esquina

O Brasil em dívida com Ronaldo

Falta uma medalha na vida do grande atleta de 1998

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

O mineirinho elétrico e falante que troca cumprimentos com meio mundo em São João Nepomuceno, município de 25 mil habitantes, está enfiado num agasalho esportivo com o nome dele gravado nas costas, cortesia da prefeitura da vizinha Descoberto, de 4 800 habitantes. É Ronaldo da Costa. Aos 36 anos, ele quer ser vereador. Pensa em se candidatar nas eleições municipais de 2008. “Não sei falar bonito, mas tenho olho para a coisa.”

Antes dos 20 anos já tinha sido oleiro, soldador, trabalhador na roça. Também quis ser jogador de futebol, mas só se fosse do Botafogo, time de sua devoção. Sem chance: o físico miúdo e seco como fio de arame lhe reservou o papel de torcedor. Pelo que lembra dos tempos de infância, nunca imaginou ser astronauta, bombeiro ou super-homem. O menino de Descoberto tinha pouco tempo para fantasiar: trabalhava desde os 7 anos e estava bem assim. “Sei lá. Médico, talvez”, diz hoje, sem convicção, pensando na escolaridade interrompida na oitava série.

Ronaldo da Costa já foi muito mais do que qualquer vereador, médico ou goleiro do Brasil. Ele já foi o melhor do mundo. E único. Numa tarde de setembro de 1998, quando tinha 28 anos, zarpou à frente de todos os favoritos da maratona de Berlim e pulverizou o recorde mundial que estava em vigor nos últimos dez anos. Venceu a prova em 2 horas, 6 minutos e 5 segundos. Enquanto o mundo do atletismo, incrédulo, conferia a nova marca, o mineirinho ainda teve fôlego para dar uma cambalhota na linha de chegada. “Um brasileiro chamado Ronaldo conseguiu, na maratona, o que seu xará do futebol foi incapaz de fazer na Copa do Mundo deste ano: provar que é, indiscutivelmente, o melhor do planeta em sua modalidade”, escreveria o New York Times no dia seguinte.

Naquela noite estelar, Ronaldo não foi festejado com nenhum banquete de arromba na capital alemã. Sua festa coube numa mesa de três lugares – jantou com o agente esportivo Luis Felipe Possi, o jornalista da TV Globo João Pedro Paes Leme e só. Depois foi dormir. Dali a uns dias, estava novamente na Zona da Mata mineira.

Berlim não é Nova York, a começar pela ausência do sotaque de milhares de brazucas, e a Alemanha não é a América, o que em parte explica a diferença de tratamento reservada ao vencedor de cada uma das duas maratonas. Em Nova York, o vitorioso é imediatamente içado à categoria de celebridade. Em Berlim, a notoriedade tende a ficar restrita ao universo do esporte. Coube ao fundista brasiliense Marilson Gomes dos Santos fruir dessa abissal diferença no mês passado. Primeiro sul-americano a vencer a maratona de Nova York, Marilson teve direito ao pacote celebridade-instantânea que a cidade oferece – entrevista no programa de David Letterman, festança (no caso, verde-amarela) para 3 mil convidados, presença de honra na abertura do pregão da Bolsa de Nova York, pedidos de autógrafo por onde andasse.

A diferença maior, contudo, ocorre em território nacional. E, para quem vive de carregar a bandeira do Brasil no corpo, ela dói. “Na época, achei que o Fernando Henrique fosse me chamar. Esperei, esperei, mas ninguém me procurou. Machuca até hoje, e continuo esperando”, conta Ronaldo, oito anos depois da consagração em Berlim. Marilson, seu amigo e companheiro de geração, teve mais sorte: depois das glórias nova-iorquinas, foi convidado a comparecer ao Palácio do Planalto para receber a medalha do Mérito Desportivo, com sessão de fotos ao lado do presidente-em-exercício-por-um-dia, Aldo Rebelo. Melhor do que isso, só se Lula em pessoa lhe concedesse a honraria. “O Marilson fez por merecer. Nós nos conhecemos há mais de dez anos e ele nunca mudou, é simples como eu. Agora é a hora dele, vai arrebentar na Olimpíada de Pequim. Acho que dei azar, venci no governo errado”, conclui o mineirinho. Não lhe restam nem os troféus afetivos do feito de 1998. Num rompante de gratidão, ofertou ao técnico Carlos Alberto Cavalheiro o short, a camiseta e o tênis que usou na corrida de sua vida.

Foi Cavalheiro, treinador de velocistas medalhados como Robson Caetano (bronze nas Olimpíadas de Seul e Atlanta), quem imprimiu a Ronaldo um condicionamento físico raro em fundistas. “É um técnico estudioso, aproveitou bem o meu talento”, acredita o maratonista. De fato, foi o treinamento que permitiu a Ronaldo percorrer a segunda metade dos 42 quilômetros em 1:01:23 (depois de passar pela primeira metade em 1:04:42) e baixar o recorde mundial em absurdos 45 segundos. Até então, Ronaldo só havia competido numa única maratona. Estreara no atletismo aos 16 anos, calçando sapatilha de pano e cano alto, numa corrida de rua em Descoberto. Tirou segundo lugar. Em 1995, derrotou uma mandinga que parecia eterna e se tornou o primeiro brasileiro a vencer a São Silvestre em quase uma década. Dali em diante capengou bastante, com lesões freqüentes e resultados abaixo do esperado – vigésimo lugar na São Silvestre seguinte, eliminação precoce na Olimpíada de Atlanta, em 1996.

Mas continuou treinando e teimando. Até que em Berlim tudo lhe caiu no colo ao mesmo tempo – a vitória, a glória e o que parecia ser uma arca de dinheiro sem fim. Entre o cachê de campeão e o bônus pela quebra do recorde mundial, embolsou quase 200 mil dólares. Ou melhor, não embolsou. Seguindo a praxe internacional, quem recebeu a bolada em nome do atleta foi o agente-administrador de sua carreira, e o agente quebrou. Só recentemente, passados oito anos, Ronaldo voltou a receber, em parcelas, o saldo dos dólares conquistados na época. Nesse meio-tempo, driblou o assédio financeiro de parentes que brotam do nada, teve surtos de depressão, sofreu lesões e cirurgias e sobreviveu à destemperança consumista. “Não tem jeito, todo atletinha que ganha algum dinheiro já vai logo comprando um carrão. Um, não; pelo menos dois”, diz hoje, satisfeito com seu Fusca ano 1972, bege.

Ronaldo aprendeu com as armadilhas do sucesso. “Tem gente que me vê trabalhar na terra, andar de Fusca, e diz que eu fali. Não entenderam nada: agora é que eu estou com a vida em ordem”, diverte-se. Suas contas fecham: mora em teto próprio num dos prédios mais altos (cinco andares sem elevador) de São João Nepomuceno, vive do aluguel de uma sala comercial e três outros imóveis e cultiva um roçado de 2 mil metros quadrados que comprou perto da cidade. “Batizei a minha chácara com o nome de Berlim 98. Adoro capinar e trabalhar na terra. Além de distrair, é um exercício ótimo para complementar meus treinos na estrada. Aqui um casal com dois filhos se vira com 1 500 reais por mês. É só querer.”

 

Outro dia, em novembro, sabendo que ia passar pela Zona da Mata, um tenente da Polícia Militar de Belo Horizonte resolveu fazer um agrado ao filho da terra e bateu na porta de Ronaldo com uma fita de vídeo embaixo do braço. A fita tinha sido gravada oito anos antes e mostrava o maratonista sendo homenageado pelo comando da PM mineira. Ronaldo admite que deu uma choradinha quando assistiu; gostou de lembrar que foram apanhá-lo de helicóptero.

Hoje, o mineirinho que corre diariamente 24 quilômetros na contramão da estrada São João Nepomuceno–Rio Novo treina para estar entre os dois brasileiros que disputarão a maratona nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio. “Gosto mais de treino do que de competição. Você corre de cabeça leve, imaginando só coisa boa, tira a tensão. Meu sangue africano deve ser do Quênia”, diz, referindo-se ao país que produz fornalhas e mais fornalhas de maratonistas de elite. Ronaldo já correu o mundo. Só no Japão já esteve quatro vezes. “Mas o lugar mais esquisito que já visitei foi a Guatemala.” Se conseguir vaga no Pan, vai suar o couro para tentar chegar até os Jogos de Pequim. “Se não der, não vou ficar sem rumo. Para quem começou neste pedaço de mundo que é Descoberto, já fui longe”.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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