anais da neurociência

O cru, o cozido e o cérebro

Suzana Herculano-Houzel conta neurônios em laboratório e dá novas pistas para a compreensão da inteligência humana

Bernardo Esteves
Ao investigar quantas células há neste cérebro de elefante, Suzana Herculano põe à prova a hipótese que norteia suas pesquisas: “Os humanos se destacam por um número de neurônios que nenhuma outra espécie tem, conseguido depois que nos livramos da limitação imposta pela dieta crua.”
Ao investigar quantas células há neste cérebro de elefante, Suzana Herculano põe à prova a hipótese que norteia suas pesquisas: “Os humanos se destacam por um número de neurônios que nenhuma outra espécie tem, conseguido depois que nos livramos da limitação imposta pela dieta crua.” FOTO: SUZANA HERCULANO-HOUZEL_2013

Na manhã de 26 de novembro, Suzana Herculano-Houzel decidiu passar numa casa de ferragens antes de ir para o trabalho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estava acompanhada da filha Luiza, de 13 anos, que acabara de entrar em férias. Comprou um facão de churrasco com cabo azul e 30 centímetros de lâmina. Precisaria dele para a tarefa que a aguardava no laboratório. Chegara finalmente o dia de atacar um objeto de pesquisa que estava guardado num freezer havia quase seis meses. Naquela manhã chuvosa, ela iria fatiar um cérebro de elefante.

Suzana tem 40 anos, olhos castanhos e pele clara, que contrasta com os cabelos pretos e compridos. Veste-se de maneira despojada, geralmente de camiseta e calça jeans, e é comum encontrá-la de bom humor, com um sorriso no rosto. Formada em biologia, ela se especializou em neurociência, disciplina que estuda o sistema nervoso. É a chefe do Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ, que ocupa uma sala de 42 metros quadrados no campus da Ilha do Fundão, na Zona Norte do Rio. Trabalha ali com dezesseis alunos de graduação e pós, orientados por ela. Os pesquisadores referem-se ao lugar pela sigla Naco.

A cientista vestiu um par de luvas cirúrgicas e tirou do freezer um grande tupperware de plástico branco. Lá dentro, boiando num líquido incolor, estava a metade direita de um cérebro de elefante. Mal começara a manuseá-lo, Suzana tirou rapidamente as mãos do recipiente, arregalou os olhos e gritou: “Cacilda!” Não conseguira manter as mãos dentro do gélido líquido anticongelante usado para preservar o material biológico.

Inteiro, aquele cérebro tinha 5,250 quilos, mais de três vezes o peso do cérebro humano médio. Tirado da solução em que estava conservado, ele tinha uma cor ocre e a textura de uma pedra com limo, por causa da membrana que o protege, a meninge. Colocado sobre a tampa do tupperware, o meio cérebro apresentava a forma aproximada de um grão de feijão gigante. “Parece um peru de Natal, dos pequenos”, comparou Suzana.

O animal a quem aquele cérebro pertencia viveu no sudeste do Zimbábue, numa reserva mantida por uma organização privada sem fins lucrativos. Era um macho com idade entre 20 e 30 anos, um jovem adulto – os elefantes africanos podem passar dos 60. Mesmo que aquela pesquisa não fosse realizada, seria sacrificado, medida brutal mas rotineira para evitar a superpopulação de elefantes no parque (a carne do animal rendeu mais de 30 mil refeições para a população do entorno da reserva). A outra metade do cérebro do paquiderme está a mais de 7 mil quilômetros da Ilha do Fundão, no laboratório de um colaborador de Suzana em Joanesburgo, na África do Sul.

“Me sinto a açougueira”, disse a cientista, enquanto afiava a lâmina do facão. Num canto do laboratório estava encostado um fatiador de frios do mesmo modelo encontrado nas padarias – uma solução criativa de Suzana para substituir uma máquina específica muitas vezes mais cara. Ela explicou que não usaria o aparelho para talhar o cérebro de elefante, porque não poderia se dar ao luxo de perder nenhum fragmento. Se usasse o velho Filizola, inevitavelmente alguns pedacinhos grudariam na lâmina – “como aquela gosminha que fica quando você corta presunto”.

Os sete estudantes que estavam no laboratório interromperam o que estavam fazendo para ver Suzana em ação. Ela cortou o cérebro em fatias paralelas, obtidas graças a um apoio improvisado com material comprado na casa de ferragens. Cada fatia tinha 1,2 centímetro de espessura e a aparência que uma aluna comparou a um carré de porco. Luiza fotografava a cena de vários ângulos com o smartphone da mãe. Um cheiro levemente desagradável se espalhava pelo laboratório.

As fatias cortadas eram postas de lado sobre a bancada, na ordem em que estavam dispostas originalmente. O cérebro foi cortado em dezesseis fatias, com algumas migalhas de sobra. O cerebelo – estrutura situada na parte de trás do cérebro – foi cortado separadamente, e rendeu outros sete pedaços e um fiapo. À tarde, as fatias seriam todas escaneadas (frente e verso) e catalogadas antes de voltar para o freezer. Quando terminou o trabalho com o facão, Suzana tirou as luvas, abriu um sorriso e convidou os alunos: “Vamos almoçar?”

 

A pesquisadora trouxe pessoalmente o cérebro do elefante quando foi a Joanesburgo visitar o colega Paul Manger, da Universidade de Witwatersrand. A viagem deu início a uma colaboração que ela propôs depois de descobrir o método desenvolvido pelo colega para retirar cérebros de grandes mamíferos mortos, de forma que pudessem ser aproveitados para pesquisas.

A brasileira voltou da África do Sul com duas malas cheias de cérebros de vários tipos de animais, guardados em tupperwares reforçados por uma embalagem de plástico lacrada. Foi parada na alfândega no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos – pensaram que ela trazia queijo na bagagem. “Expliquei que não era comida, eram cérebros, e saquei o calhamaço com toda a documentação de autorização”, contou Suzana. Segundo ela, tudo o que a vigilância sanitária requer para um cientista que entra no país portando um carregamento de cérebros é uma declaração escrita de que o material não tem valor comercial nem risco biológico. “A fiscal só queria uma lista com o nome das espécies. Nem abriu as malas para ver se eram cérebros mesmo.”

Nas publicações científicas, o elefante providenciado por Paul Manger é tratado pelo nome técnico Loxodonta africana. Com peso de até 6 toneladas, é o maior mamífero terrestre. Os elefantes são comumente lembrados por sua memória prodigiosa, mas esse não é seu único atributo a surpreender os cientistas. Estudos já concluíram que eles podem se comunicar por ultrassons, se organizam em estruturas sociais complexas e são capazes de construir e usar ferramentas.

“Na história dos mamíferos, o cérebro só passou de 700 gramas em três ocasiões – nos humanos, no grupo das baleias e golfinhos e nos elefantes –, e a cada vez por um caminho evolutivo diferente”, explicou-me Paul Manger por e-mail. “O estudo do elefante permitirá entender melhor como o cérebro processa as informações e deve levar a novas hipóteses sobre o comportamento dos mamíferos.”

 

Quem entra na sala do Naco logo vê quatro freezers e uma geladeira enfileirados. Está reunido ali um verdadeiro neurozoológico congelado, acondicionado em recipientes de formatos e tamanhos variados. Há cérebros de moluscos, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos de todos os grupos. O do crocodilo é do tamanho de uma unha e cabe num vidrinho. Os de baleia estão distribuídos em dois baldes. “Temos tigre, uns carnívoros menorzinhos, antílopes de vários tamanhos, algumas girafas”, enumerou Suzana. “Se juntar tudo, deve dar umas sessenta espécies.”

Nas mãos da pesquisadora e de seus alunos, o destino de todos aqueles cérebros é virar suco. Cedo ou tarde, as fatias serão cortadas em pedaços miúdos, misturadas a uma substância química e friccionadas até se transformarem numa solução de cor esbranquiçada que lembra suco de maçã. Tudo porque Suzana quer saber quantas células existem em cada um daqueles cérebros.

A tarefa não é das mais simples, porque a densidade das células varia muito de acordo com a região do cérebro. As tentativas de contagem costumavam ser extrapolações feitas a partir da observação de alguns fragmentos, e nem sempre chegavam a resultados precisos. Trabalhando com o colega Roberto Lent, da UFRJ, Suzana encontrou um jeito engenhoso de resolver o problema: transformar o cérebro num suco homogêneo, com um procedimento que destrói as células, mas preserva seus núcleos. Contando os núcleos numa amostra do suco, os cientistas estimam quantas células deve haver no resto. O método permite inclusive diferenciar quantas delas são neurônios – responsáveis por processar e transmitir a informação no sistema nervoso – e quantas são células gliais, que fornecem suporte funcional e alimentação para os neurônios.

Antes da técnica criada pela dupla de pesquisadores cariocas, não era possível determinar com precisão a composição de um cérebro. Já se sabia de que tipo de células ele é composto, mas não a proporção exata – como se fosse um bolo do qual se conhecessem apenas os ingredientes, mas não a quantidade de cada um usada no preparo. “Se você quer entender como uma estrutura funciona, precisa antes de mais nada saber do que ela é feita e quais são as regras básicas de construção”, argumentou Suzana.

Quando o método começou a ser estendido a várias espécies, o grupo de pesquisa concluiu que princípios distintos governam a construção do cérebro dos diferentes grupos de animais. Uma capivara, por exemplo, tem um cérebro de 76 gramas com 1,6 bilhão de neurônios. Já o do macaco-prego é um pouco menor – pesa cerca de 50 gramas –, mas tem 3,7 bilhões de neurônios, mais do que o dobro da capivara, o que poderia explicar sua maior habilidade cognitiva. Com diferentes colaboradores, Suzana já publicou trabalhos que estimaram a quantidade de neurônios de 29 espécies, e pretende aplicar o método a representantes de todos os grupos de mamíferos.

 

Quando decidiu lançar um livro sobre o que torna os humanos únicos, o neurocientista Michael Gazzaniga, da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, pediu a amigos e familiares que escrevessem num papel como responderiam a essa pergunta. Só leu o resultado depois de terminar a obra, conforme relatou no posfácio de Human: The Science Behind What Makes Us Unique, lançado em 2008 e ainda inédito no Brasil. De uma terapeuta, ouviu que somos os únicos a sentir culpa e vergonha. Um menino disse que só nós organizamos festas de aniversário. Um adolescente lembrou que nenhuma outra espécie faz dieta ou plástica na barriga.

Os relatos compilados por Gazzaniga se juntam a inúmeras outras narrativas já elaboradas a fim de estabelecer o marco distintivo da nossa condição exclusiva no reino animal. Dentre os mais familiares, estão os que atribuem nossa humanidade a faculdades como o pensamento abstrato, a consciência, a linguagem articulada e o domínio do simbólico que nos levou à cultura e à arte. A biologia nos definiu como Homo sapiens, os hominídeos sabidos. Para muitos neurocientistas, o que nos diferencia é o cérebro de tamanho atípico – é o maior do reino animal em termos relativos.

Estudiosos da mente humana tentaram definir quais habilidades cognitivas seriam exclusivas da nossa espécie. Os humanos se destacariam por atribuir intenções e estados de espírito a outras pessoas e bichos ou mesmo a objetos inanimados. Teriam capacidade de adotar a perspectiva do outro, de fazer projeções para o futuro e de inventar histórias. Não é simples, porém, delimitar a fronteira que nos separa de outros animais.

Golfinhos, elefantes e vários primatas são capazes de se reconhecer no espelho – uma atitude que denota alguma consciência de si. Bonobos e orangotangos guardam ferramentas para usar no futuro, gesto indicador de alguma capacidade de planejamento. Outros macacos conseguiram se comunicar com um sistema de signos arbitrários, combinando-os num tipo de sintaxe. Até a experiência do prazer estético já foi contestada como prerrogativa exclusiva dos humanos. Chimpanzés, por exemplo, frequentam em bando uma cachoeira num parque nacional na Tanzânia. Ao chegar, fazem uma espécie de dança coletiva e depois se sentam de frente para a queda d’água, numa atitude de aparente contemplação.

O naturalista inglês Charles Darwin observou, numa passagem muito citada, que a diferença entre humanos e demais animais é de grau, e não de gênero. A condição animal da espécie humana se tornou incontestável para as ciências naturais desde que Darwin tornou pública, em 1858, sua teoria da evolução das espécies por seleção natural (o galês Alfred Russel Wallace apresentou no mesmo ano uma versão independente da teoria). No último século e meio, as realizações das ciências da vida e as biotecnologias corroboraram a ideia de Darwin e tornaram-na mais sofisticada. Em vez de falar de diferenças de grau e gênero, um geneticista hoje preferirá dizer que compartilhamos com o chimpanzé mais de 95% de nosso genoma – o percentual exato é objeto de controvérsia entre os cientistas.

 

No fim dos anos 90, Suzana Herculano-Houzel foi chamada pelo colega Roberto Lent para preparar textos curtos sobre a história da neurociência. Deveriam integrar uma obra de referência de 700 páginas que ele fazia, apresentando os conceitos fundamentais da disciplina. Foi lançada em 2001, com o título Cem Bilhões de Neurônios – número que se estimava haver no cérebro humano. Era um dado que circulava em outras obras sem muito questionamento. Suzana suspeitou que ninguém tivesse de fato feito a conta. Revirou a literatura científica em busca da referência original, em vão. Disse ao colega que não conseguia encontrar de onde vinha tal número. Acrescentou que imaginava saber como contar neurônios, mas ainda não tinha onde fazer a pesquisa.

Numa conversa recente em seu gabinete, Lent – hoje diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ – contou que se interessou pelo desafio e acolheu Suzana em seu laboratório. “Eu tinha adotado um título muito eufônico e agradável, mas descobri que era dogmático”, disse. “Achei que fazia sentido atacarmos esse dogma em particular.”

Batizado de “fracionador isotrópico”, o método desenvolvido pela dupla foi apresentado à comunidade científica num artigo publicado em 2005. Em 2009, foi enfim possível determinar o número que havia despertado a desconfiança de Suzana, com um trabalho conduzido por Frederico Azevedo, aluno de mestrado de Roberto Lent. Após contar as células do cérebro de quatro homens com idade entre 50 e 71 anos, Frederico concluiu que o cérebro humano tem, em média, cerca de 86 bilhões de neurônios. A estimativa anterior afinal não era tão ruim, mas agora o número tinha respaldo experimental. Não foi o único dogma derrubado pelo estudo: os pesquisadores mostraram ainda que o cérebro humano não era excepcional. Tinha exatamente a composição que se deveria esperar de um primata com um cérebro daquele tamanho.

Quando lançou a segunda edição de seu livro, em 2010, Lent se viu em dúvida sobre o que fazer com o título. Saiu-se com uma solução intermediária, que manteve a identidade com a edição original, sem contradizer os novos resultados. Acrescentou um ponto de interrogação ao final: Cem Bilhões de Neurônios?

 

Manter um cérebro de 86 bilhões de neurônios custa caro. Embora esse órgão responda por apenas 2% do peso de um indivíduo, ele consome um quinto de toda a energia ingerida. Das 2 500 calorias que um homem adulto precisa ingerir num dia, 500 – o equivalente a um Big Mac – são necessárias apenas para abastecer seu cérebro. Suzana investigou esse custo e mostrou que ele é proporcional ao número de neurônios que existem no cérebro.

Outros primatas com um número elevado de neurônios também enfrentam desafios parecidos. É o caso do gorila, um animal que pode pesar até 200 quilos e tem um cérebro com 33 bilhões de neurônios. Como se alimentam basicamente de folhas, eles precisam ingerir nada menos que 18 quilos de comida por dia. Não é de se espantar que passem cerca de oito horas por dia comendo, conforme o registro de primatólogos. Vendo que esses primatas viviam praticamente no limite da sua capacidade de ingestão de alimentos, a neurocientista deduziu que alguma mudança deveria ter acontecido para permitir o sustento de um cérebro como o humano, com um número de neurônios quase três vezes maior.

Suzana tinha esse problema em mente quando foi procurada por Karina Fonseca-Azevedo, uma estudante de graduação de biologia em busca de um estágio voluntário no Naco. Explicou suas hipóteses à aluna e disse que estava atrás de alguém para ajudá-la num estudo sobre o custo do cérebro e a dieta dos primatas.

A aluna passou os meses seguintes vasculhando revistas científicas em busca de estudos sobre várias espécies de primatas. Com os dados levantados na literatura e os resultados das pesquisas do próprio Naco, as duas puderam construir simulações matemáticas com um programa de computador. Queriam entender quantas calorias a mais os primatas precisavam consumir – e quanto tempo a mais precisariam passar comendo – caso aumentasse o tamanho de seu corpo ou cérebro.

 

Karina Fonseca-Azevedo é filha de um feirante e uma dona de casa. Pertence à primeira geração de sua família com acesso ao ensino superior. Tem 24 anos e pretende seguir carreira acadêmica. Em 2011, entrou no mestrado em ciências morfológicas pela UFRJ. Como não ganhou bolsa de estudos, dá aulas de ciências três dias por semana em uma escola estadual em São Gonçalo, do outro lado da Baía de Guanabara.

A bióloga estreou na literatura científica de maneira inusual, com artigo em uma revista de prestígio, em que muitos colegas mais experientes adorariam publicar. Os resultados que ela havia apresentado em sua monografia de fim de curso foram publicados em inglês, em outubro de 2012, nos anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, periódico conhecido pela sigla, PNAS. Karina assinou o trabalho como primeira autora, ao lado da orientadora. O estudo das brasileiras foi noticiado mundo afora. Em seu blog, Suzana incluiu links para reportagens sobre a pesquisa em sites da Índia, China, Nigéria, Ucrânia e outros onze países.

Os resultados das simulações apontaram algumas limitações que a dieta impunha ao tamanho do corpo e do cérebro de primatas. O tempo disponível para a ingestão de alimentos é um recurso finito – o caso extremo é o do gorila, que passa 80% do período de vigília se alimentando.

Karina e Suzana também incluíram no estudo alguns ancestrais extintos do Homo sapiens, que tiveram seu número de neurônios calculado a partir do volume da caixa craniana. Também não deviam ter vida fácil. Os resultados apontaram, por exemplo, que o Homo habilis, que viveu por volta de 2 milhões de anos atrás, precisaria passar mais de oito horas por dia comendo para sustentar seus estimados 35 bilhões de neurônios. Dali em diante, porém, a conta não fechava. As simulações mostraram que, caso mantivesse a dieta crua dos outros primatas, tanto o Homo erectus, surgido há cerca de 1,8 milhão de anos, quanto os humanos modernos, que têm 200 mil anos, precisariam passar improváveis nove horas ou mais por dia se alimentando.

Ocupados tanto tempo com o próprio sustento, eles dificilmente teriam como se dedicar a construir ferramentas, intervir no meio ambiente e realizar outras tarefas que costumam ser consideradas típicas dos humanos. “Passando dez horas por dia com a boca cheia, eles nem teriam como desenvolver a linguagem”, brincou Karina.

Para Suzana, o fato de conseguirmos sustentar nosso cérebro sem precisar passar o dia inteiro comendo é sinal de que alguma coisa mudou. “Demos um jeito de custar menos energia? Não foi o caso. De comer mais horas por dia? Também não. Inventamos uma maneira de fazer a comida render mais calorias. Para isso era preciso mudar a dieta”, disse.

 

“Nós, humanos, somos os macacos cozinheiros, as criaturas da chama”, escreveu o primatólogo britânico Richard Wrangham, da Universidade Harvard, em um livro de 2009, lançado no Brasil pela Zahar. Chamado Pegando Fogo: Por que Cozinhar nos Tornou Humanos, o autor desenvolve o argumento que ele mesmo apresentara dez anos antes em um artigo: a troca da dieta crua pela ingestão de alimentos cozidos foi o fato determinante que definiu a humanidade.

Cozinhar é uma forma de começar a digerir um alimento antes mesmo que ele seja levado à boca. O calor rompe a estrutura tridimensional das moléculas da comida. O amido, por exemplo, presente em abundância nos vegetais, se gelatiniza e é mais facilmente absorvido quando aquecido. O efeito é notável na carne, em que o cozimento quebra o colágeno responsável por sua dureza. Por isso, defende Richard Wrangham, a quantidade de energia que absorvemos de um alimento aumenta quando cozido: uma cenoura cozida tem mais calorias do que a mesma cenoura comida crua, embora as tabelas de valor energético dos alimentos não levem isso em conta.

Quase não há indícios arqueológicos que sustentem a hipótese de Wrangham. Como não é fácil dizer o que é ou não indício de uma fogueira intencional produzida centenas de milhares de anos atrás, o instante em que os humanos passaram a controlar e produzir fogo é motivo de polêmica entre os estudiosos. Na literatura especializada, sementes e tocos de madeira queimados, cinzas, pedaços de carvão e outros objetos já foram interpretados como indício do uso humano do fogo com datação de até 1,7 milhão de anos. Segundo a revista Science, a hipótese “mais amplamente aceita” vem do estudo de um sítio arqueológico israelense datado em 790 mil anos e analisado num artigo de 2004 publicado na própria Science.

Wrangham defende que o controle do fogo e o seu uso para cozinhar se deram bem antes disso. Para ele, o cozimento dos alimentos deve ter ocorrido na transição do Homo habilis para o Homo erectus, entre 1,9 e 1,8 milhão de anos atrás. Os fósseis dessas duas espécies sugerem que a anatomia humana estava se adequando à nova dieta. Os dentes, por um lado, diminuíram, o que seria um sinal de adaptação a alimentos mais moles. Se tivesse continuado a comer carne crua, argumenta Wrangham, o Homo erectus teria caninos bem maiores. Alterações na caixa torácica e na pélvis indicariam uma diminuição do intestino, em resposta à ingestão de alimentos previamente digeridos pelo calor.

O estudo de Karina Fonseca-Azevedo e Suzana Herculano-Houzel explorou uma linha de argumento que o britânico não havia enfatizado. A dupla concluiu que, além de tornar a digestão mais fácil e aumentar a absorção de energia dos alimentos, a dieta cozida permitiu diminuir muito o tempo gasto com a alimentação. Com isso, o que seria um fardo – um cérebro com muitos bilhões de neurônios e difícil de abastecer – se tornou uma vantagem evolutiva, que favoreceu um crescimento ainda maior do cérebro. Este é o âmago da hipótese que norteia as pesquisas de Suzana: “Os humanos se destacam por um número de neurônios que nenhuma outra espécie tem, conseguido depois que nos livramos da limitação imposta pela dieta crua.”

Richard Wrangham disse ter ficado muito satisfeito com o estudo brasileiro. “O foco de Suzana na grande demanda energética dos nossos cérebros abriu uma nova linha de raciocínio, da qual gosto muito”, escreveu-me num e-mail. Wrangham disse ainda que investigar a diminuição do intestino humano, conforme ele postulou em seu livro, tornaria o argumento ainda mais robusto.

 

O papel do cozimento dos alimentos no estabelecimento das sociedades humanas foi destacado pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss em O Cru e o Cozido, publicado em 1964. Tratava-se do primeiro tomo das Mythologiques, a clássica série em quatro volumes dedicada aos mitos dos índios do continente americano – muitos deles colhidos in loco por Lévi-Strauss no Brasil Central durante os anos 30.

No livro, ele afirmou que os mitos dos índios jê e tupi-guarani sobre a origem do fogo eram construídos em torno da dupla oposição entre cru e cozido, por um lado, e fresco e podre, do outro. “O eixo que une o cru e o cozido é característico da cultura, o que une o fresco e o podre, da natureza, já que o cozimento realiza a transformação cultural do cru, assim como a putrefação é sua transformação natural”, escreveu Lévi-Strauss.

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora emérita da Universidade de Chicago e hoje aposentada pela USP, disse achar notável que a oposição entre cru e cozido já tivesse sido usada por vários povos para colocar a humanidade em posição exclusiva. “[O helenista francês] Jean-Pierre Vernant mostrou que os gregos antigos distinguiam fortemente os animais, que comiam cru, os deuses, que se alimentavam da fumaça do sacrifício, e, entre uma e outra categoria, os homens, que comiam assado ou cozido”, escreveu ela por e-mail. “A mitologia dos índios das baixas terras da América do Sul, que é o material usado por Lévi-Strauss no seu livro, também coloca um peso fundamental na aquisição do fogo de cozinha pela humanidade. A importância dada a essa distinção cru/cozido não é, portanto, invenção de Lévi-Strauss, e sim dos índios.”

Manuela chamou a atenção também para diferenças do lugar que o fogo ocupa em cada uma dessas narrativas. “Entre os gregos, como entre os índios, a obtenção do fogo resulta de um roubo, não de uma invenção própria. Mas Prometeu rouba o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, enquanto os índios (que, por sinal, não tinham deuses) roubam de bichos como a onça ou o urubu. Ou seja, as diferentes histórias da origem do fogo põem em evidência a proximidade de homens e deuses na Grécia antiga, a humanidade dos animais para os índios e a animalidade dos humanos para a nossa ciência.”

 

Em 2006, a rede de televisão britânica BBC promoveu o Evo Diet Experiment, uma espécie de reality show da alimentação primata. Durante doze dias, nove voluntários com pressão alta e colesterol acima da média foram reunidos num abrigo de um zoológico inglês. Passavam o dia ingerindo praticamente só alimentos crus, sob observação médica. Comiam frutas, verduras, legumes, sementes, nozes e mel (na segunda semana tiveram direito a peixe cozido). O objetivo era entender se, alimentando-se majoritariamente de vegetais crus, como nossos parentes mais próximos, os participantes conseguiriam melhorar seus indicadores de saúde. A meta foi cumprida com louvor: a pressão dos voluntários voltou ao normal, e os índices de colesterol caíram 23% em média. Mas o experimento teve também um efeito colateral que não havia sido previsto pelos nutricionistas: os participantes perderam, em média, 4,4 quilos nos doze dias do experimento.

Em todo o mundo, existem adeptos de uma dieta restrita a alimentos crus – os crudívoros. Em favor da sua opção, geralmente associada a outros hábitos que visam tornar a vida mais saudável, eles alegam que a comida crua contém enzimas que auxiliam a digestão e que o cozimento diminui o valor nutritivo dos alimentos e gera compostos nocivos à saúde. Um estudo alemão de 1999 que acompanhou 513 crudívoros constatou que a maioria perdeu muito peso ao longo de vários anos (9,9 quilos para os homens e 12 quilos para as mulheres, em média). E concluiu que “uma dieta estrita de alimentos crus não pode garantir um suprimento adequado de energia”.

No mesmo dia em que a PNAS publicou seu estudo sobre a dieta cozida, Suzana Herculano-Houzel começou a receber manifestações de crudívoros contestando suas conclusões. Bem-humorada, lembrou-se das mensagens raivosas, enquanto traçava um prato de salada num restaurante a quilo no campus da UFRJ. “Eles dizem que têm a dieta dos nossos ancestrais, mas na verdade se alimentam como aqueles que não sobreviveram”, ironizou. “É fácil ser crudívoro na era da geladeira e do supermercado. Queria vê-los irem para a beira da água disputar peixe com ursos e outros carnívoros. Não iam durar muito.”

Numa semana em que Suzana estava em um congresso no México, os alunos cuidavam da contagem das células do bulbo do elefante, a região entre a medula e o resto do cérebro. O trabalho estava sendo coordenado por Kleber Neves de Almeida Junior, um rapaz magro de 22 anos, que usa barba e tem cabelos pretos cacheados. Aluno do sexto período de biomedicina, Kleber é estagiário do Naco há dois anos e meio e recebe uma bolsa de iniciação científica de 400 reais por mês.

Como se manejasse um grande pilão de vidro, Kleber estava friccionando pedacinhos miúdos do bulbo contra a parede do tubo comprido, para dissolver suas células no líquido que ia ganhando uma aparência leitosa. O estudante explicou que a contagem só será precisa se a solução estiver bem homogênea – por isso ele ficou mais de vinte minutos amassando o bulbo com o bastão. Ao final da manhã, consultando os dados que ele anotara num caderno de capa preta, Kleber fez uma estimativa: “Esse bulbo tem cerca de 150 milhões de neurônios.”

O trabalho de contagem caminha lentamente. Os pesquisadores trabalham com um pequeno pedaço de até 3 gramas de cada vez. Numa semana produtiva, analisam até 100 gramas de tecido cerebral – peso aproximado de cada grande fatia cortada por Suzana. Nesse ritmo, ela estima que o trabalho esteja concluído até abril ou maio. Depois disso, será preciso sistematizar os resultados num artigo a ser submetido a uma revista especializada.

A contagem das células do cérebro de elefante é o prato principal do cardápio acadêmico do grupo para este ano. Pela primeira vez, o método está sendo usado para examinar um cérebro maior que o humano. O resultado permitirá pôr à prova a hipótese de Suzana. “O elefante e as maiores baleias são a checagem que precisamos fazer para testar se, de fato, é o número de neurônios que torna o cérebro humano mais capaz que os outros.” Os resultados preliminares parecem confirmar sua aposta. Suzana disse que a densidade de células do cérebro do elefante é “baixíssima”, e que o número total de neurônios não deve passar de 30 bilhões.

 

A cientista Molly Crockett, do University College, em Londres, estuda a contrapartida fisiológica do altruísmo e da moralidade no cérebro humano. Numa palestra divulgada em dezembro na internet, ela criticou a tendência – comum nos textos de neurociência para o público leigo – de oferecer explicações simplistas para comportamentos complexos. Ensinou a plateia a detectar o que chamou de “neurotolices” e criticou a proliferação de “neurobebidas” e outros produtos que recorriam à ciência para se promover. Citou um estudo segundo o qual um mesmo artigo científico era julgado mais confiável quando ilustrado por uma imagem de cérebro. “Quer vender algo?”, questionou. “É só colocar um cérebro.”

A intervenção de Molly Crockett fez eco a um artigo de opinião publicado dias antes no New York Times, com o título “Neurociência: sob ataque”. Nele, a jornalista Alissa Quart citou o aumento das críticas às reportagens que recorrem à química cerebral para explicar fenômenos que vão da orientação política ao desempenho profissional. Ela situou esse quadro no âmbito de “uma tendência cultural mais ampla, em que as explicações neurocientíficas eclipsam as interpretações históricas, políticas, econômicas, literárias e jornalísticas da experiência”. Mais adiante, acrescentou: “A neurociência veio se juntar a outras visões de mundo totalizadoras – marxismo, freudismo, teoria crítica – que foram vítimas de uso abusivo e aplicações equivocadas.”

Para o antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, pesquisador do Museu Nacional da UFRJ, o risco de incorrer em reducionismos ronda a neurociência quando ela passa a ser usada como ferramenta para explicar um número crescente de fenômenos. “A cultura ocidental moderna, com a sua ciência, é muito naturalista e tende a ser facilmente redutora, ou seja, a explicar todos os fenômenos pela matéria, pela fisicalidade”, argumentou. Duarte disse não ver problemas na conclusão do estudo de Karina Fonseca-Azevedo e Suzana Herculano-Houzel. “É perfeitamente plausível imaginar que o cozimento de alimentos tenha sido um dos fatores da evolução humana”, afirmou. Mas chamou a atenção para as condições em que foi tomada essa decisão complexa: “É de se supor que, tanto no controle do fogo quanto em seu uso para o cozimento sistemático dos alimentos, já interviesse alguma coisa da ordem do que entendemos como cultura, que permitisse aos seres humanos desse período que fizessem escolhas dentro do seu campo de possibilidades.”

Na semana seguinte à publicação do artigo de Alissa Quart, perguntei a Suzana Herculano-Houzel como lhe pareciam as críticas feitas à sua disciplina. Enquanto fracionava um pedaço do hipocampo do elefante para contar suas células, ela se lançou num longo raciocínio sobre os limites do conhecimento científico. Disse que a neurociência é capaz de descrever de maneira satisfatória o funcionamento de determinadas regiões cerebrais, mas que não se sai tão bem para explicar funções cognitivas que dependem da atividade coordenada do cérebro, como a antecipação do futuro ou a emergência da consciência. “Não compreendemos como funciona tudo junto”, resumiu. Suzana afirmou ainda que a neurociência não tem a pretensão de dizer que não há nada além do que ela é capaz de estudar. “Em todo caso, para quem tem a convicção de que é mais do que um punhado de matéria, qualquer explicação biológica do nosso comportamento pode soar ofensiva, sim.”

 

Suzana Herculano-Houzel é conhecida pelas atividades de divulgação científica que realiza desde 1999. Com O Cérebro Nosso de Cada Dia, o primeiro de seis livros para o grande público, ela inaugurou um estilo marcado por textos curtos que recorrem à linguagem coloquial para explorar conceitos por trás de fatos corriqueiros. O filão da neurociência pop continuou a ser explorado por ela em um quadro que fez no Fantástico e nas colunas que escreve para a Folha de S.Paulo e para a revista Mente & Cérebro.

Entre seus pares, Suzana é mais lembrada pelo método de contagem de neurônios que desenvolveu. À medida que seu trabalho ganhou visibilidade, colegas de outros países começaram a adotar o procedimento. Pelas contas da brasileira, cerca de dez laboratórios estão atualmente trabalhando com a técnica.

O neurocientista Jon Kaas, professor da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, foi um dos primeiros a usar a ferramenta de pesquisa. Em parceria com Suzana, publicou trabalhos sobre o cérebro de várias espécies de primatas. “Com esse método criativo e absolutamente novo, Suzana achou um jeito de conseguir responder a perguntas que há muito estavam sem resposta para a neurociência”, disse ele, numa conversa recente por telefone. Mas Kaas acrescentou que não considerava o método a principal contribuição da pesquisadora: “Seu maior feito é conseguir pegar esse tipo de resultado e interpretá-lo de um modo que tinha escapado completamente a outras pessoas.”

O Naco tem atraído jovens cientistas estrangeiros no início de carreira. É o caso de Sandra dos Santos, uma franco-portuguesa de 30 anos que escolheu vir para uma temporada de um ano no Rio sob a supervisão de Suzana depois de concluir o doutorado no Museu de História Natural de Paris e um pós-doutorado no Instituto Scripps, na Califórnia. Na UFRJ, Sandra está estudando o cérebro e o sistema nervoso do polvo, que tem a reputação de ser um dos animais invertebrados mais inteligentes.

No fim de 2012, o laboratório contou com outro pós-doutorando estrangeiro – Seweryn Olkowicz, um polonês de 34 anos que passou uma temporada de dois meses no Naco. Veio da República Tcheca, onde estuda o sistema nervoso de corvos, gralhas e outros pássaros de conhecidas habilidades cognitivas. Na bagagem, trouxe uma pequena caixa de isopor com sua coleção de 28 cérebros de aves, cujas células ele contaria depois de aprender a usar o método. “Ainda é cedo para dizer, mas parece que esses pássaros têm ao menos tantos neurônios quanto os mamíferos com um cérebro do mesmo peso”, adiantou.

 

Na última sexta-feira de novembro, o grupo de pesquisa se reuniu no Naco, na hora do almoço, para um seminário de pesquisa. Nesses encontros, a equipe discute trabalhos recentes de outros cientistas e do próprio grupo. Naquele dia, Karina Fonseca-Azevedo apresentou os resultados do artigo recém-publicado na PNAS sobre a dieta cozida. Falou e ouviu perguntas em inglês, como faria num congresso internacional.

O primeiro slide projetado pela pesquisadora mostrava uma foto dela própria comendo uma maçã, ao lado da imagem de um gorila saboreando uma cenoura. Karina contou que, animada com o estudo, fez a experiência malfadada de comer apenas alimentos crus. Resistiu por pouco mais de um mês. Largou a toalha alguns quilos mais magra, ávida para voltar a comer purê de batata. “Eu levava uma hora para mastigar uma cenoura. Não temos mandíbula para isso.”

Karina projetou um gráfico que relacionava o número de neurônios, o tempo gasto com a alimentação e o peso dos primatas. Mostrou que um animal com 30 bilhões de neurônios, como o gorila, não teria como sustentar um corpo com mais de 300 quilos, mesmo que se alimentasse durante dez horas por dia – acima do limite considerado viável.

Na hora do debate, Seweryn Olkowicz mencionou um achado paleontológico que contradizia a conclusão do trabalho. Fósseis encontrados no Sudeste Asiático haviam sido atribuídos a uma espécie extinta de primata que teria chegado a meia tonelada alimentando-se de bambu. A hipótese foi recebida com incredulidade, sobretudo depois de o polonês acrescentar que tudo o que se conhecia dessa espécie era uma mandíbula. “Se estivermos certos”, argumentou Suzana, “não existe a possibilidade de que tenha existido um primata de 500 quilos.” O pós-doutorando Bruno Mota emendou em tom gaiato: “A menos que ele vivesse próximo de um McDonald’s.”

Bruno é um físico mineiro de 35 anos que ficou amigo de Suzana quando estava terminando seu doutorado em cosmologia. Animado com a linha de pesquisa da neurocientista, foi trabalhar em seu laboratório depois de defender a tese. Está vinculado ao Naco desde 2009. Recorrendo às ferramentas da física teórica, ajuda o grupo a construir modelos matemáticos e formular equações que descrevem as variações de números de neurônios nas diferentes espécies estudadas.

O físico é também o cozinheiro oficial do Naco. Os colegas o elogiam invariavelmente por suas habilidades na cozinha. Bruno encarregou-se de preparar o almoço de fim de ano do grupo, realizado no apartamento em que vive, no bairro de Laranjeiras. No Facebook, o físico publicou uma foto da mesa posta e descreveu o cardápio no sentido horário: “Salada verde com nozes, queijo de cabra, polpa de figo e vinagre balsâmico; cogumelos Paris recheados com creme de aspargo e mozarela; cuscuz marroquino; barriga de porco ao molho vermelho (o prato favorito de Mao); arroz branco japonês; msakhana [um prato palestino bem temperado feito de camadas alternadas de pão, cebola e frango]; tomates-cereja assados servidos em folhas de endívias salpicadas com redução balsâmica; pato assado pincelado com xarope de bordo e recheado com arroz selvagem, alho-poró, amêndoas caramelizadas e shitake.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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