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O calculista

A estratégia de Marcelo Viana para fazer o Brasil ser reconhecido como parte da elite da matemática

Rafael Cariello
Viana é o organizador do próximo Congresso Internacional de Matemáticos, que pela primeira vez se realizará no hemisfério Sul. “Vai acontecer no Rio, mesmo que o país colapse.”
Viana é o organizador do próximo Congresso Internacional de Matemáticos, que pela primeira vez se realizará no hemisfério Sul. “Vai acontecer no Rio, mesmo que o país colapse.” FOTO: DARYAN DORNELLES_2016

No começo de junho, em virtude do reconhecimento internacional ao seu trabalho acadêmico e da conquista de mais um prêmio – dessa vez concedido por uma importante instituição científica da França –, o carioca Marcelo Viana se tornou, se não o primeiro, o segundo mais famoso matemático do país.

Viana tem 54 anos e aparência jovial. O cabelo volumoso, partido de lado, com fios compridos caídos sobre a testa, lhe dá um ar de surfista dos anos 80, de esportista que está envelhecendo bem. Da noite para o dia, quando foi anunciado que receberia o prêmio da Fundação Louis D., em Paris, passou a ser quase tão conhecido no Brasil, entre os leigos que não costumam pular as notícias científicas nos jornais, quanto o seu colega e coautor Artur Avila, vencedor em 2014 da medalha Fields.

Ao receber a láurea máxima da disciplina, equivalente ao que o Nobel representa para físicos e químicos, Avila havia chamado a atenção do público não especializado para a pesquisa de ponta, motivo de admiração internacional, realizada no Impa, o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Brasil. Tanto Avila, hoje com 37 anos, quanto Marcelo Viana trabalham no órgão financiado pelo governo federal, localizado no bairro do Horto – uma vizinhança tranquila e arborizada, quase dentro da Floresta da Tijuca –, no Rio de Janeiro. Ali se dedicam aos mesmos tipos de problemas. Se há dois anos todos se voltavam com curiosidade para o seu colega mais jovem, agora era a vez de Viana ter que lidar com a atenção do público.

Assim, pouco antes das três da tarde de uma quarta-feira abafada em Paris, uma meia dúzia de repórteres da imprensa brasileira se acomodou no salão principal do Institut de France, cujo prédio imponente dá para o rio Sena, à espera da cerimônia em que Viana seria homenageado. Por decisão dos governos republicanos que se seguiram à Revolução Francesa, o Institut de France foi criado e passou a congregar naquele edifício, desde o início do século XIX, as antigas academias reais do país, entre elas a de Letras e, mais relevante no caso do matemático brasileiro, a de Ciências.

O trabalho de Viana havia sido escolhido por um júri composto por membros da Academia de Ciências, agora presentes, com seus fardões verdes, à solenidade. Mas o cheque de 450 mil euros – cerca de 1,8 milhão de reais – viria de uma instituição privada, a Fundação Louis D., que a cada ano concede recursos a uma área diferente do saber científico – leva-se em conta, na escolha, tanto a obra dos candidatos quanto o potencial das pesquisas a que eles se dedicam, onde aliás os vencedores se comprometem a investir a maior parte do prêmio. Em 2016, pela primeira vez o grand prix da Fundação Louis D. no Institut de France premiaria um matemático – na verdade, dois, pois Viana dividiria a láurea com o francês François Labourie, da Universidade de Nice.

O pé-direito monumental, os arcos e as colunas neoclássicas, além da luz que entrava pela grande cúpula logo acima das cadeiras dos acadêmicos, davam ao salão da cerimônia a aparência de uma nave de igreja. Fora dali, num pátio interno adjacente ao edifício principal, o pesquisador brasileiro esperava o início do evento com as mãos enfiadas nos bolsos do terno e um ar descontraído. Conversava com a mulher, a também matemática Tania Vieira, que trabalha como analista no Banco Central. “Preciso avisar a Receita Federal que 90% desse dinheiro vai ser usado em pesquisa”, disse, como quem faz uma anotação mental, minutos antes de receber o prêmio.

 

Viana nem de longe confirma os clichês associados ao seu métier. É desenvolto, gosta de falar e de fazer graça. Por ter morado quase desde o nascimento até os 23 anos em Portugal, terra dos seus pais, ele mantém um leve sotaque lusitano – que aparece quando tenta explicar, com muita paciência, em que consiste sua área de pesquisa.

Expertise do Brasil na matemática, o campo dos “sistemas dinâmicos”, a que ele e Artur Avila se dedicam, estuda a evolução de processos no tempo – como, por exemplo, as mudanças climáticas cotidianas ou a dança dos planetas no Sistema Solar – e as sutis relações de ordem e aparente desordem existentes nesses conjuntos de elementos interdependentes. Ao estudá-los, os matemáticos procuram descobrir padrões e regularidades mesmo onde a princípio só se divisa confusão ou, inversamente, podem mostrar como sistemas aparentemente simples e estáveis estão sujeitos a, de repente, perder qualquer regularidade, se bagunçar ou se desfazer.

Foi uma pergunta desse tipo, sobre a estabilidade dos corpos na mecânica celeste, que ajudou a criar a área de estudos de Viana. No final do século XIX, matemáticos e físicos levantaram uma questão ao mesmo tempo instigante e assustadora: o Sistema Solar é estável? Isto é, se esse conjunto de corpos onde a Terra está inserida sofrer algum tipo de perturbação, ele tende a voltar ao seu “funcionamento” normal? Ou a dança de planetas e satélites ao redor do Sol poderia se desfazer?

“Suponha que a Terra seja atingida por um asteroide amanhã”, me disse por telefone, com a maior calma do mundo, o matemático Edson de Faria, professor da Universidade de São Paulo, amigo de Marcelo Viana e pesquisador de sistemas dinâmicos. “Um asteroide bem grande, com um efeito cataclísmico que dê uma perturbada na órbita terrestre”, continuou. Nesse caso a Terra sairia da sua trajetória usual, com efeitos gravitacionais, mesmo que fracos, sobre as órbitas dos demais planetas. “Será que o sistema é estável para essa perturbação? Será que depois de um tempo a Terra voltaria a ficar mais ou menos na mesma órbita? Ou será que isso teria um efeito catastrófico?” Poderiam os planetas, os elementos desse sistema, se desorganizar?

A beleza da pergunta sobre a estabilidade do Sistema Solar é que ela faz lembrar – numa comparação não muito rigorosa – a questão levantada pelo filósofo David Hume, no século XVIII, ao tentar saber quais eram os limites do conhecimento empírico: o que, além do hábito, garante que o Sol vai se levantar amanhã? Como é possível ter certeza de que o mais regular dos eventos vai se repetir?

Ao que tudo indica, as pesquisas dos matemáticos que levaram essa questão a sério dão força à nossa expectativa de que o astro torne a aparecer no horizonte. “O que a gente pode dizer é que, com altíssima probabilidade, o sol vai, sim, nascer amanhã” – ou seja, o Sistema Solar permanecerá estável, organizado –, garantiu Faria, ao telefone. “Pode dormir tranquilo”, assegurou-me o matemático francês Étienne Ghys, quando levantei a questão.

Embora tenha ajudado a dar origem ao estudo dos sistemas dinâmicos – e dê asas à imaginação –, a pergunta sobre o Sistema Solar serve, para muitos matemáticos, apenas como curiosidade histórica. Teóricos dos sistemas dinâmicos, no fim das contas, não gastam seu tempo com objetos empíricos, como um amontoado de planetas – dedicam-se, sobretudo, a objetos matemáticos “puros”.

Viana é um desses. Passa os seus dias ocupado com abstrações mentais, mas nem por isso faz o gênero avoado no contato social. Ao contrário. Tampouco se recusa a justificar, do ponto de vista prático, a sua atividade. O pesquisador brasileiro traz na ponta da língua os achados de uma recente pesquisa da empresa de consultoria Deloitte, segundo a qual 16% do Produto Interno Bruto do Reino Unido – e 10% de todos os postos de trabalho naquele país – derivam da pesquisa avançada em matemática.

Ao mesmo tempo, Viana não deixa de defender a “inutilidade” do que faz – ou pelo menos a falta de aplicação imediata para as pesquisas matemáticas. “Eu gosto de contar a história de um matemático babilônio que vai ao Ministério da Ciência da Babilônia para pedir dinheiro”, disse o pesquisador a um grupo de repórteres, em Paris. “Perguntam ao matemático qual é a utilidade do que ele faz. E o sujeito responde: ‘Olha, eu estou estudando uma ideia muito nova: os números primos. Tenho certeza de que daqui a 5 mil anos eles vão ser fundamentais para as comunicações da internet e para a criptografia.’ Vocês sabem o que acontece com ele, não é? Recusam a verba – porque o mandato do ministro não dura 5 mil anos. O que eu faço? Eu sou um matemático babilônio.”

 

“O Marcelo transita bem, sabe fazer discurso, sabe conversar com as pessoas”, disse Edson de Faria, o pesquisador de sistemas dinâmicos da USP. O matemático Jacob Palis, de 76 anos, tem a mesma opinião. Palis foi orientador de Viana no doutorado e um dos responsáveis por transformar o Impa num centro de excelência internacional. “Ele é globalmente competente”, elogiou o ex-professor. “Mesmo entre os cientistas, não são muitos os que são assim.”

As habilidades realçadas por Faria e por Jacob Palis devem vir bem a calhar, dado o trabalho que Viana tem pela frente. Desde o final do ano passado, ele é o diretor-geral do Impa, responsável por garantir recursos e boas condições de trabalho aos melhores “matemáticos babilônios” do país. Como se não bastasse, o pesquisador carioca também ocupa um dos principais cargos burocráticos da matemática mundial: Viana é presidente do Comitê Organizador do próximo Congresso Internacional de Matemáticos, em geral referido pela sigla em inglês ICM. Daqui a dois anos, em 2018, pela primeira vez em sua história o congresso será realizado numa cidade do hemisfério Sul, o Rio de Janeiro.

Não deixa de ser um reconhecimento ao Brasil e à importância que o país passou a ter na pesquisa matemática mundial. Na área de atuação de Palis, Viana e Avila, em particular, a dos sistemas dinâmicos, o Impa é hoje uma das referências internacionais, um dos principais centros de estudos do campo.

É no ICM que, a cada quatro anos, pesquisadores de todo o planeta se reúnem para ouvir palestras na fronteira da produção intelectual da disciplina, trocar ideias e conhecer os novos agraciados com a Medalha Fields, sempre anunciados no mais importante fórum da matemática global. Compete a Viana garantir que tudo corra bem num evento que já tem, digamos, uma certa tradição – começou a ser realizado ainda no século XIX – e que vem sendo preparado pelos matemáticos brasileiros, nos últimos anos, num ambiente político e econômico bem longe do ideal.

Mas a ambição do pesquisador e dos seus colegas no Impa é ainda maior. Viana disse em Paris que pretende pleitear, até 2018, o reconhecimento formal do Brasil como integrante da elite de países na pesquisa em matemática. A União Internacional de Matemática, que organiza os ICMs, também é responsável por classificar os seus mais de 80 países-membros em cinco níveis, numa espécie de escala de qualidade da pesquisa realizada em cada um deles. O Brasil pisou o primeiro degrau, o nível 1, assim que entrou para a entidade, em 1954. Em 2005, já com os frutos do trabalho da matemática brasileira de ponta, chegou à antessala das grandes potências da disciplina, sendo classificado no nível 4.

Viana acredita que o país possa ingressar em breve na elite da pesquisa mundial, o nível 5, composta por apenas dez nações. Para isso, é preciso escrever uma espécie de relatório, advogando os feitos do Brasil, a ser submetido ao voto dos demais membros da União Internacional de Matemática. O diretor-geral do Impa gostaria de apresentar a candidatura brasileira – e receber uma resposta positiva – até a realização do ICM no Rio, daqui a dois anos. Seria uma espécie de Medalha Fields coletiva, reconhecendo a excelência da pesquisa nacional. Algo que o Brasil nunca alcançou, em qualquer área do saber.

A conquista poderia ajudar na continuidade da pesquisa de ponta, avalia Edson de Faria. “Para quem administra instituições, como o Jacob Palis e o Marcelo, faz diferença. ‘Olha, somos nível 5.’ O pessoal vê que o dinheiro está tendo efeito.”

Chegar lá e ser capaz de se manter no topo, contudo, “é uma parada dura”, lembrou o matemático da USP. “O grupo mais alto é composto por Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra. Esses países têm uma base.” Ao Brasil, ele disse, ainda faltaria consolidar uma “cultura matemática” de onde pinçar mais e mais talentos – dada a qualidade “muito ruim” do ensino básico da disciplina. De toda forma, se considerada a pesquisa de ponta feita no país, “o Brasil já tem condições de estar no nível 5”, concluiu o pesquisador. “Talvez realmente esteja na hora.”

“Ele não está sonhando, não”, me disse Jacob Palis, pelo telefone, concedendo a Marcelo Viana a liderança do projeto. “É uma ambição verdadeira, viável. A chance é muito boa de chegarmos a esse último patamar. Porque merecemos. A produção científica em matemática no Brasil merece esse reconhecimento.”

 

Enquanto esperava pelo início da cerimônia de premiação no Institut de France, Viana se lembrou da primeira vez em que visitou – ou tentou visitar – a França. Eram meados dos anos 80, e o matemático, aos 22 anos de idade, saíra de Portugal com destino a Paris munido apenas de um passaporte brasileiro. Embora tivesse nascido no Rio de Janeiro – daí o passaporte –, Viana fora criado e educado na Europa – daí o voo que decolava da cidade do Porto. Seu pai, Joaquim, havia emigrado para o Brasil anos antes, seguindo o costume de uma família pobre, com raízes na pequena vila de A Ver-o-Mar, no norte de Portugal: era comum para os homens jovens dali tentarem a sorte do outro lado do Atlântico, “juntar um dinheirinho, voltar e se casar”.

No Rio, Joaquim Viana trabalhou como pedreiro, taxista, motorista de caminhão e de ônibus escolar. Quando o filho nasceu, fazia o transporte das alunas do Colégio São Marcelo, na Gávea, Zona Sul da cidade. Achou por bem homenagear o santo na hora de batizar o filho. Continuaria a ganhar a vida atrás do volante, como caminhoneiro, após retornar a Portugal – Marcelo Viana tinha apenas 3 meses quando a família decidiu cruzar o oceano de volta para a Europa.

Em A Ver-o-Mar, a mãe conseguiu um emprego como professora primária. Como não tivesse com quem deixar o filho, levava-o para a sala de aula desde os primeiros anos de vida. “Eu ficava lá, brincando. Aos 4 anos, estava alfabetizado. Por osmose. Só por estar na sala, e assistir às aulas.”

Ainda criança, Viana se interessaria pela matemática – segundo ele porque a disciplina lhe parecia a “mais limpa”, aquela em que tudo se organizava e era possível encontrar respostas seguras e duradouras para os problemas. Aos 15 anos disse à mãe, com alguma solenidade e muita segurança, que queria ser professor universitário de matemática, algo a princípio fora da realidade da família. “Não é nem que fosse uma ambição. Quem que pensaria nisso? Era como dizer: quero ser astronauta. Quero ir para a Lua.” Pois acabou se destacando no curso da Universidade do Porto. E assim, logo em seguida à formatura, em 1984, seu orientador tomou a iniciativa de organizar uma viagem de Viana à França.

O professor português tinha contatos em Paris, queria que o aluno conhecesse a “capital da matemática” e, quem sabe, lançasse por lá as sementes para um doutorado. A lhe esperar, do outro lado dos Pirineus, estava um expoente dos sistemas dinâmicos, área para a qual Viana já se inclinava, o professor Adrien Douady.

Com a passagem paga pela universidade, o jovem matemático tomou o voo. Descontada a travessia do Atlântico aos 3 meses de idade, era a sua primeira viagem internacional. Embora tivesse passado a vida inteira em Portugal, do ponto de vista legal ele era brasileiro, e apenas brasileiro, àquela altura. “Eu só tinha passaporte brasileiro. Só fui adquirir a cidadania portuguesa, por ser filho de portugueses, muitos anos depois.”

Viana pousou no aeroporto de Orly e, mal desembarcou, começaram os problemas. No controle de passaportes, o policial francês folheou as páginas do documento, sem encontrar o carimbo que procurava. Perguntou pelo visto – à época exigido pela França mesmo para turistas vindos do Brasil. O matemático me contou que não sabia da necessidade daquela formalidade porque, até onde tinha conhecimento, seus colegas portugueses iam e vinham pela Europa sem grandes preocupações. O que valia para os europeus, contudo, não valia para o brasileiro.

“Não tenho”, respondeu Viana.

“Precisa”, informou o policial.

“Ah, é? E onde eu consigo um?”, foi a pergunta lógica que ocorreu ao brasileiro. “Ele falou para eu ir ter com a ADP, Aéroports de Paris, a Infraero deles. Fui lá falar. E estranhei porque os funcionários, duas mulheres e dois sujeitos, começaram a cochichar.” Deixado de lado, em certo momento Viana ouviu a palavra dangereux, perigoso. “Daí eles me levaram até a polícia.”

Seguiu-se outro tempo de espera, um chá de cadeira, até que o matemático se levantou, decidido a entender qual era o problema. Foi até um policial e perguntou o que estava acontecendo. “O que está acontecendo, monsieur, é que a França é uma mãe”, o policial respondeu. “É uma mãe – e aceita todo tipo de merda. Mas para tudo há um limite!”

“Foi aí que comecei a ficar preocupado”, contou Viana.

O jovem matemático seria transferido, logo em seguida, para uma espécie de sala de espera. Em hipótese alguma deveria sair dali, lhe disseram. Um dos colegas de detenção era um traficante marroquino: tinha dado o azar de descobrirem um carregamento de maconha que ele trazia na mala. Viana lhe emprestou uns trocados para o telefone público, e o sujeito pagou a gentileza com um maço de cigarros. Estabelecida a amizade, os dois ficaram por ali, conversando e fumando, até que, horas mais tarde, vieram buscar o matemático brasileiro. Viana deveria tomar lugar num voo da TAP que estava prestes a partir, disseram as autoridades francesas. Enquanto era levado, ainda ouviu os protestos do marroquino, que pedia para “deixarem o garoto” em paz: “Ele é boa gente”, garantiu o traficante.

 

Forçado a regressar a Portugal, Viana contou que se impôs a tarefa de voltar o quanto antes para a França. “Fiz questão de ir até uma agência de viagem e comprar, eu mesmo, uma outra passagem, para dali a uma semana.” Nesse meio tempo, conseguiu o visto que lhe era exigido. Novamente pegou o avião e, dessa vez, superou as barreiras policiais e burocráticas do aeroporto, antes de ir se encontrar com Douady. O matemático francês era um tipo incomum.

Segundo Viana, Adrien Douady fazia lembrar um dos anões da Branca de Neve. Barbudo e barrigudo, prendia a calça com um pedaço de corda. Na juventude, e já não tão jovem, andava descalço pela rua. “No verão, ele passeava sem sapatos por Paris.”

Assim que se encontraram, Viana recebeu de Douady uma lista de seminários, espalhados por diversas escolas e instituições diferentes, que ele poderia frequentar, já na semana seguinte. “Apresentou a programação e disse: ‘Vá à luta.’ E eu fui, com a cara e a coragem.” No sábado seguinte, tendo cumprido o roteiro, o brasileiro voltou a se encontrar com o professor francês. “Foi aí que ele me disse: ‘Tenho aqui esses dois problemas.’” Eram problemas ligados à área de sistemas dinâmicos, que Douady não conseguia resolver. Ao apresentar as questões ainda sem solução a Viana, deu um conselho. Algo que não era tão simples assim de fazer: “O negócio é resolver um teorema. Se você tem um resultado, as pessoas começam a convidá-lo para falar.”

Viana disse ter se ocupado, então, das duas questões. Voltou a Portugal com os problemas na cabeça. Poucos meses depois, já tinha a solução para um deles, pelo menos. “Consegui provar a primeira questão”, disse. “A outra, que eu não resolvi, continua aberta até hoje”, acrescentou, com um sorriso no rosto.

A viagem para Paris aconteceu no início de 1985, em fevereiro ou março, segundo o matemático se recorda. Em maio, um dos problemas em que Douady empacara estava resolvido. Dali a alguns meses, em setembro, aconteceria um congresso de matemáticos em Coimbra. Como tinha um resultado, foi convidado a participar. Jovem, desconhecido, sobrou para ele a vaga de sexta-feira, às oito e meia da noite. Ele achou que era bom negócio, imaginando que o auditório provavelmente estaria vazio, ou quase. Tremia com a possibilidade de ter que falar em público.

Uma das estrelas do congresso de Coimbra, em 1985, era o brasileiro Jacob Palis, do Impa. Palis era conhecido na Europa, disse Viana, por causa do seu trabalho em sistemas dinâmicos. E o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, àquela altura, já era bastante respeitado. Logo no início da semana, os dois foram apresentados. “Disseram a ele que eu era brasileiro, e ele respondeu: ‘Não parece’”, contou Viana, rindo. O matemático experiente que desconfiava do sotaque do jovem pesquisador garantiu, contudo, que ia esperar até o fim da conferência para ver o que ele tinha a dizer. Foi o que fez.

Palis contou ter assistido à apresentação de Viana “com os olhos arregalados”: “Fiquei muito impressionado. Ele já tinha um resultado de pessoa madura na área. Chamou muito a minha atenção.” Ao final da palestra, foi ter com o jovem matemático e o convidou para fazer seu doutorado no Impa, que se destacava justamente na sua área de predileção. O rapaz gostou da ideia. No ano seguinte Viana atravessaria novamente o Atlântico, dessa vez de volta à América do Sul.

 

Em 1998, em Berlim, Marcelo Viana foi o primeiro brasileiro a integrar o seleto grupo dos palestrantes principais de um Congresso Internacional de Matemáticos. Tais conferências – naquele ano a cargo de vinte pesquisadores – são dedicadas a apresentar os avanços mais recentes e significativos da disciplina. A Viana coube fazer a palestra plenária sobre sistemas dinâmicos. Daí que no ICM seguinte, em Pequim, ele pudesse ser considerado um possível candidato à Medalha Fields.

Completaria 40 anos – a idade-limite para um matemático poder concorrer ao prêmio – naquele 2002. Jacob Palis era então presidente da União Internacional de Matemática e, pelas regras da entidade, caberia a ele também presidir o comitê de atribuição da medalha. Como defendia que Viana, ex-aluno seu, fosse considerado para o prêmio, decidiu abrir mão da função, para que não houvesse conflito de interesses. Indicou um colega para o cargo.

Não era apenas Palis que tinha a expectativa de que o matemático do Impa aparecesse entre os escolhidos. “Sem dúvida ele foi considerado, seriamente, para a medalha”, me disse Edson de Faria. De toda forma, acabou não recebendo o prêmio. O que tornava a coisa ainda mais dolorosa era o fato de que naquele ano apenas dois matemáticos acabaram sendo laureados – apesar de serem quatro, em geral, os escolhidos.

Eu quis saber de Palis se Marcelo Viana de fato tinha contribuições à disciplina capazes de colocá-lo em condições de disputar o prêmio. “Sem dúvida nenhuma”, me disse o pesquisador. “Essas coisas às vezes são como deveriam ser; às vezes, não.” Não deixa de haver alguma política, também na matemática – ou pelo menos na escolha da Medalha Fields –, era o que se concluía.

“O Marcelo é o melhor matemático brasileiro da sua geração”, me disse Faria. “Existe um pouco de política na escolha da Fields, é verdade, mas política de alto nível. Nunca vi um medalhista que não merecesse ganhar. O que existe é que muitas pessoas mereciam, e não ganharam.”

 

Mais de trinta anos depois da primeira tentativa frustrada de ser aceito em território francês, Marcelo Viana entrou no salão do Institut de France para receber o seu prêmio, no dia 8 de junho de 2016, como se fosse um herói do exército de Napoleão: saudado pelo rufar dos tambores da Guarda Republicana, vestida a caráter.

Além da tarefa de buscar a medalha e o canudo oferecidos pela instituição científica francesa, Viana aproveitou a sua viagem à Europa para fazer política – “de maneira indireta”, como fez questão de precisar. Houve uma escala em Zurique, para uma palestra, antes de chegar a Paris, e nos dois lugares ele fez propaganda do Congresso de Matemáticos de 2018, que organiza. Exortou quem o ouvia a viajar ao Rio, garantindo que tudo ia bem, e o ICM ocorreria da melhor forma possível. Queria, segundo disse, “combater essa impressão de que tudo no Brasil está colapsando, e de que o Congresso” – entenda-se, o de matemática, não o de Brasília – “possa estar em risco”.

Ele garante que não está. Apesar de um ou outro contratempo na definição do lugar do evento – será no Riocentro, na Zona Oeste do Rio –, disse que os trabalhos estão adiantados, que o Impa dispõe dos recursos necessários para a empreitada, que não há o que temer.

De toda forma, o rebuliço político e econômico do país incomoda – e preocupa. “O que acontece é que qualquer iniciativa precisa de um pouco de estabilidade”, disse, referindo-se à pesquisa científica no país, de maneira geral. “Precisamos chegar o mais rápido possível a uma situação mais estável. Ciência, em particular, é muito sensível. Eu já vi países construírem sistemas científicos ao longo de anos… Estou pensando em Portugal. Quando eu saí de lá, tudo estava começando a melhorar na pesquisa científica. Mas a crise de alguns anos atrás fez com que parte desse avanço se perdesse.”

Instado a comentar a fusão dos ministérios das Comunicações e da Ciência e Tecnologia, sob o governo Temer, disse com alguma cautela que ainda era cedo para avaliar as consequências da medida. Mas emendou que via com preocupação a experiência: “Em time que está ganhando, não se mexe.”

É possível que tivesse em mente, o tempo todo, o Impa – cujo orçamento vem sobretudo das pastas da Educação, de um lado, e da Ciência e Tecnologia, de outro. Mas pensava também num objetivo mais específico. Viana acredita que, para convencer os países-membros da União Internacional de Matemática de que o Brasil merece figurar na elite da disciplina, ganhando o selo do nível 5 da entidade, é preciso mostrar que os avanços feitos até aqui nesse campo do saber são sólidos, e que não vão se perder ao sabor de qualquer ventania.

Faz parte da estratégia do diretor do Impa esperar até uma data mais próxima à do ICM, em 2018, para postular formalmente a entrada do Brasil na elite mundial da matemática. “Fazer isso agora seria uma má ideia. O país está com uma reputação ruim. Poderiam pensar: ‘Tudo bem que eles tenham evoluído na pesquisa, mas será que vai ter continuidade?’”

Montar um bom congresso, ele disse, é uma maneira de garantir à comunidade matemática internacional que a pesquisa, no Brasil, é capaz de atravessar conjunturas adversas, e que não há risco de reviravolta caso o país seja promovido à elite da disciplina. “Você tem que ter estratégia. O congresso está bem consolidado. Quando chegar perto, vai ficar demonstrado que nós sabemos fazer um evento desse tipo. Isso conta. No fundo o que conta é a qualidade da pesquisa na matemática. Mas, na medida em que essa pesquisa é afetada por outros fatores, eles também têm que ser considerados. O plano é esse. O Congresso Internacional de Matemáticos vai acontecer no Rio. Mesmo que o país colapse.”

Rafael Cariello

Rafael Cariello foi repórter e editor da piauí. Também foi editorialista e correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York

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