vultos da República

O delator

Delcídio do Amaral fala sobre os tempos de poder, os meses na prisão e a ruptura com Dilma, Lula e o PT

Malu Gaspar
Após as eleições, Delcídio se reuniu com Dilma e Mercadante: “Expliquei que a Lava Jato ia chegar no governo. Era preciso soltar algumas pessoas, acabar com alguns inquéritos. Se fosse o Fernando Henrique, quando prenderam o Paulo Roberto acabava a investigação. Nisso os tucanos são bons.”
Após as eleições, Delcídio se reuniu com Dilma e Mercadante: “Expliquei que a Lava Jato ia chegar no governo. Era preciso soltar algumas pessoas, acabar com alguns inquéritos. Se fosse o Fernando Henrique, quando prenderam o Paulo Roberto acabava a investigação. Nisso os tucanos são bons.” FOTO: EGBERTO NOGUEIRA/ÍMÃ_FOTOGALERIA_2016

“Vamos abrir os trabalhos”, disse Delcídio do Amaral enquanto se servia de três pedras de gelo e uma dose generosa de Johnnie Walker Red Label. Passava um pouco das cinco da tarde do dia 17 de abril. Depois de três horas de discursos, ia começar a votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Delcídio acompanharia a sessão acomodado no local em que mais ficava desde que saíra da prisão, dois meses antes: uma saleta vermelha que o dono da casa, seu irmão, um executivo de multinacional aficionado por rock’n’roll e motos Harley-Davidson, transformara em pub. O senador sentou no sofá, cruzou as pernas e estendeu os braços ao longo do encosto. À sua frente, sobre uma mesinha redonda coberta por uma bandeira dos estados confederados americanos, salgadinhos, refrigerante e água. Usava camisa de linho lilás para fora da calça, jeans claro e sapato social. Alguns poucos parentes assistiriam com ele à transmissão pela tevê – entre eles a mãe, Rosely, e o irmão, José Ramon, o núcleo duro da família Amaral. Haviam se reunido para dar apoio ao membro mais ilustre do clã.

Na tela, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, explicava aos deputados a dinâmica da votação. Delcídio mantinha a postura aparentemente relaxada, mas seu semblante estava tenso. Por vezes o olhar ficava estático, grudado na tevê, mas ele não parecia prestar atenção. Talvez fosse cansaço, visível pelas olheiras profundas. Mas também podia ser incredulidade. Nos últimos anos, o senador eleito pelo Partido dos Trabalhadores de Mato Grosso do Sul havia se transformado em peça fundamental do governo. Presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, por duas vezes comandou a Comissão de Assuntos Econômicos, abafou escândalos e negociou projetos importantes – e, no decorrer do processo, tornou-se homem de confiança de Lula e Dilma. Em 2015, escolhido como líder do governo no Senado, era chamado quase diariamente ao Palácio do Planalto para deliberar com a presidente e seus principais ministros.

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Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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