Os anos 90 foram uma época detestável. Alguns não aguentaram e enlouqueceram, os hospitais psiquiátricos ficaram abarrotados. Tiroteio na rua, gente presa, gente arruinada. Por outro lado, era uma viagem: tudo acontecia bem na sua frente...
Ver dados da foto Os anos 90 foram uma época detestável. Alguns não aguentaram e enlouqueceram, os hospitais psiquiátricos ficaram abarrotados. Tiroteio na rua, gente presa, gente arruinada. Por outro lado, era uma viagem: tudo acontecia bem na sua frente... FOTO: MARTIN PARR_MAGNUM PHOTOS/LATINSTOCK

O fim do homem soviético

Relatos de morte e vida depois do comunismo
Svetlana Aleksiévitch
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Os anos 90 foram uma época detestável. Alguns não aguentaram e enlouqueceram, os hospitais psiquiátricos ficaram abarrotados. Tiroteio na rua, gente presa, gente arruinada. Por outro lado, era uma viagem: tudo acontecia bem na sua frente... FOTO: MARTIN PARR_MAGNUM PHOTOS/LATINSTOCK

OBSERVAÇÕES DE UMA CÚMPLICE

Nós nos despedimos da época soviética. Daquela nossa antiga vida. Venho tentando ouvir com franqueza todos os participantes do drama socialista.

O comunismo tinha um plano insano: refazer o “velho homem”, o antigo Adão. E conseguiu… Talvez tenha sido a única coisa que conseguiram fazer. Depois de setenta e tantos anos, no laboratório do marxismo‑leninismo, cultivaram uma espécie peculiar, o homo sovieticus. Uns o consideram um personagem trágico, outros o chamam de sovok.[1]

Tenho impressão de que conheço essa pessoa muito bem, estou junto dela, vivi ao lado dela por muitos anos. Ela sou eu. São meus conhecidos, meus amigos, meus pais. Durante anos, viajei por toda a antiga União Soviética – porque o homo sovieticus não é apenas o russo, mas também o bielorrusso, o turcomeno, o ucraniano, o cazaque… Agora vivemos em países diferentes, falamos línguas diferentes, mas somos inconfundíveis. Dá para reconhecer de cara! Somos todos pessoas do socialismo, semelhantes e não semelhantes às demais: temos nosso vocabulário, nossa noção de bem e de mal, de heróis e de mártires. Temos uma relação particular com a morte. Nos relatos que colho são recorrentes palavras que ferem os ouvidos: “atirar”, “fuzilar”, “liquidar”, “passar em armas”, ou ainda as variantes soviéticas para desaparecimento, como “detenção”, “dez anos sem direito a correspondência”, “emigração”. Quanto pode valer a vida se nos lembrarmos de que há pouco tempo milhões morreram? Estamos cheios de ódio e preconceitos. Tudo vem de lá, de onde havia o gulag[2] e a terrível guerra. A coletivização, a expropriação dos kulaks,[3] a migração dos povos…

Isso era o socialismo, e era essa a nossa vida. Na época, pouco falávamos sobre ela. Agora que o mundo mudou irreversivelmente, todos passaram a se interessar por aquela vida – não importa como ela era, era a nossa vida. Eu escrevo, procuro nos grãozinhos e nas migalhas a história do socialismo “doméstico”, do socialismo “interior”. De como ele vivia na alma. Sempre senti atração por esse pequeno espaço: o ser humano… Um ser humano. Na verdade, é lá que tudo acontece.

 

Por que no livro há tantos relatos de suicídios, e não de pessoas soviéticas normais, com biografias soviéticas normais? No final das contas, as pessoas se matam por amor, por medo da velhice, ou sem muito motivo, por curiosidade, para decifrar o segredo da morte… Busquei aquelas pessoas que se apegaram com todas as forças ao ideal, absorveram esse ideal de tal forma que não podiam se desprender dele: o Estado tornou‑se seu universo, substituiu tudo nelas, até a própria vida. Elas não conseguiram abandonar a Grande História, dar adeus a ela, ser felizes de outra maneira. Mergulhar, perder‑se numa existência à parte, como acontece hoje em dia, quando o pequeno se tornou grande. O ser humano quer apenas viver, sem um grande ideal – coisa que nunca aconteceu na vida russa, tampouco na literatura russa. Somos um povo bélico. Ou guerreávamos ou nos preparávamos para a guerra. Nunca vivemos de outra maneira. Daí decorre uma psicologia bélica. Mesmo durante a paz, tudo na vida era próprio da guerra. O tambor batia, a bandeira esvoaçava, o coração saltava do peito… A pessoa não percebia sua escravidão, até amava essa escravidão. Eu também me lembro: depois da escola, a classe inteira se organizava para desbravar terras virgens, desprezávamos os que se recusavam a ir, chorávamos e lamentávamos que a revolução, a guerra civil, tudo tivesse acontecido antes de nós. Ao olhar para trás, será que éramos nós mesmos? Era mesmo eu? Lembrava-me de mim junto a meus heróis. Um deles disse: “Só um soviético pode entender um soviético.” Éramos pessoas com uma única memória comunista.

Meu pai lembrava que passara a acreditar no comunismo depois do voo de Gagárin. Nós fomos os primeiros! Nós podemos tudo! E foi assim que ele e a minha mãe nos educaram. Eu era uma outubrista, usava uma medalhinha com um menino de cabelo encaracolado; era uma pioneira, uma komsomolka.[4] A decepção veio depois.

Após a perestroika, todos esperavam a abertura dos arquivos. E eles foram abertos. Ficamos sabendo da história que tinham escondido de nós…

“Devemos arrastar conosco 90 milhões dos 100 que povoam a Rússia Soviética. Com os demais é impossível falar: é preciso destruí‑los.” (Zinóviev, 1918.)

“Enforcar (enforcar impreterivelmente, para que o povo veja) pelo menos mil kulaks inveterados, dos mais ricos… tomar‑lhes o pão, designar reféns… Fazer de tal forma que num raio de 100 verstas o povo veja e estremeça…” (Lênin, 1918.)

“Moscou está morrendo de fome.” (professor N.G. Kuznetsov a Trótski) “Isso não é fome. Quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias comeram seus filhos. Quando eu fizer as mães comerem os filhos, aí você pode me dizer: ‘Estamos morrendo de fome.’” (Trótski, 1919.)

As pessoas liam os jornais e as revistas e ficavam caladas. Um horror irremediável desabou sobre elas. Como viver com isso? Muitos encararam a verdade como a um inimigo. E a liberdade também. “Não conhecemos nosso país. Não sabemos como pensa a maioria das pessoas; nós as vemos, encontramos com elas todos os dias, mas o que elas pensam, o que querem, nós não sabemos. Mas precisamos tomar coragem para estudá‑las. Logo saberemos tudo. E ficaremos horrorizados”, disse um conhecido meu, com quem eu sempre conversava na cozinha de casa. Discuti com ele. Isso foi em 1991… Tempos felizes! Acreditávamos que no dia seguinte, exatamente no dia seguinte, começaria a liberdade. Começaria do nada, a partir dos nossos desejos.

Dos Contos de Kolimá de Varlam Chalámov: “Fui um participante da grande batalha perdida pela renovação real da vida.” Isso foi escrito por um homem que passou dezessete anos nos campos stalinistas. A nostalgia pelo ideal permaneceu… Eu dividiria os soviéticos em quatro gerações: a de Stálin, a de Khruschóv, a de Brêjniev e a de Gorbatchóv. Sou dessa última. Para nós, foi mais fácil aceitar o colapso do ideal comunista, já que não tínhamos vivido a época em que o ideal era jovem, forte, com a magia daquele romantismo funesto e de esperanças utópicas ainda não dissipadas. Crescemos na época dos anciãos do Krémlin. Em tempos vegetarianos, de jejum. O grande sangue do comunismo já fora esquecido. O entusiasmo causou estragos, mas resguardou o conhecimento de que a utopia não pode se transformar em vida.

Na primeira guerra da Tchetchênia, conheci, numa estação de trem em Moscou, uma mulher que vinha dos arredores de Tambov. Estava indo para a Tchetchênia, buscar o filho da guerra: “Não quero que ele morra. Não quero que ele mate.” O Estado já não possuía a alma dela. Ela era uma mulher livre. Havia poucas pessoas assim. As que se irritavam com a liberdade eram mais numerosas: “Comprei três jornais, e em cada um tinha uma verdade. Onde é que está a verdade real? Antes você lia o Pravda[5] de manhã e ficava sabendo tudo. Entendia tudo.” Demoravam para sair dessa anestesia. Se eu começasse a falar de arrependimento, ouvia: “E vou me arrepender do quê?” Cada um se sentia vítima, mas não cúmplice. Um dizia “também fui preso”; outro, “lutei na guerra”; um terceiro, “ergui minha cidade dos escombros, carreguei tijolo dia e noite”. Isso era totalmente inesperado: todos estavam ébrios com a liberdade, mas não preparados para ela. Onde estava a liberdade? Só na cozinha, onde continuavam xingando o governo, como de costume. Xingavam Iéltsin e Gorbatchóv. Iéltsin por ter traído a Rússia. E Gorbatchóv? Gorbatchóv por ter traído tudo. Todo o século XX. Para nós, agora, será como é para os outros. Para todos. Pensávamos que dessa vez daria certo.

A Rússia mudou, e odiou a si mesma por ter mudado. “O mongol imóvel”, escreveu Karl Marx sobre a Rússia.

 

A civilização soviética… Tenho pressa de gravar seus rastros. Rostos conhecidos. Não pergunto sobre o socialismo, mas sobre amor, ciúme, infância, velhice. Sobre música, danças, penteados. Sobre os milhares de detalhes de uma vida que vai desaparecendo. Essa é a única maneira de enquadrar a catástrofe no contorno do cotidiano e tentar contar alguma coisa. Compreender alguma coisa. Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.

Já perdi meu pai. E não posso mais concluir uma das conversas que tivemos. Ele disse que morrer na guerra era mais fácil para seus contemporâneos do que para aqueles meninos inexperientes que estavam morrendo na Tchetchênia. Nos anos 40, eles saíram de um inferno para outro. Antes da guerra, meu pai estudava em Minsk, no Instituto de Jornalismo. Ele lembrava que, quando voltavam das férias, era comum não encontrar um professor conhecido sequer, todos tinham sido presos. Eles não entendiam o que estava acontecendo, mas sentiam medo. Sentiam medo, como na guerra.

Meu pai e eu tínhamos poucas conversas francas. Ele tinha pena de mim. E eu, eu tinha pena dele? Não sei responder. Éramos implacáveis com nossos pais. Achávamos que a liberdade era uma coisa muito simples. Não passou muito tempo, e nós nos curvamos sob o seu fardo, porque ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Só nos ensinaram a morrer por ela.

Aí está ela, a liberdade! Foi por ela que esperamos? Estávamos dispostos a morrer por nossos ideais. Travar uma luta. Mas então começou uma vida “tchekhoviana”. Sem história. Ruíram todos os valores, exceto os valores da vida. Da vida em geral. Novos sonhos: construir uma casa, comprar um bom carro, plantar uma groselheira… A liberdade acabou sendo a reabilitação da pequena burguesia, geralmente espezinhada na vida russa. A liberdade de Sua Majestade, o Consumo. Da grandeza das trevas. Das trevas dos desejos, dos instintos, da vida secreta, de que só tínhamos uma vaga noção. Ao longo da história sobrevivemos, mas não vivemos. E agora aquela experiência de guerra já não era necessária, era preciso esquecê‑la. Milhares de novas emoções, de situações, de reações… Num átimo, tudo ficou diferente: placas, coisas, dinheiro, bandeira… E o próprio ser humano. Ele se tornou mais colorido, mais particular, o monólito voou pelos ares e a vida se dissipou em pequenas ilhas, em átomos, em células. Como se lê no Dal:[6] liberdade e vontade… vontade e espaço… liberdade e vastidão. O grande mal tornou‑se uma lenda distante, um romance político detetivesco. Ninguém falava mais do ideal, falavam de crédito, porcentagens, câmbio; não ganhavam mais dinheiro, agora “faziam”, “lucravam”. Será que por muito tempo? “A mentira do dinheiro na alma russa é inextirpável”, escreveu Tsvetáieva. Era como se os heróis de Ostróvski e de Saltykov‑Shchedrin[7] tivessem ganhado vida e flanassem pelas ruas.

Eu perguntava a todos com quem me encontrava: “O que é a liberdade?” Pais e filhos respondiam de maneiras diversas. Nascidos na União Soviética e nascidos depois da União Soviética são seres de planetas diferentes. Para os pais, liberdade é ausência do medo; são os três dias de agosto em que a tentativa de golpe foi vencida; é poder escolher entre 100 tipos de kolbassá[8] e não entre dez; é não ser chicoteado (embora não saibamos de geração que não tenha sido chicoteada); o russo não entende a liberdade, ele precisa do cossaco e do açoite. Para os filhos: liberdade é amor; liberdade interna é o valor absoluto; é não ter medo de seus desejos; ter muito dinheiro, porque então se terá tudo; conseguir viver de modo a não pensar na liberdade. Liberdade é o normal.

 

Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”

Viajávamos pela região de Smolensk. Em uma cidadezinha, paramos perto de um mercado. Que rostos familiares (eu mesma cresci em cidade pequena), que rostos bonitos e bons – e que vida humilhante e miserável ao redor. Começamos a falar da vida. “Você está perguntando de liberdade? É só passar no mercado: tem a vodca que você quiser, Standard, Gorbatchóv, Pútinka, kolbassá aos montes, queijo, peixe. Tem banana. Quem precisa de mais liberdade? Isso aqui é o bastante.”

“E terra, vocês receberam terra?”

“E quem é que vai dar duro nela? Quem quiser pode pegar. Aqui só um tal Vaska Krutoi pegou. Ele tem um filho de 8 anos, que fica puxando o arado do lado do pai. Se você for trabalhar com ele, enquanto ele não te roubar, não descansa. É um fascista!”

Em “A lenda do Grande Inquisidor”, de Dostoiévski, há um debate sobre a liberdade. Sobre sua trilha difícil, penosa, trágica… “Para que conhecer esse maldito bem e mal, quando isso custa tão caro?” O tempo todo o ser humano deve escolher: a liberdade ou o bem‑estar e a ordem na vida; a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a maioria das pessoas escolhe o segundo caminho.

O Grande Inquisidor diz a Cristo, que voltou à Terra:

Por que vieste para nos atormentar? Pois vieste para nos atormentar, e Tu mesmo o sabes. Por tanto respeitar o homem, agiste como se deixasses de ter piedade dele, porque exigiste demais… Respeitando‑o menos, menos exigirias dele, e isto seria mais próximo do amor, pois mais leve seria seu fardo. Ele é fraco e vil… Em que pode ser culpada uma alma fraca, que não tem forças para conter dádivas tão tremendas? Não há tarefa mais incessante e torturante para o homem do que, tendo se tornado livre, encontrar depressa alguém diante de quem possa curvar‑se… e a quem possa repassar depressa aquela mesma dádiva da liberdade com que essa criatura infeliz nasce…

Nos anos 90, sim, éramos felizes, mas já não podemos retornar àquela ingenuidade. Pensávamos que a escolha havia sido feita, que o comunismo perdera de maneira irreversível. Mas estava tudo apenas começando…

Vinte anos se passaram… “Não nos assustem com o socialismo”, dizem os filhos aos pais. Conversei com um conhecido meu, professor universitário:

No fim dos anos 90, os alunos riam quando eu relembrava a União Soviética; eles tinham certeza de que um novo futuro se abria diante deles. Agora o quadro é diferente… Os alunos já descobriram, já sentiram na pele o que é o capitalismo: desigualdade, pobreza, riqueza descarada; eles já viram bem de perto a vida dos pais, para quem não sobrou nada da pilhagem do país. E eles adotaram uma postura radical. Sonham com a própria revolução. Usam camisetas vermelhas com retratos de Lênin e Che Guevara.

 

Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de 19 a 30 anos considera Stálin “um grande político”. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! Tudo que é soviético voltou à moda. Por exemplo, os cafés “soviéticos”, com nomes soviéticos e comida soviética. Doces “soviéticos” e kolbassá “soviética”, com o cheiro e o gosto da nossa infância. E, claro, a vodca “soviética”. Na televisão, dezenas de programas, e na internet dezenas de sites de nostalgia “soviética”. Passeios turísticos a campos stalinistas – Solovkí, Magadan. O anúncio diz que, para uma sensação plena, distribuem macacão e picareta. Mostram os barracões restaurados. E no fim organizam uma pescaria…

Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da “mão de ferro”, do “caminho peculiar da Rússia”… Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, agora chamado Náchi,[9] existe o partido do poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder do secretário‑geral. Absoluto. Em vez do marxismo‑leninismo, a Igreja Ortodoxa…

Antes da Revolução de 1917, Aleksandr Grin escreveu: “E o futuro parece que deixou de estar em seu lugar.” Cem anos se passaram, e mais uma vez o futuro não está em seu lugar. Chegou a época do secondhand.

Barricadas são um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Lá, a visão fica prejudicada, as pupilas se fecham, o mundo perde as cores. O mundo se torna preto e branco. Já não se distingue um ser humano, vê-se apenas um ponto preto: um alvo. Passei a vida toda nas barricadas – gostaria de sair de lá. Aprender a ter alegria com a vida. Recuperar minha visão. Mas dezenas de milhares de pessoas saem de novo às ruas. De mãos dadas. Levam fitas brancas nos casacos. Um símbolo de renascimento. De luz. Eu também estou com eles.

Encontrei jovens vestindo camisetas com a foice e o martelo e o retrato de Lênin. Será que eles sabem o que é o comunismo?

 

IVAN-BOBINHO[10] E O PEIXINHO DOURADO

“Compreendi o quê? Que os heróis de uma época raramente são heróis em outra. Fora Ivan‑Bobinho. E Iemiélia. Amados heróis dos contos de fadas russos. Nossos contos de fadas falam da fortuna, daquele momento de sorte. Ter tudo sem precisar se mexer. Da esperança de uma ajuda miraculosa, de que tudo se resolva por conta própria. De que o fogão faça a comida sozinho, e o peixinho de ouro realize todos os nossos desejos. Quero isso e quero aquilo. Quero a Princesa Encantada! E quero morar em outro reino, com rios de leite ladeados de pudim. Somos sonhadores, é claro. A alma se esforça e sofre, mas as coisas andam pouco, já não há forças para isso. As coisas ficam paradas. A misteriosa alma russa… Todos tentam entendê‑la. Leem Dostoiévski… O que se têm além da alma? Nós, além da alma, só temos mais alma. Adoramos conversar na cozinha, ler um livro. Nossa principal ocupação é ler. Assistir. E assim nos sentimos singulares, únicos, embora não haja base nenhuma para tal, fora petróleo e gás. Por um lado, isso atrapalha a mudança de vida, mas por outro talvez dê a sensação de certo sentido. Sempre fica no ar que a Rússia deve criar, mostrar ao mundo algo fora do comum. O povo escolhido. O peculiar caminho russo. Temos um monte de Oblómovs[11] deitados no sofá, esperando por um milagre. Mas não temos Stolz. Desprezamos os Stolz, ativos e ágeis, por terem derrubado o bosque de bétulas tão querido, o jardinzinho das cerejeiras. Lá vão construir suas fabriquetas, fazer dinheiro. Os Stolz nos são estranhos…

A cozinha russa… A pequena e miserável cozinha da khruschoba,[12] com um banheiro atrás de uma parede fininha. Planejamento soviético. Na janela, cebola numa latinha usada de maionese, um vasinho com um aloé para combater resfriado. A cozinha para nós não é apenas um lugar onde se preparam as refeições – é também sala de jantar, sala de estar, escritório, tribuna. Um lugar para sessões coletivas de psicoterapia. No século XIX, toda a cultura russa vivia em propriedades senhoriais, mas no século XX ela passou para as cozinhas. E a perestroika também. Toda a vida ‘sessentista’ foi a vida ‘da cozinha’. Obrigado, Khruschóv! Foi na época dele que saímos dos apartamentos comunais, conseguimos cozinhas privadas, onde se podia xingar o governo, e ainda por cima sem ter medo, porque na cozinha era só gente da família. Lá nasciam as ideias, os projetos fantásticos. Contávamos piadas… As piadas floresceram! Um comunista é aquele que leu Marx, e um anticomunista é aquele que entendeu. Crescemos nas cozinhas, e nossos filhos também, eles ouviam Gálitch e Okudjava conosco. Tocavam Vyssótski.[13] Captavam a BBC. Falávamos sobre tudo: sobre como as coisas estavam uma merda, mas também sobre o sentido da vida, a felicidade para todos. Eu me lembro de um caso engraçado… Certa vez ficamos conversando até depois da meia‑noite, e nossa filha, que tinha 12 anos, pegou no sono ali mesmo, no sofazinho. E nós estávamos discutindo alguma coisa em voz alta. E ela meio dormindo deu um berro: ‘Chega de falar de política! De novo Sákharov[14]… Soljenítsin… Stálin…’ (Risos.)

Chás infinitos. Café. Uma vodcazinha. Mas nos anos 70 bebíamos rum cubano. Todos apaixonados por Fidel Castro! Pela Revolução Cubana! Che Guevara com sua boina. Um bonitão hollywoodiano! Papos infinitos. Medo de que pudessem nos ouvir, com certeza nos ouviriam. No meio da conversa alguém sempre olhava rindo para o lustre ou para a tomada: ‘O senhor está ouvindo, camarada major?’ Pelo risco… Pelo jogo… Tínhamos até certa satisfação com essa vida dupla. Um número insignificante de pessoas se opunha abertamente, mas tínhamos muito mais ‘dissidentes de cozinha’. Falando mal pelas costas…”

 

“Agora dá vergonha ser pobre, não fazer esporte… É não ser bem‑sucedido, resumindo. Só que sou da geração dos zeladores e dos guardas. Havia esse modo de emigração interna. Você vive e não percebe o que está em volta, como uma paisagem numa janela. Minha mulher e eu cursamos a faculdade de filosofia da Universidade de São Petersburgo (na época, de Leningrado); ela virou zeladora, e eu, fornalheiro numa sala de caldeiras. Você trabalhava um dia inteiro, dois, e depois ficava em casa. Um engenheiro naquela época recebia 130 rublos, e eu, na sala de caldeiras, 90; ou seja, você aceitava perder 40 rublos, mas em compensação recebia liberdade absoluta. Nós líamos, líamos muito. Conversávamos. Pensávamos estar produzindo ideias. Sonhávamos com a revolução, mas tínhamos medo de não chegar a vê‑la. De um modo geral levávamos uma vida bem fechada, não sabíamos o que acontecia no mundo. Éramos ‘plantas de apartamento’. Inventamos tudo, como depois ficou claro, fantasiamos tudo: o Ocidente, o capitalismo, o povo russo. Vivíamos com miragens. Essa Rússia que estava nos livros e nas nossas cozinhas nunca existiu. Só na nossa cabeça.

Com a perestroika tudo acabou… O capitalismo veio com tudo… Noventa rublos viraram 10 dólares. Não dava para viver com aquilo. Saímos da cozinha e fomos para a rua, e ali ficou claro que não tínhamos ideias, só tínhamos ficado sentados, conversando o tempo todo. De algum lugar, surgiram pessoas completamente diferentes: jovens com casacos roxos e anéis dourados. E com novas regras do jogo: se você tem dinheiro, é um ser humano; se não tem, não é ninguém. E daí se você leu Hegel? ‘Pessoa de humanas’ soava como um diagnóstico. Tudo que eles sabem é ficar segurando um livrinho de poesia de Mandelstam, eles dizem. Descobriram muita coisa que não se sabia. Os intelectuais ficaram absurdamente empobrecidos. No parque ao lado de casa, nos fins de semana os Hare Krishna cozinhavam a céu aberto e distribuíam sopa e alguma coisinha bem simples para complementar. Aparecia uma fila tão grande de velhinhos arrumadinhos que dava um nó na garganta. Alguns escondiam o rosto. Naquela época, nós já tínhamos dois filhos pequenos. Passamos fome, fome mesmo. Minha mulher e eu começamos a trabalhar com vendas. Comprávamos na fábrica de sorvete de quatro a seis caixas e íamos para a feira, onde havia muita gente. Não tinha nenhuma geladeira, depois de algumas horas o sorvete já estava derretido. Aí distribuíamos para os meninos que estavam passando fome. Que alegria! Minha mulher vendia, e eu ficava levando e trazendo as coisas – estava disposto a fazer qualquer coisa, menos vender. Por muito tempo me senti desconfortável.

Antes eu me lembrava sempre da nossa ‘vida de cozinha’… Que amor aquele! Que mulheres! Aquelas mulheres desprezavam os ricos. Não dava para comprá‑las. Mas agora ninguém tem tempo para os sentimentos, todos querem ganhar dinheiro. A descoberta do dinheiro é como a explosão de uma bomba atômica…”

 

AS COISAS SE EQUIPARARAM ÀS IDEIAS E ÀS PALAVRAS

“O mundo se desfez em inúmeros pedacinhos coloridos. Como queríamos que a monotonia cinza soviética logo se transformasse em imagens do cinema americano! Já eram poucos os que se lembravam de que um dia fomos à Casa Branca…[15] Aqueles três dias abalaram o mundo, mas não nos abalaram… Duas mil pessoas protestando, e as demais passavam por elas e as olhavam como se fossem idiotas. Bebeu‑se muito, e sempre se bebe muito em nosso país, mas naquela época em particular bebeu‑se mais ainda. A sociedade ficou paralisada: para onde estamos indo? Teremos capitalismo ou teremos um socialismo bom? Os capitalistas são gordos, são horríveis: foi isso que nos enfiaram na cabeça na infância… (Risos.)

O país se entupiu de bancos e comércio de rua. Surgiram mercadorias muito diferentes. Não mais botas grosseiras e vestidos de velhinha, mas coisas com que nós sempre tínhamos sonhado: jeans, casacos forrados, lingerie e louça de qualidade… Tudo colorido, bonito. As coisas soviéticas eram cinza, ascéticas, pareciam artefatos de guerra. As bibliotecas e os teatros ficaram vazios. Foram substituídos por feiras e lojas. Todos queriam a felicidade, e agora mesmo. Como crianças, descobriam um novo mundo… Não desmaiavam mais nos supermercados… Um rapaz que eu conhecia começou um negócio. Ele me contou que na primeira vez trouxe mil latas de café-solúvel: levaram tudo em uns dois dias. Comprou 100 aspiradores de pó: também limparam tudo na mesma hora. Casacos, blusas, todo tipo de coisa: passe para cá! Todo mundo trocou de roupa, de sapato. Substituíram os eletrodomésticos e os móveis. Reformaram as datchas… Quiseram construir cercas e telhados bonitinhos… Às vezes eu e meus amigos começamos a relembrar e quase morremos de rir… Que maluquice! As pessoas estavam completamente empobrecidas. Precisávamos aprender tudo… Na época soviética, era permitido ter muitos livros, mas não um carro caro e uma casa. E nós aprendemos a nos vestir bem, a cozinhar coisas saborosas, beber suco e tomar iogurte de manhã… Até então eu desprezava o dinheiro, nem sabia o que era isso. Em nossa família, ninguém podia falar de dinheiro. Era vergonhoso. Crescemos num país em que o dinheiro não existia, pode‑se dizer. Eu recebia meus 120 rublos como todo mundo, e era o bastante. O dinheiro veio com a perestroika. Com o primeiro-ministro Gaidar. Dinheiro de verdade. No lugar de ‘O nosso futuro é o comunismo’, faixas de ‘Compre! Compre!’ por todos os lados. Se quiser viajar, viaje. Você pode ir a Paris… Ou à Espanha… Uma fiesta… Uma tourada… Eu tinha lido sobre isso em Hemingway, li e achei que nunca veria aquilo. Os livros tomavam o lugar da vida… E então terminaram nossas vigílias noturnas na cozinha e começaram os salários fixos, os ganhos extras. Dinheiro virou sinônimo de liberdade. Isso mexeu com todo mundo. Os mais fortes e agressivos abriram um negócio. Esqueceram Lênin e Stálin. E assim nós nos salvamos de uma guerra civil, senão de novo teríamos ‘brancos’ e ‘vermelhos’. ‘Nós’ e ‘os outros’. Em vez de sangue, coisas… Vida! Escolhemos uma bela vida. Ninguém mais queria morrer bem, todos queriam viver bem. O fato de que não tinha pão para todo mundo é outra história…”

 

“Na época soviética a palavra tinha um status sagrado, mágico. E nas cozinhas os intelectuais ainda falavam de Pasternak, faziam sopa sem largar o Astáfiev e o Bíkov;[16] mas a vida não parava de provar que isso não importava mais. As palavras não significavam nada. Em 1991, internamos nossa mãe com uma pneumonia grave, e ela voltou como uma heroína, tinha falado pelos cotovelos no hospital. Falou de Stálin, do assassinato de Kírov, de Bukhárin… Os outros estavam dispostos a ouvi‑la dia e noite. As pessoas queriam que lhes abrissem os olhos. Recentemente, ela foi de novo parar no hospital, e ficou calada o tempo todo. Num intervalo de cinco anos a realidade já tinha modificado todos os papéis. A heroína da vez era a mulher de um figurão, um homem de negócios… Todos ficaram perplexos com as histórias dela… Morava numa casa de 300 metros quadrados! E quantos criados: cozinheira, babá, motorista, jardineiro… Ela e o marido iam passar as férias na Europa… Museus, tudo bem, mas as butiques… As butiques! Um anel de tantos quilates, e o outro… E pingentes, brincos de ouro… Sucesso total! Nem uma palavra sequer sobre o gulag ou qualquer coisa do tipo. Aconteceu e pronto. Por que ficar discutindo agora com os velhos?

Como de hábito, entrei num sebo, e lá repousavam calmamente na estante os 200 volumes da Mundial e da Biblioteca das Aventuras,[17] aquela mesma, laranja, com que eu tanto sonhara. Observei as lombadas, passei um bom tempo sentindo aquele cheiro. Eram montes de livros! Os intelectuais estavam vendendo suas bibliotecas. É claro que as pessoas tinham empobrecido, mas não era por isso que se desfaziam de seus livros, não era só para ganhar um trocado: os livros tinham sido uma decepção completa. Já não convinha perguntar: ‘E o que você está lendo agora?’ Muitas coisas tinham mudado na vida, mas isso não estava nos livros. Os romances russos não ensinam a ter sucesso na vida. Como ficar rico… Oblómov fica deitado no sofá, e os heróis de Tchékhov passam o tempo todo tomando chá e reclamando da vida… (Silêncio.) Que Deus não permita viver em época de mudanças, dizem os chineses. Entre nós, são poucos os que conseguiram se manter como eram antes. As pessoas decentes parecem ter sumido. Por todo lado eram cotovelos e dentes…”

 

“Eu não diria que os anos 90 foram bons. Foi uma época detestável. As mentes deram uma guinada de 180 graus… Alguns não aguentaram e enlouqueceram, os hospitais psiquiátricos ficaram abarrotados. Eu ia visitar um amigo num deles. Tinha um cara que gritava: ‘Sou Stálin! Sou Stálin!’ Outro: ‘Sou Berezóvski! Sou Berezóvski!’[18] Havia uma seção inteira de stálins e berezóvskis. Tiroteio na rua o tempo inteiro. Morreu um monte de gente. Todo dia tinha acerto de contas. Afanar. Tirar o seu. Um foi arruinado, um foi preso. Saiu do trono direto para a masmorra. Mas por outro lado era uma viagem: tudo acontecia bem na sua frente…

Nos bancos havia filas e filas de pessoas que queriam abrir um negócio: uma padaria, uma loja de eletrônicos… Eu também entrei nessa fila. E fiquei surpreso com a quantidade de gente, éramos muitos. Uma senhora com boina de crochê, um menino com agasalho esportivo, um homenzarrão forte com cara de presidiário… Ao longo de setenta e poucos anos nos ensinaram que a felicidade não está no dinheiro, que as melhores coisas da vida são de graça. O amor, por exemplo. Mas bastou alguém falar de uma tribuna ‘façam comércio, enriqueçam’, e tudo aquilo foi esquecido. Esqueceram todos os livrinhos soviéticos. Essas pessoas não eram nem um pouco parecidas com aquelas com quem eu passava o dia inteiro dedilhando no violão. A muito custo aprendi três acordes. A única coisa que unia essas pessoas à ‘turma da cozinha’ era que todos estavam cansados das bandeiras escarlate e de todo aquele falso brilho: reuniões do Komsomol, aulas de educação política… O socialismo pensava que as pessoas fossem meio bobinhas…

Eu sei muito bem o que é um sonho. Passei a infância pedindo uma bicicleta, e não tive. Nossa vida era pobre. Na escola eu contrabandeava jeans, na faculdade, uniformes militares soviéticos junto com diversos símbolos. Os estrangeiros compravam. Era um contrabando comum. Na época soviética, isso dava cadeia de três a cinco anos. Meu pai corria atrás de mim com um cinto, gritando: ‘Seu agiota! Eu dei meu sangue na defesa de Moscou, mas acabei criando um merdinha que nem você!’ Ontem era crime, hoje é um negócio. Em um lugar eu comprava pregos, no outro comprava solas de sapato; embrulhava e vendia como um produto novo.

Trazia o dinheiro para casa. Comprei de tudo, enchi a geladeira. Meus pais ficaram esperando que me prendessem. (Gargalhadas.) Eu vendia eletrodomésticos. Panelas de pressão, panelas de vapor… Trouxe de carro da Alemanha um reboque cheio dessas coisas. E vendi tudo… No meu escritório tinha uma caixinha debaixo do computador, cheia de dinheiro, só assim eu entendia que aquilo era dinheiro. Eu tirava daquela caixinha, tirava e tirava, mas nunca acabava. Parecia que eu já tinha comprado tudo: carro, apartamento… Rolex… Lembro daquela euforia… Dava pra realizar todos os desejos, as fantasias secretas. Descobri muito sobre mim mesmo: em primeiro lugar, que eu não tinha gosto, depois, que eu era complexado. Não conseguia me relacionar com o dinheiro. Não sabia que quando o dinheiro é muito ele precisa ficar em movimento, não pode ficar parado. O dinheiro é para o homem uma experiência como o poder, como o amor… Eu sonhava… E fui para Mônaco. Num cassino em Monte Carlo perdi uma quantia enorme de dinheiro, muito dinheiro. Perdi o controle… Eu tinha virado escravo da minha caixinha. Tem dinheiro lá ou não? Quanto tem? Tinha que ter mais e mais. Parei de me interessar por aquilo que me interessava antes. Política, passeatas… Sákharov morreu. Fui me despedir dele. Centenas de milhares de pessoas… Todos choraram, e eu também chorei. E aí recentemente li sobre ele num jornal: ‘Morreu o grande iuródivy[19] da Rússia.’ E então pensei que ele morreu na hora certa. Soljenítsin voltou da América, todos foram recebê‑lo. Mas ele não nos entendia, e nós não o entendíamos. Era um estrangeiro. Ele voltara para a Rússia, mas pela janela ele via Chicago.

 

O que seria de mim se não fosse a perestroika? Um especialista em tecnologia com salário miserável… (Risos.) Agora tenho minha clínica oftalmológica. Centenas de pessoas dependem de mim, bem como suas famílias, vovôs e vovós. Você fica se remoendo, refletindo, mas eu não tenho esse problema. Trabalho dia e noite. Comprei equipamentos novinhos, mandei meus cirurgiões para estagiar na França. Mas não sou um altruísta, ganho muito bem. Consegui tudo sozinho… Eu só tinha 300 dólares no bolso… Comecei um negócio com meus sócios, você cairia para trás se eles entrassem agora nesta sala. Uns gorilas! De olhar cruel! Agora não estão mais aqui, desapareceram, como dinossauros. Eu andava com colete à prova de bala, atiraram em mim. Se alguém estiver comendo pior do que eu, não estou nem aí. Todos vocês queriam que viesse o capitalismo. Sonharam! Agora não gritem que foram enganados…”

 

CRESCER ENTRE CARRASCOS E VÍTIMAS

“Saímos do cinema, era de noite. Um homem estava caído numa poça de sangue. Nas costas, em sua capa, um buraco de bala. Ao lado dele, um policial. Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta. Logo me acostumei. Nosso prédio era grande, eram vinte blocos. Todos as manhãs tinha um cadáver no pátio, e a gente nem se impressionava. O capitalismo de verdade tinha começado. Com sangue. Eu esperava que fosse ficar abalado, mas não. Depois de Stálin, passamos a ter outra relação com o sangue. Lembramos que era nosso povo matando nosso povo… E dos assassinatos em massa, de pessoas que nem sabiam por que estavam morrendo. Isso ficou, está presente em nossa vida. Crescemos em meio a carrascos e vítimas. Para nós é normal que eles vivam lado a lado. Sem limite entre estado de paz e guerra. É sempre guerra. Você liga a televisão, e todos estão falando como bandidos: políticos, homens de negócio, o presidente. Propinas, subornos, rateios… A vida humana não vale um tostão. Como na cadeia.

Por que nós não julgamos Stálin? Para julgar Stálin, teríamos que julgar nossos parentes, nossos conhecidos. As pessoas mais próximas. Vou contar da minha família… Meu pai foi preso em 1937; graças a Deus ele voltou, mas passou dez anos preso. Voltou e queria muito viver. Ele mesmo ficava surpreso com isso, de querer viver depois de tudo que tinha visto… Isso não acontecia com todos, nem de longe. Minha geração cresceu com pais que ou tinham voltado dos campos ou tinham voltado da guerra. Só sabiam falar de violência. De morte. Eles raramente riam, ficavam sempre calados. E bebiam… bebiam… No final das contas, morriam de tanto beber. Mas também havia aqueles que não tinham sido presos, mas que tinham medo de ser presos. E isso não foi um mês ou dois, durou anos, anos! E se o cara não fosse preso, se perguntava: Por que todo mundo foi preso, e eu não? O que foi que eu não fiz? Podiam te prender, mas também podiam te mandar para trabalhar para o NKVD…[20] O que o Partido pede é uma ordem. É uma escolha desagradável, mas muitos tinham que fazê‑la. Agora, os carrascos… Eram comuns, não eram assustadores. Quem denunciou meu pai foi nosso vizinho, tio Iura. Por uma bobagem, como dizia minha mãe. Eu tinha 7 anos. O tio Iura levava os filhinhos para pescar, me levava também, para andar a cavalo. Consertava nossa cerca. Entendeu? O retrato do carrasco é totalmente diferente: é uma pessoa comum, até mesmo boa. Prenderam meu pai e depois de alguns meses pegaram o irmão do meu pai. Na época do Iéltsin, vi o arquivo do inquérito, e tinha mais de uma denúncia, uma delas escrita pela tia Ólia, sobrinha dele. Uma mulher bonita, alegre… Cantava bem… Tia Ólia já estava velha, e eu perguntei: ‘Tia, me conte do ano de 1937…’ ‘Foi o ano mais feliz da minha vida. Eu estava apaixonada’, ela me respondeu… O irmão do meu pai não voltou para casa. Sumiu. Ninguém sabe se na prisão ou no campo. Foi difícil, mas mesmo assim fiz a pergunta que me atormentava: ‘Tia Ólia, por que você fez isso?’ ‘Onde é que já se viu uma pessoa honrada na época do Stálin?’ (Silêncio.) E tinha também o tio Pável, que serviu na Sibéria, nas tropas do NKVD… Sabe, não existe o mal quimicamente puro… Não foram só o Stálin e o Béria… Foi também o tio Iura, a bela tia Ólia…”

 

 

A SOLIDÃO É MUITO PARECIDA COM A FELICIDADE

Fui a São Petersburgo em busca de uma outra história, mas voltei com esta. Comecei a conversar com uma companheira de viagem no trem, a publicitária Alizza Z, de 35 anos…

“Uma amiga minha se matou… Era forte, bem‑sucedida, cheia de admiradores, muitos amigos. Ficamos todos em choque. O que é o suicídio? Uma covardia ou um ato de coragem? Um plano radical, um grito de ajuda ou uma imolação? Uma saída… uma armadilha… um suplício… Eu quero… Posso contar por que nunca farei isso…

Amor? Essa possibilidade eu nem discuto… Não sou contra esse sentimento radioso e sublime, mas você deve ser a primeira pessoa em dez anos que ouço pronunciar essa palavra. O século XXI é dinheiro, sexo e dois canos, e você vem falar de sentimentos… Todos saíram correndo atrás de dinheiro… Eu não tinha vontade de casar logo, ter filhos, sempre quis fazer uma carreira, isso ficava em primeiro lugar. Eu dou valor a mim mesma, ao meu tempo e à minha vida. E de onde é que você tirou que os homens procuram o amor? Amor… Os homens consideram a mulher uma presa, um troféu de guerra, uma vítima, e eles são os caçadores. Essas regras foram elaboradas durante séculos. E as mulheres procuram um príncipe, mas não num cavalo branco, e sim com um saco de ouro. Um príncipe de idade indefinida… Pode até ser um senhorzinho… E daí? Quem manda no mundo é a grana! Mas eu não sou nenhuma vítima, sou caçadora…

 

Há dez anos cheguei a Moscou… Era frenética, ativa, vivia dizendo para mim mesma: nasci para ser feliz, quem sofre são os fracos, a humildade é a coroa dos fracos. Vim de Rostov… Meus pais trabalham numa escola: meu pai é químico, minha mãe é professora de russo e literatura. Eles se casaram durante a faculdade, meu pai só dispunha de um terno decente, mas tinha um estoque de boas ideias e, na época, isso bastava para fazer a cabeça de uma garota. Até hoje eles adoram relembrar os tempos em que passaram com um único jogo de lençol, um travesseiro e um par de chinelos cada um. Varavam a noite lendo Pasternak um para o outro. Sabiam de cor! Viviam num ninho de amor! ‘Até as primeiras geadas’, eu brincava. ‘Você não tem fantasia’, minha mãe se ofendia. Éramos uma família soviética normal: de manhã, trigo‑sarraceno ou macarrão na manteiga, laranja uma vez ao ano, no Ano‑Novo. Até hoje lembro o cheiro delas. Não o cheiro de agora, mas o daquela época… era o cheiro de uma outra vida… uma vida boa… As férias de verão eram no mar Negro. Nós íamos ‘como selvagens’ para Sótchi, ficávamos todos no mesmo quarto de 9 metros quadrados. Mas tínhamos motivo de orgulho… de muito orgulho… Tínhamos orgulho de nossos livros favoritos, que conseguíamos por baixo do pano, no pistolão, e também a alegria de conseguir de graça (uma amiga da minha mãe trabalhava no teatro) ingressos para uma estreia! Teatro! Tema eterno para conversas em companhia decente… Agora escrevem sobre os campos soviéticos, o gueto comunista. Um mundo canibal. Não lembro de nada terrível… Lembro de um mundo ingênuo e desajeitado. Eu sempre soube que não iria viver daquele jeito! Não queria! E quase fui expulsa da escola por causa disso. Pois é… Nascidos na União Soviética, isso é um diagnóstico… um estigma! Nós tínhamos aulas de economia doméstica – os meninos por algum motivo aprendiam a dirigir carros, e as meninas, a fritar almôndegas, e eu sempre deixava queimar aquelas malditas almôndegas. Uma professora, a responsável da nossa classe, tentava me pôr nos eixos: ‘Você não sabe fazer nada! Você vai se casar, e como é que vai alimentar seu marido?’ Reagi na mesma hora: ‘Eu não pretendo fritar almôndegas. Vou ter uma empregada.’ Era 1987… Que capitalismo, que empregada?! Ainda era socialismo para todo lado! O diretor chamou meus pais, levei um sermão na reunião geral, no conselho escolar. Queriam me expulsar dos pioneiros, do Komsomol. Eu até chorei… Não conseguia guardar as rimas na cabeça, só as fórmulas… não lembrava de nenhuma rima… Quando ficava sozinha em casa, punha o vestido da minha mãe, os sapatos dela e sentava no sofá. Lia Anna Kariênina. Os bailes da sociedade, os criados, as insígnias… os encontros amorosos… Gostava de tudo até o momento em que a Anna se jogava debaixo do trem: a troco de quê? Ela era bonita, rica… Por amor? Nem Tolstói conseguia me convencer… Eu preferia romances ocidentais, gostava das garotas salientes por quem os homens se matavam, se torturavam. Jogavam‑se aos pés delas. A última vez que chorei por um amor não correspondido foi aos 17 anos: fiquei a noite inteira no banheiro com a torneira ligada. Minha mãe me consolava com versos do Pasternak… Até decorei: ‘Ser mulher é um grande passo,/Levar um homem à loucura é heroísmo.’ Não gostei da infância nem da juventude, fiquei o tempo todo esperando aquilo acabar. Eu rachava de estudar, treinava na academia. Mais rápido, mais alto, mais forte! Em casa o pessoal ficava ouvindo cassetes com as músicas do Okudjava: ‘Vamos dar as mãos, irmãos…’ Não! Aquele não era o meu ideal.

 

Fui para Moscou… Moscou! Sempre penso em Moscou como uma rival, desde o primeiro instante a cidade me despertou uma fúria competitiva. Minha cidade! Aquele ritmo frenético, aquela viagem! Um impulso para minhas asas! Eu tinha 200 ‘verdinhas’ e alguns poucos rublos. E só! Os anos 90 foram cruéis… Meus pais estavam sem receber fazia tempo. Uma miséria! Todo dia meu pai ficava tentando se convencer, me convencer e convencer à minha mãe: ‘Temos que ter paciência. Esperar. Confio no Gaidar.’ Pessoas como eles ainda não tinham tomado consciência de que o capitalismo já havia começado. O capitalismo russo… jovem e calejado, aquele mesmo que ruiu em 1917… (Fica pensativa.) Será que eles entendem isso agora? É difícil responder… Eu tenho certeza de uma coisa: meus pais não queriam o capitalismo. Sem dúvida. Eu queria, outros como eu queriam, gente que não queria ficar dentro da gaiola. Jovens, fortes. Para nós o capitalismo era interessante… as aventuras, o risco… Não é só o dinheiro. Bem, vou revelar meu segredo! Gosto mais de ler sobre o capitalismo, sobre o capitalismo contemporâneo – não os romances de Dreiser –[21] do que sobre o gulag e o déficit soviético. Sobre os delatores. Opa! Toquei numa coisa sagrada. Não posso nem mencionar esse assunto com meus pais. Não posso falar nada. Meu pai continua sendo um romântico soviético. Em agosto de 1991… A tentativa de golpe! Na televisão desde cedo só passava o balé O Lago dos Cisnes… E em Moscou tinha tanque na rua, como na África… Meu pai, junto com umas sete pessoas, todos os amigos dele, saíram direto do trabalho e zarparam para a capital. Apoiar a revolução! Fiquei sentada na frente da tevê… Lembro do Iéltsin em cima do tanque. O império ruindo… Pois que ruísse… Ficamos esperando meu pai como se ele estivesse na guerra, ele voltou como herói! Acho que ele até hoje vive daquilo. Depois de um tempão, entendi que aquela foi a coisa mais importante da vida dele. Como o nosso avô… Meu avô passou a vida inteira contando como eles tinham derrotado os alemães em Stalingrado. Depois do império, a vida do meu pai ficou chata, desinteressante, ele não tem pelo que viver. Em geral, eles se decepcionaram… A geração dele… Eles têm uma sensação de derrota dupla: o ideal comunista fracassou, e eles não conseguiram entender o que veio depois dele. Eles queriam outra coisa – se fosse o capitalismo, que fosse com um rosto humano, com um sorriso fascinante. Esse mundo não é deles. É estranho. Mas esse é o meu mundo! Meu! Eu fico feliz por só ver os soviéticos na parada da vitória sobre a Alemanha, no Nove de Maio… (Silêncio.)

 

Fui para a capital de carona, era mais barato. E quanto mais eu olhava pela janela, com mais raiva ficava, já sabia que não deixaria Moscou. Por nada no mundo! Tinha gente vendendo coisa dos dois lados… Aparelhos de chá, pregos, bonecas: as pessoas recebiam em espécie. Dava para trocar um ferro de passar ou uma frigideira por kolbassá (nos frigoríficos, pagavam com kolbassá), por doces, por açúcar. Em Moscou, chovia a cântaros, mas mesmo assim fui até a Praça Vermelha ver as cúpulas da igreja de São Basílio e as muralhas do Krémlin: aquilo era poder, era força, e eu estava ali! Bem no coração! Eu andava mancando, antes da partida tinha quebrado o mindinho do pé na academia, mas estava de salto alto e usava meu melhor vestido. É claro que destino é questão de sorte, é uma carta, mas tenho faro, sei o que quero. O universo não dá nada de graça… de mão beijada… Tome isso aqui! E mais isso aqui! Tem que querer muito. E eu queria! Minha mãe só me trazia uns pasteizinhos feitos em casa e contava que ela e meu pai tinham ido à manifestação dos democratas. Todo mês o governo dava para cada pessoa um cupom valendo 2 quilos de farinha, 1 quilo de carne e 200 gramas de manteiga. Filas, filas e mais filas, e aqueles números na palma da mão. Não gosto da palavra sovok! Meus pais não são sovok, eles são românticos! São como crianças pequenas. Eu não os entendo, mas amo aqueles dois! Avancei na vida sozinha… solitária… não foi fácil… Tenho motivos para gostar de mim! Entrei na faculdade sem professor particular, sem dinheiro nem pistolão. Na faculdade de jornalismo… No primeiro ano, um colega se apaixonou por mim e perguntou: ‘E você, está apaixonada?’ Respondi: ‘Estou apaixonada por mim.’ Consegui tudo sozinha. Achava os colegas pouco interessantes, as aulas eram chatas. Professores soviéticos seguindo um material didático soviético. Mas ao redor já fervia uma vida nada soviética, insana! Apareceram as primeiras mercadorias importadas usadas, que êxtase! O primeiro McDonald’s na praça Púchkin… Cosméticos poloneses… e o boato horroroso de que eram para maquiar defunto… O primeiro comercial na tevê foi de um chá turco. Antes era tudo cinza, mas agora as cores eram vivas, os cartazes eram chamativos. A gente queria tudo! A gente podia ter tudo! Você podia ser quem você quisesse: corretor, assassino de aluguel, gay… Para mim, os anos 90 foram abençoados, inesquecíveis… Foi a época dos tecnocratas, dos bandidos e aventureiros! Só as coisas continuaram soviéticas, as pessoas já tinham outra programação na cabeça… Se você se mexer e der duro, vai ter tudo. Que Lênin? Que Stálin? Isso já tinha ficado para trás, uma vida maravilhosa se abria agora: você podia ver o mundo todo, morar num belo apartamento, andar em carro de luxo, almoçar carne de elefante… A Rússia não sabia o que escolher… Aprendi muito na rua e nas festas, aí decidi fazer um curso por correspondência. Encontrei um trabalho num jornal. Amava minha vida desde o raiar do sol.

Eu olhava para cima… para o alto da escada da vida… Não sonhava com alguém que me comesse na entrada de um prédio ou numa sauna e depois me pagasse jantares em restaurantes caros. Eu tinha muitos admiradores… Não dava bola para os homens da minha idade, eu até podia ser amiga deles, ir com eles à biblioteca. Nada sério. Mas eu gostava de homens mais velhos, bem‑sucedidos, já resolvidos. Achava interessante ficar com eles, era engraçado e proveitoso. Mas para mim… (Risos.) Por muito tempo carreguei esse toque, de moça de boa família, vinda de uma casa com muitos livros, a estante era o principal móvel da casa, eu vivia cercada de escritores e pintores. Gênios incompreendidos. Eu não tinha nenhuma intenção de dedicar a vida a um gênio que só vai ser reconhecido depois de morto e que vai ser adorado por nossos descendentes. E depois, aquelas conversas todas, eu já estava saturada delas: o comunismo, o sentido da vida, a felicidade para os outros… Soljenítsin e Sákharov… Não, aqueles não eram os heróis da minha história, eram os heróis da minha mãe. Os que liam e sonhavam em voar, como a gaivota do Tchékhov, foram substituídos pelos que não liam, mas sabiam voar. Todo aquele pacote caiu em desuso: os livros clandestinos, as conversas sussurradas na cozinha. Que vergonha, os nossos tanques estavam em Praga! Mas se eles já estavam em Moscou! Quem é que ficava surpreso com aquilo? No lugar dos poemas clandestinos, um anel de diamantes, roupas de grife… A revolução dos desejos! Eu gostava… Adoro os funcionários e os homens de negócios… Achava inspirador o vocabulário deles: offshores, concussão, permutas. Marketing de rede, abordagem criativa… Nas reuniões de planejamento da redação, diziam-nos: ‘Precisamos de capitalistas. Vamos ajudar o governo de Iéltsin e Gaidar a formar capitalistas. Com urgência!’ Eu era jovem, bonita… Me mandaram entrevistar esses capitalistas… Como eles tinham enriquecido? Como ganharam o primeiro milhão? Socialistas tinham virado capitalistas? Era preciso descrever isso tudo… Por algum motivo era justamente o tal milhão que interessava. Ganhar 1 milhão! Nós estávamos acostumados à ideia de que o russo não queria ser rico, tinha até medo. O que é que ele queria, afinal? Mas uma coisa o russo sempre quis: que o vizinho não ficasse rico. Mais rico que ele. Paletó vermelho, corrente de ouro… Isso é coisa do cinema, de seriados de tevê… Os caras que conheci tinham uma lógica de ferro e uma mão de ferro. Um pensamento sistemático. Todos estudavam inglês. Administração. Os acadêmicos e os doutores haviam deixado o país… os físicos e os líricos… Mas aqueles, os novos heróis, eles gostavam de morar na Rússia. Era a hora deles! Queriam ser ricos, eles queriam tudo. Tudo!

 

E aí eu conheci um homem… Acho que amei aquele homem. Parece uma confissão, não? (Risos.) Ele era vinte anos mais velho, tinha família, dois filhos. Uma mulher ciumenta. Uma vida programadinha… Mas nós ficamos enlouquecidos um pelo outro. Tão inebriados que, de manhã, para não chorar no trabalho, ele mandava ver dois comprimidos de temazepam. Eu também cometia atos insanos, só me faltou pular de paraquedas. Foi assim, desse jeito… flores e chocolates… Ainda não importava quem estava enganando quem, quem estava caçando quem e quem queria o quê. Eu era jovem, tinha 22 anos… Fiquei apaixonada… totalmente. Hoje entendo que o amor é um tipo de negócio, cada um corre seu risco. Sempre! Hoje é raro encontrar alguém fascinado pelo amor. O pessoal concentra todas as energias em dar o salto! Na carreira! Umas garotas novinhas ficam conversando no fumódromo do trabalho, e, se uma delas manifesta sentimentos de verdade, as outras rebatem: que otária, dizem, ela gamou. (Risos.) Otária! Eu era uma otária tão feliz! Ele dispensava o motorista, pegava o carro, e nós passeávamos pela cidade num Moskvitch fedendo a gasolina. A gente se beijava sem parar. ‘Eu agradeço a você’, ele dizia. ‘Você me levou de volta para uma época de uns 100 anos atrás.’ Essas cenas eram como flashes… Eu ficava aturdida com o ritmo dele, com sua energia… Ele me ligava de noite: ‘Amanhã voamos para Paris.’ Ou: ‘Vamos dar um pulo nas Canárias. Eu tirei três dias.’ No avião, íamos de primeira classe, pegávamos um quarto no hotel mais caro: debaixo dos nossos pés, o chão era de vidro, tinha peixes nadando embaixo. Um tubarão vivo! Mas o que me ficou para o resto da vida foi outra coisa… Foi o Moskvitch com cheiro de gasolina nas noites de Moscou. E nossos beijos… uma loucura… Eu me apaixonei… (Silêncio.) Mas ele queria que a vida fosse uma festa. Para ele. Ele queria isso para si… Quando eu estiver batendo nos 40, talvez consiga entendê‑lo… Um dia chego lá… Por exemplo, ele não gostava que o relógio funcionasse, só gostava quando o relógio parava. Ele tinha essa relação com o tempo… Pois é! Então. Eu adoro gatos. Eles não choram, nunca alguém viu as lágrimas deles. Se alguém me encontra na rua, pensa: É rica e feliz! Eu tenho tudo: uma casa grande, um carro caro, móveis italianos. E uma filha que eu adoro. Tenho uma empregada, não frito minhas almôndegas e não lavo roupa, posso comprar tudo que quiser… um monte de bibelôs… Mas vivo sozinha. E quero viver sozinha! Não tem ninguém com que eu me sinta tão bem quanto comigo mesma, adoro falar sozinha… sou uma excelente companhia!

O que eu penso… sinto… Como eu via as coisas ontem e como vejo hoje? Eu antes gostava de azul, agora gosto de lilás… Em cada um de nós acontece tanta coisa. Lá dentro tem todo um universo. Mas a gente quase não dá atenção. Estamos ocupados com o exterior, com a superfície… (Risos.) Solidão é liberdade… Fico feliz todos os dias por ser sozinha: vai ligar ou não vai ligar, vai vir ou não vai vir, vai largar ou não vai largar, xô! Isso não é problema meu! Não é. Não tenho medo da solidão… Eu tenho medo… de quem eu tenho medo? Tenho medo de dentista… (Explode inesperadamente.) As pessoas sempre mentem quando falam de amor… e de dinheiro… mentem sempre, e de maneiras diferentes. Não tenho vontade nenhuma de mentir… Nenhuma! (Acalmandose.) Desculpe… Me desculpe… Fazia tempo que eu não lembrava…

Como foi? Foi como sempre… Eu queria um filho dele, fiquei grávida… Será que ele se assustou? Os homens são uns covardes! Pode ser um mendigo ou um oligarca, não tem diferença. Vão para a guerra, fazem revoluções, mas no amor traem. A mulher é mais forte: ‘Ela para um cavalo a galope e entra em uma isbá em chamas.’[22] E conforme as leis de gênero… ‘Os cavalos continuam a galopar e galopar. E as isbás a queimar e queimar’… ‘Não existe homem com mais de 14 anos’, pela primeira vez a minha mãe me deu um conselho razoável. Lembro que foi assim… Dei a notícia para ele na véspera de embarcar para uma viagem de trabalho, me mandaram para a bacia do Donets. E eu adorava essas viagens, adorava o cheiro das estações e aeroportos. Quando voltava, gostava de contar tudo para ele, discutíamos tudo. Agora entendo que ele não só me abriu mundo, me surpreendeu, me levou a butiques estonteantes, me deu presentes: ele também me ensinou a pensar. Não que isso fosse tarefa dele, mas aconteceu. Eu ficava olhando para ele, escutando. Até quando pensava que ficaríamos juntos, não pretendia viver para sempre nas costas dele, só no glamour, levianamente. Eu tinha um plano para a minha vida. Adorava meu trabalho, fiz carreira depressa. Viajei muito… E naquela vez… Eu voei para esse povoado de mineração… Fui cobrir uma história terrível, mas típica daquela época: num feriado, mineiros exemplares foram premiados com uns toca‑fitas, e aí de madrugada mataram uma família inteira. Não levaram nada, só o toca‑fitas. Um Panasonic de plástico! Uma caixinha! Em Moscou havia carros chiques, supermercados, mas mal se saía da cidade e um toca‑fitas já era um tesouro. Os ‘capitalistas’ locais, com quem meu diretor sonhava, andavam com um séquito de guardas armados com metralhadoras. Iam ao banheiro com um segurança. Mas havia um cassino aqui, outro lá, outro acolá. E um restaurantezinho privado. Assim eram os anos 90… Passei três dias fora. Voltei, e nós nos encontramos. Primeiro ele ficou contente: vamos ter um filho! Ele tinha dois meninos, queria uma menina. Mas as palavras… elas não significam nada, as pessoas se escondem atrás das palavras, se defendem com elas. Os olhos! Nos olhos dele apareceu um medo: precisava tomar uma decisão, mudar de vida. Aquilo ali era um embaraço… Um entrave. A‑a‑a‑ah! Tem homens que vão logo embora, vão embora com suas malas, empacotam as meias e as camisas úmidas… E tem outros que são como ele… Bli‑bli‑bli, blá‑blá‑blá… ‘O que você quer? Me diga o que devo fazer’, ele me perguntava. ‘Uma palavra sua, e eu me divorcio. Você só precisa dizer.’ Eu ficava olhando para ele…

Ficava olhando para ele, e meus dedos gelavam, eu já começava a entender que não seria feliz com ele. Era jovem e burra… Podia atacá‑lo, como quando se caça um lobo, eu sei ser uma predadora, uma pantera. Na época eu só sofria. O sofrimento é uma dança: tem o gesto, o pranto e a resignação. Como no balé. Mas tem um segredo, um segredo simples: é desagradável ser infeliz… é humilhante… Eu ia direto ao hospital fazer exame de rotina. Um dia eu liguei para ele de manhã, dizendo para ele ir me buscar, iam me dar alta antes do almoço, e ele respondeu com voz de sono: ‘Não posso. Hoje não posso.’ E não ligou de volta. Naquele mesmo dia, ele voou com os filhos para a Itália, foi esquiar. Era 31 de dezembro… Chamei um táxi… A cidade estava coberta de neve, eu fui andando no meio dos montes de neve, segurando a barriga. Fui andando sozinha. Mentira! Eu não estava sozinha, nós já éramos duas. Eu e a minha filha… minha filhota… adorada! Eu já a amava mais que tudo no mundo! E ele, será que eu amava aquele homem?

Foi como no conto de fadas: viveram felizes por muito tempo e morreram no mesmo dia. Eu sofri, mas não morri: ‘Não posso viver sem ele. Vou morrer sem ele.’ Provavelmente nunca tinha conhecido um homem como ele… para falar uma coisa dessas… Pois é! Pois é, pois é! Mas aprendi a perder, não tenho medo de perder… (Olhando para a janela.) Desde então não tenho grandes histórias… Tive uns pequenos romances… Eu arranjo sexo com facilidade, mas isso é diferente, isso é outra coisa. Não gosto do cheiro dos homens, não o cheiro do amor, o cheiro dos homens. Num banheiro, sempre percebo se um homem passou por ali… mesmo que ele tenha o perfume mais caro, os cigarros mais caros… Tenho horror de pensar no trabalho que dá ter uma outra pessoa ao lado. Ter que se esquecer de si mesma, abrir mão de si mesma, livrar‑se de si mesma. No amor não há liberdade. Mesmo que você encontre o homem ideal, ele não vai usar o perfume certo, ele vai adorar carne assada e rir das suas saladinhas, vai deixar as meias e as calças fora do lugar. E sempre se sofre. Não quero mais ter esse trabalho, prefiro confiar em mim. É melhor ser amiga dos homens, ter relações de trabalho. Me dá preguiça até mesmo de flertar, raramente tenho vontade de vestir essa máscara, entrar nesse jogo. Spa, manicure francesa, alongamento italiano. Maquiagem. Pintura de guerra… Meu Deus! Meu Deus! Essas moças lá dos cafundós… de toda a Rússia, vindo para Moscou! Para Moscou! À espera dos príncipes ricos! Elas sonham em deixar de ser gatas borralheiras e virar princesas. Ficam à espera de um conto de fadas! De um milagre! Já passei por isso… Entendo as cinderelas, mas tenho dó delas. Não existe paraíso sem inferno. Só paraíso, não existe. Mas elas ainda não sabem disso… Estão na ignorância…

 

Estamos separados há sete anos. Ele me liga, por algum motivo liga sempre de madrugada. As coisas vão muito mal, ele perdeu muito dinheiro… diz que é infeliz. Ficou com uma garota nova, depois com outra. Propôs um encontro… A troco de quê? (Silêncio.) Senti falta dele por muito tempo, eu apagava a luz e ficava horas no escuro. Perdia a noção do tempo… (Silêncio.) Depois… tive só uns pequenos romances… Mas… Nunca vou conseguir me apaixonar por um homem sem dinheiro, de uma cidade‑dormitório. De um gueto, do Harlem. Odeio quem cresceu na pobreza, com uma mentalidade ‘de pobre’, o dinheiro para eles significa tanta coisa que não dá para confiar neles. Não gosto dos pobres, dos humilhados e ofendidos. Todos esses Bachmátchkins e Opískins… heróis da grande literatura russa…[23] Não confio neles! O quê? Alguma coisa em mim não bate com isso… eu não me adapto ao formato. Ninguém sabe como é feito este mundo… Não gosto de um homem por causa do dinheiro, não só por causa do dinheiro. Gosto de tudo na imagem do homem bem‑sucedido: como ele anda, como dirige o carro, como ele fala, como aborda uma mulher, tudo nele é diferente. Tudo! Eu escolho esses… Por isso… (Silêncio.) Ele me liga… ele é infeliz… Tem alguma coisa que ele não viu, que ele não conseguiu comprar? Ele e os amigos dele… Já ganharam dinheiro. Muito dinheiro. Uma coisa absurda! Mas, com todo o dinheiro que eles têm, não conseguem comprar felicidade, comprar amor. Um amorzinho. Um estudante pobre tem isso, mas eles não, que injustiça! Mas eles acham que podem tudo: pegam seus jatinhos particulares e voam para qualquer país, para ver um jogo de futebol, voam para Nova York para a estreia de um musical. Cabe tudo no bolso deles! Arrastam a modelo mais bonita para a cama, levam um avião cheio para Courchevel! Todos nós passamos por Górki na escola, sabemos como os mercadores fazem sua farra: quebram espelho, dormem com a cara no caviar negro… dão banho de champanhe nas moças… Mas estão fartos disso tudo, estão entediados.

As agências de turismo de Moscou oferecem aos clientes diversões especiais. Dois dias na cadeia, por exemplo. No anúncio está escrito assim: ‘Quer passar dois dias como Khodorkóvski?’[24] Os clientes são levados numa viatura da polícia com grades para a cidade de Vladímir, onde fica a cadeia mais apavorante, a prisão central de Vladímir. Lá eles trocam de roupa, vestem um macacão de presidiário, são perseguidos por cães pelo pátio e apanham com cassetetes de borracha. Juro! São amontoados como arenque numa cela fedorenta e suja, com uma latrina. E ficam felizes. Sensações novas! Por cerca de 3 a 5 mil dólares você também pode brincar ‘de mendigo’: os interessados ganham uma roupa, são maquiados e levados pelas ruas de Moscou para pedir esmola. É claro que atrás da esquina os guarda‑costas ficam vigiando, tanto os particulares como os da agência de turismo. Há propostas mais legais, também, para toda a família: a mulher se faz de prostituta, o marido é o cafetão. Conheço uma história… Uma vez, a esposa de um confeiteiro moscovita riquíssimo foi a que mais conseguiu clientes numa só noite, uma mulher modesta, de aparência mais soviética. E o marido ficou feliz! Existem diversões que não são anunciadas pelas agências de turismo… São totalmente secretas… Você pode conseguir uma caçada a um ser humano vivo, de madrugada. Um mendigo infeliz recebe milhares de dólares: tome aqui essas ‘verdinhas’, são suas! Ele nunca viu tanto dinheiro na vida! Aí, em troca ele tem que fazer papel de animal! Se ele se salvar, quer dizer que era o destino, se levar um tiro, não pode reclamar. É tudo de acordo com a regra! Você pode arranjar uma menina por uma noite… Você pode dar asas às suas fantasias, aos desejos mais profundos, de um jeito que nem o Marquês de Sade sonharia! Sangue, lágrimas e esperma! O nome disso é felicidade… A felicidade para o russo é ir para a cadeia por dois dias, e depois sair de lá e entender como sua vida é boa. Maravilhosa! Comprar não só um carro, uma casa, um iate, uma cadeira de deputado… mas também uma vida humana… Ser quase um deus… um super‑homem! Pois é… Todos são nascidos na União Soviética, todos são de lá, ainda. Com essa mesma doença. E era um mundo tão ingênuo… Sonhavam em fazer o homem bom… Prometeram: ‘Conduziremos com mão de ferro a humanidade em direção à felicidade…’ Em direção ao paraíso.

Tive uma conversa com minha mãe. Ela quer largar a escola: ‘Vou trabalhar de roupeira. Ou de vigia.’ Ela contava para as crianças sobre os livros de Soljenítsin… sobre heróis e justos… Os olhos dela brilhavam, os das crianças não. Minha mãe tinha se acostumado com o fato de que antes os olhinhos das crianças brilhavam por causa do que ela dizia, mas as crianças de hoje respondem: ‘Nós até achamos interessante como vocês viveram, mas não queremos viver assim. Não sonhamos com essas façanhas, queremos uma vida normal.’ Elas leem Almas Mortas do Gógol. A história de um canalha… Foi o que nos ensinaram na escola… Mas agora as crianças na escola são diferentes: ‘Por que ele é um canalha? O Tchítchikov, assim como o Mavródi,[25] eles construíram uma pirâmide do nada. É uma ideia muito legal para um negócio!’. Para eles, o Tchítchikov é um herói positivo… (Silêncio.) Minha mãe não vai educar minha filha… Eu não vou deixar. Se a gente for obedecer à minha mãe, a criança só vai ver desenhos animados soviéticos – eles são ‘humanos’. Mas aí você desliga a tevê e sai na rua. É um mundo completamente diferente. ‘Que bom que já sou velha’, minha mãe admitiu. ‘Posso ficar em casa. Na minha fortaleza.’ Mas antes ela queria continuar jovem: fazia máscara de suco de tomate, lavava o cabelo com camomila…

 

Desde a juventude eu adorava mudar o destino, provocar o destino. Agora não, chega. Minha filha está crescendo, eu penso no futuro dela. Ou seja, na grana! Quero conseguir tudo por conta própria. Não quero pedir, não quero pegar dinheiro com ninguém. Não! Saí do jornal e fui para uma agência de publicidade, pagavam melhor. Era um bom dinheiro. As pessoas querem viver bem, hoje isso é a coisa mais importante da vida. É o que mais nos preocupa. Ligue a televisão: as pessoas se reúnem nas manifestações… que sejam algumas dezenas de milhares, mas são milhões comprando belos equipamentos sanitários italianos. Para quem quer que você pergunte, todos estão reconstruindo, reformando seus apartamentos e suas casas. Viajando. Isso nunca aconteceu na Rússia. Nós não fazemos propaganda só de produtos, mas de necessidades. Produzimos novas necessidades: como viver bem! Governamos o tempo… A propaganda é o espelho da Revolução Russa… A minha vida está totalmente preenchida. Não pretendo casar… Tenho amigos, todos russos. Um ‘engordou’ em cima do petróleo, outro, em cima de fertilizantes minerais… A gente se encontra para conversar. Sempre em restaurante caro: hall de mármore, mobília antiga, quadros caros nas paredes… nas portas, guardas com pose de proprietários de terra russos… Eu adorava estar num cenário bonito como esse. Um grande amigo meu também vive sozinho e não quer casar, ele gosta de ficar sozinho em seu palacete de três andares: ‘De noite, dormir com alguém, mas viver sozinho.’ Durante o dia, a cabeça dele fica inchada com todas as cotações de metais na Bolsa de Londres. Cobre, chumbo, níquel… Três celulares na mão, que tocam a cada trinta segundos. Ele trabalha de treze a quinze horas por dia. Sem fins de semana, sem férias. Felicidade? O que é a felicidade? O mundo mudou… Agora os solitários são as pessoas bem‑sucedidas e felizes, e não os fracos ou os fracassados. Eles têm tudo: dinheiro, carreira. A solidão é uma escolha. Eu quero continuar nesse caminho. Sou uma caçadora, não uma caça resignada. Eu mesma escolho. A solidão é muito parecida com a felicidade… Soa como uma confissão… Não é? (Silêncio.) Não era nem para você, era para mim mesma que eu queria contar tudo isso…”

Trechos de O Fim do Homem Soviético, a ser lançado este mês pela editora Companhia das Letras.

[1] Uma pá grande e rústica para apanhar lixo, no sentido literal. A partir dos anos 70, aproximadamente, passou a denotar o homem soviético de forma pejorativa, sobretudo aquele que aderia cegamente à ideologia oficial.

[2] Sigla em russo para “Administração Central dos Campos de Trabalho Correcional e Colônias”.

[3] Termo pejorativo usado para se referir aos camponeses relativamente ricos, que faziam uso do trabalho assalariado no Império Russo. Na década de 1930, foram perseguidos por Stálin.

[4] Outubristas (em russo, oktiabriónok) eram crianças de 7 a 9 anos que faziam parte da organização infantil do Partido, criada em homenagem à Revolução de Outubro. A medalha citada pela autora era usada por essas crianças. Os pioneiros eram, grosso modo, o equivalente soviético dos escoteiros. Komsomolka era a jovem que fazia parte do Komsomol, a Juventude do Partido Comunista da União Soviética.

[5] Pravda em russo significa “verdade”.

[6] Vladímir Ivánovitch Dal (1801–72), famoso lexicógrafo russo. Seu dicionário da língua russa, publicado nos anos 1860, é utilizado até hoje. Muitos dos verbetes trazem referências etimológicas e associações semânticas que não possuem análogos nas línguas neolatinas, como a mencionada no texto, entre liberdade e espaço ou vastidão.

[7] Marina Ivánovna Tsvetáieva (1894–1941), poetisa e tradutora russa. Nikolai Alexeevitch Ostróvski (1904–36), escritor realista de origem ucraniana, publicou sobre a Guerra Civil Russa durante o período de Stálin. Mikhail Yevgrafovich Saltykov-Shchedrin (1926–89), maior satirista russo do século XIX, que escreveu sob o pseudônimo de N. Shchedrin.

[8] Tradicional embutido russo, semelhante ao salame. É proverbialmente associado à comida e à abundância, tendo certo paralelismo com o conceito popular de “mistura”.

[9] “Os nossos”, no sentido literal. Organização política jovem que apoiava o governo de Vladimir Pútin. Deixou de existir em 2013.

[10] Em russo, Ivánuchka‑duratchok, famoso personagem de contos de fadas russos.

[11] Oblómov (1859), romance de Ivan Gontcharóv (1812–91), contrapõe a indolência do protagonista, um senhor de terras às vésperas da abolição da servidão na Rússia, e o dinamismo de seu amigo Andrei Stoltz, um empreendedor alemão.

[12] Nome informal e jocoso dado aos apartamentos padronizados que foram construídos nas periferias das grandes cidades, especialmente em Moscou e Leningrado, nos anos 60, época do governo Khruschóv. Trata‑se de um trocadilho com o nome do líder soviético e a palavra russa truschoba, algo bastante próximo de “favela”.

[13] Aleksandr Gálitch (1918–77), Bulat Okudjava (1924–97) e Vladímir Vyssótski (1938–80), três grandes cantores e compositores soviéticos, integrantes do chamado movimento dos bardos.

[14] Andrei Dmítrievitch Sákharov (1921–89), físico nuclear, defensor dos direitos humanos e civis e do desarmamento. Foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 1975 e tornou‑se um dos símbolos da luta pela abertura soviética nos anos 80.

[15] Sede do governo da União Soviética e, depois, da Federação Russa, localizada em Moscou. Também chamada de Câmara Branca para não ser confundida com a homônima americana, foi onde em agosto de 1991 milhares se reuniram para protestar contra o golpe que pretendia derrubar Gorbatchóv. Três dias depois o estado de emergência foi revogado, os autores do golpe, presos, e o Partido Comunista, proibido. Em dezembro a União Soviética foi dissolvida e Gorbatchóv renunciou.

[16] Boris Leonidovitch Pasternak (1890–1960), romancista e poeta russo. Viktor Petrovitch Astáfiev (1924–2001), representante literário da geração marcada pela Segunda Guerra Mundial e pertencente ao grupo dos “escritores de aldeia”. Dmitri Lvóvich Býkov (1967–), escritor, poeta e jornalista russo.

[17] Biblioteca da Literatura Mundial: coleção publicada nos anos 60 e 70 com clássicos da literatura de todo o mundo. Biblioteca das Aventuras: coleção dos anos 50 e 60 com clássicos da literatura infantil e juvenil. Foi reeditada nos anos 80.

[18] Boris Abramovich Berezovsky (1946–2013), oligarca russo que se beneficiou com a liberalização econômica pós-soviética, sobretudo no período de Boris Iéltsin. Fugiu da Rússia após a chegada de Vladimir Putin ao poder, em 2000. Em 2013, foi encontrado morto em seu apartamento, em Londres.

[19] Iuródivy, originalmente um monge que renegava todos os bens materiais e transitava entre a santidade e a loucura. Pejorativamente, diz‑se de pessoa bem‑intencionada, mas desconectada da realidade.

[20] O Comissariado do Povo dos Assuntos Internos (NKVD) foi uma agência de segurança, precursora da KGB, de 1934 a 1946, quando foi substituída pelo Ministério do Interior (MVD). Abarcava tanto a polícia pública como a polícia secreta, e foi responsável por instaurar o terror de Stálin, incluindo execuções em massa, prisões e tortura de prisioneiros políticos.

[21] Theodore Dreiser (1871–1945), escritor e ativista político norte-americano, cuja obra foi marcada pela crítica das injustiças sociais. Apoiou publicamente o stalinismo e publicou vários livros de não ficção, entre os quais Dreiser Looks at Russia (1928), sobre sua viagem à União Soviética, em 1927.

[22] Referência ao poema “Frio, nariz vermelho” (1864) de Nikolai Nekrássov, que louva a força da mulher russa.

[23] Humilhados e Ofendidos (1861) é um romance de Fiódor Dostoiévski (1821–81) que retrata personagens perseguidos por sua condição econômica. Akáki Akákievitch Bachmátchkin, personagem da novela O Capote (1843), de Nikolai Gógol (1809–52). Fomá Fomitch Opískin, personagem do romance A Aldeia de Stepántchikovo e seus Habitantes (1859), de Dostoiévski.

[24] Mikhail Boríssovitch Khodorkóvski (1963–), magnata russo, ex-proprietário da petrolífera Yukos, preso por corrupção de 2005 a 2013.

[25] Tchítchikov é o protagonista de Almas Mortas (1842), de Nikolai Gógol (1809–52), fundador do realismo na literatura russa. Serguei Panteléievitch Mavródi (1955–), empresário russo, ex‑deputado e fundador da empresa MMM, foi preso, acusado de fraude.

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