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O fura-fila

A arte de guiar famosos na Disney
Julia Duailibi
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Em meados deste ano, o mineiro Caio Giardini, guia de turismo que mora em Orlando, nos Estados Unidos, atendeu uma ligação de Isabelle, mulher do jogador Thiago Silva, zagueiro da Seleção. Com os dois filhos e o marido, Belle pretendia desfrutar as férias de julho nos parques do Walt Disney World e ouvira dizer que Giardini poderia ajudá-la. “Não é porque o Thiago é famoso, mas ninguém gosta de pegar fila, né?”, confidenciou. Ela falava com a pessoa certa. Giardini é o mais eficiente “fura-fila” das celebridades brasileiras que almejam selfies com o Pateta, mas não estão dispostas a encarar até 200 minutos de espera para entrar nas principais atrações do complexo americano.

O precioso know-how do mineiro lhe permitiu ciceronear mais de 190 famosos e seus familiares no Magic Kingdom, principal parque da Disney. Uma carreira de provocar inveja na Tia Augusta, que fez fama a partir da década de 70 ao conduzir turmas de adolescentes pela terra do Mickey. Detalhe: Giardini tem apenas 22 anos.

O rapaz já mostrou o Pato Donald à apresentadora Eliana, posou com a atriz Juliana Paes em frente ao castelo da Cinderela, levou a cantora Daniela Mercury para conhecer Rapunzel e suas tranças, retratou outra baiana, Ivete Sangalo, usando orelhas da Minnie, e acompanhou Deborah Secco, grávida, num ensaio fotográfico pelo parque. Entre as imagens da série, destinada a uma revista de celebridades, sobressai aquela em que a estrela da Globo faz biquinho e um joinha enquanto se descabela numa montanha-russa, a 80 quilômetros por hora.

Em 2015, a socialite Val Marchiori, ex-participante do reality show Mulheres Ricas, elogiou o cicerone no seu blog. “Temos o melhor guia da Disney, o Caio Giardini, que sabe tudo sobre a cidade e ainda nos dá um tratamento VIP! Hello!” O mineiro não minimiza seu “diferencial”: “Realmente, comigo ninguém pega fila.” Parte do truque se deve ao FastPass+. Oferecido pela própria Disney, o serviço possibilita aos visitantes agendar horário em até três atrações. Giardini, porém, parece ter o superpoder de turbinar o FastPass+. Ele consegue reservas não apenas para três atrações, mas para quantas o cliente quiser. “Tomaria duas horas do seu tempo explicando minha logística. Melhor não”, despista.

O jovem conhece a burocracia dos ingressos, o que, de fato, lhe dá certa vantagem competitiva. No entanto, o maior superpoder do guia talvez seja o de manter estreita proximidade com os public relations da Disney, a quem interessa exibir celebridades gargalhando em seus brinquedos.

 

Graças às manobras de Giardini, a filha de uma atriz global logrou visitar o backstage de um show no castelo de A Bela e A Fera. O cicerone, em parceria com a amiga Andréa Guimarães, também ajudou a organizar festas para os rebentos de Angélica e Luciano Huck dentro do complexo – privilégio que custa algo como 200 mil reais.

Os contatos do mineiro ainda lhe garantem perambular por lugares da Disney inacessíveis ao público, como o andar subterrâneo, em que os funcionários vestem as roupas dos personagens. Com cabelos de mechas loiras, modelados por gel, o guia se mostra sempre prestativo, simpático e otimista. “Não costumo falar de coisas ruins no parque.” Às vezes, publica fotos sem camisa no Instagram, exibindo seu abdômen sarado. Consta que a modelo Fernanda Tavares, sua cliente, chegou a dizer que Giardini leva jeito para modelo, embora seja um pouco mais baixo do que ela.

 

O cicerone nasceu em Ponte Nova, no interior de Minas, viveu em Belo Horizonte e, aos 10 anos, se mudou para o Rio de Janeiro. Aos 14, sem falar inglês, convenceu os pais a levar a família para uma temporada nos Estados Unidos. “Eles são meio louquinhos e acabaram topando”, relembra. Em dezembro de 2008, os Giardini  desembarcaram na Flórida, de onde nunca mais saíram. Enquanto cursava a high school, o rapaz prestou concurso para virar guia de uma operadora de turismo. Tinha 17 anos e foi aprovado. Em janeiro de 2011, levou o primeiro grupo aos parques – uma turma da CVC. Manteve os bicos durante a faculdade de administração até se tornar guia da apresentadora Adriane Galisteu, que costuma divulgar os resorts locais. “Como ela também adora a Disney, rolou uma conexão entre nós, e Adriane ofereceu meus serviços no Instagram.”

A partir daí, o rapaz caiu no gosto das celebridades, a ponto de a crise não afetar seu negócio. Hoje, além de orientar os brasileiros dentro do complexo, ele os pega no aeroporto e acompanha às compras, dirige carros alugados e faz reservas em hotéis e restaurantes. Conta, para isso, com quatro auxiliares. No final da viagem, os turistas ganham mimos, como chocolates belgas com o nome de Giardini grafado. Pelos serviços, o cicerone cobra aproximadamente 200 reais por hora.

Nos últimos tempos, seus potenciais clientes andam nervosos com a eleição de Donald Trump. Há o receio de o novo presidente barrar a entrada dos compatriotas de Zé Carioca nos Estados Unidos. “PQP! Logo agora que eu ia usar seus trabalhos, Caio!”, escreveu um deles no Instagram do guia.

Pergunto quantas pessoas Giardini já pajeou na Disney, entre VIPs ou não. “Umas 4 mil”, responde, depois de um breve cálculo. “Mais ou menos, 300 famílias. É muita gente furando a fila…”

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