar investimentos na Amazônia e incentivar o tratado de livre-comércio entre o Peru e os Estados Unidos. Um ano depois, García assinou um acordo com o Brasil que previa a construção de até vinte represas no rio Marañón, para produzir energia elétrica. As construtoras brasileiras Odebrecht e OAS participariam da empreitada, que não chegou a sair do papel.

“Admiro o Brasil, mas isso dessa empresa Odebrecht…”, reage Jaime Nuñez ao tomar conhecimento da nacionalidade do repórter. Sua esposa, Elena, confirma: quando não falta luz, ele passa o dia pregado à tevê, vendo os noticiários. A distribuição de propinas pela empreiteira a políticos peruanos domina a pauta dos telejornais locais.

Pergunto se Jaime Nuñez já leu o livro de Vargas Llosa com o qual colaborou. “Sabe que não?”, ele responde, enquanto alcança mais alguns picarones na escuridão de Santa María de Nieva.

Ao ouvir episódios da narrativa, contudo, ele não deixa de fazer reparos. As freiras missionárias estabelecidas na região, ele diz, nunca chegaram a raptar crianças indígenas e forçá-las a se submeter à educação dos brancos, como aparece no livro. Uma das personagens d’A Casa Verde é uma jovem aguaruna, Bonifácia, que cresce junto às irmãs, mas que nunca abandona totalmente seu lado de pagã. Depois de expulsa do convento, termina no prostíbulo que dá nome ao livro.

Nuñez se lembra com nostalgia das freiras. Diz que ele próprio foi educado por elas, numa época em que a selva era ainda mais distante de tudo. Não havia estradas, só o rio. Não aconteciam apenas apagões eventuais como os de agora: tudo era escuro a poucos passos das chamas de lamparina. Ele me oferece uma copita de seu licor de ervas. “Não bebo, mas este chegou hoje, um amigo prepara apenas para mim.” No escuro ele busca um copo limpo, mas, antes, uma vela. São quase sete da noite e a luz ainda não voltou em Santa María de Nieva.

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